sábado, setembro 10, 2011

Não sei


Não sei bem o que sinto, mas não é bom. Algo em mim flui em
sentido contrário do habitual. Absorvo amor de qualquer humano que me não
despreze ou ostracize. Abro-me porque acredito que me farei mais rico e
apaixonado por uma vida que me tem sido madrasta. Mas agora não. Sinto algo que
flui para longe, que me vai deixando, pouco a pouco. Perceberei-o pelo nome,
concerteza.


Sempre acreditei que a humanidade é uma dádiva que não
devemos cobrar. A reciprocidade implica transação, o pagamento em sentido
inverso ao que damos ou recebemos. A humanidade não. Contribuiríamos,
descomprometidamente, para um Mundo melhor se não esperássemos que o Mundo nos
devolvesse em fortuna ou vitalidade aquilo que pudemos dar aos outros e que os
tenha mudado, de alguma forma.


Porque penso então que, no amor, tudo é diferente? Porque é
que em mim se justificará a reciprocidade? De sentimento, de expectativa, de
presença? Não o sei, mas sinto-o. Sinto que amo mais do que sou amado. Sinto
que vou mais do que sou visitado. Sinto que me incomodo mais com a dor alheia,
que a minha dor é entendida ou notada. Sinto que ouço e penso, quando alguém
apenas me ouve. Sinto que dou e pouco recebeo. Sinto que verto lágrimas de
preocupação, que nos outros secam pela sua escassez. Sinto que me dou, quando
ninguém mo merece.


Talvez o fluxo que me abandona seja a esperança de que o
Mundo possa, algum dia ser justo, aos olhos da minha justiça. Talvez seja o
amor que quero dar e que sempre me questiona, quando o ofereço. Talvez seja a
minha última existência que, de tão insípida e inócua se mostrou ser, por ter
ganho na batalha desleal com tudo o que eu era, me liberta agora, jocosa e
triunfante, em busca de outro ser vivo, enérgico e estimulante.


Que a libertação me conduza a um melhor homem que posso ser
e que um dia fui.



Sozinho


Sozinho,


Farei dos cantos companhia


Num abrigo que me fala em sussurro


É o vento, afinal.


Sozinho,


Farei das tripas, coração


E do peito apertado emerge um peso


A liberdade, ansiada.


Sozinho,


Como o poeta diz estar


Mas nas letras se expurga e condena


Até que o amor passe.


Sozinho,


Entre os poucos que se importam


Nem ajuda nem desígnio


Melhor assim.


Sozinho,


Em estado de alma penada


Corpo inerte, prostrado e frio


O amor vai fugindo.


Sozinho,


E com tanto para dar


Prometo-me não mais desperdiçar


Em quem o não quer.


Sozinho,


Olho-a e vejo nela o que sou


Apenas tua vales a pena, meu amor


Na tua companhia, sozinho


Deixo de estar.


domingo, julho 24, 2011

Mafalda

Não é uma declaração de boas-vindas, uma despedida, um acontecimento
histórico ou uma passagem bibliográfica que o pai queira deixar para o futuro.
O teu ou o nosso futuro. É apenas uma tentativa de repor um erro que cometi ao
não ter-te escrito antes. Desde que nasceste que to tenho prometido: agora
cumpro-o. É possível que demore alguns anos até que entendas completamente o
que aqui te escrevo. Basta pensar que ainda irás aprender a ler e a escrever e só
depois de tudo isso poderás consegui-lo. De qualquer forma, ficam aqui estas
palavras, desde já. Lê-as quando puderes que nunca será tarde, e tira as tuas
próprias conclusões quanto ao número de coisas certas e erradas que arrisco dizer-te.



Não és apenas a minha filha. És um ser perfeito na tua
natureza e no teu corpo de 5 anos. És aquilo que acredito ser a perfeição e a
justificação do Mundo, daquilo que me trouxe aqui. Por mais objetivos que possa
idealizar para a minha vida, és aquele que justifica que todos os outros sejam um
punhado de intenções para uma vida mais materialista, egoísta. (A razão porque
sou obrigado a ter esses outros objetivos: o teu bem estar. Mas vale muito a
pena.) És uma espécie de bússola que orienta os meus pensamentos e me leva a
direccionar os passos que dou, a toda a hora. És o sorriso sincero que nasce na
minha expressão, quando te aventuras em raciocínios próprios para a tua idade.
És o aperto quente do amor, quando te contemplo no teu sono sincero e merecido.
És todo o meu medo que não sejas perfeita à imagem que criei para ti, mas que
está errada. Essa imagem é a ilusão de um crescido que pensa ser capaz de
defini-la como correta. Que sei eu da vida, filha?



