sexta-feira, dezembro 21, 2007

«A minha máquina de escrever é o meu psicanalista»
Hemmingway

(impossível de conferir a esta frase a mesma profundidade, caso ele tivesse dito "O meu computador portátil...")

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Só sei que nada sei... mas tudo cheiro.

É intenso o que sei que sinto. Um sentimento intenso entranhado num perfume de cor pálida mas fresca quando nele bate a luz duma manhã de Verão. Porquê um sentimento entranhado num perfume? Porque de perfumes somos feitos e é para os cheirar que vivemos. Cheiramos a tudo e a nada. Como sentimos por tudo e por nada.
A nossa pele embrulha-nos confortavelmente e rouba-nos a transparência que temos por baixo. E porque se mostra e não quer deixar de ser notada se, irreflectidamente, por falta de forças, descerrar o nosso corpo, enche-se de cheiro. Do nosso cheiro. Acre, doce, de pantone indefinido e pouco mais adjectivável do que isso. Moléculas soltas de átomos amantes que, isolados, nos cheirariam bafientos, como um qualquer trapo engavetado num armário esquecido num sotão. De tão pequenas, assaltam-nos facilmente sem que as detectemos. Depois, vêm os sintomas: acendem-nos o desejo e a paixão. Porque não as vemos a olho nú ou mesmo ampliadas exponencialmente por um óculo lenticular, e evitamos esses sintomas quando inapropriados, despropositados e com um timing errado? E se tal nos fosse permitido por Deus, por um Deus que teima em mostrar-se vivo e zelador? Queriamo-lo? Ou permitiriamos a sua intrusão, como promessa vaga de corda forte que nos emergiria à tona, para respirar, para de cor pintar o dia e os sentimentos? Sabemo-lo?
É destes perfumes que somos feitos. Variados, coloridos, de composição molecular complexa não o fossem também os desejos e as paixões. Daí que, se o pensarmos, nos ilustremos enquanto seres casuais, mascarados numa multidão indiferenciada, também ela de nariz em riste, virado ao céu. Porque queremos viver cheirando. Cheirando as peles dos outros, cheirando o ar onde estas se cruzam e embrenham, perdendo-se cada uma delas, definitiva e posicionalmente no aroma de outra pele que logo ocupa o seu lugar então deixado vago. E mesmo assim, queremos mais. Mais cheiro, mais odor, mais aromas cuja vertigem nos enebrie ou até mesmo idiotize. Existirá maior imbecilidade que o desígneo do tal Deus que atribui a uma mera cartilagem forrada de uma pele fina a que chamamos nariz, o papel de bússola das nossas vontades e astrolábio da estrela ascendente que procuramos para iluminar as nossas vidas? Apenas porque dotou esse nariz de uma infinidade de pontos transmissores de impulsos eléctricos que rumam em excesso de velocidade ao nosso cérebro, e que reflectem depois, quer um esgar facial de nojo se o cheiro interpretado é mau ou uma pele esticada, súbtil, um breve içar de queixo acompanhado por uma inspiração de olhos fechados se o mesmo é bom? Parece-me pouco plausível que assim o seja, caso contrário, se alguma integridade visual e bom-senso Lhe pudessem ser reconhecidos, teria desenhado - sem excepção - esse nariz com contornos mais delicados, forrado com uma outra pele que não pilosa e facilmente ensebável?
(E não adianta que tentem enaltecer a beleza de tal orgão personificando essa intenção através da imagem de uma qualquer Cleópatra. Fala-se que a ilustre raínha gozava de má reputação: assim o via o Marco António e nem por isso o Júlio César. Mau para o primeiro que lhe cheirou a esturro e tomou a liberdade não só de fugir para o Egipto atrás dela e de acabar com a vida de ambos! - para além de que evitou a vergonha e epíteto de “corno manso” em Roma, perante um Júlio César em regozijo, a cantar de galo, apregoando ter comido a adúltera raínha de todos os egípcios. Conta (também) a lenda que nesta altura os banhos eram raros e feitos em águas não correntes, o que permite a ilação ociosa de que cheirariam todos eles muito mal! Vá-se lá perceber donde vinham, nesse caso, os tais desejos e paixões...).
São esses os cheiros mais importantes; aqueles que recebemos das outras pessoas e que, como um cartão de visita dobrado na ponta, vinca a nossa percepção sobre elas, atribuindo-lhes uma presença agradável na qual queremos estar, ou evitando-as, olhando-as de esguelha para que não recaiam em nós os pruridos da sua respiração enquanto falam ou suspendendo a respiração como se de uma maleita virulenta estivessemos a falar e prestes a incubar por contágio no nosso organismo.
Há-os também das flores, os cheiros das flores cujas cores nos puxam a vista e empurram o nariz; quão agradável é respirar o cheiro que emanam e assitir à sua purificação, retirando-lhe o seu registo invariavelmente inodoro ou poluído.
Os cheiros das comidas, no seu estado imaculado ou cozinhado, ou apenas o reflexo das especiarias que as temperam; aqueles aromas que aprendemos a gostar ou crescemos a interpretar e detestar, e que nos fazem enaltecer os feitos familiares dos nossos antepassados.
Há todos estes cheiros, mas nada, mesmo nada se compara ao cheiro do amor. Àquilo que cheiram as pessoas quando amam. Àquele cheiro agridoce, lânguido, encorpado e que nem todos detectam mas todos anseiam saborear. Sabiam-no? Penso ser verdade que só quem ama o reconhece, não apenas em si próprio mas na contemplação bonacheirenta dos outros que amam; naquele olhar arguto de quem tudo compreende mas que reflecte exactamente o oposto; naquele tom de voz arrastado e benevolente, sempre altruísta mas que nos verbera quando injustas as acusações; naquela algaraviada de palavras para descrever um sentimento indescritível junto daquele que amamos ou a quem queremos relatar no fulgor da emoção avassaladora desse amor.
Mas...e o que sei eu do amor? Inevitável a piada fácil do “cheira-me que sabes...”...mas será que sei? Se é de cheiros que nos guiamos e são cheiros que perseguimos, o amor terá, também, um cheiro para quem o não persegue mas fortuitamente encontra num qualquer aroma de flor, timbre de nota musical ou suspiro profundo de amante de uma noite que adormece no nosso peito? Sei-o, de facto. Porque amo todos os dias. Porque sinto o preenchimento sufocante que os poetas tão bem detalham, que muitos exorcisam por o percepcionarem como uma bola de chumbo de grilhetas pesadas que os aprisionam, mas que para quem ama, é a vitória sem desforra, é ás de trunfo numa vida jogada a vasas de palha, sem o qual nos sentimos vazios. Sinto que amo, pois o meu olfacto teima em encontrar mil novos aromas de outras tantas flores com pétalas de cores de arco-íris; os meus ouvidos registam sons que mil objectos disparam em onomatopeia ( são violinos que ouço!) e que me acalmam, em contemplação; o meu peito continua livre, qual abrigo acolhedor das faces ruborisadas após o sexo ou depósito de lágrimas de felicidade e preenchimento.
Não é caso para alarmes ou ansiedades inusitadas por percepção de falta de tempo para ser feliz. Quem o não sentiu, senti-lo-á certamente. Se não por alguém, ser vivo humano e recíprocamente disponível para tão imenso compromisso, por algo, então. A tal música que nos abalroa a alma e nos arrasta para lá da percepção das notas e dos acordes; as tais cores que alimentam os nossos olhos e os lubrificam; o tal sexo suado e luxuriante.
E como o sabem? Como o reconhecerão quando chegar? Pelo cheiro. É no cheiro que acreditamos; no farejo instintivo de uma felicidade latente e expectável porque inevitável. Aparece-nos assim, do nada, e faz-nos perceber que estamos rodeados de aromas de frescura variada, que melodicamente se enlaçam, que ilustram os nossos sentimentos de cores garridas.
Eu, eu só sei que nada sei. Mas cheiro. Isso, sem dúvida. Cheiro.

Tudo ou nada

Escrevo-te a prosa
Não passo a limpo o refrão
Quero-o rude, sujo, genuíno
Como só tu sabes ser e eu não
Vejo o teu nome nele
Em letras minúsculas, sem negrito
Como o quero, sem protagonismos
Não tos dou porque os evito
Pensei que me soubesses
Mais informado sobre o que sentes
Nunca te chamei pela tua verdade
Mas sempre acreditei que não mentes

É um tudo ou nada
É um tudo ou nada que te peço
É um tudo ou nada
É um tudo ou nada

Quis saltar borda fora
Afundar-me no mar da certeza
Esse lá longe, o das ondas sem cor
Fugir desta crença na deusa
Prestar culto e vassalagem
Não é sinónimo de escravidão
Adoro formar um conjunto
Antónimo de solidão
Quero-te pelo que és
O teu registo como o chamo
Esqueço tudo o que é mesquinho
Quando me lembro que te amo

É um tudo ou nada
É um tudo ou nada que te peço
É um tudo ou nada
É um tudo ou nada que mereço

segunda-feira, dezembro 03, 2007

Over Again

Why do I feel the same
I thought the cards had changed,
The roulette spins again
But it´s kind the same game
Over and over again

A couple of days I´ve blessed
Since the last one I recall
But it seems no time at all
Meantime the truth has passed
Over and over again

And I keep pushing those images from my mind
Covering with concrete what was hiding in sand
That new face that was hard to find
Knowing it stole what´s mine by right,
ripped it from my hand,
flushed it out of my sight

Oh
Now is just a rumor
Then is just a gossip
I cannot understand
Oh
Over and over again

