terça-feira, março 31, 2009

Bandeira

Ali estava ela. Lá de cima, bem do alto daquele mastro onde a fama e a justiça a colocaram, contemplava-me na minha pequenez. Olhou-me superiormente mas sem qualquer tipo de presunção, como se há muito estivessem definidos os nossos papéis e existências diferentes na passagem por esta vida e lhe coubesse a ela o papel mais nobre e altivo. A mim, cabia-me apenas a contemplação das suas cores, forma e languidez de movimentos, num aceno suave e doce ao vento que a refrescava.
Sentei-me e ousei falar-lhe. Em surdina, como se nos olhássemos nos olhos e percebêssemos as mensagens do nosso íntimo, perguntei-lhe como se sentia. Respondeu-me que estava feliz na sua existência. Que era feliz no papel que lhe coube na sua vida. Que o Criador, na sua distribuição aleatória de dons, lhe havia destinado a beleza e a imponência de um nome. E que lhe dera como incumbência a disseminação de uma mensagem aos homens. Uma mensagem celebrante ou sofrida, de cores suaves ou rudes, mas sempre numa interpretação genuinamente valiosa, de exigível reconhecimento.
Perguntei-lhe se gostava do que fazia. Respondeu-me ser feliz. Que apesar de existir numa vivência apaixonada pelo seu destino, partilhava ainda com o mundo dos homens a paixão pelas palavras. Pelas palavras que lia mas principalmente pelas que dizia, nesse registo silencioso de transmissora dos recados do coração. Porque o seu coração é grande e a sua beleza apenas lhe faz jus.
Perguntou-me o que fazia eu na minha existência. Respondi-lhe que era apenas, e tal como ela, um homem com um destino. Um destino que me presenteava com doses adequadas e satisfatórias de felicidade e realização, mas que nem por isso sentia como meu dom. Porque se o dom é a assumpção pessoal da felicidade extrema naquilo que fazemos mais do que a imagem na qual nos reconhecem, então o meu dom também são as palavras. As palavras que leio e que brotam dos recônditos lugares nos corações dos outros, mas principalmente das que fluem de mim em cada instante em que respiro. Das que germinam em cada um dos meus poros, músculos e sangue e que exorcizo em forma de felicidade, consternação ou mesmo dor. E que partilho com o mundo, não numa procura de reconhecimento, mas numa procura de mim mesmo no mundo.
Perguntou-me, então, se era feliz. Respondi-lhe que busco a felicidade em cada momento, nessas mesmas palavras que escrevo e em tudo o que me rodeia. Aliás, frisei, este nosso diálogo era um momento de felicidade inquestionável que, sabia-o, iria querer registar numa folha azul, do papel mais bonito que conseguisse encontrar.
Perguntei-lhe se me quereria ler, no meu relato das minhas viagens pelo mundo e por mim próprio. Respondeu-me que teria todo o gosto em conhecer-me dessa forma. Fá-lo-ia assim que o vento lhe desse o merecido descanso, no final do dia, na mudança da maré. Que me leria na minha genuína e mordaz existência pautada pela graça do meu discurso, que a fazia sorrir. Prometi-lhe que a leria de igual forma e desculpei-me por não lhe reconhecer ainda tal dom, de entre os outros que reconhecia e já havia elogiado. Sorriu e escusou-me nas minhas desculpas. Acenou-me breve e levemente como se não me quisesse ignorar. E despediu-se naquela brisa que abanava os barcos no molhe e que trazia já do horizonte umas nuvens escuras de tempestade.
Nunca esquecerei aquela bandeira, mesmo que o vento deixe de soprar nas minhas palavras.

sexta-feira, março 27, 2009

Countdown...

Sei que vou viver tudo aquilo de novo. Porque o quero e porque o que queremos. Porque nos viciámos em todo aquele cenário de dimensão desproporcionalmente fantástica, quase idílica, independentemente dos tons lúgubres que reflectiam as nossas silhuetas. Num canto da sala que dá guarida àquele que consideramos agora "o nosso espaço", tocará uma orquestra. Uma orquestra que repetirá vezes sem fim aquela melodia, a nossa banda sonora. Uma orquestra onde um piano terá lugar de destaque, libertando das suas teclas de ébano e marfim as mais belas notas que já ouvimos. Fecharemos os olhos e ouviremos atentamente. Olharemos depois bem fundo dentro de cada um de nós e sorriremos. Como sorrimos da outra vez. E como sorriremos nas outras tantas vezes que se seguirão. Da pele libertaremos fel e desse cheiro resultará o afrodisíaco que nos materá acordados pela noite. Até que, serenamente, abramos portas para a nova experiência que nos marcará ainda mais mas que não receamos. O sono doce e revigorante da paixão conceder-nos-á a guarida que buscamos. E o que buscamos estará ali, naquela imagem suspensa, nova para ambos, pois novas são também as emoções que dela extraímos. E morderás o lábio porque estarás feliz. E eu sorrirei, oferecendo-te um pouco mais de tudo o que te quero dar.

segunda-feira, março 23, 2009

Dedicated to...