Quero dizer-te que tenho medo que cresças. Que os anos te
tragam a capacidade de me julgar como um pai menos perfeito, mau até. Um pai
ausente por vontade própria, pois é minha, só minha, a culpa do que não deu
certo e de não poder estar ao teu lado todos os dias. De levar-te à escola
durante a semana, de abraçar-te e dar-te miminhos ao final do dia quando chego do
trabalho, de colar cromos de princesas nas tuas cadernetas, de pentear as tuas
Barbies, de dar-te banho antes do jantar ou um beijo doce quando te deitas para
dormir. Mas já falámos sobre isso. O pai tem muitas saudades de fazer todas essas
coisas contigo e gostaria de poder fazê-las sempre, mas às vezes os crescidos
não se dão bem e deixam de querer ser casados e de viver uns com os outros. E
foi isso que aconteceu com o pai e com a mãe. Sabes que o pai e a mãe ficaram
muito amigos um do outro e continuam a estar contigo quando é possível estarmos
todos juntos, os três. Mas porque isso não é possível sempre, decidimos fazer
aquilo que achámos ser melhor para ti: tu vives na casa da mãe – essa é a tua
casa – e estás com o pai aos fins-de-semana e sempre que o pai vai jantar
contigo às quartas-feiras. E vendo bem as coisas, até tem sido divertido assim!
E tu também adoras Lisboa ao fim-de-semana, tal como o pai!





Quero dizer-te, primeiro que tudo, que acho que deves amar a
tua mãe com a mesma cumplicidade com que deixas que ela te ame e te ajude a
crescer, todos os dias. Tornaste-te uma vaidosa, uma “gozona”, brincalhona e
até fútil, por vezes, mas essas não são obrigatoriamente coisas más. São
características humanas inatas que se apuram ou extinguem com o tempo e as
lições da vida. Tens tempo para decidir como queres ser e que ninguém ouse
privar-te desse direito. És ainda criança, com idade para que nada justifique
julgar-te, apenas sorrir com essa ingenuidade e pureza tão ricas. Eu, teu pai,
é que sou um crítico “por natureza”, e nem sempre me lembro que a minha própria
natureza já se moldou a um conjunto de defeitos que trago comigo no dia-a-dia, desde
que acordo. São defeitos, filha, tão difíceis de mudar, que reconheço, apesar
de me atormentarem a toda a hora, a todo o momento, principalmente naqueles
fins-de-semana em que estou contigo e me ouço a gritar-te para que te “portes
bem” ou te puxo pelo braço para te dar uma reprimenda desnecessária e, quase
sempre, inoportuna. Do que vale pedir-te desculpa, se eu próprio, adulto, ainda
estou a crescer?!



Não te sintas triste quando a vida te pregar algumas
partidas. Vai acontecer bastante, até que um dia, muito longe, fiques velhinha
e pregues tu uma partida à vida, abandonando-a. Vais conhecer amigos que te vão
deixar triste porque também eles vão errar quando te magoarem e te apresentarem
aquilo que sentirás como desilusão. Mas serão esses mesmos amigos, e outros,
que te proporcionarão os momentos mais felizes da tua vida.



Vais ter namorados de quem vais gostar muito mas que,
perceberás então, não são os namorados que queres ter. Mas serão alguns desses
namorados, talvez um apenas, que vai querer estar ao teu lado por toda a tua vida
e pedir-te para que o deixes fazer-te feliz. Deixa que isso aconteça. O amor é
o sentimento mais difícil de encontrar. Não te consigo dizer como é o amor,
pois essa é também parte da sua beleza: é diferente e aparece de forma
diferente, a cada um de nós. Mas posso garantir-te que vais reconhecê-lo quando
aparecer. Não o procures desesperadamente, deixa que seja ele a encontrar-te.



