Não estou triste. Nada neste sentimento que me assola como um vento contra-alísio e me seca de toda e qualquer razoabilidade, me consegue entristecer. Estupefacto. Não tanto. Perplexo. Possivelmente. Poderiam ser coisas que se explicam recorrendo à lógica ou a qualquer outro ensinamento da vida, e que perdurasse, depois, como lição para a posteridade. Nada disso. São coisas que exigem uma grande reflexão e que, mesmo assim, não é certo que consigamos explicar. De tão complexas, quase que roçam a imbecilidade, a estupidez gritante que tantas vezes usamos para a atribuír a quem detestamos ou, simplesmente, a quem não entendemos. E eis que dou agora por mim no mesmo papel estupidificante, a moer e a remoer em justificações possíveis para estas coisas que, afinal, existem, estão bem vivas e grassam por aí como erva daninha em casa de campo. Falo-vos destas coisas inexplicáveis dos sentimentos. Não dos sentimentos puros, crus e inquestionáveis que sentimos por uma mão cheia de amigos ou familiares (daqueles que não vemos apenas no Natal). Não dos sentimentos que nos enriquecem enquanto indivíduos e nos revelam a nossa importância perante nós próprios e perante aqueles que amamos incondicionalmente e que nos retribuem de igual forma, sem que para isso seja exigível qualquer tipo de cobrança, explicação ou arbítrio. Sim dos sentimentos que surjem como uma aurora ao nascer do sol e nos aquecem em locais íntimos ( e ínfimos) que só raramente reconhecemos dentro de nós. Sim dos sentimentos que nos elucidam quanto à possibilidade de ser legítima e até agradável, a coexistência com um outro ser humano; um ser humano que não seja um complemento de nós, mas sim um prolongamento de ambos; um ser humano que nos devolva em quantidade maior aquilo que demos de forma despreocupada, isenta e sem qualquer tipo de sentimento carente face a uma eventual e necessária retribuição. Sim dos sentimentos que, por uma qualquer razão fisiológica e hormonal, nos propensa a devaneios pouco razoáveis e quase incoerentes, quando não tremendamente imbecis. Roçam, neste caso, a designação de amor ou paixão, independentemente de qual dos substantivos é mais adequado ou a qual deve ser reconhecida maior importância. Nomes, são apenas isso, palavras que teimamos assumir como definição para algo inexplicavelmente vago em termos físicos e que se traduz, invariavelmente, numa ansiedade inócua e para a qual não existirá ainda fármaco eficiente. Em suma, tudo o que reflecte uma reacção a um estímulo. Em suma, tudo o que consiste num estímulo dado por uma reacção. Eis como qualquer palavra ou expressão é insuficiente. Palavras à-parte, poderia ser uma história minha, mas não seria verdade. É uma história de alguém a quem presto vassalagem nesta riqueza que é a amizade:
“Há uns dias atrás (mais do que aqueles que me custa a admitir e menos do que me obrigo a acreditar), beijei alguém. De uma forma minimalista e, quiçá, até mesmo ofensiva, diria que foi apenas o culminar de algo inpensado, progressivo e bom que se foi construindo em alicerces de palavras, muitas, oferecidas de forma gratuita e desinibida, entre duas pessoas que não se conheciam fisicamente. Esta seria uma outra história ditada num sem número de palavras em forma de prosa ou rima. Pouco interessa agora. Relevante será que, esse beijo, foi como uma brisa calma e serena. Daquelas brisas que só sentimos ao fim de uma tarde de Verão, e que só nos lembramos de sentir quando nos desculpamos das nossas vidas e damos espaço a quem somos realmente, longe daqueles que temos de ser. Dificilmente conseguirei distinguir entre uma definição absurdamente adjectivada e uma que me pareça mais lamechas mas real. Por isso, não o tento fazer. Digo-o apenas como senti aquele beijo e no quão esse sabor de mulher se perpetua na minha boca sempre que fecho os olhos e me lembro da profundidade dos seus olhos e escassos centímetros dos meus. Ridícula essa constatação enraízada de que o sabor de uma boca é exponenciado pelo cerrar dos