domingo, maio 31, 2009
O Anjo e o Trovador
Um trovador das mais belas histórias de amor
Às mulheres que amava as dedicava
Tocava-as baixinho e deixava-se chorar
Ela era a mulher que sabia ouvir
O seu mundo era feito de nada
Da dor dos outros estava farta confessava
Sonhou o seu futuro e teve de partir
Ele sentou-se ao piano e rogou a Deus mais uma vez
Porque mal o condenava nesta sua sina
Mais uma noite entre bêbados e putas
Ter nascido só e só poder morrer é pecado talvez
Ela entrou em busca de abrigo e sopa quente
O frio e a chuva lá fora fustigaram-lhe a razão
Largou a mala e foi como se ao Inferno descesse
Olhos cansados ao que lhe destinava o presente
Encostou-se ao balcão, pediu um quarto e água
Tinha moedas que chegassem, quis fazer valer
Riram-se na sua cara e troçaram do seu traje
Seria puta se o valesse e sem vintém ou mágoa
Chorou, ajoelhou-se e quis regressar
O mundo dos homens era cruel bem lho disseram
Ferida de orgulho, ninguém lhe daria conforto
E nenhum homem iria mais lhe querer pegar
Sentiu-o acima do seu ombro, quente e forte
Olhou-o, prostrada, e acedeu a dar-lhe a mão
Ergueu-a como se de um trapo se tratasse
Não a deixaria por nada, quanto mais à sua sorte
Envolveu-a com o seu casaco e abraçou-a
Encostou-a a si amparando-lhe a fracas forças
Os olhos dela brilharam tristes pela sua piedade
E nesse momento único, ele amou-a
Gritaram-lhe insultos por ser pago para tocar
Olhou-os com ódio e desdém que a todos calou
Abriu a porta da espelunca e a rua esperava escura
Não mais ali, sabia-o, ia voltar
Percorreram as vielas imundas, de cheiro a mijo e lama
Só as luzes da cidade davam vida às sombras de ambos
Ela tremeu e quis chorar e chorou
Ele prometeu-lhe tudo ir correr bem, o seu quarto, a sua cama
Como um pai que ama o seu filho, deitou-a e despiu-a
Limpou-lhe a sujidade que a viagem lhe dera ao rosto
Num pano quente moldou a mão que a acalmou
Em posição fetal a deixou e pelo sono profundo seguiu-a
Deitou-se a seu lado e agradeceu a Deus a ironia
Pelo que rogara pediu perdão e jurou eterna fé
Só dele poderia vir tamanha bênção em forma de mulher
Amava-a, por ela tocaria baixinho e choraria
Dela nada sabia e soube que sempre a esperara
Por tudo o que viveu, nas noites de solidão e quase morte
Um anjo que cruzara agora o seu caminho ermo
Deu-se a salvar em vida e a sua vida salvara.
Virtude
Com a mão cheia de novas incertezas
Embora tudo esteja igual
Vou pensar que é mais um dia e vou conseguir mudar
Que renasça em mim a força
Para combater o teu mal
E sonho que chegou a hora que vou querer recordar
Todos vão vê-lo nos meus olhos
E querer saber porquê
Nas perguntas porque o fiz e se fugi
Partilharei em silêncio e sem rancor
Quem não sabe é como quem não vê
Porque não quis, porque me cansei
Porque é um facto que só eu errei
Porque respondo sempre que nada sei
É o meu registo e todos me conhecem
Sou o livro aberto que todos querem ler
Mas ninguém quer comprar
Chamam-lhe a escolha que aos fracos protege
Eu digo apenas que sou normal
Sou livre de escolher que não te quero amar
Porque não quis, porque me cansei
Porque é um facto que só eu errei
Porque responso sempre, mesmo quando não sei
Já não se trata de uma escolha
A decisão está tomada
Encerrei mais um capítulo
Da minha jornada
Já não é “vamos tentar?”
“Pode ser que tudo mude…”
Desta vez respondo eu
“Esta é a minha virtude!”