Vais ouvir muitas pessoas dizer-te que tens de estudar, ir
para a universidade, para que possas ter uma boa vida. Não acredites numa única
palavra que te disserem. Se o quiseres, se for essa a tua vontade, acredita em
algumas destas e fá-lo. Mas tenta sempre ser – e apenas - muito boa naquilo que
decidires escolher para ti e para a tua vida. Mas se não sentes que é isso que
queres, posso garantir-te que existem muitos caminhos, muitas conquistas e
muitas experiências que serão muito mais importantes para ti que um simples
papel (chamam-lhe “diploma”) que te vai chamar um nome que não é o teu. Deverás
ser sempre tu a escolher o que queres ser ou fazer na tua vida, repito. Aceita
alguns conselhos; são bons e evitar-te-ão alguns dissabores e tempo perdido.
Mas outros, ignora-os. Certamente vais perceber e sentir, dentro de ti, as
diferenças entre estes.



Vais ter momentos em que te sentirás triste. Não vais
conseguir explicá-lo bem, quais as razões para que isso te aconteça, a ti que
até és “feliz”. Não te preocupes. São apenas outras partidas que o nosso
organismo nos prega. Somos feitos de milhões de coisas físicas e químicas e,
por vezes, também estas se desiquilibram e nos fazem cair. É muito parecido
como quando tentamos equilibra-nos em cima de um muro e sentimos um misto de
aventura, de perigo e de vontade de perceber como vai acabar esse desafio. Já
sabes que um joelho com uma mazela e que deita um bocadinho de sangue ou uma
nódoa negra na canela, não são tão maus assim. Doem, mas depois passa. Também são
assim estes momentos tristes. Passam depressa.



Vais ter outros momentos em que te sentirás perdida e
assustada. É parecido com aquelas situações em que, quando andamos a passear em
sítios com muita gente, tu deixas a minha mão porque te apetece correr ou ver
qualquer coisa numa montra de uma loja, e depois quando olhas para trás, não me
vês. Mas o pai está a ver-te e nunca te perde de vista. E eu chamo-te, tu
vez-me e ficas feliz de novo e o susto já passou. Também é assim a vida. Por vezes
não sabemos que escolhas devemos fazer ou que caminhos seguir, porque não
adivinhamos o que é que vai acontecer. E depois perdemo-nos daquilo (e daqueles)
que conhecemos e isso assusta-nos. Mas há sempre alguém que está a olhar para
nós, que não nos perde de vista. Pode ser um amigo ou uma amiga, a mãe, o pai,
o teu namorado ou até mesmo uma pessoa estranha ou que não conheças muito bem.
Essas pessoas ajudam-nos a tomar decisões, fazem-nos ver que, muitas das vezes,
aquilo que achamos que está certo pode não ser correto ou que, pelo menos, tem
uma maneira diferente de ser entendido. E essa é outra das maravilhas da vida.
As coisas têm muitas interpretações diferentes. Algo que te faz ficar triste,
pode também ser uma grande lição para que valorizes mais todas as coisas que te
fazem ficar feliz; algo que te magoa, também te ensina que não deves repetir
para não te magoares de novo. Por outro lado, também pode acontecer, por
exemplo, que estejas muito feliz por possuires algo e, no momento a seguir,
perdeste essa coisa. As coisas funcionam desta forma esquisita. Ora são, ora
não são. Parece complicado, mas é mais simples do que parece. Basicamente, tudo
acontece assim porque não há verdades absolutas. Se bem que isso nos possa
baralhar, é também bastante importante para que queiramos sempre saber mais,
aprender coisas novas, fazer coisas diferentes, querer ir mais longe, para
estarmos mais bem preparados no momento em que as “coisas esquisitas”
acontecem.



Vais também ficar surpreendida com outras coisas que vão
acontecer. No teu corpo, por exemplo. Dentro e fora dele. Nunca tenhas medo nem
vergonha de perguntar nada, o que quer que seja. Se não compreendes, pergunta.
A tua mãe, eu, a tua avó ou a tua tia, uma amiga ou um amigo, têm respostas
para te dar e ajudar a compreender. O teu corpo vai mudar, adquirir novas
formas. Isso quer dizer que estás a crescer, a tornar-te menina, depois jovem (como a Marta, dos Morangos com Açúcar, de quem tu tanto gostas e que emitas a
cantar, por exemplo!) e finalmente mulher. Vais ouvir alguma destas pessoas
falarem no período, na vagina, no pénis, no sexo, no fazer amor, na gravidez,
no aborto e em mil outras coisas mais. São tudo conceitos e coisas muito
simples, que vais entender porque todas estas pessoas estarão ao lado para te
ensinar e apoiar. Como sabes, é bom ser criança, mas crescer permite-nos
aprender coisas novas, brincar a coisas diferentes e igualmente divertidas. E a
vida é maravilhosamente divertida!





