- Cansei-me de tentar explicar tudo... - escreveu-me ela, quase me fazendo adivinhar o seu olhar cabisbaixo, interrompido por uma troca de olhares breve logo seguida do abandono da conversa, deixando-me a falar sozinho.
Percebi a sua dor e sofri também. Não porque a fizesse sentir melhor por isso, mas porque me fez sentir melhor a mim. De alguma forma, sentimos que ao sofrermos com alguém, estamos a encontrar algum tipo de compensação para a sua angústia solitária e penitente. Quase que sentimos que estamos lá se o outro nos pedir o lenço; que damos face à bofetada no fim da discussão; que damos corpo à necessidade de materialização de um interlocutor para a sua raiva. Se é que se trata de raiva... ela diz-me que não.
Não me encolho num canto ou sequer chuto para a frente como outrora ousei, por mais que o desejasse fazer. Estou demasiadamente visível para ambicionar sequer que a sombra me cubra; estou mais que permeável à onda – enxurrada, melhor – que me arrastaria para longe se pudesse escolher; estou exposto à luz, e por isso mesmo alcança-me facilmente a vista.
Isso faria de mim cobarde? Talvez. Talvez. Cobarde como um urso baribal de cento e cinquenta quilos que hesita atacar o homem que lhe aponta uma arma, sabendo de antemão que o decapitaria com um breve safanão de uma das suas patas de garras não-retráteis. Cobarde como o cão que não morde a criança que lhe rouba a taça da ração, fundindo o impulso animal expontâneo que o empurra para a agressão. Cobarde como um parceiro eminentemente adúltero que acaba por não sê-lo ao recuar um passo à porta de casa da sua amante. Cobarde? Talvez.
- Deixa rolar, esquece isso. – escreveu depois, sem gralhas.
Quis dizer e não disse, por mais que soubesse que o meu silêncio poderia ser mal interpretado. Talvez o seu “Out to lunch” me tivesse disuadido em dose igual. Certo, certo, é que estava pouco certo do que diria se os meus dedos tivessem atacado o teclado do portátil naquela altura. Melhor assim. Cobarde? Talvez.
Deixei o meu “Out to lunch” activo antes de sair. Irónico como esta ferramenta que nos afecta a produtividade, acaba por ajudar-nos nos dilemas mais importantes da vida.
Quiçá me cansaria se tentasse explicar tudo.
sexta-feira, novembro 09, 2007
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