olhos durante o beijo. Deixei os meus bem abertos, como se quisesse ficar alerta perante tudo aquilo que me estava a acontecer; fiquei-me assim, a olhar para todas as emoções e sabores como se estes pudessem ser enxergados a olho nú; a minha boca agia quase como que mecanicamente perante a minha estupefação e o sabor doce dos seus lábios quentes, tremorosos, que adormeciam os meus ao mesmo tempo que me acordavam a alma e o sexo; perdi-me naquela textura rugosa, perdi-me. O beijo ficou ali, suspenso, em cordas frágeis de tesão e incredulidade. Olhámo-nos e percebemos que existem gestos que não conhecíamos em igual número de expressões faciais que nunca víramos. Percebemos também que, ali, naquele momento, era dado o mote, o tiro de partida para algo que não poderia ser relativizado e assumido sob a forma de uma tentação à qual se deu espaço físico para se materializar. Ela sorriu, questionou-me porquê e percebi, também ali, que jamais me haviam feito pergunta tão difícil. Sorri de volta em retribuição sem saber se era um sorriso a resposta certa. Mas sorri na mesma, porque sorria por dentro, num turbilhão de incertezas às quais não estava sequer disposto a ouvir. Entrou no carro, sentou-se, suspirou. Podia ter ficado a olhar, a vê-la afastar-se, mantendo-me em pose máscula de conquista. Precisei de a sentir de novo. O vidro abriu-se e o seu olhar traduziu a palavra que eu ouvira tantas vezes a sair da sua boca: mimo. Encostei a minha face à sua, senti o seu cheiro delicioso e quis ser sempre seu. Quis que aquele momento não acabasse e quis que aquele fim de tarde desse lugar a todas as manhãs de uma vida. As nossas bocas procuraram-se de novo e foi de novo que senti tudo outra vez. A textura, o doce, o tremor. A paixão. O amor. Talvez.
Quisemos tudo aquilo de novo e foi-nos dada a oportunidade. O acaso, a disponibilidade proporcionada pela outra vida, a séria, impermeável aos sentimentos mais humanos e raros. Qualquer coisa foi diferente. Não sei se aquela situação constrangedora de chegar a correr, ofegante, perante a ansiedade do reencontro, e vê-la a cumprimentar um amigo. Delicado, educado, sem qualquer tipo de razão ou sequer feitio para dar espaço a sentimentos fúteis como o ciúme, esperei, dando lugar e espaço àquele momento. Um cigarro fez-me companhia por breves minutos até que chegasse a minha vez, novamente, de poder olhar os seus olhos de perto e sentir a sua boca. Teria mantido os meus olhos abertos, mais uma vez. Desta vez e outra vez. Mas tudo foi mais frio, como a brisa de Outono que, agora, servia de cenário a este segundo encontro. Entre frases feitas, palavras inóspitas de mordacidade e sarcasmo, humor forçado e desinteressante, tudo aquilo foi diferente. Uma defesa perante a intensidade do primeiro encontro? Uma defesa de quê, afinal? Frio, senti frio e levei as mãos até bem fundo nos bolsos das minhas calças. Os meus ombros subiram e a minha cara refugiou-se nas golas do casaco. Muito, pouco ou nada. Muito, pouco ou nada de mais um ou outro assunto sem nexo ou relevância. Uma despedida fugaz perante aquilo que me pareceu a última vez.
Estava certo. Passou todo este tempo (mais do que aqueles que me custa a admitir e menos do que me obrigo a acreditar) desde que beijei alguém. Desde que aquele sentimento avassalador abanou toda a minha estrutura incólume a qualquer terramoto que a vida usa, de quando em vez, para me surpreender. E tem-se dado mal, esta vida. Mantenho-me hirto quando outros vergam ou partem. Mantenho-me lógico quando outros estão indecisos ou erram. Mas não desta vez. Golpe baixo diria, uma lição, se nada disto tivesse acontecido no passado. Acontecera, de facto, mas protegera-me todo este tempo o carácter perecível da memória de muitos anos. Era algo que conhecia, mas do qual me esquecera. E agora vivia tudo de novo. E agora viverei tudo de novo, consciente de que o mesmo carácter perecível da minha memória me ajudará a ansiar por uma nova textura, um novo sabor doce e um novo e breve tremor.”