Não vale a pena escrever-te muito mais coisas. Porque sei
que vou poder dizer-tas sempre, quando estou contigo ou quando falamos por
telefone. Mas tinha-te prometido que o faria, e fi-lo. Lembro-me que estavas
deitada no teu berço ao lado da cama da mãe, ainda na maternidade, e tinhas
acabado de completar o teu segundo dia de vida. Ouviste-me com os olhos semi-abertos,
não me entendeste, mas sinto que me entendeste. Afinal de contas, és a minha filha, aquela que já entende tantas coisas e aprende a entender um bocadinho mais,
todos os dias. Por isso, sei também que entenderás estas palavras quando as
puderes ler e refletir sobre elas. Julgar-me-ás como quiseres, mas sei que o
farás com amor. Porque me conheces e conhecerás cada vez mais e melhor. Pois
também isso consegue o amor: que entendamos quem amamos e que os julguemos com carinho, compreensão e um pouco mais de amor.





O teu pai.



terça-feira, julho 05, 2011

Sair a Perder

Não há livro que me diga
Ou palavras que me alentem
Não há frase que me salve
Carpideiras que lamentem
É cá no fundo que entendo

Todo o tempo que perdi.

Não há metal que me queira

Ou folhinhas de papel
Não há ouro, prata ou bronze
Romances de cordel

Em tudo o que toco expulso
Um suspiro de vida.

Noves fora nada de tudo

Regra de três simples passos
Imergir sem querer

A respiração suster
E quem tocar no fundo,

Vai sair a perder.

Não me dizem como acaba
Ou sequer se continua
Não há luz que sempre dure
Em beco escuro de uma rua

Às vezes desfaleço

E acordo sem recordar.

Não passa tempo até que volte

Ou que me tire da cama

Não a convidei a entrar
Atira-me a força à lama

Sei que vai ter fim, é certo
Resta saber se vou lá estar.

Noves fora nada de tudo

Regra de três simples passos
Imergir sem querer

A respiração suster

E quem tocar no fundo,
Vai sair a perder.



sábado, novembro 27, 2010

Adeus

Abri a porta do quarto e logo o gato assomou ao meu encontro, serpenteando por entre as minhas pernas. Vou sentir saudades que me aqueças os pés à noite Cat, disse-lhe, e pressenti que me entendeu por entre aquele olhar fixo com os bigodes brancos a penderem das bochechas. Esgueirou-se pela porta rumo à cozinha, agradecendo a liberdade. Pousei o envelope sobre a almofada que repousava na cabeceira da cama, do lado onde a minha mãe dormia. Vi a minha caligrafia. “Mãe”. Aos pés da cama, repousava a saia que lhe dera no Natal anterior, passada a ferro de forma imaculada, tal como ela gostava.

A porta do quarto do meu irmão estava aberta; uma janela com vista para aquele sítio lúgubre que ele teimava em chamar “toca”. Costumava dizer aos meus pais, naquele tom irónico de adolescente que sabe tudo, que eles nunca entrariam numa toca que encontrassem algures, que “nas tocas há bichos e quase todos os bichos mordem!”, largando aquela sua gargalhada estridente, enquanto o meu pai entreolhava a minha mãe com aquele semblante desconsolado pela juventude idiota que lhe levara o filho. Da mesma forma deveriam fazer com o seu quarto; não entrassem sem ter a certeza que nenhum bicho os morderia, e ria-se de novo. Em dias em que lhe apetecia falar, a maioria das vezes à hora do jantar, ainda se demorava a explicar que a desarrumação de que o acusavam não era mais do que a sua própria interpretação de um espaço de culto às bandas e músicos que idolatrava e que pendiam nos posters, de olhar sisudo e intemporal. Porque “a mãe também usava a marquise para ter a estátua da Nossa Senhora!”, aquele meio metro de gesso pintado a guache de prata e ouro, água, goma-arábica e mel, nada mais, e que ninguém dizia nada. A minha mãe ainda se deixava magoar por aqueles modos e repreendia-o sempre da mesma forma: “que Deus Nosso Senhor não te castigue!”, e baixava os olhos para o prato, pigarreando algo mais que já nenhum de nós conseguia ouvir.