Feels like I´m the one in charge
On deciding what´s right or wrong
On writing the same old new song
This suit is short in stead of large
Over and over again

And I keep pushing those images from my mind
Covering with concrete what was hiding in sand
It´s still around after all this time
Performing a ghost in a leading role,
Smiling through me, invading my privacy
Corrupting my heart and soul

Oh
Now is just a rumor
Then is just a gossip
I cannot understand
Oh
Over and over again

terça-feira, novembro 27, 2007

Não sei

Não sei porque penso demais no que não quero
Não explico o inverso porque o não sei
Não sei donde vêm os ecos que me ensurdecem
Não vejo quem grita em primeiro lugar
Não sei se há culpa ou a quem a delegar
Não concebo deixá-la sozinha e orfã de pai
Não sei porque insisto sem ser teimoso
Não ouso dizer amiúde a mesma coisa
Não sei dar ponto sem laço que sucede o nó
Não vejo o trabalho inacabado vencer
Não sei ser oportuno quando frustrado
Não escondo palavras de quem as merece
Não sei chamar nomes a quem não vejo
Não parto para a violência sem apupo
Não sei dormir sem pre-lavar os sonhos
Não pernoito em cama larga e alheia
Não sei se o sol ainda nasce da mesma forma
Não conto os dias pelas manhãs
Não sei de destinos se os não acredito
Não sonho envelhecer sem poder cá estar
Não sei de ti se te estranho o silêncio
Não posso ajudar por telepatia
Não sei de nada pois é do nada que venho
Não me lembro de tudo, nem mesmo do pouco que tenho.

Lívido Rosto

É desses olhos cinzentos que escorrem as lágrimas frias
Tão puras, que regam os campos férteis onde tudo cresce
Que te sulcam as margens da face como um lápis branco
Por onde os anos passam devagar, sem pressa,
E se extinguem sem nunca terem existido

É nos contornos desse lívido rosto que reconheço
As palavras que te disse, entre a dor dos gritos e o riso infantil
Languidamente, sem pressa de dizer tudo que se ouve como nada
Saboreando, como em mil doces mergulhado, excitado
Tanto o mal que te podia ter feito e não quis

Vejo agora que a sala escura poucas sombras já reflecte
A vela acesa vai na dança, ténue, bruxuleante,
Empurrada pelo vento que corre da porta à janela onde tu estás
Sentada, olhos no Mundo que não escolheste
Mas ousaste conhecer, porque dessa matéria te fizeste

És-me coração, alma e todo e cada poro por onde me sais
Deixo no ar o teu cheiro à passagem do meu vulto
Corro para lá, no sentido poente, sem bússula ou astro que me guie
Pois é imenso o caminho, pouco certo o destino e incerto
Mas quem sabe prazenteiro, do meu sonho de criança, de mim

segunda-feira, novembro 26, 2007

Perto

Vieste porque te apeteceu, nada mais declaraste
Querias porque sim, de rompante, logo ali
Sem ter nada para dizer, mais valia
Que tivesses ficado onde estavas
É que de bom pouco ou nada me trouxeste
Surdo, inerte, fiquei
Aprendi a calar p´ra não ter que te dizer
“Melhor, quero que te fodas”

E é aqui tão perto que te sinto
Cheiro-te a cada passo que dás
Pressinto-te a apanhar-me por trás
E matas-me, e eu morro

Dá-me agora um minuto do teu tempo
Pois o tempo cobra-nos pelo estrago
E tu deves-me horas, dias em barda
Paga-me e fá-lo rapidamente
É que não vou hipotecar a minha vida
Nada, ninguém mais virá
Preferias que te dissesse “já chega”
Nem esse prazer te vou dar

E é aqui tão perto que te sinto
Montas o cerco e convidas-me a entrar
Mas nem sequer me deixas espreitar
E matas-me, e eu morro

Longe

É de outro o espelho no qual me revejo após todos estes anos
Não reconheço a cor dourada na moldura deste vidro
Nem o seu brilho é igual, e embaciado me reflecte agora
É de outro a cadeira onde me sento e reflicto após a busca
Encosto-me e rebusco o conforto nos seus braços
Mas não são estas as formas talhadas onde outrora repousei
É de outro o chão que piso e onde se amontoam despojos
Do que fui, do que serei e do que nem sequer equacionei
Haja vento que os leve ou maré que os arraste p´ra longe
Longe, do sítio
Longe, algures
Longe, por certo
Perto de nenhures

"Num imenso céu voar"

(a outra letra, também esta escrita há alguns anos e que também dá voz a outra música dos Flirt, incluída no seu 1º álbum - em gravação a partir de hoje! - chamado "Arquétipos da Alma")

Hoje vou sair à rua, investir na minha sorte
Cruzar-me com os destinos que teimam em existir
Pisar as pedras do caminho emanando um cheiro forte
Entre brigas, desatinos de poemas a fingir
Vou largar-me numa tasca, agarrar-me ao balcão
Embriagar-me em palavras escrever uma canção
Conceder-me o desejo de ser minha fada-madrinha
Reaver-me na idade, na vida que então tinha
Anjo que o tempo me destinou
Suas asas vou usar
Para poder sair daqui
Num imenso céu voar
Hoje vou sair à rua misturar-me com os sítios
Saciar minha vontade de ver o dia nascer
Comentar o mal alheio (um cinismo dos meus vícios)
A mania da idade que eu quero sempre ter
Vou largar-me numa tasca, agarrar-me ao balcão
Embriagar-me em palavras escrever uma canção
Na linha do horizonte vou pedir para ficar

Reason Why:
Quando sós, interpretamos mal a segurança deste estado. Depois, quando não sós, ansiamos a liberdade de um conceito que voltamos a desejar. É a confirmação da negação enquanto arquétipo das almas humanas. Tentamos a sorte na busca do prazer esguio e fugaz, mas mesmo assim delicioso ao ponto de nos arrastar para uma vivência de busca sem grande sentido. E é essa busca que acreditamos ser a última, a derradeira, a necessária agonia com vista à obtenção do parceiro desde sempre desejado. Aquele que imaginámos em sonhos e que a vida nos ensina a esfumar entre desilusões, sofrimento e acomodação. Talvez por isso, a essa mulher chamei Anjo, pois dela esperaria elevação, brancura, languidez no movimento e trato. Nas suas asas me deixaria levar para longe, fosse esse o meu destino, fossem essas as rotas dos anjos.

"Culpado"

(letra escrita há alguns anos e que dá voz a uma música dos Flirt, incluída no seu 1º álbum - em gravação a partir de hoje! - chamado "Arquétipos da Alma")

Sabes, não preciso repetir
Estou feliz por ter mudado, não me quero redimir
Mas não quero perder o direito de beijar-te ao amanhecer
Já que todo o mal está feito
Fui cruzar-me no teu caminho
Obrigar-te a estar aqui
Fazer parte do teu destino
Desta vida que escolhi
Queres algo que não posso dar
O passado está presente num futuro por traçar
Então, vou adiar esta história que nem a mim quis contar
Prisioneiro da memória
Culpado sou porque…
Fui cruzar-me no teu caminho
Obrigar-te a estar aqui
Fazer parte do teu destino
Desta vida que escolhi
E agora o tempo cobra-me e eu não tenho com que pagar
Por tudo o que me tens dado
Se ao menos te pudesse amar

Reason Why:
Tristes as vidas que se esquivam de cruzer-se com outras ou mesmo esbarrarem nas experiências mútuas. Adoro estes encontros de onde, residualmente, tiramos grandes lições e vemos emergir grandes amizades. Foi o caso. Conheci uma das mulheres mais fabulosas que é possível existir. A sua integridade, inteligência, beleza e “sofisticação emocional”, colocam-na numa época que ainda há-de vir. Quiçá, nem esses tempos futuros serão adequados a si. Ela merecia que todo um Mundo suspendesse a translação da sua marcha em torno de uma estrela que não ela, pois muito mais ela o mereceria. Mas não amamos quem queremos. Amamos quem, tendencialmente, mais características problemáticas tem. Quem, provavelmente, nos magoará mais. É uma condição humana, inflexível, irremedíavel e violenta. E por isso, escolhemos a volatilidade no sentimento. E preferimos esquecer, mesmo que por breves momentos, que podemos ser felizes junto de alguém que se nos assemelha. E tocamos-lhe ao de leve, apenas, afastando-nos languidamente de seguida.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Novos rumos e o lado B das coisas