Porque não quis, porque me cansei
Porque é um facto que só eu errei
Porque responso sempre e desta vez eu sei
quinta-feira, maio 28, 2009
Meet my John Doe
Drinking his Bud, cigarette burned fingers
Gasping his life in stinking breathed moaning
Lifeless meaning of being alone
Thirty dollars paycheck daily recognition
A hooker, smoky pool tables and a red beans meal
Back to the trailer with nothing but sadness
Meaningless fortune of being alone
When a man gets to cry like a baby
Insecure in all his dreams and thoughts
The sky turns black, the moon turns grey
His life runs out in just a blink
And raindrops fall like broken hearts.
Reborn
With no excuses or invite
Didn´t need an explanation
She was just there
I didn´t need to fight
More than just a friend
I felt her like a blessing
Even I didn`t deserve it
Or anything of a kind
No need for caressing
Got my inspiration back
My own image in the mirror
The reflection was there
And not any else where
Stories will be shared
Moments would last
Without even met
We know we´re meant to be
To support each other´s past
We´ll drink some red wine
Cheering the future with a smile
In our eyes there´ll be light
No darkness to reveal
Or sentiments to least a while
Got my inspiration back
My own image in the mirror
The reflection was there
And not any else where
Let´s get together in a journey
Our lives were built to last
Now the chains are left untied
No more rules or guidance
Will makes us run too fast
You´ll find me in a quiet place
Dreaming my future like a child
In a sleep built from what I lived
I am awaking with a lullaby
I wasn´t born to grow up wild
Got my inspiration back
My life is worth the living
The words are making sense
No frustration from offense
Got my inspiration back
My own image in the mirror
The reflection was there
And not any else where
quarta-feira, maio 27, 2009
"T" de "Fim"
Em dia que soube poder viver
Perdi-me de sentido e razão
Fiz de mim próprio a cobaia
Dei-me sem medo do teu não
Falei-te da experiência
Nada se conclui sem tentar
Quis convencer-te, não sei se o fiz
Mas tive-te para mim
De uma forma que nunca quis
Foi bom, dissemo-lo até diferente
Mas falámos em futuro
E descurámos o presente
Sei que és assim
Tens de ter todas as certezas
Juraste não mais sofrer
Pegaste em papel e tinta
E quiseste entender
Remeteste-me ao teu “T”
Uma espécie de deve e haver
O homem certo de um lado
Mãos dadas com o sentimento
No lado oposto tudo de errado
Foi bom, dissemo-lo até diferente
Mas falámos em futuro
E descurámos o presente
Foi bom, tudo ainda por viver
Por ser real não foi aposta
Mas acabámos ambos a perder
Sei de cor
Sinto-te a meu lado em dias que vivo
Em dias que morro deixo-te sair de mim
Vou agonizando num estranho silêncio
Abro-me em portas que dão voz aos gritos
De tudo o que se escondeu com medo do fim
Vou-te amando porque não sei deixar de amar-te
Sei de cor a nossa história
Revejo-me envergonhado no meu papel
Mas não me lembro do caminho até aqui
Sei que quis ser guerreiro de capa e espada
Ganhei batalhas e enobreci-me com coragem
Mas as conquistas foram algo que esqueci
Vou-te amando porque não sei deixar de amar-te
Sei de cor os teus traços
Tivesse sido eu teu brilhante criador
Usando o carvão numa homenagem sentida
Desenhei-te vezes sem conta
Em cadernos da minha memória
Cujas folhas vou rasgando por toda a minha vida
Vou-te amando porque não sei deixar de amar-te
Vou-me afundando num mar de incertezas
Perco com a tentação pela tez dourada das minhas presas
Numa vontade pelo corpo firme e ignorando a alma esgotada
E vou-te amando porque não sei fazer mais nada
Vou-te amando porque não sei deixar de amar-te
I Wish I didn´t love you (upon a star)
For the first time in my life
I wish I didn´t love you
I just wish I could be a hall in the ground
Hiding no treasure, its key or secrets found
But just being alone
I wish I didn´t love you
For the first time I recall
I wish I didn´t love you
I just wish I could be a rock in the desert
Joining the rain or dust without any effort
But just being free
No words to describe the joy
On having to decide
Between me and you
Sorry love, I got my pride
I wish upon a star
I wish you can come back
I wish I didn´t love you
For all the things I regret
I wish I didn´t love you
I just wish I could have a moment to believe
Not feeling your gone as a relief
But just being ok
I wish I didn´t love you