... all the lovers that kiss with their eyes open wide
... those for which nothing´s more important than recording the moment
... moments that taste like rain drops that don´t dry
... caressing hands with no emotional compromisse
... unstopable tongues sounding like silence commitments
... unaffraid and brave souls that give without asking back
... that magic sintony of bodies and lust and love
... all those musics that stay behind the scene watching and blushing
... all the lovers that choose do´s and not dont´s.

More

More than a moment - It´s everything that comes with it - A no reason argument - A no question why - A kiss loosing its taste - A story that doesn´t fit.

More than a goodbye - A see you later excuse - A friend on the premises - A lover with no intention - No waking up together - A premeditated abuse.

More than a pain - A real life reminder - A home coming back - A visitor permition - No one to talk to - No fucking friend finder.

More than you - A coincident hangover - A morning sun - An innocent apologie - An excusable approach - No more promised lover.

Still love you but not alone.

I can´t make you love me...

É fascinante a volatilidade do sentimento humano. Não raras vezes apregoamos que a dor que resulta do amor não correspondido ou das relações conflituosas dura uma imensidão, prostrando-nos numa inércia emocional e na procura de um vislumbre de esperança numa nova oportunidade que volte a dar sentido aos nossos dias. Porém, outras vezes há em que o sentimento de transferência é rápido. O que nos magoou dissipa-se na sua parca importância e viaja para longe, dando lugar a uma nova experiência. Uma experiência intensa, linda, forte e ampla na sua imensidão de imagens e momentos vividos. Uma experiência que nos tolda a mente e o corpo e nos vicia na memória de novos cheiros, sabores, músicas e ambientes. Uma experiência que nos faz perceber o quão longe estamos da fatalidade que antecipámos para nós quando sofremos e que nos permite esquecer que a nossa emoção é perecível perante atmosferas criadas por relações antigas.
Por tudo ou apenas isso, sei que sou um privilegiado. Porque estou vivo. Porque sinto e me dou como disponível para sentir tudo o que me desafia. Eu próprio me desafio criando mais oportunidades que me completem na minha exigência perante as pessoas que me rodeiam. E eis que quando me tento orientar nesta nova estrada que desconheço e que não sei onde vai dar, me surge pela frente um estranho. Um estranho que conheço e que já vi algures, mas que me surpreende sob uma forma de um anjo. Um anjo belo, em toda a sua plenitude e imponência, de sorriso fácil e trato doce. Maravilhoso no cheiro, na imagem, sensível àquele olhar profundo que me esqueci de reconhecer com o tempo. Deixa-me que lhe toque não pedindo nada mais em troca que a mera retribuição desse sentimento. Deixa-me que o prove nos lábios, no seu corpo de tez dourada e suave, não pedindo nada mais em troca que a devolução do seu sabor na forma de mais um beijo. E beijamo-nos longa e repetidamente, como se o tempo não passasse à beira daquela estrada. Descobrimos a nossa complementaridade, sintonia, desta vez sob a forma dos nossos corpos e medos. E deixamo-nos surpreender por essa suspensão do tempo, até que raiam as primeiras luzes da manhã. A surpresa das muitas horas que serviram de cenário ao nosso encontro faz-nos sorrir novamente. Desta vez, tal como em outras das muitas vezes, os nossos olhos sorriem em silêncio. Olhamo-nos, acreditando que o reencontro é possível. Ambos o desejamos. Não o antecipámos. Mas sabemos. E é sabendo-o que nos despedimos e seguimos rumo a sentidos opostos naquela estrada que agora me parece mais bela, viva, sem poeira.
É fascinante essa volatilidade do sentimento humano. Desde que existamos, que o queiramos e nos permitamos a viver tudo o que podemos e queremos.

quinta-feira, março 05, 2009

Diário

- Estou cansada disto...o que vamos fazer?

- Não sei.

- Não sabes e não queres saber...

- Não sei, só isso.

- Mas eu sei, e sei que não é isto que quero! Quero viver, não... passar a minha vida a vegetar!

- Então é melhor resolvermos isto de uma vez por todas...

- O que queres dizer com isso?! "De uma vez por todas"...?!

- É isso mesmo que ouviste... nem vale a pena continuarmos a andar à volta da coisa...não dá, não dá!

- Mas vem aqui, não estejas agora a sair da cama e a virar-me as costas...! Estavas a falar não estavas?!