Olá a todos. Olá. Como prometido, aqui estou para falar sobre como a vida não está para ilusões. Donde vem isto?! Vem de uma decisão minha, definitiva e irreversível: vou ter mesmo que arredar de vez a pretensão (já antiga) de ser escritor. Por alguma razão, teimo em mantê-la viva, suspensa por frágeis cordéis de paixão rapidamente imolados pela inevitabilidade de um sonho desvanecido. (Vêem?! Continuo a achar que levava jeito.). Aliás, já agora e para que conste, foi por estas andanças de “sopa das letras” que conheci o Mário: trocámos interpretações diferentes sobre o verdadeiro motivo que levava o Sándor Márai a ir tão fundo na prosa em monólogo, num corredor de “Autores Traduzidos” da Fnac do Chiado.
Voltando ao novelo. As palavras que escrevo são demasiadamente baratas para que, agrupadas e coladas com cuspo, valham mais que um mísero centavo. Não há ribalta, não há nobreza sequer na ausência da fama, na ignorância de um nome que soe a algo mais que um José Silva. Um qualquer José Silva perdido atrás de um balcão de uma tasca em Estremoz, ou um seu homónimo a pisar uva verde em Melgaço. Este é o empregado de escritório, com a secretária antiga e a cadeira da Moviflor sem uma das rodas, que manca e já está a perder o forro outrora vermelho-sangue-de-boi. Este não é o Miguel Sousa Tavares que se deleita languidamente na sua licença sem vencimento de dois anos, emergindo apenas ao Sábado na página 2 do Expresso e intervalando o encafuanço no Alentejo profundo a fumar cigarros e a escrever mais um calhamaço de 400 páginas que terá, depois, uma promoção comercial à altura de um novo livro de contos do Paul Auster, mas numa dimensão proporcional à nossa chafarica chamada Portugal.
E por falar em Alentejo?! Ora nem mais! Era mesmo aí! Pois quis também, influenciado talvez pela perspectiva razoável e plausível deste adormecimento me conduzir e poder permitir o outro sonho da escrita, investir num negócio de turismo rural. Perdido e emparedado na natureza inóspita de um Alentejo profundo igual ao do MST, tornar-me-ia o gajo calmo e pacífico que nunca conheci ou sequer imagino vivo e a respirar.
Aí, intervalando uma existência meramente casual, alternaria uma viagem poeirenta no meu Jeep à Carrapateira, para uma corridinha matinal à beira mar. Retornaria por volta da hora de almoço à minha casa rústica, decorada com uma família idílica de mamã e criancinhas. Respiraríamos o ar puro enquanto nos sentávamos no alpendre para almoçar, fustigados pela aragem quente soprada pelos quarenta graus vindos do interior, lá para os lados da seca. Recostar-me-ia na minha chaise longue de verga para uma sesta de uma hora, e sentar-me-ia em frente ao computador a escrever o meu último bestseller até quase à hora de jantar. No lusco-fusco, brincaria com as criancinhas junto à cerca dos cavalos e dos potros: à apanhada, às escondidas ou à sardinha, afundando-me em pensamentos de felicidade inquestionável. Poria a mesa com pratos de barro, beberia vinho oferecido pelo vizinho que também faz agricultura ecológica e de estufa e comeria carne de porco. Enquanto a mamã deitava as criancinhas e lhes lia uma história, regressava ao alpendre e à minha chaise longue para um cigarro de inspiração. (Ah pois, porque voltava a fumar! Não há como sair da cidade e descongestionar os brônquios, para perceber que teria de arranjar forma de me sujar por dentro!). Depois, esperava que a dança ascendente do fumo azulado me desenhasse alguma forma geométrica ou contorno de corpo de mulher, e me atestasse com motivação para mais algumas horas e, pelo menos, vinte mil caracteres ou dez páginas de bestseller. Que sonho, hein?
Mas a uva transformou-se em passa. Não só, mas também. A inércia é um adversário de respeito que não atira a toalha para o chão ensanguentado do ringue. Depois, depois há sempre a constatação fria de que não sou mais que um José Silva que tem que dar o litro diariamente lá na repartição do décimo oitavo bairro para que, a cada final do mês, a sua conta bancária inspire um pouco, de forma quase dolorosa, do fundo dos seus pulmões cancerosos. E basicamente, nada sobra depois de paga a prestação da casa e o colégio dos miúdos. Nem para mandar cantar um cego, quanto mais para comprar um monte!
Ou seja, é como que estivesse continuamente preso a um elástico gigante e fortíssimo que, sadicamente, alguém me permite e ajuda a esticar uns bons metros quando estou animadito, deixando-me ver para o “outro lado”, o lado A das coisas, mas que depois, o solta bruscamente, fazendo-me recuar num esticão súbito e a estatelar-me com estrondo contra a parede da minha triste realidade mundana num 3º andar esquerdo nos arrebaldes de um qualquer dormitório na margem sul do Tejo. O lado B das coisas. B de Baixa da Banheira. Onde só há passas, não há uvas.
E por falar em uvas, sim, é verdade, tenho mais um cacho de pretensões! Oh! Quantas mais pretensões, senhoras e senhores! Mas isso fica para depois, desculpem. O miúdo acordou a gritar pela chucha e vai acordar os vizinhos.
Até lá amigos. Um abraço e inté. Zé.

sexta-feira, novembro 16, 2007

Chamo-me Zé...

De certeza que alguém me está a gozar. Sei que só é possível que tudo isto me esteja a acontecer, porque alguém me está a gozar. Ele, Aquele lá em cima, ou qualquer alma penada cá em baixo. Mas se apanho o filho da puta...
Basicamente, sou um gajo normal, casado e com filhos, que trabalha para viver. Mas as coisas não me correm bem. E por “não me correm bem”, leia-se mesmo isso, não é um “mais ou menos”. Não, as coisas não me correm bem! Correm-me mal!
Chateio-me diariamente com a mulher, irrito-me frequentemente com a criançada, estou farto do que faço no trabalho, estou gordo e não consegui pagar a última mensalidade do ginásio, tenho que fazer mensalmente depilação com cera nas costas e nem sempre o meu Benfica ganha. Tenho para a troca em pelo menos cinco destas coisas!
O que quero? Utilizar estas novas tecnologias da internet para desabafar com todos aqueles que me queiram ouvir e mesmo comentar. Pedi ao meu amigo Mário para usar o seu espaço, blog como lhe chamam. Inicialmente ele escusou-se (e esquivou-se) em mil desculpas de que isto era um blog sério, onde ele gostava de escrever coisas igualmente sérias e adequadas. Insisti por isso mesmo, porque não me sinto capaz de criar uma coisa destas apenas com o objectivo que tenho, pois tornar-se-ia uma fonte de testemunhos tristes e uma estridente carpideira. Para além disso, não tenho muitos amigos. Só o Carlos, que é escriturário lá no trabalho, e esse só usa a internet para ir aos sites pornográficos.
Precisava das palavras inpiradas do meu amigo Mário para ir intervalando o tom. (Ele escreve bem, não brinca em serviço. Adorava ter a sua inspiração e genuidade!). Mas não me interpretem mal, também não acho que o que escrevo seja assim tão chato! Apenas preciso de um “amortecedor qualitativo” onde possa depositar os meus queixumes.
O Mário lá acedeu, com algumas restrições: primeiro, só posso colocar um post por semana (acho que é assim que chamam aos textos aqui no blog); segundo, não posso escrever asneiras (com uma excepção apenas para a que está no início deste texto!, porque já estava escrita...); e terceiro, se ele sentir que “a coisa” (como o Mário lhe chamou, fiquei f.... lixado com ele por causa isso...!) está a ficar muito lamechas ou deprimente, corta-me o acesso!
Em resumo, a partir de agora, amigos do Mário ou curiosos que o lêem, ter-me-ão aqui por perto. Espero ser digno da vossa atenção e, quiçá, poder contar com a vossa amizade num futuro próximo.
Não obedecerei a um planeamento para aquilo que escrevo. Apenas escreverei o que me for chegando à boca, esperando que não se trate de um vómito. Dir-mo-ão vocês. Mas sempre que souber o que quero escrever da próxima vez que “postar” (hum, estou a começar a entrar na onda e na linguagem...), di-lo-ei. Não é por nada, mas já sei o que lá vem... na próxima semana, decidi-me por escrever sobre a minha procura de um novo rumo profissional.
Até lá amigos. Um abraço e inté. Zé.

segunda-feira, novembro 12, 2007

Não me interessa nada

Não sou dado a respostas
Àquilo que não entendo
Às perguntas de algibeira
Que o Mundo vive fazendo
Bem as tento perceber
Dar-lhes razão, um sentido
Soletro-as p´ra não me enganar
E acabo sempre confundido (cantar “sempre fodido”)

Azucrina-me a memória
A lembrança da sentença
“O que devias ter feito?,
Pára lá um pouco, e pensa!”
“És um touro numa arena,
Com mil olhos a assitir
Vais ficar aí, cansado...
Ou decides investir?”

Esqueçam lá essas retóricas
Eu não sou de decorar
Não vou lá por mnemónicas
E o meu tempo está a contar

Isso não me interessa nada
Isso não me interessa nada...

Não me legaram riqueza
Um amor p´ra vida inteira
Nem tão pouco educação
P´ra me inibir da asneira
Sempre soube que p´ra ter
É de mim que tem de sair
Portanto guardem essas merdas
P´ra quem as quiser ouvir

Esqueçam lá essas retóricas
Eu não sou de decorar
Não vou lá por mnemónicas
E o meu tempo está a contar

Isso não me interessa nada
Isso não me interessa nada...

sexta-feira, novembro 09, 2007

"Out to lunch"

- Cansei-me de tentar explicar tudo... - escreveu-me ela, quase me fazendo adivinhar o seu olhar cabisbaixo, interrompido por uma troca de olhares breve logo seguida do abandono da conversa, deixando-me a falar sozinho.
Percebi a sua dor e sofri também. Não porque a fizesse sentir melhor por isso, mas porque me fez sentir melhor a mim. De alguma forma, sentimos que ao sofrermos com alguém, estamos a encontrar algum tipo de compensação para a sua angústia solitária e penitente. Quase que sentimos que estamos lá se o outro nos pedir o lenço; que damos face à bofetada no fim da discussão; que damos corpo à necessidade de materialização de um interlocutor para a sua raiva. Se é que se trata de raiva... ela diz-me que não.
Não me encolho num canto ou sequer chuto para a frente como outrora ousei, por mais que o desejasse fazer. Estou demasiadamente visível para ambicionar sequer que a sombra me cubra; estou mais que permeável à onda – enxurrada, melhor – que me arrastaria para longe se pudesse escolher; estou exposto à luz, e por isso mesmo alcança-me facilmente a vista.
Isso faria de mim cobarde? Talvez. Talvez. Cobarde como um urso baribal de cento e cinquenta quilos que hesita atacar o homem que lhe aponta uma arma, sabendo de antemão que o decapitaria com um breve safanão de uma das suas patas de garras não-retráteis. Cobarde como o cão que não morde a criança que lhe rouba a taça da ração, fundindo o impulso animal expontâneo que o empurra para a agressão. Cobarde como um parceiro eminentemente adúltero que acaba por não sê-lo ao recuar um passo à porta de casa da sua amante. Cobarde? Talvez.
- Deixa rolar, esquece isso. – escreveu depois, sem gralhas.
Quis dizer e não disse, por mais que soubesse que o meu silêncio poderia ser mal interpretado. Talvez o seu “Out to lunch” me tivesse disuadido em dose igual. Certo, certo, é que estava pouco certo do que diria se os meus dedos tivessem atacado o teclado do portátil naquela altura. Melhor assim. Cobarde? Talvez.
Deixei o meu “Out to lunch” activo antes de sair. Irónico como esta ferramenta que nos afecta a produtividade, acaba por ajudar-nos nos dilemas mais importantes da vida.
Quiçá me cansaria se tentasse explicar tudo.

quarta-feira, novembro 07, 2007

Amor é...