For all the things left unsaid
I wish I didn´t love you
I just wish I could have time on my side
Not facing you´re someone else´s bride
But just being myself
No words to describe the pain
On having to live my own truth
This is not enough for me
Sorry love, but is it enough for you
I wish upon a star
I wish you can come back
I wish upon a star
But I won´t break my own neck
segunda-feira, maio 25, 2009
A Ferro e Fogo
Não há desculpa concreta que me fizesse adiar
Seria tarde para ficar à espera que em ti algo mudasse
Como esperar que a pureza, um dia, a verdade calasse
Este foi o teu dia e mais nada quiseste
Seria tarde para fugires de mim como da peste
Disseste-me o que querias e nada te custou
Pois de mil mentiras só soube que esta se adiou
Seria tarde, até para mim seria tarde
Eu que não quis o que devia
E dar-me num beijo que só eu queria
Seria tarde, para te mostrar como se faz
Dizer-te as regras do meu jogo
Em que só ganho
A ferro e fogo
Que o castigo me chegasse noutra forma de mulher
Feito de corpo de anjo ou de um demónio qualquer
Que me usasse em devaneios que me fizessem corar
Mais que tudo o que me deste e que acabou por me faltar
Que o castigo te chegasse de uma forma mais cruel
Muito mais que as palavras que te dediquei em papel
Tempo que te dei em vão e depois me faltou
Mal sabia que essa paixão sem se acender, se apagou
Seria tarde, até para mim seria tarde
Eu que não quis o que devia
E dar-me num beijo que só eu queria
Seria tarde, para te mostrar como se faz
Dizer-te as regras do meu jogo
Em que só ganho
A ferro e fogo
E agora para chegar ao fim,
vou ter que dar mais de mim
Vou ter de aprender a acreditar,
sem sonhar
Vou ter de aprender a viver assim
domingo, maio 17, 2009
Carta à Vida
Por vezes tu, Vida, "presenteias-nos" com situações para as quais jamais estaremos preparados. Um destes dias, fizeste-o comigo. E fizeste-o de uma forma abrupta, surpreendentemente assustadora. Insurgiste-te de forma maquiavélica e colocaste em perigo, em simultâneo, a vida de duas das pessoas mais importantes da minha actual existência. A da minha filha e a da (ainda) minha mulher. Quiseste tu, Vida, testar alguma das minhas capacidades de equilíbrio emocional pelas quais me regozijo? Terás tu, Vida, objectivado apenas o alertar-me para a inevitabilidade das coisas ou para a volatilidade da condição humana? Ou terá sido apenas "filha da putice" da tua parte, Vida? Não o saberei, pois estas tuas ameaças são lançadas - quais torpedos - de uma forma disfarçada, por debaixo de água, numa clara manifestação de uma estratégia bem montada mas igualmente cobarde e anónima. E perante esta estratégia psicótica de um inimigo de saciedade voraz, sem nome e sem cara como tu, Vida, quem levanta barreiras a tempo? A quem é dada a oportunidade de se preparar perante a inevitabilidade do teu ataque? Quiseste tu (e não estejas à espera que to agradeça, Vida) que não houvessem danos maiores e que os menores pudessem entreter-nos e fazer-nos esquecer a dimensão do alerta. A minha filha e a (ainda) minha mulher estão bem. As tuas cartas foram jogadas e a mão foi ganha com bluff. Ditou-se a sorte ao jogo e foi sacrificado todo o amor que tinha por ti, Vida, pois este é um sintoma natural que deriva da minha desilusão pelo facto de tudo não poder ser belo, pacífico e de uma serenidade que nos proteja de pensamentos maus. Agora, há que recuperar a confiança mútua. De ti, Vida, espero ser ressarcido com muitos momentos de calma e fortuna, que nos protejas (a mim e a todos os que amo) de todas as maleitas e infortúnios e que nos dotes da capacidade de viver por muitos anos. A ti, Vida, concedo-te a capacidade de seres o que queres e fazeres de nós o que desejares - se vieres por bem, claro está -, e anuio perante as tuas manifestações de força suprema que outrora, porventura, tenha tentado ignorar. Conviveremos não apenas porque o teremos de fazer, mas porque nos respeitaremos acima de toda e qualquer suspeita ou desconfiança. Sinto que nós, eu e tu, Vida, teremos razões de sobra para nos darmos a boas conversas ao serão, sempre que um de nós aparecer para cear. Nesses momentos, Vida, junto ao calor de uma lareira ou no leito em que todas as noites me deito, abordaremos tudo o que nos preocupa ou brindaremos à nossa amizade. E, Vida, jamais ignoraremos que existimos apenas porque isso, um ao outro, o permitimos.