Pousei a carta sobre a almofada amachucada, amarelada pela baba, achei má ideia e voltei a pousá-la sobre a mesa de cabeceira, junto da caixa do aparelho para os dentes. Ali certamente a veria. Senti o cheiro pesado do quarto, dos cigarros que fumava à janela sem os meus pais verem e que depois lançava, já beatas, para as traseiras do prédio. Pensei em abrir a janela para a luz entrar, deixar correr uma ponta solta de ar que arrastasse aquele bafio húmido que parecia alojar-se nas nossas narinas durante dias. Para quê? Certamente me acusaria da mesma forma que o fazia aos meus pais. Vive aqui como um porco, miúdo idiota, pensei. E saí.

A água ultrapassava já a banheira pela metade, e o vapor apagara todos os reflexos do espelho. Abri o armário e tirei o frasco. A minha mãe escondia-o por trás das caixas dos tampões, dos meus e dos dela. Tenho a certeza que o fazia mais pela vergonha que sentia de si própria, por saber-se dependente para toda a vida daquela bengala para adormecer e conseguir repousar aquelas quatro horas por noite. Certinhas. Os olhos abriam-se-lhe por volta das seis da manhã, nem que os tivesse cosido com agulha e linha. Aproveitava aquela hora antes de o meu pai despertar ao som daquele zumbido irritante com ponteiros, para lhe preparar a roupa que este levaria para o escritório. Todos os dias. E todos os dias sentia que cumpria com o seu papel de mulher que já não ama mas cuida. Que já deixou de sonhar para que os outros vivam.

Despi o pijama e senti o coração bater-me na boca. Quase não tive tempo para levantar a tampa da sanita e vomitar o pequeno-almoço. Pelo menos assim estaria com o estômago vazio e nada atenuaria o efeito. Levantei a cabeça, corri a mão no espelho e sacudi a humidade onde me olhei e me vi, pela última vez. Os meus olhos disseram-me as horas que não dormi na noite anterior; o meu cabelo desgrenhado contou-me a história de uma jovem que não gostava do corpo onde vivia. Vi o meu queixo tremer mas jurei, de novo, que nada mudaria. A decisão estava tomada e não era agora que ia chorar, pois secara todas as dúvidas e remetera ao silêncio toda a dor.

A água morna lambeu-me do pé ao joelho e quando me sentei e recostei na banheira fria, lambeu-me o resto do corpo, até ao pescoço. Na mão direita pendia o meu fim. Tão fácil. Tão simples. Tirei a tampa branca e ouvi aquele telintar, como se fossem moedas em forma de smarties. Branquinhos e pequeninos, parecidos com a pílula que tomei durante um ano e que deixara o mês passado porque me faziam explodir as mamas. Fechei a torneira e voltei a procurar a posição que parecesse menos dramática quando me encontrassem. A minha mãe deixaria cair os sacos das compras. Agarrar-me-ia, num choro convulsivo, num pranto agonizante e gritaria. Talvez os vizinhos acudissem. Quando conseguisse, refeita do que quer que fosse a sua angústia, ligaria para o escritório do meu pai. O meu irmão saberia depois. Talvez o meu pai o fosse buscar à escola.

Coloquei-os sobre a língua, deixei que as minhas costas deslizassem um pouco e que a água me chegasse à boca. Engoli-os devagar, porque não tinha pressa. A minha mão deslizou e perdeu-se por entre as minhas coxas. Toquei-me pela última vez mas não me vim. Ouvi a minha respiração perder a força ofegante que, segundos antes, acompanhavam o ritmo dos meus dedos a entrar em mim. Estava tão calma e senti a paz. Era isto a paz, concerteza. Encostei a cabeça à borda e ouvi o chapinhar suave do meu corpo na água enquanto me punha confortável. Uma gota atirou-se do alto da torneira e fez ploc. Fechei os olhos. Se calhar, adormeci.

sexta-feira, novembro 26, 2010

Sede

Pousei o copo ao meu lado e fiz dele companhia. Mais uma vez, e como tantas outras vezes, admiti que tivesse sido este o único amigo que tive durante muitos anos. Olhei-o de soslaio e amaldiçoei este amor doentio que grassou durante anos na minha existência ausente, ambulante e procrastinada. Um amor que me tolhera a vida por mais tempo do que aquele que preferia admitir, a vida que quis ter e que há muito havia adiado a troco de quase nada. Ou de quase tudo, porque é de abundância que são feitos os amigos. E era este o meu amigo, o único amigo que tive durante muitos anos.