O amor é um bem perecível, com corantes mas sem conservantes.

Destino

Havia quem acreditasse. Ele não. Por mil e uma razões e mais uma ou outra, mas ele não. Nem tão pouco teria paciência para referir mais do que uma dúzia dessas razões, daí que apenas me referiu duas.
- A primeira razão tem a ver com o facto de a inevitabilidade ser um conceito reversível em função da sua casualidade. – disparou à queima-roupa, como se toda a sua vida tivesse sido passada a decorar esta frase.
- É inevitável que, se flirtarmos com alguém que retribui as nossas palavras bajuladoras tão reais e credíveis e que nos acha também algum tipo de piada, acabemos a foder e a dormir com essa pessoa. – continuou. - Alguma voz off dirá: inevitável, foste tu que o forçaste, estavas a pedi-las, é o destino. – terminou, fazendo passagem mental para o parágrafo seguinte.
- Mas imagina o cenário. – vociferou baixinho enquanto expelia o fumo e apagava o cigarro. - Combinamos o motel com a gaja, suficientemente longe de todas e quaisquer vistas incriminadoras, entramos pela garagem enquanto um porteiro de bigode surumbático nos dá uma chave e um seco “bom-dia” a troco do nosso olhar medroso e inseguro. – disse ele rebaixando um pouco o pescoço para acompanhar uma tentativa de entoação ameaçadora. - Subimos ao quarto e deparamos com os espelhos e a cama redonda. A excitação é agora crescente à medida que vai sendo consumida a adrenalina do teu medo de seres descoberto com a boca na botija. – Fez um olhar bonacheirão e sacou de um novo cigarro que acendeu num ápice. – Continuou, rebaixando agora apenas os olhos. - Ela despe-se, entre amassos e beijos lambuzados, entre apalpões e neurónio e meio gasto a tentares desapertar-lhe o soutien. A excitação cede passagem à tesão e dás por ela já em cima da cama, tentando encontrar-lhe o meio (à cama, é claro! – aferiu, sorrindo -), rebolando-te ao mesmo tempo que pontapeias o ar na tentativa de desprender as calças que teimosamente se agarram aos teus tornozelos. – soltou uma gargalhada de meio segundo.
- Onde queres chegar? – perguntei-lhe meio impaciente por imaginar que iria dissecar e explicar-me minunciosamente cada vinco dos lençóis do motel ou o quão estavam já amarelados pelo tempo.
- Estás a fodê-la não tarda, não fosse o matagal! – disse quase gritando “o matagal”!
- Como assim? – questionei curioso e meio perdido.
- A gaja tem mais cabelos nas pernas, pintelheira, rabo e curvaturas limítrofes que um poodle panasca de uma dama de Beverly Hills! – disse, gritando novamente as duas últimas palavras.
- E que vontade tens agora de a comer, meu querido?! – disparou, inclinando o canto esquerdo da boca na minha direcção.
- Pois...não sei... – disse a medo, pensando que haveria ainda mais. E havia.
- Pois é, meu querido. É mesmo assim: seria inevitável que a fodesses! Mas quis a casualidade, neste caso a sua predisposição genética (do paizinho da querida – murmurou -), dotar a tua amiga de uma epidemia capilar que jamais conseguirias desbravar, mesmo que fosses lá à catanada ou lhe despejasses um balde cheio de cera depilátoria pelos cornos abaixo!
Continuou.
– Em suma, como pode falar-se em destino?! Como pode falar-se que alguém escreveu em linhas direitas e numa caligrafia exemplar, aquilo que viveremos “já a seguir”, se nem a cegueira da tesão me é suficiente para me convencer a desviar um ou dois tufos de cabelo antes de lhe espetar o nabo?!
- E a segunda razão? – perguntei, ainda mal me conseguira recompôr da gargalhada que acabara de dar segundos atrás e que conseguira fazer recair sobre mim todos os olhos consternados dispersos pelas mesas do café.
- A segunda razão, meu querido, é que tudo seria mais fácil se houvesse destino! – largou acompanhando as palavras de um suspiro bem profundo.
- O que dizes? – questionei sem grandes pausas poéticas que enaltecessem o momento.
- Digo isso mesmo! Digo que se tudo estivesse escrito pela mão d`Ele, que se fosse plausível acreditar que nos é dado à nascença um papel específico neste teatro de ilusões, as histórias teriam os fins esperados. Não haveriam surpresas, não existiriam quaisquer tipos de questões inexplicáveis, porquanto Ele saberia de cor - e naturalmente -todos os fins! Não nos sujeitariam a deambulações inusitadas, a perdas de tempo nas indecisões que nos atormentam a vida em cada um dos seus episódios. – disse, quase sem respirar nos intervalos das frases.
- Não sei se te compreendo bem...estás a dizer-me o quê?! – questionei sem dó. – Estás a dizer-me que é impossível haver um final estabelecido para as coisas, para a nossa vida, porque durante a nossa vida vivemos situações difíceis?
- Estou a dizer-te que o “nasce, vive e morre” é demasiadamente simples enquanto princípio lógico da verdade universal! – afirmou numa entoação crescente. – Se O gajo lá de cima soubesse como as nossa vidas acabariam – pois teria sido ele a redigi-las, recordas-te?! -, e acreditando sempre que esse Senhor é um gajo porreiro que ousou querer doutrinar todos os homens de acordo com uns dez rabiscos que talhou na pedra e chamou Mandamentos, porque raio não nos poupou a uma série de infortúnios, tristeza e desilusão?! – disse, no que me pareceu um tom comovido pela rouqidão na sua voz.
- Porque razão poética e nada nobre nos sujeita a uma existência continuamente miserável, que nos consome em fenómenos macabros diversos como o cancro, os acidentes rodoviários, o infortúnio duma deficiência motora num bebé acabado de nascer? Queres mais exemplos ou poupar-me-ás inteligentemente a saliva?!
- És louco! – disse prontamente, sem deixar de começar a sentir alguma admiração por este homem que só eu vejo.
- Talvez seja! Sê-lo-ei com todo o gosto se me provares que O gajo lá de cima não nos fode a cada esquina em que nos apanha! Pára de maçaricar e pensa por um minuto que seja: não seríamos mais felizes se por aqui passassemos, vivêssemos uma ou outra experiência – sexo incluído, por favor – e depois, como uma candeia que se funde no momento em que tanto precisamos dela para nos alumiar, se apagassem os olhos e nos invadisse o silêncio?
- Por certo seria. – anui sem grande luta.
- E então meu querido, a minha pergunta é: porque raio de porra toda ou porra nenhuma temos de sofrer enquanto enfermos, se bastava que alguém soprasse a chama da candeia e terminasse com isto tudo duma vez?! Porque desígneos somos arrastados pelo sofrimento pessoal e arrastamos pelo mesmo sofrimento todos aqueles que amamos e nos amam recíprocamente? Porque pecados nos condena Ele com tão vorazes dentes que nos rasgam o corpo em postas, se esses pecados só existem porque na nossa história Ele os inscreveu?
- Percebo-te na essência do que dizes, não ainda na conclusão que queres tirar... – disse-lhe calmamente.
- Já tirei todas as conclusões meu querido amigo! Não quero tirar mais nenhuma que não seja ver-te a assimilar as minhas palavras e a celebrares comigo o facto de que somos nós, nos nossos dias arrastados, que escrevemos a nossa própria vida e destino! De que nos compete a nós desenhar o mapa das nossas vidas, conferindo-lhe mais azul de mar ou mais verde de flores e povoá-lo com as pessoas que mais amamos e queremos amar! – rejubilou num sorriso rasgado e temperado a emoção.
- Tens a minha compreensão, mas deixa-me ser eu próprio a reflectir nas verdades do Mundo, à luz dos meus olhos. Permites-me? – questionei-o em tom jocoso. – Isto de passar a acreditar que não existe um Ele lá em cima a zelar por nós e com jeito para escrever histórias bonitas, não é desafio que se lance como numa aposta de poker, como se bastasse um “vou a jogo”. – disse, arrependendo-me imediatamente da analogia que acabara de esgrimir.
- Por certo, meu querido! Cabe-te a ti....mas, pensa lá, para quê fazê-lo se não vais mudar nada...tudo está escrito, lembras-te?! – inquiriu-me, imitando-me no jocoso que havia sido anteriormente.
- Não sei, pode ser difícil, mas também pode ser mais fácil do que isso... – disse, sem querer baixar as defesas e dar ainda mais luta.
– Pois, mas Ele, o “Cabraozão lá de cima”, é demasiadamente sarcástico para nos permitir a facilidade das coisas! – disse.

