sexta-feira, outubro 31, 2008

Zero à esquerda

Repete o que dizes

Não estou a ouvir bem

Pareceu-me desprezo

Sarcasmo ou desdém

Não deixa de ser irónica

Aquela promessa com jura

Padecemos do mal

Mas morremos da cura

Não sujes a boca

Já não vale a pena

Guarda-o para ti

Na tua alma pequena

Não te censuro

Mas és pouco ou nada

Por ti não conjuro

Mas és pouco ou nada

E não te odeio

Mas por ti receio

Porque és pouco ou nada

Não passa um dia

Sem que tudo se repita

Estás nos meus pormenores

E nada mais me irrita

É cruel ter que te ter

Ao meu lado em tudo o que vivo

Larga-me como vieste

Acredita que sobrevivo

Seria triste que mal me fizesses

És doença e o mal está feito

Chega-te para bem longe

Não me apanharás a jeito

Não me olhes assim
Já não vale a pena
Desiste e descansa

Na tua alma pequena
Não te censuro
Mas és pouco ou nada
Por ti não conjuro
Mas és pouco ou nada
És um zero à esquerda
E por ti receio

Porque és pouco ou nada

Espelho Quebrado

De pés nús e alma ferida
Piso os vidros deste espelho quebrado
Sinto que no sangue me redimo
E expurgo os males que te fiz
E não é dor que sinto
Apenas a sensação de frio
Tal como nas noites sujas
Em que te sonho a preto e branco

Nem me lembro se sou culpado
Se o quebrei quando partiste
Se tu própria o fizeste
Como se me ajudasses
A apagar os teus restos do meu espaço
Do que vivemos nestas paredes
Nos murmúrios do nosso sexo
Ou no escrutínio da agonia branca

Vejo a poça no soalho
O caudal que se infiltra
Pelas frestas desagua
Como se deste lugar fugisse
Deixa para trás um sopro
O vento que levou as palavras
Que quais pombas brancas
Voam no seu contraste

É tempo, enfim, de te esquecer
Guardar em sons da tua boca
Uma história que embalou
E nos adormeceu
Melhor fora que pecássemos
Numa entrega infiel
Que provássemos de um veneno
Luxuriante e amargo
E no espelho olharíamos
Os nossos corpos em uníssono
Como a balada da dormência
Macilento do suor
Se o não quebrasse
Viveria numa culpa
Na existência da desculpa
No fim de mim.