Conheço-o bem, este meu amigo. Um amigo. Um amigo que deixa que a vida o surpreenda sempre que quiser e haja tempo. E ele dá a si próprio o tempo que permite que a vida vá entrando, sem pedir licença, com toda a sua voracidade e armada de surpresa. É o homem mais lógico que conheço, e conheço-o bem, este meu amigo. Conheço-a pouco. Tão pouco que quase nada, não fossem as parcas palavras que ouvi da boca deste meu amigo, num misto de êxtase e perplexidade, em forma de relato. Ela tivera também a sua dose de surpresas da vida. Mais displicente, sem recorrer a racionalidades que a impossibilitassem de sentir estes esgares de paixão, era uma mulher disponível para o apetite voraz da vida. Sofrera e jurou nada mais sofrer. Mas dizia-se livre, sabendo que o dia chegaria. Aquele dia em que, mais uma vez, se acredita que é aquela a pessoa com a qual conseguiremos atingir o prolongamento da nossa própria existência. Ela acrediatava nisso. Pelo menos, assim o dizia. A sintonia era essa. O mesmo humor, gostos semelhantes, ambições compatíveis e mutuamente respeitadas. Como o disse, não era o sexo. Era o conforto, a sinergia de duas existências fundidas apenas em uma, sem desrespeito pela individualidade de cada uma delas. Perfeito. Não era o sexo, era o “mimo”. Ele tremia sempre que ela o dizia. Ela dizia-o muitas vezes.
Para quem tiver a sorte de encontrar pela frente a vida, essa vida armada da surpresa que só ela maneja tão bem, ardente e mordaz, mas sempre muito bem disposta, uma vénia. Não reconhecimento por essa sorte, mas uma vénia pela oportunidade que tem de viver. Raramente a vida se alinha com o nosso próprio caminho e escolhas. E porque uma raridade, uma qualquer raridade, deve ser sempre vista como uma espécie de monumento que urge preservar (pois o próprio tempo se encarrega de o tentar destruir com todas as suas forças naturais), preserve-a. Proteja-a com o seu próprio corpo se necessário for, mas trate de a interiorizar primeiro na sua alma para que não mais dela venha, um dia, a ter de abdicar. A maioria de nós morre sem interiorizar estes sentimentos. Aliás, a maioria de nós morre sem mesmo se aperceber da existência de tal raridade.
Para quem não tiver essa sorte, uma outra vénia. Uma vénia pelo respeito que me merece a força e o rumo e a coragem de continuar a viver. Ou por não saber da sua existência e continuar a deambular insistentemente no mesmo tipo de registo medíocre que serve de normativo aos pobres de alma e espírito, a usar como bitola o trote frágil das emoções artificiais da carne, ou por, pelo contrário, saber da sua existência, mas assumir a triste realidade da sua não descoberta em qualquer humano com o qual até agora tenha privado. Para ambos, a confiança de que só o conhecimento desta força, a experiência do cataclismo que nos permeabiliza a alma, a dor que nos rasga e dilacera em duas metades e o amor que volta a uni-las, só isso permite assumir que se viveu. Só isso permitirá descansar-nos e sossegar-nos quando desta vida nos despedirmos entre memórias vivas e coloridas, longe das lúgubres candeias das grutas escuras por onde calcorreamos toda uma vida. Só isso valerá a pena quando morrermos, mesmo que nenhuma mão ampare a nossa no momento em que vociferamos o adeus num último suspiro. Só isso valerá a pena. Só com isso poderão contar.
Quem definiu as palavras paixão e amor como o sopro que nos mantém vivos, estava certo. O meu amigo sabe-o. A sua amiga não.