Mirei-o enquanto se afastava rua abaixo em direcção ao rio. Mendigava por lá, junto à estação fluvial, onde brincava com os pombos durante a tarde. Como é irónica uma vida que se veste agora de trapos e que ostentou, outrora, todos os tecidos nobres dos melhores alfaiates de Lisboa. Mais um louco de Lisboa, como diria a canção. Por certo, se alguém lhe pedisse que descrevesse a sua vida, o próprio referiria "casualidade". Não se refugiaria no destino, porque não se habituou a coisas fáceis.

07/11/07

segunda-feira, outubro 22, 2007

Escrever

Escrever é um acto compulsivo. Diria mesmo obsessivo-compulsivo. Só o escritor, aquele sonhador de palavras que as arruma em estrofes de um poema ou as estica em linhas infindáveis de prosa, consegue perceber os sintomas e desígneos sofríveis desta agonia. É aproveitar todo o tempo sem que haja tempo para tal. A vida não nos dá tanto tempo quento o tempo que quereríamos usar na nossa obsessão. E então? Como fazemos? Roubamos! Roubamos tempo a tudo e a todos, quer os amemos ou não. Roubamos tempo ao nosso trabalho, adiando indefenidamente aquela tarefa exigente e árdua ou mesmo simples e insípida. Chutamo-la para a frente, nos dias, como se num calendário imortal nos movessemos. Um dia - sabêmo-lo - resolveremos "a coisa". Roubamos tempo àquilo que outrora nos distraía a mente e nos bombardeava com cor através daquela caixa negra de radiações de bregeirice. Enquanto a motivação da outra mente, a que escreve, não nos impelia a matar a inércia e conseguia sentar-nos à secretária, de teclado de computador em punho. A escrever, claro! Roubamos tempo até aos que amamos, pois deles julgamos certo o perdão pela atenção não dedicada, pelas brincadeiras infantis no chão do quarto, pelo olhar enternecido mais uma vez adiado.
Mesmo que a escrever não estejamos. Mesmo que os nossos dedos não se agitem de forma ridiculamente rápida, arrítmica, disforme e insonora no teclado, quais agulhas de impressoras antigas e gastas. Verdade...é que escrever é um acto contínuo e compulsivo, não se esgota na intenção, no movimento e na materialização do gesto de escrever. É também a ideia que nos assola a qualquer momento e jamais nos larga antes que encontre a sua razão. É a chuva que lá fora molha a rua e que nos relaxa naquele ssshhh que só a nossa mente ouve. É o vento que jamais sucumbe no seu assobio pela fresta de uma janela que ninguém fecha. É a música que fica no ouvido e que trauteamos inoportunamente. É a dor de cabeça forte e a "moínha", que nos impede de adormecer numa insónia de inconformismo ou inspiração.
É por isso que há quem diga que o escritor vive só, por maior que seja a sua família. É consigo mesmo que vive, fala, sorri, chora e seia ao serão. É consigo que parte e reparte as decisões mundanas e multiplica e divide as ilusões da mente. É egoísta porque precisa sê-lo sempre, para que possa depois partilhar as palavras que invadirão os corpos de quem o lê. Fecha-se nos vários naipes, no lúgubre silêncio do sotão, para que se iluminem depois os caminhos de outros.
E vive só porque só sabe amar sozinho.

22/10/07

quarta-feira, outubro 17, 2007

Decoro-te

Só decoro o que amo. Decoro a cor da tua pele quando nela contorço a minha própria tez dourada durante o sexo. Decoro o contorno da tua boca, perdido e disforme, no ar rarefeito dos nossos beijos. Decoro o sabor do teu sexo quando nele me afundo em estocadas letais que me levam à agonia. Decoro o som do vai-e-vem do meu sexo em ti, e na pressão que mo asfixia aquando da sua metade para dentro. Decoro o incêncio que nos arde lá bem no teu fundo e aquela parede intransponível que evita que o meu sexo te rasgue em duas de ti. Decoro o cheiro no quarto, antes, durante e depois. Decoro o sono que me lembra o acender dum cigarro, e fumo-o sem inspirar, no sonho que, invariavelmente, há-de vir. Decoro a minha vida nesta fase vitalícia em que amar-te deixou de ser um caso ou um acaso. Decoro que te amo. E decoro-te.

17/10/07

sexta-feira, setembro 28, 2007

Paradigma

O paradigma da paixão: sentirmo-nos felizes por estarmos simultaneamente mais fortes e mais fracos.

28/09/07

quarta-feira, setembro 26, 2007

Velho avô

Recostou-se no velho sofá forrado em padrões florais, já bem coçado e côncavo pela preferência de todos os membros mais novos da família. Pousou ambos os cotovelos nos braços de madeira, mantendo o copo de vinho a pouco mais de um palmo da cara e contemplando o brilho blaugrana e quente do néctar contra as brazas incandescentes da lareira. Podia sentir o aroma frutado daquele cabernet sauvignon e esta ideia adormeceu-o numa contemplação circular a toda a biblioteca. Olhou-o pormenorizadamente e sorriu, prostrado ali na sua cadeira favorita em frente à lareira, a cabeça pendendo sobre o ombro e trauteando um ligeiro ressonar. As rugas grossas pendiam-lhe agora em sucalcos, numa pele lisa e branca, imaculadamente barbeada todos os dias pela manhã. O cabelo forte, escorria-lhe para trás num jeito ganho pelos anos, mas rareava à frente, onde duas entradas pronunciadas faziam lembrar a forma aguda de um boomerangue. Este velho à sua frente contava agora 80 primaveras de experiências únicas que poucos ousariam sequer imaginar. Guardava toda uma vida na sua memória fresca como o orvalho da manhã: episódios de guerra homéricos em cenários reais do falecido império austro-húngaro; romances furtuitos e furtados a damas de corte inglesa nos anos do pós-guerra; montanhas ibéricas desbravadas com contrabando de cigarros e aguardente às costas num registo de saltimbanco por feiras de aldeolas decrépitas de fronteira. Era daquelas personagens que dava gosto ouvir nos seus devaneios de "dantes é que era bom!". Acreditava piamente que a democracia e a "era da televisão" como lhe chamava, eram os principais culpados da "imundice do esgoto da Europa e dos valores familiares dos Europeus". Quem o ouvisse vociferando alto e em bom som, crispado, gesticulando freneticamente com o corpo inclinado para a frente sobre os seus interlocutores, não imaginaria aquele íntimo crivado de sementes de amor, quais nozes de manteiga em pão quente. Era aquele homem que todos gostaríam de ter como avô: a figura paternal que não exigia obediência; que nos daria, à socapa, uma nota de 50 escudos para cigarros e jogos de bilhar no clube lá do bairro; que nos ofereceria gratuitamente e sem qualquer preparação aquele conselho de vida que quaisquer pais tentaram por inúmeras vezes mas jamais conseguiram. A sua paixão era extensível e atingia o seu expoente máximo na figura da sua avó, aquela mulher grisalha que bordava melhor que ninguém, pia e fervorosa crente cristã, a quem vivalma seria incapaz de reconhecer qualquer defeito ou restício de malvadez. Em termos de bondade altruísta por outras almas que não as apelidadas Baptista, recordava a forma como anos antes, durante os seus passeios matinais que antecederam aquele atropelamento quase fatal, se dirigia às crianças de rua que mendigavam, descalças e ranhosas, junto ao público e feirantes do Rossio, e as convidava a acompanhá-lo até à pastelaria Suíça para uma sandes de fiambre e um garoto clarinho. Mais tarde, quando o confrontavam com isso (após um qualquer vizinho relatar tê-lo visto em tamanha atitude digna de nobreza), negava tudo e virava-lhes costas, sisudo e rogando sons imperceptíveis. Poucas outras coisas poderão descrever um ser humano tão grande, e nenhuma autópsia distinguiria o peso deste coração.
Perguntara-lhe ontem, numa daquelas conversas que o mantinham vivo e lhe relembravam o orgulho de ser seu neto, o que mais quereria ainda fazer na vida, esclarecidas que estariam praticamente todas as suas dúvidas sobre a existência humana. Como esperava, o avô disse-lhe apenas que pouco havia já a ver. Os seus prazeres diários resumiam-se hoje a pouco mais do que celebrar os últimos sopros de vida junto da sua família, às palavras dos seus romances épicos já muito antigos, ao cheiro impregnado na pele das suas lombadas e ao escovar do cabelo da sua avó, à noite, antes de ambos se deitarem. Sentiu-se desfalecer na pureza deste sentimento e na simplicidade da sua descrição. Ripostou com aquelas perguntas que o velho gostava de responder: "Mas avô, com que idade acha poder dizer ter tido a vida em dose suficiente?". Ouviu, suave e calmamente, a sua voz funilada dizer-lhe: "Assim que um Homem nasce, já tem idade suficiente para morrer."