Levantei-me e estiquei as pernas entorpecidas pelo frio ou pelas horas. Fiz frente ao rio e cheirei-o sem autorização. Olhei-o de novo e ainda ali estava. Meio vazio e nunca meio cheio, porque só existia a minha razão deprimida e pessimista. A emoção morrera sem merecer sequer a extrema-unção. Do outro lado da margem pareceu-me ver gente, mas eram apenas as sombras que lambiam a paisagem à passagem de uma nuvem teimosa. Inspirei de novo como que disparando a ignição do meu caminhar. Como se soubesse para onde ia quando saísse dali. Não sabia. Mas andei. Chorei a cada passo, em penitência, incrivelmente feliz pela brisa vil que me rasgava a cara, como unhas afiadas de gelo. Acreditei que daria os passos que quisesse e que o deixaria ali, entregue à sua fortuna de ser derrubado pelo vento ou recolhido por um funcionário municipal. Os pés doiam-me como se pisassem a minha alma penada. Uns miúdos brincavam com uma bola pontapeando-a contra o muro mal caiado. O som abafava os meus passos por entre as linhas disformes da calçada. Sem me lembrar, olhei para trás e vi-o de novo. Maldito vento que não sopra forte. Maldito sejas, filho da puta.

Levei as mãos à cara de repente, como que tentando apanhar as lágrimas que os meus olhos entornavam antes que se perdessem por entre as pedras e fossem esquecidas como tantas outras. Os movimentos pesavam-me o corpo, ou talvez fosse o contrário. Deixei-me estar por um segundo, resistindo à tontura que ameaçava derrubar-me. Abri os olhos por instinto, e equilibrei-me. Cerrei os dentes, fechei o punho e esmurrei-me por três vezes, com força, no lado direito. Senti o regresso da tontura e o afluxo de sangue ao queixo. Trinquei algo que me pareceu ume pequena pedra. Engoli-a sem querer saber, sentindo-a mentalmente a passar na garganta. Ofeguei rapidamente, de dentes e lábios cerrados, punhos tensos. Saltou-me o ranho pelas narinas, ou talvez fosse apenas a água que os olhos entornavam. Fixei o chão e segui as linhas disformes, desta vez para trás, em sentido contrário. Não ouvia o som da bola. Um zumbido no ouvido não mo deixava. Doía-me a cara. O meu olho direito parecia-me mais fechado.

Sentei-me ao seu lado e todo o medo se desvaneceu como que por magia, sugado pela calma que me invadia como uma mão de mãe que nos afaga o cabelo antes de dormir. A firmeza do banco. A amarra no cais. As algemas que unem em matrimónio duas mãos que se espelham e anuem perante as suas diferenças, até que a chave as separe. O meu dedo toco-lhe o rebordo e surpreendi-me pela delicadeza do gesto. Já não tremia, talvez por isso. O plástico fresco. A humidade gotejante. O ouro líquido, inerte, até meio. Abracei-o com a minha mão e levei-o à boca. Sôfrego, bebi-o de um trago. Um gole que libertou o sangue que as minhas veias haviam barrado. Inspirei e senti a minha vida de novo. Sabendo, muito bem, que nada mais era que a epifania da minha morte.

sexta-feira, julho 30, 2010

Sombra

De onde estou não se vê céu

Está tudo escuro como breu

Sei que me perdi

Tenho vontade de viver

Mas não me consigo mexer

Sei que não vou sair daqui

A parede fria traz-me à razão

Quero dizer sim mas sai-me um não

E à sombra ofereço a escuridão

Fui mal-amado mas feliz

Tive tudo o que sempre quis

E deitei tudo a perder

É estranha a forma como pomos

A vida em causa porque somos

Cegos e duros de roer

E um dia o sol não nos visita

Vai sem aviso e ninguém grita

Que o Mundo vai desaparecer

Escolhe-se então viver à pressa

Mesmo que ninguém reconheça

Que nada se quis aprender

O tempo pára à minha volta

Cai-me da mão a ponta solta

E à sombra ergo a solidão

terça-feira, julho 27, 2010

Perfection

There´s no such thing as perfection. Perfect.

