quinta-feira, outubro 29, 2009

Ser vivo

Não senti nada no embate

O estrondo serviu de anestesia

Fez-se luz num clarão de agonia

E o tempo parou

A dor subiu-me à face

E em gemidos me desfiz

Como se me arrancassem a raíz

Que sempre me alimentou

Caí por terra sem respirar

Em espasmos me quis reanimar

Mas morri

Morri por dentro mas morri

Senti-me sangue espesso e quente

Escorri por todo um corpo inerte

Ardeu-me a água que dos olhos verte

E mesmo assim nada se curou

Tentei chamar-me à razão

Lutei contra a dor e o desmaio

No céu vi o tremor de um raio

E senti-me perto do fim

Lembrei a vida que vivi

Celebrei tudo o que senti

Mas morri

Morri por dentro mas morri

E quando olhei em meu redor

Aquele anjo que sempre me protegeu

A mulher que a esperança e o amor me deu

Não me quis ver

Virou a cara e caminhou para longe

Como se já nada ali houvesse

Como se o meu grito não a quisesse

Este era o seu adeus

Ainda a tentei puxar

E quase a consegui beijar

Mas morri

Morri por dentro mas morri

Vi-a perder-se na escuridão

Soube ser o fim, não mais voltaria

Rumou ao destino que outrora não queria

Espero que seja feliz

Chorei e olhei o meu corpo inerte

Sem saber como, algo aconteceu

A dor, o grito, a angústia, tudo desapareceu

E devolvi-me à vida

Lambi as feridas abertas por dentro

Num suspiro vi que me salvara

Senti que tudo em mim se renovara

E chorei mais e vivi

O céu sinistro abriu-se a um luar diferente

Talvez só para mim, talvez para toda a gente

Mas não morri

Senti-me vivo e sorri

Mas não morri

Fiz da tristeza o sangue que bebi

E não morri

Anjo que amo, pensarei em ti