quarta-feira, maio 13, 2009
"She´s a good girl..."
Saiu decidido, como se mais nada importasse. Atrás de si, a porta soou rude ao bater e quase que conseguiu imaginar os olhos esbugalhados da gentalha que ficou para trás quando ele abandonou aquele antro de laxismo. Pobres inúteis, deixados à sua mercê e dos devaneios da sua inércia. O sol mantinha-se escondido naquele fim de tarde sombrio, como que reflectindo a sua vergonha daquele Mundo e espreitando pontualmente por entre nuvens sem formas definidas. Enfrentou-o com um olhar cerrado e fechou as pálpebras, vendo-o apenas na escuridão. Precisava sair dali. Precisava agarrar-se a ideias boas, positivas, que lhe permitissem manter-se de cabeça erguida, armado com as suas convicções e fiel ao desafio que aceitou. Esforçou-se por sorrir, mas recebeu em troca a sua própria imagem agarrado àquela caneta, a escrever a verdade, como sempre o fez. Mas não devia ter feito. Pelo menos desta vez. Sabia-o com a certeza da impossibilidade do seu sonho se materializar em realidade; com a resposta que se materializou naquele papel após a sua, como sempre soube que aconteceria, mas que mais uma vez o desapontou; com o aperto súbito que sentiu no peito e que há muito não sentia, que catapultaram um par de lágrimas dos seus olhos que imediatamente secou com as costas da mão. A mesma mão que, horas atrás, havia sentido o toque quente daqueles lábios. "São várias coisas ao mesmo tempo..." pensou em voz alta enquanto rumava à sua vida presente. Não havia forma de priorizar o pensamento para a resolução de cada um dos problemas. Apenas um o atormentava agora, deixando que o outro se acomodasse à espera, como que dando cenário a toda a peça naquele palco de madeira velha e gretada pelo tempo. Enquanto aquele esperava - porque nunca desapareceria sem que lhe exigisse a devida atenção e tempo -, iria viver o outro, concedendo-lhe, mesmo que o não quisesse, as próximas horas, dias ou mesmo anos. E as suas palavras. As palavras que, sabia-o, iria escrever sob a forma de uma melodia mascarada ou de uma prosa angustiosa. "Porque me escolhem a mim os sentimentos intensos que ombreiam e medem forças com a minha luxúria?", questionou-se, sem grande esperança de encontrar dentro de si a voz da racionalidade que sempre apregoou junto dos outros. O refrão daquela música que ouvira vezes demais naquele dia, quebrou-lhe o raciocínio. A voz suja cantava uma experiência amorosa de queda livre que entendia, agora, na perfeição. Era assim que se sentia, à deriva na imensidão de um céu incolor, com o vento a fustigar-lhe a face deformada. Em plena queda livre, vertiginosa e rápida, rumo ao embate violento no solo. O verso daquela música tornava agora audível palavras ténues que relatavam os corações despedaçados de raparigas, sofrendo no silêncio das suas casas enquanto os responsáveis pelo seu sofrimento ostentavam, nas ruas, do alto da sua postura recta, uma total indiferença pelos sintomas do amor. Sentiu-se como aquelas raparigas mas desejou ser um daqueles rapazes. Tremeram-lhe as pálpebras mas segurou as lágrimas, sem pestanejar, até que estas se dissipassem numa humidade menos ameaçadora. De uma forma quase que masoquista, quis ouvir tudo outra vez. Esta seria mais uma vez e uma vez a mais, mas não a última. Quis que o aperto se intensificasse até que não coubesse mais dentro de si. Que explodisse para fora de si em mil fragmentos e o exorcisasse de uma vez por todas, ou