- Foda-se, deixa-te dessas merdas de sempre... não há quem te ature mais nesse registo implicativo...foda-se! Eu não te virei as costas, só vou mijar, posso?!

- Vais mijar?!...hum...vai mas é cagar que quem não te aguenta mais sou eu!

- Ai agora sais tu da cama e viras-me as costas, é?! Vais fazer o filme do costume e dormir na sala, é isso?!

- É isso o caralho, eu durmo onde eu quiser e não tens ponta a ver com isso! Ou não me digas que estavas à espera de ainda foder hoje, não?!

- Foda-se, tu não existes... quando te dá para me foderes a cabeça...

- Quem me fode a cabeça és tu! Estou mesmo farta desta merda toda e na merda em que se tornou a minha vida...

- E achas que a minha vida cheira a rosas, é?! Cheira é mal p´ra caralho! Não és tu que estás farta, eu é que me apetece mesmo cagar nesta merda toda e, não sei porquê, continuo por aqui a cheirar o esterco...!

- Estás a ouvir-me? Ou agora vais amarrar a mula na sala?!

- A mula é o caralho, ok? Vai-te foder!

- Vou-me foder é?! Vai-te foder tu...

- (...)

- Jay jay, vem para a cama, deixa-te de cenas, por favor...

- Chega-te para lá, se fazes favor...

- Chega-te um bocado para aqui, vá lá, não estejas fodida comigo...

- Estou fodida Luv, estou mesmo fodida... dizes essas merdas todas e esperas que esqueça não?!

- Sabes que não é isso que sinto, deixa-te disso... mas andamos a foder a cabeça um ao outro e não consigo perceber porquê...

- Não percebes, olha eu percebo...

- Percebes... então porquê?

- Deixa-me, quero dormir... chega-te para lá, tira os pés...

- Jay jay...baby...

- Chega-te para lá! Nem penses nessa merda! Queres, vai bater uma na sala a ver as amiguinhas e os pornos que gostas... deixa-me da mão...

- Foda-se, tu...

- Eu não é?!

- Não, pronto...

- (...)

- Tenho frio...

- Chega-te para cá...

- Dorme bem. Sonha...

- Não! Já disse! Vai-te foder...

- Tu...

segunda-feira, março 02, 2009

Vision thing

Tempos houve em que acreditei na sabedoria popular que defende que os olhos são o espelho da alma. Se bem que mantenha a convicção da veracidade parcial desta afirmação, vejo-a hoje como incompleta. No alcance e na forma. Sei por convicção e experiência que os olhos não são o espelho da alma. São a própria alma. É com eles que registamos os momentos mais importantes das nossas vidas, transformando-os automaticamente em experiências que talham a nossa existência. Como se estes fossem uma máquina fotográfica que não temos à-mão quando necessária e que nos permitem registar para a posteridade uma panóplia de detalhes, dos mais sórdidos aos mais envolventes e delicados. Como se estes fossem um polígrafo que nos chama dolosamente à verdade e que regista todos os momentos na sua integridade natural, verdadeira, sem que nos permita que esse registo seja difuso ou passível de ser interpretado como gostaríamos que este fosse, muitas das vezes de forma tendencialmente enganadora, que nos proteja de uma realidade que teimamos em ignorar. É por isso que sofremos com a visão da dor, no vislumbre das nossas próprias vidas ou nas vidas e histórias desfavorecidas de outros. É por isso que, da mesma forma e do epicentro da experiência oposta de alegria extrema, vertemos lágrimas iguais de energia contrária.
Mas estes são os olhos do Mundo, não os meus que experienciam reflexos adicionais. Reflexos do prazer que me dá olhar-te em celebração da tua vida. Nos momentos em que ridicularizas situações ou pessoas e te divertes de forma infantil simulando aquela voz compassada que te dá uma forma cómica aos lábios. Nos momentos em que os teus próprios olhos entram pelos meus, pela minha alma, sem pedir licença e em manifesta intrusão da minha vida, e me segredam baixinho a tua insegurança, na esperança que jamais a revele a alguém. Nos momentos em que dessa tua alma de castanho mel se soltam outras lágrimas quando te relato as minhas histórias, os meus medos e a minha própria insegurança, que também a tenho. Nos momentos em que vejo esses teus olhos absortos e perdidos quando reveladores da contínua e teimosa falta de cumplicidade por alguém que dizes amar.
Mas estes são os teus olhos, não os meus que te vêem ainda mais fundo no lacrimejar da tua alma. Que te devoram o corpo, te rasgam as roupas e te despem na intimidade, num gesto totalmente egoísta, intrusivo, quase animal. Que vêem e cheiram simultaneamente a tua silhueta assutadoramente bela e a tua pele que espreita em cada esgar do teu movimento, que me excita e me amedronta. É a minha alma que te vê aproximar naquele abraço e na sua justificação vaga. Que te vê por dentro quando os meus olhos se fecham e absorvem todo esse sabor do nosso contacto que, sei-o, será sempre curto e fugaz até ao dia em que permitamos ter-nos por completo, na partilha da luxúria e da visão que já fantasiámos.
Vejo-me em ti e não me confunde a nossa sintonia. Acho que as nossas almas, os nossos olhos, se adaptaram simultaneamente à necessidade que temos um do outro, tal qual as suas íris se contraem e expandem perante a intensidade da luz. É da nossa luz que nos alimentamos e saciamos a alma, conscientes de que muito mais saciaríamos se nos deixássemos controlar pelos olhos. Pela alma que já partilhamos, sem que percebamos bem onde errámos. Porque errámos. Errámos se por alguma vez pensámos que nunca nos poderíamos ter. Espero que sejamos sinceros ao ponto de admitir que nos mentimos diariamente, pois desejamos e queremos tudo aquilo que negamos.
Mas estes são os meus olhos, não os teus que preferem contar a verdade de uma forma muda, numa linguagem apenas decifrável pela intensidade do teu olhar. Olha à tua volta e vê como te olham. Se da forma como preferes ser olhada, ou de acordo com aquela que consideram ser a visão adequada do Mundo e das existências singulares das pessoas. O teu olhar é inteligente e dissecará e interpretará qualquer brilho das suas almas, sejam estas vagas, dependentes, acomodadas ou apenas almas, na sua simplicidade visível. Olha e olha-te. Terás que orientar-te pelo alcance da tua visão e do quão longe esta chega na linha do horizonte. Porque aí distinguirás a tempestade que se aproxima ou o dia radioso que celebrará e abusará da tez da tua pele. Olha e olha-te, em cada uma dessas situações. E a visão que tiveres, porque acreditas em sinais, materializar-se-á sob a forma de lágrimas que te abandonarão e te farão sentir mais livre.
Vejo-te com os meus olhos. Com a minha alma. Mas vejo-te como és.
Mas estes são os meus olhos, não os teus.

