Não senti nada no embate
O estrondo serviu de anestesia
Fez-se luz num clarão de agonia
E o tempo parou
A dor subiu-me à face
E em gemidos me desfiz
Como se me arrancassem a raíz
Que sempre me alimentou
Caí por terra sem respirar
Em espasmos me quis reanimar
Mas morri
Morri por dentro mas morri
Senti-me sangue espesso e quente
Escorri por todo um corpo inerte
Ardeu-me a água que dos olhos verte
E mesmo assim nada se curou
Tentei chamar-me à razão
Lutei contra a dor e o desmaio
No céu vi o tremor de um raio
E senti-me perto do fim
Lembrei a vida que vivi
Celebrei tudo o que senti
Mas morri
Morri por dentro mas morri
E quando olhei em meu redor
Aquele anjo que sempre me protegeu
A mulher que a esperança e o amor me deu
Não me quis ver
Virou a cara e caminhou para longe
Como se já nada ali houvesse
Como se o meu grito não a quisesse
Este era o seu adeus
Ainda a tentei puxar
E quase a consegui beijar
Mas morri
Morri por dentro mas morri
Vi-a perder-se na escuridão
Soube ser o fim, não mais voltaria
Rumou ao destino que outrora não queria
Espero que seja feliz
Chorei e olhei o meu corpo inerte
Sem saber como, algo aconteceu
A dor, o grito, a angústia, tudo desapareceu
E devolvi-me à vida
Lambi as feridas abertas por dentro
Num suspiro vi que me salvara
Senti que tudo em mim se renovara
E chorei mais e vivi
O céu sinistro abriu-se a um luar diferente
Talvez só para mim, talvez para toda a gente
Mas não morri
Senti-me vivo e sorri
Mas não morri
Fiz da tristeza o sangue que bebi
E não morri
Anjo que amo, pensarei em ti