que implodisse noutros tantos que escoariam para fora de si em algum sangue que tivesse que derramar. Uma dor menor para um mal maior. E ouviu mais vezes, sentindo que, tal como esperava, crescia dentro de si uma dor intensa e quente, aguda na forma como quase o esventrava. Sentia que o seu fim se aproximava e decidiu despedir-se dessa dor, antes que ela própria percebesse que estava perto de extinguir-se num último sopro de vida. Sorriu com sarcasmo e falsidade e quase se sentiu um padre em pleno acto da extrema-unção de um enfermo. A olhar a morte nos olhos, a conceder-lhe a vitória sobre a vida, naquele jogo injusto de forças desiquilibradas. Mas não aconteceu. Olhou para baixo e do seu peito nada saiu que se assemelhasse aos mil fragmentos de pó. E no seu peito nada implodiu pois não sentiu o seu sangue mais espesso com qualquer matéria que precisasse coar ou escoar. Apenas sentiu um inesperado esgar de serenidade e acalmia. Uma sensação de bem estar e bonança após o chorrilho de farpas. Precisou de sorrir e, de dentro de si, apenas se exalaram pensamentos bons, de celebração. Aquela espécie de imunidade surpreendia-o numa fase da sua vida em que achava que já nada o poderia fazer. Um sentimento que, em tenra idade da adolescência, era banal e constante, pelos motivos exactamente contrários. O sofrimento era, então, um precalço numa viagem longa da qual se conhecia apenas o início. Uma pedra nos carris que a roda esmagava impavidamente sem que se sentisse sequer o mínimo sobressalto. Mas agora, neste momento, do cimo da sua maturidade que a idade registava teimosamente, era surpreendentemente único e original. O sentimento era, nada mais nada menos que uma constatação de um privilégio. Um privilégio que provava a sua vitalidade emocional para voltar a sentir tudo o que sempre ambicionara sentir, uma vez mais. A paixão. Aquele sopro invisível e fresco e de força colossal que nos impele a dizer o que queremos, a quem queremos, as vezes que queremos e pelo tempo que queremos. Aquela chama inextinguível alimentada pela cadência acelerada da nossa respiração, que nos orienta por caminhos sombrios dentro de nós, iluminando-os para os não mais remeter ao silêncio do negrume. Era isso. Só poderia ser isso. O privilégio em vez da dor. A lágrima fresca em vez da existência miserável de não ser correspondido. A luz da verdade humana em vez do negativismo da não fortuna. Era isso. Sentira-o horas atrás no toque suave da pele e na dança dos dedos que se entrelaçavam em movimentos de amor, como corpos o fariam se dessem conta ao privilégio. Tanto, era tanto, ("Quero tanto...", também ouviu naquele dia) que o tão pouco da recusa do beijo nada fez para merecer importância. A importância que lhe deu mas que não dará mais. Porque isso é pouco mais que nada perante o privilégio de estar vivo, de sentir. De sentir-se forte para enfrentar tudo o que resta da viagem, sem precalços ou pedras nos carris. E sentiu-se forte, porque forte se torna quem falha e volta a tentar. Porque tinha os seus braços para desviar quaisquer precalços que o afrontassem e as suas pernas para pontapear quaisquer pedras dos carris. E a sua cabeça para o ajudar a pensar e a levantar-se após a queda.
E ouviu tudo outra vez. Do sofrimento das raparigas à indiferença dos rapazes. Da queda livre ao deixar este Mundo por um momento. Um Mundo do qual conhecia o caminho de volta e um momento que, sabia-o, poderia repetir outra vez.