26/09/07

terça-feira, setembro 25, 2007

Histórias Reais

Chamas-me e soa-me um alarme
Inicias-me no dia que já sei
Sem pompa ou charme
Olho e demoro-me sem querer
O que amámos dorme ainda
Ausente de tudo sem saber

No vai-e-vem soas-me estranha
Ausente de mim mas perto de alguém
Talvez de ninguém
Mas longe de mais
Histórias reais

Na paragem largamos carga
No aceno um sorriso
Despedida mais amarga
Menos peso nestes ombros
Arrepiamos caminho
Evitando os escombros
E agora somos nós
Destruídos e mudos
Lado a lado mas sós
O silêncio já não corta
A imagem do rio
É natureza morta

No vai-e-vem soas-me estranha
Ausente de mim mas perto de alguém
Talvez de ninguém
Mas longe de mais
Histórias reais

Histórias reais
Relatos de gente
Simples e banais

25/09/07

(Written by Mário Batista
07/03/22)

Só mais uma vez

Não preciso gastar mais palavras para te dizer
Para o que quer que não saibas dou-te as dicas
E empresto-te a alma nos olhos
A prova no fundo do ser

No cliché dos sentidos percebes algo mais
Já não ouço ou vejo o que queres mostrar
Nem sinto ou cheiro o perfume da pele
De vivo a momentos artificiais

E sabes o quanto preciso
O quanto me fazes respirar
Sentir-me vivo de novo
Dá-me o que tens para dar
Só mais uma vez

Só existe um caminho de ida e nenhum de volta
A proposta é andar em conjunto e devagar
Dou-te a força para que te movas
Empresto-te a estrada que deves pisar

E sabes o quanto preciso
O quanto me fazes respirar
Sentir-me vivo de novo
Dá-me o que tens para dar

Quero-te de volta ao espaço a que pertenço
O suor da breve agonia do nosso momento
Largar-me dentro de ti até que o frio me consuma
Hibernar no teu peito até que o sol nasça outra vez
Só mais uma vez

25/09/07

(Written by Mário Batista
07/03/22)

segunda-feira, setembro 24, 2007

"O amor é fodido" sem MEC, ou Spicy Sushi, ou Tributo a Margarida Rebelo Pinto

Saltaste da esquina num pulo como se o teu vestido preto e curto não fosse, só por si, suficiente para me surpreender. Sorriste ao avistar-me junto à porta do restaurante, e eu retribui-te com um breve aceno de cabeça, meio afundado na gola do meu casaco, como que abrigado de uma chuva inexistente. Caminhaste ao meu encontro do único jeito possível em ti: decidida, como se eu só a ti pertencesse, numa linguagem corporal de predador felino que ataca a sua presa e vence a concorrência de semelhantes menos velozes. O teu andar excitou-me e alegrei-me pelo leve vislumbre do teu quadril púbico evidenciado pelo tecido transparente do vestido, no contraste feito com os candeeiros da avenida por trás de ti. Ocorreu-me poder beijar a tua intimidade ainda nessa noite.
Sentámo-nos quase no chão, meio atarrecados pela altura daqueles "bancos de brincar", largando a piada em forma de comentário desinibidor ao empregado. Este anuiu sorrindo e escusou-se a prolongar a nossa gargalhada. Hierarquizámos a comida em categorias de "não sabemos o que é" e "isto é bom que já provei". Chamámos novamente o empregado que nos olhava de soslaio e cuchichava baixinho com uma colega que mais parecia um dos bancos. Aproximou-se e agachou-se junto de nós evitando-nos uma comprometedora subserviência de estatura. Esclarecemos os "não sabemos o que é" e encomendámos mais dois ou três "isto é bom que já provei". Acomodámo-nos como que preparando uma posição de combate ao extermínio de todas as dúvidas, questões e suspeitas causadas por todos estes anos de ausência. Era este o momento para o ressurgir das mil-e-uma questões que minaram as nossa mentes durante anos de privação induzida. Acabariam agora as ansiedades pontuais que nos assaltaram a mente quando emergiram em golfadas os pequenos restícios da vida de outrora.
O "comer com pauzinhos" deu o mote para uma conversa parva e promiscuamente desconfortável para ambos. Fazia anos que a partilha deste "vocabulário de favela" (como uma vez o apelidámos) se havia extinguido, e tentávamos agora reacender o fogo após o rescaldo. O à-vontade talvez estivesse lá, mas há muito que a displicência própria das vivências partilhadas e segredos desvendados partira além-mar. Se voltaria um dia a ser avistada daquele cais lúgubre onde agora nos encontrávamos, essa era outra conversa que certamente não teríamos nesse momento.
Entre devaneios simplistas do que poderíamos ter sido, lidavas com os travões que eu ia acometendo à conversa. Não mais me interessavam justificações para o passado, para as tuas traições encapuçadas de lealdade egoísta. Provei o sashimi de salmão e olhei-te a saborear o de atum. Fizeste como sempre aquela covinha no queixo quando degustavas algo que amavas. Como o fazias também após um beijo "dos nossos". Adoravas prolongar o meu sabor na tua boca.
A tua mão surgiu-me no sexo sem que a esperasse. Previra tudo isto na minha antecipação deste encontro, mas nunca ponderei qualquer probabilidade de que ocorresse. Nem mesmo a acentuada inclinação do teu corpo para permitir que o teu braço se extendesse por baixo da mesa, me fez adivinhar esta tua atitude - acredito eu - irreflectida. Recuei bruscamente o meu corpo, fazendo guinchar nos azulejos negros os pequenos côtos que serviam de pés ao banco. Caíram rapidamente sobre nós inúmeros olhares inquiridores e curiosos de casais e grupos de amigos que se amontoavam nas mesas limítrofes. Fui incapaz de conter aquela gargalhada estridente, deixando de me preocupar pela forma audível como esta ecoou em toda a extensão daquela sala rectangular. Tu, contendo o riso, saboreavas um largo pedaço de giosa, entortando propositadamente os olhos de cada vez que me miravas. "Só queria saber se não o tinhas perdido aí numa gaja qualquer." disseste, sem qualquer rubor nas faces ou tremor na tua voz. "Como querias que o tivesse perdido?! Deixei-me de fodas por desporto assim que te conheci, e agora bem que me arrependo..." disparei sem te deixar respirar.
Deambulámos por um mar calmo de palavras e histórias de trabalho, amigos comuns, casamentos e divórcios ocorridos nos últimos anos após a nossa separação...aquele teu gesto teve o condão de normalizar o nosso diálogo e trazê-lo de volta à nossa actual realidade de separados. Não te oposeste sequer (como fazias quando estávamos juntos) assim que peguei na conta para pagar. Trauteaste uma melodia que não reconheci e que mal ouvi sobre o música ambiente, enquanto deslizavas o anelar na borda da chávena do café.
Levantámo-nos de um salto em direcção à rua e perguntei-te onde querias ir agora beber um copo. Nem sequer fingiste. Disseste-o directamente: "tenho mais do que fazer do que aturar-te a má disposição. Só já não fodes porque não queres, ninguém te obriga a permanecer fiel a uma imagem que só existe na tua cabeça!", disparaste.
Vi-te caminhar como chegaste, mas desta vez, de costas, apreciei a marca do teu fio dental. Imaginei-o como um daqueles de que gostavas: de algodão, simples e preto. Fizeste a curva, quase atropelando um casal de idosos que te rogaram umas palavras em surdina. Olhei para a avenida e vi o movimento de corpos. Deixei-me arrastar no turbilhão de luzes e cheiros e avancei rua abaixo. Estava uma noite óptima para caminhar. Sozinho, como já há muito gostava de fazer.

24/09/07

terça-feira, setembro 18, 2007

Adorava beber as tuas palavras...

Nunca to disse mas disse-o a mim mesmo por inúmeras vezes. Foram tantas as vezes que me alimentei das tuas estrofes que hoje, quando estas me faltam, procuro migalhas de frases e pequenas palavras nesta sopa de letras que é a minha memória. Era nelas que me refugiava de todos os medos e acreditava que era realmente especial. A forma como me descrevias ia ao fundo do meu ser e detalhava-me em pormenores que nem eu mesmo reconhecia. Enaltecias-me como se as tuas palavras fossem as asas de uma enorme águia que me guiava em direcção ao céu, nele me passeava mostrando-me as várias direcções do Mundo e só então, passados muitos minutos, me devolvia ao silêncio cortante do meu quarto. Era nelas que me consumia em lágrimas doces, que acompanhavam espasmos de cadência incerta do meu coração. Os arrepios faziam-me acreditar na verdade do seu âmago. Que tudo era verdadeiro e que, afinal, o Mundo era aquele lugar bonito onde vivíamos todas as experiências que Deus a nós havia destinado e a outros negado. Nunca o outro lugar inóspito e estéril das lembranças fugazes e preconceitos malditos em que vivi antes de entrares de rompante e sem pedir licença na minha vida.
Quiçá encontrarei um dia uma nova musa de sentimentos, tal qual o foste outrora para mim. A musa-poetisa que arrancará do fundo de mim todas as mensagens subliminares que ouso dizer a todas as mulheres, como se só em mim existisse o descodificador da sedução e nenhuma delas pudesse alguma vez sequer desconfiar das minhas pecaminosas intenções. Que as secará como a uma peça de roupa estendida debaixo do sol abrasador do pior dos Verões e recolherá já sem gota ou sequer molécula de pecado e luxúria. Que depois, as amontoará e carregará às costas até à tua morada, onde tu as esperarás ansiosa, ávida de amor, desejo e enebriante tesão.
Se ela me aparecer à frente, cuidarei ainda de perguntar-te uma última vez pelas tuas intenções. Se estarás disposta a dar-me de mão beijada a uma qualquer aprendiz de metáforas e eufemismos, ou se encherás o peito de coragem e a memória de vidros partidos que já pisaste, e reagirás como mulher corajosa que és. Reclamarás o meu direito puxando-me enérgica e freneticamente para ti, envolvendo-me nos teus braços e cuspindo bem no meio da cara da tua rival. Ela não me conheceu como sou, apenas vislumbrou palmos de pele e cheirou parte da essência do amor. Daí que não tardará e virar costas e partir, ciente da sua derrota fácil, sem grande luta ou angústia de perdedor.
Ficaremos unidos relembrando este episódio que não foi mais que um susto, um sopro de vento que não encontrou a tempestade. Alhear-nos-emos de tudo e de nada, apontaremos a Norte e rumaremos aonde não nos encontrem. E é aí, nesse Mundo de dois que conhecemos e onde regressamos ao fim de algum tempo, que voltarás a descansar, a sentir as baforadas da nossa vida de sempre, a sístole e a diástole do músculo que partilhamos e que nos rege qual maestro enfurecido pela nódoa na pauta e humidade na batuta. Pensarás e facilmente retomarás essas palavras que sempre me aconchegaram nesse ninho quente. E eu voltarei a saborear, recluso das tuas intenções. Voltarei a estar disponível para ser escravo de ti, nada pedindo em troca para além do naco de afecto e malga de respeito. É assim que sou, e é este o sabor das tuas palavras...