Escrever

Escrever é decidir errar sem dar erros.

sexta-feira, junho 11, 2010

Límbico

São estados de espírito perigosos. Haverá explicação para querermos deitar tudo a perder quando tudo teríamos a ganhar se a estes não nos vergassemos? A minha intermitente - mas sempre teimosa - racionalidade dir-me-ia que não. A minha emoção que sim. Estúpida e inútil emoção que, sem qualquer justificação, pertinência ou mesmo permissão, se aloja e acomoda como se viesse para ficar de vez. Estou muito farto de ti, mas sem ti não posso viver. És aquilo que me faz amar, mas que perigas o amor daquela que amo. És aquilo que me faz chorar quando me lembro dessa mulher, mas que depois consegue esculpir na minha cara aquele ar sisudo, taciturno e infantil, digno de um adolescente mimado e embirrante e não de um homem convicto e irremediavelmente maduro, que a afasta sem justificação. És aquilo que me move, mas és igualmente o torpor que me consome e me remete à imobilidade. És tudo, e és nada.

Por tudo isto e por muito mais que poderia dizer-te, odeio-te. Mas também te amo. E dessa dicotomia, desse paradigma disfuncional e psicótico que me assola neste preciso momento, pelo menos retiro algo: um agradecimento. Um agradecimento por me permitires voltar à minha racionalidade sempre que decido esquecer que és a maior parte de mim. Nesses momentos, depois de me sujeitar à tua tortura que me derruba e me deixa prostrado, decido odiar-te, e é então que algo de magnífico acontece: decido procurar ajuda. Levanto-me, sacudo a terra que imunda as minhas roupas como que a querer marcar-me na lembrança tudo o que devo guardar no meu buraco consciente, e saio pela porta fora. Não tens de saber que não vou mais além que ao fundo da minha rua e que depois volto, cabisbaixo, rendido ao facto de que até a minha racionalidade me prende no meu feudo do tamanho de um quintal. E é nesse momento que percebo que é esse ódio que por ti nutro e tento fazer crescer a cada segundo que passa, que me faz ainda pior a mim e dá mais força às tuas maquiavélicas estratégias para me aniquilar. Percebo também que jamais conseguirei encontrar ajuda longe, pois é bem perto de mim (ok, é mesmo em mim…) que a encontrarei. Qual ajuda qual quê?! É pois um agradecimento que, alguns minutos volvidos, deriva num tipo de amaldiçoamento que te faço. Pena não estar a conseguir fazê-lo com clara eficiência, pois continuas a cirandar por aqui, dando-me a mão para me levantares e derrubando-me logo de seguida. Talvez seja uma questão de eficácia e é a coisa certa que não estou a vislumbrar. O que quer que seja, ainda não o consegui. Mas não zombes de mim. Não penses que escaparás sem que te dê luta séria e vigorosa. Claro que a razão que me ilumina em tudo o resto que sou na vida, é mais fraca que tu. Aliás, o seu corpo cada vez mais forte e tonificado, ainda não disfarça os traços da criança que é, uma criança que não excede em tamanho a largura de uma das tuas garras. Mas esta criança está a crescer e goza de esperança de vida considerável. Em breve estará do teu tamanho, porque não apenas ela crescerá naturalmente, como tu definharás progressivamente, vítima da indiferença a que te remeterei e à ajuda das crianças mais adultas que grassam nas mentes daqueles que amo e respeito. Estás condenada, escreve-o. De ti roubarei o teu melhor, e o teu pior nada mais será que uma raíz sub-nutrida à qual não ofertarei sequer uma singela gota de água. Secará e morrerá e apenas o melhor de ti ficará. Em mim. Para que possa amar aquela mulher, para que possa chorar quando dela me lembro, para que me possa mover como outrora fiz. E então, nesse preciso momento, terás mesmo de viver, lado a lado e sem quaisquer preferências tendenciosas, com a minha razão. Terás que com ela partilhar cama e roupa lavada, comer à mesma mesa, passear de mãos dadas pelos quintais que decidirmos invadir em busca de aventuras. Seremos uma família. Equilibrada e feliz. Invejados por outros, mas nunca por nós próprios.