domingo, março 01, 2009

Perfume

Escrevi um dia o "Só sei que nada sei mas tudo cheiro". Nesses dias, debatia-me com a procura de uma resolução para uma história que mal percebia. Alguém que ousava invadir a minha fidelidade perante a minha relação conjugal, usava de todos os seus atributos para me persuadir a tornar-me frágil e a deitar por terra os meus compromissos emocionais. Uma dessas armas de um arsenal bélico estrategicamente pensado, era o seu perfume. Um perfume que conheço de nome - o que, neste caso, é irrelevante - e cujo odor jamais esquecerei. Um odor que me assalta de novo e me faz tremer sempre que recordo vaga e parcialmente aquela situação. E tudo isto porque sou sensível a cheiros. Aos aromas que inundam a atmosfera onde cirandamos. Aos bons. Não sou tão sensível aos maus cheiros, apesar de estes me afectarem significativamente mais, mas pelas razões exactamente opostas. E se encontramos nas flores os odores naturais que lhes enfatizam as cores e enobrecem a existência, não menos impactantes (para mim) são os odores laboratorialmente engendrados, testados e que depois invadem o nosso espaço ostentados num pescoço ou pulso de mulher. É destes perfumes que falo e pelos quais me sinto violentamente afectado sempre que inspiro brevemente as moléculas que se soltam à passagem dos corpos de quem os usa. Note-se que não me refiro a quaisquer pessoas que usem um bom perfume. Apenas a algumas, claro está, e do sexo feminino. A algumas mulheres que aliam a sua beleza natural a um cheiro perfeitamente adaptado à sua imagem e carisma. Cheiros adocicados em mulheres meigas e altruístas. Cheiros florais e silvestres em mulheres independentes. Cheiros de especiarias e madeira em mulheres de personalidade forte e inequívoca. Cheiros mesclados em mulheres indecisas e de baixa estima. São estes cheiros que exercem sobre mim um poder maquiavélico que me desfoca na lucidez exigida para o desenvolvimento de saudáveis relações humanas. Pessoais ou profissionais, quaisquer que sejam. São estes cheiros que adormecem o tom da minha voz e que a enbargam em vocábulos desafinados. São estes cheiros que me inquietam a postura e me fazem mexer na cadeira do meu gabinete. São estes cheiros que me toldam e contagiam a mente em fantasias desenfreadas e cujo reflexo condicionado tem repercursões ao nível do meu sexo. São estes cheiros que me levam a arriscar uma postura ofensiva e de quase assédio quando me lanço sobre o teu pescoço. São estes cheiros que acabarão por me guiar em decisões infundadas e pouco esclarecedoras. E são estes cheiros que, por tudo isso, inalarei até ser feliz.