18/09/07

sexta-feira, setembro 07, 2007

Desculpo-me

Nem sempre o digo como o penso. É de amargos de boca que vivo sempre que falo de forma irreflectida e inócua. Deito-me a rogar a quem amo como de almas penadas se tratassem e delas fujo quando me atormentam. Largo palavras que nunca disse cravadas de espinhos e ouso querer cheirar a linda flor assim que a contemplo já sereno. Espeto a espada em quem amo e só deixo de a ferrar quando a mão me queima com o sangue derramado.
Magoar é uma arte que domino. Melhor fosse que me houvessem escapado as lições do ofício.

2007/09/07

para a minha mulher Raquel.

Cruel revolta...

É cruel que a revolta me visite todos os dias de manhã como que para me lembrar do vazio que há-de vir depois da porta de casa, que me acene à tarde, trocista, da janela do Mundo com vista para o rio e antes que adormeça, por debaixo das pálpebras escuras. Melhor fosse que me atormentasse de vez, num tiro único e certeiro ao centro da minha vida, que me apagasse das imagens lânguidas que vão sendo projectadas incessantemente perante os meus olhos.
Mas esta revolta não é piedosa. Não é como outras que conheço e com que passeei por prados extensos e sinuosos, mas que acabei por enterrar, cansada de morte, no cimo de um qualquer monte de vendavais. Como outras que me ignoraram e que depois me convidaram para dormir, arrebatando-me numa jornada de sexo rebelde e insolente. Esta é permissiva enquanto planeia o ataque: deixa-nos respirar perante os outros, mas ataca-nos à traição quando de costas; dá-nos de beber na esperança, e seca-nos o lago quando nadamos. Insinua-se, promíscua e leviana, engancha o indicador para chamar e quando perto, ferra-nos o golpe que nos rasga a jugular.
O que esta revolta não sabe é que com antepassadas suas aprendi. Tornei-me especialista contra vontade quando à-vontade as enfrentei. Se bem que mais forte, tão ou mais poderosa que uma mentira colossal e a soma dos seus reflexos, não é mais do que um pronúncio viral longe da pandemia. Uma grilheta de facas de plástico afiadas. Um terramoto de epicentro em alto-mar.
Mostrar-lhe-ei o antídoto antes de lho injectar. Olhá-la-ei profundamente e regozijar-me-ei com um sorriso cínico no canto dos lábios. Dir-lhe-ei adeus com antecedência, para que se aperceba e sofra e conclua que se extinguirá em mil pedaços inofensivos de pó e cinza aquando da estocada final. Segredar-lhe-ei ao ouvido ofensas às primeiras convulsões, e quando paralisada de corpo e nervo, alinharei o seu ângulo de visão com a estrada por onde partirei, decidido e satisfeito. Pontapearei uma pedra, olharei para trás e sorrirei, retomando o meu caminho perante as lágrimas secas que deixo para trás.

2007/09/07

...de mim para mim.

Eu disse...

O silêncio é uma arma sem munições...pura pólvora seca!

segunda-feira, agosto 20, 2007

Vou ser pai!

Vou ser pai, pensei com tranquilidade, meio anestesiado pelo surpresa causada por algo que se não espera e se não interiorizou devidamente. Vou ser pai! saiu-me de seguida, segundos após essa assimilação da boa nova.Estarrecido fiquei. As minhas pernas tremiam e o coração ditava-me algumas lágrimas a que só a abstração evidente conteve da queda pela minha cara. Em vez de lhes sentir o sal, sentía-as fervilhar dentro de mim, enebriando-me e ardendo a ferida agora aberta.Era agora dois lados de uma mesma carne. Aquele que arrisca a vida, imaturo e infantil - porque a isso se permite e lhe é tolerado - nas análises e contemplações das similares realidades alheias. E aquele que contempla o seu próprio futuro, desembarcado em terra desconhecida e agora destinada, receoso de tudo, assentando os pés em terra pouco firme ao mesmo tempo que ouve o apito de debandada do comboio que o trouxe até aqui.Sei que nada será diferente, porque tudo será diferente. Cada nova surpresa, cada ciclo de vida, cada decisão importante nos vai guiando mais além. Tem sido assim desde sempre. É por isso que a diferença só o é quando dessa forma etiquetada, e não o seria se compreendida enquanto etapa, novo desígnio ou desafio.Guardo agora em mim a provação da luxúria e imaturidade. Tudo deixa de ser sério, porque séria é esta estrela que agora nasce de um brilho ainda ténue. Será fácil deixar de me dar ao escrutínio daqueles com quem vivo a maior parte do meu tempo. Passarei a sê-lo por aqueles que mais amo e a eles responderei à-altura. Mas mais do que por eles, pela minha estrela de brilho ainda ténue, pela força e alma que agora ressurge do meu ser, pelo pedaço de vida que de mim saiu e agora em mim volta a entrar sob a forma de milagre.À mulher que amo, à minha aia nesta aventura da vida, o meu obrigado e amor por me permitir este sonho a que outrora nos negámos.Vou ser pai! sinto agora, exorcisados que estão os meus medos e prurídos.

2005/04/18

para a minha "missanga", a minha filha Mafalda.

"Sou eu mãe. Sou eu."

Lembro-te nesta história, na minha história também, no relato dos pensamentos que assolam o meu íntimo. Não o faço por receio de algum dia poder esquecer-te e, quando esquecesse, querer recapitular o quão importante e fantástica eras para mim. Faço-o porque acredito no que penso, e o que penso é que a tua perda e o momento em que te vi partir, a serem compensados de alguma forma, que o sejam pela criação de algo, mesmo que um testemunho ténue e insuficiente do teu ser, da tua vida enquanto foi tua. Porque foi tua essa vida difícil feita de privação e de esforço na conquista de coisas poucas. Dessa vida de ilusões e esmorecimento, de sorrisos e de fado, de tudo, e depois de nada. Lembro o pânico nos teus olhos raiados a sangue, como se corressem neles os últimos caudais da vida que teimosamente agarravas apesar da dor. Do sofrimento que te confundia as ideias, de tal forma que os teus olhos não me reconheciam. De me dizeres “Ai Sr. Doutor, a morte é tão triste”, de eu te dizer em lágrimas que já não tinha “Sou eu mãe. Sou eu.”, e num momento raro de lucidez, sentir a tua mão apertar a minha em sinal de agradecimento por estar ali, suspenso por cordéis frágeis de coragem, a teu lado. Lembro-me do teu ventre inchado abrigando a doença. Do teu corpo sobre a cama, prostrado e desiludido, quase inerte. De estar atento ao teu respirar mais ofegante que subitamente cedia aos gemidos mudos da dor, e de rezar para que não desistisses. Mas mesmo assim, sem desistir, tu partiste. Partiste porque o que crescia em ti tornava-se progressivamente mais forte. Mais forte do que tu. Mais parte de ti. Agora que me lembro, mais uma e outra vez e depois mais outra, sei que quererias que o não fizesse. Porque sofro em cada vez que te recordo com saudade. Talvez não o devesse ter vivido, não nesta idade, não quando não estava preparado. Mas porque acredito que onde quer que estejas me vês e me sentes, vou lutar para que o tormento se esvaneça em mil pedaços de memória. Depois, colá-los-ei um a um e guardá-los-ei no meu maior cofre: o coração. Para que fiques sempre em mim, para que continues a respirar comigo, até que eu próprio parta. Para ser recordado depois, por alguém.

2004/09/21

dedicado à minha mãe, Alice, falecida a 19 de Junho de 2003. Faria hoje, 20 de Agosto de 2007, a bonita idade de 78 anos.

Anjo

Deixou que o pincel esborratasse a tela ainda branca. Aos poucos, em traço fino, foi dando contorno à silhueta daquela mulher que navegava nos seus sonhos, noite após noite. Fê-lo devagar, para que de nada se esquecesse. Dando dois passos atrás, escabichou o desenho para confirmar que nada ficava em falta. Desenhou-lhe os olhos cor de amêndoa, os cabelos longos e revoltos como uma queda de água que alimenta um charco seco. As nádegas firmes, como a ele lhe pareceram, quando esta descia do dorso daquele cavalo alado, branco. Os pés delicados que calcavam subtilmente a fina erva daquela clareira perdida no meio da floresta. Agora, sem paisagem de fundo ou adorno artificial, poderia contemplá-la sem que ela lhe fugisse por entre os pinheiros largos, dando lugar ao sobressalto e ao regresso a este mundo. Esbugalhou os olhos perante a tela. A tinta escorria, como se da tela não gostasse. Sulcava os seus próprios trilhos na textura do tecido, e largava-se, bem do cimo do cavalete, no vazio. Formava no chão de pedra uma poça multicolor, atípica e disforme, mas com uma palpitação própria que inflava o castanho, o negro e o branco da tinta caída. À sua frente erguia-se agora aquela mulher, com as formas moldando-se à perfeição. Lentamente, duma posição fetal para uma postura hirta e bela. Levantou o rosto deixando a descoberto aqueles olhos cor de amêndoa, aquela tez branca e angelical. E sorriu. Sorriu para ele como se de nada fosse. Do cimo daquela deidade que era o seu corpo e a sua figura. "Cheguei. Sei que me esperavas." - disse docemente. - "Pintaste-me, para que nos teus sonhos eu deixasse de fugir. Por isso estou aqui. Porque me quiseste aqui. Os anjos aparecem a quem os ama, tornam-se reais perante o amor de alguém. Procuraste-me e sempre escapei, sem estar certa do teu amor. Mas agora que me pintaste, do jeito que quiseste, deste-me a forma e a força da vida." - E basta que se ame, para dar forma a alguém ? - questionou ele, com o coração a sufocar-lhe a garganta. - Não. - respondeu com um sorriso. - Há que sonhar, sentir que se quer alguém de uma forma tão intensa que até o mundo tremerá perante essa vontade. Há que se cuidar, dar contorno e atenção ao ínfimo pormenor do corpo e da alma de quem se ama. Tu fizeste-o. - Sinto-me feliz. Encontrei-te, finalmente...

2004/09/20

dedicado à minha mulher Raquel.

É preciso ter colhões!

No outro dia dei por mim a pensar em coisas da existência humana. Já não me acontece com tanta frequência como há uns anos atrás, talvez porque estou resignado perante o facto de já ter alguma idade e de já não esperar grandes surpresas. As coisas acontecem, invariavelmente, da mesma forma. Já não pensamos e repensamos sobre factos etéreos, sobre atitudes irreflectidas e reflexos condicionados. As coisas acontecem e pronto. Been there, seen that. Porém, há talvez coisas que ainda me causam alguma surpresa e sobre as quais me ponho a pensar. As das relacções entre as pessoas. Relacções amorosas, entenda-se. Namoramos, chateamo-nos, acabamos o namoro, reatamos, apaixonamo-nos, chateamo-nos mais uma vez e, agora já junto de outra pessoa, reiniciamos o ciclo. Andamos nisto anos e anos. Um dia não nos chateamos, casamos, atinamos, afinamos, sentamo-nos no sofá a ver a novela e depois? Claro, chateamo-nos. Mas agora estamos numa situação diferente: a casa, o carro, as jóias, os miúdos. E então a solução passa por deixarmos de nos chatear. Parece-vos bem? A mim não. Sempre fui um chato neste tipo de discussões, insurgindo-me vivamente com as atitudes consevadoras, consternadas e inertes daqueles que decidiram deixar de viver assim que se juntaram a alguém. Lá surgem aqueles comentário possidónios: "Eh pá, um gajo agora tem que andar calminho que a patroa não dá folga."; "Não vai dar para ir jantar com a malta, a miúda tá meio chateada de eu já ter ido beber um copo a semana passada.". Pior: "A coisa não anda bem, já não pinamos há mais de um mês, mas estas cenas acontecem em todos os casamentos, um gajo tem que ter paciência...são fases...". Pois bem, deixem-se estar. Estou perfeitamente convicto do que digo e muito dificilmente me farão pensar o contrário: o desafio passa por conseguir ver uma qualquer relacção sentimental de namoro ou casamento(exclua-se aqui a amizade, que é regida por princípios diferentes e específicos), como um negócio, um contrato. Ambas as partes conhecem-se, sentem que a fusão dos seus interesses pode ser benéfica para cada uma das partes e que ganharão muito com isso, verificam rácios de endividamento, autonomia, return on investment e cash flow, sentam-se a uma mesa a assinar um papel para que não hajam quaisquer dúvidas sobre aquilo que a palavra e a honra, per si, não garantiam, e depois cada uma das partes trabalha para a outra. Os dividendos são distribuídos e as partes consolidam a sustentabilidade do negócio. O stress (estresse, em português) chega quando há problemas de tesouraria ou sintomas de resistência à mudança. Se não existe disponibilidade de caixa para fazer face a investimentos imprevistos, ou não se compra e surgem frustrações associadas à actividade, ou compra-se e começam a surgir dívidas que certamente alguém virá cobrar. Se as alterações aos processos habituais de funcionamento ou aos procedimentos standards instituídos durante longos anos são radicais, então surge a retracção face àquilo que é desconhecido ou que, pensa-se, será difícil de executar. A resistência à mudança de hábitos põe a nú uma de duas coisas ou mesmo ambas: a falta de capacidade para assimilar novos desafios ou a falta de vontade para os enfrentar. E neste caso, só existem dois caminhos: ou se decide que é mesmo necessário ficar com o "emprego", se cria capacidade de encaixe face à mudança e se aprende aquilo que não se sabe, ou então salta-se fora. Qualquer que seja o caminho a desbravar, é bom que se assuma que são ambos muito espinhosos. O primeiro obriga a andar por aí frustrado, sem eira nem beira, a não ir beber copos com os amigos ainda solteiros ou aqueles casados com ordem de soltura, a não pinar quando se tem vontade ou a ter que pinar quando não se tem. A levar com os filmes da família, dos jantarinhos de casais, do enxoval da criança, da telenovela no sofá. Tem que se trabalhar, e pronto. O segundo, o "salta-se fora", tem repercussões que, como o próprio nome indica, implicam um salto para o lado de lá, no escuro, no vazio. E os saltos, independentemente da sua amplitude, são sempre saltos. Implicam que tem que se ter, nem que seja por breves segundos, os pés longe do chão, daquilo que é firme. Implicam coragem. A coragem que nem todos têm para andar, durante uns tempos, meio perdido e alheado daquilo que era certo, palpável e seguro, de ter que se preocupar em encontrar um novo rumo, um novo "emprego", uma nova vida. É provável que estejam a questionar-se sobre qual dos caminhos escolhi. Pois bem, ainda não escolhi nenhum! Não me conformo com uma má relacção pois não a tenho. Retiro prazer da telenovela no sofá. Pino segundo mútuo acordo. O salto não me dá medo, nunca deu, mas não preciso de saltar por agora. Não sou resistente à mudança e, qual camaleão, adapto-me à cor de fundo. Gosto de aprender sempre mais, pois ainda tenho vontade. Moldo-me ao que de mim esperam e que eu próprio espero de mim. Para sempre? Logo se vê.

2004/09/17

dedicado ao meu amigo Ricardo.

Neurónios

Desiludam-se aqueles que, ao olhar para o título desta rubrica, pensaram que iria dissertar sobre as células cerebrais geralmente associadas à capacidade intelectual deste ou daquele humano. Neurónios é o nome de um evento que se realiza anualmente em Portugal, e cujo objectivo é premiar o que de melhor se faz nesta nova ciência de comunicação chamada marketing relacional. Como sabem, é isto que eu faço na vida e é sobre isto que gostaria de dizer duas ou três coisas, mais concretamente sobre a festa dos Neurónios que se realizou ontem à noite, ali para os lados da Rua do Alvielado, no Museu da Água. Saltarei os pormenores da chegada dos "famosos" ao local do evento, aglomerando-se em grupos que, embora isolados, permitiriam captar, numa vista aérea, uma imagem de multidão; dos olhares curiosos e sugestivos trocados entre a nata de criativos e responsáveis de agências; do catering de salgadinhos e patés; dos vestidos de cerimónia desenquadrados do tecido de ganga em maioria; das "enfermeiras/promotoras" inberbes mas de grande tranca; do magnífico espaço-museu. São pormenores interessantes, mas nem por isso merecedores de grande prosa. Falo apenas daquilo que, na minha opinião, salta realmente à vista e importa: os premiados. Ocorre-me agora que poderão sorver das minhas palavras algum tipo de fanfarronice ou pretenciosismo. Que se lixe, pois não é essa a intenção. A intenção é apenas elogiar, no tempo devido, aqueles que merecem ser considerados os melhores, porque o são, de facto, nesta área de comunicação. Para que não aconteça mais uma vez, como é apanágio do povo português, vir fazer este tipo de homenagens a título póstumo. Para que não aconteça mais uma vez, que os "senhores dos azeites" das agências de publicidade/advertising se posicionem como os únicos que cospem para o mercado algum trabalho de qualidade. Para que não ocorra mais uma vez a infrutífera discussão sobre o que é "above" e o que é "below", e que o "above" está (e é) a mó de cima. É neste momento que se tem que dizer que subiram ao palco os melhores directores de arte, os melhores copys, os melhores directores e supervisores criativos, os melhores accounts, os melhores webdesigners, os melhores new media, os melhores directores gerais, os melhores clientes - aqui designados anunciantes. É neste momento que se tem que dizer que andava por ali o que de melhor existe no marketing relacional. Os melhores trabalhos e as melhores campanhas. Os melhores profissionais e os melhores aprendizes. Com menos visibilidade mas também de parabéns, os organizadores deste evento, que mostraram que a dedicação e a inteligência se sobrepõem invariavelmente à experiência. Está na altura de assumir, de uma vez por todas, que damos cartas e ganhamos as vazas. Que temos uma mão de full house e não fazemos bluff. Que trabalhamos num tipo de comunicação que ditará o futuro das marcas pelo foco destas nos seus próprios clientes. Que os anunciantes devem perceber que este é, de facto, o caminho. Que percebam que uma boa marca brilha, mas o bom serviço ao cliente não só sustenta, como potencia as vendas. Que todos, sem excepção, usem os neurónios. De uma vez por todas.

2004/09/17