sexta-feira, outubro 31, 2008

Zero à esquerda

Repete o que dizes

Não estou a ouvir bem

Pareceu-me desprezo

Sarcasmo ou desdém

Não deixa de ser irónica

Aquela promessa com jura

Padecemos do mal

Mas morremos da cura

Não sujes a boca

Já não vale a pena

Guarda-o para ti

Na tua alma pequena

Não te censuro

Mas és pouco ou nada

Por ti não conjuro

Mas és pouco ou nada

E não te odeio

Mas por ti receio

Porque és pouco ou nada

Não passa um dia

Sem que tudo se repita

Estás nos meus pormenores

E nada mais me irrita

É cruel ter que te ter

Ao meu lado em tudo o que vivo

Larga-me como vieste

Acredita que sobrevivo

Seria triste que mal me fizesses

És doença e o mal está feito

Chega-te para bem longe

Não me apanharás a jeito

Não me olhes assim
Já não vale a pena
Desiste e descansa

Na tua alma pequena
Não te censuro
Mas és pouco ou nada
Por ti não conjuro
Mas és pouco ou nada
És um zero à esquerda
E por ti receio

Porque és pouco ou nada

Espelho Quebrado

De pés nús e alma ferida
Piso os vidros deste espelho quebrado
Sinto que no sangue me redimo
E expurgo os males que te fiz
E não é dor que sinto
Apenas a sensação de frio
Tal como nas noites sujas
Em que te sonho a preto e branco

Nem me lembro se sou culpado
Se o quebrei quando partiste
Se tu própria o fizeste
Como se me ajudasses
A apagar os teus restos do meu espaço
Do que vivemos nestas paredes
Nos murmúrios do nosso sexo
Ou no escrutínio da agonia branca

Vejo a poça no soalho
O caudal que se infiltra
Pelas frestas desagua
Como se deste lugar fugisse
Deixa para trás um sopro
O vento que levou as palavras
Que quais pombas brancas
Voam no seu contraste

É tempo, enfim, de te esquecer
Guardar em sons da tua boca
Uma história que embalou
E nos adormeceu
Melhor fora que pecássemos
Numa entrega infiel
Que provássemos de um veneno
Luxuriante e amargo
E no espelho olharíamos
Os nossos corpos em uníssono
Como a balada da dormência
Macilento do suor
Se o não quebrasse
Viveria numa culpa
Na existência da desculpa
No fim de mim.

quinta-feira, setembro 18, 2008

Curta Epopeia

Cercados por Lisboa
As colinas, o céu e o mar
Só no azul à nossa frente há esperança
Queremos largar velas
E navegar

Saímos ao largar as amarras
Depois da despedida
As pegadas na areia connosco seguirão
Deixando para trás
A nossa vida

Desencontro

Dá que pensar
Não saber o que fazer
Ambos queremos aguentar
Mas não dá mais para esconder
Nos olhares acreditamos
A pele reage ao toque
Em cadeia surgem medos
Sinto-me sem rei nem roque
Nos teus olhos vi desejo
Desespero, medo e nada
Deixei-me ir, perdido no seu brilho
Mostrei-me na ida, escondi-me à chegada

Almas que se encontram
Após anos de incerteza
Quando o Mundo encandeia
Na luz de uma vela acesa
Em espinhos tocamos agora
A dor do alerta expele a emoção
Por mais que sangre a alma
Não há tempo para o coração
De tempos a tempos será pior
Quando tudo nos fizer chorar
Vamos querer perder-nos num beijo
Que hoje tememos dar

Dou-te de mim e não cobro
Pago com a vida para te ter
Neste jogo sem regras
Sais a ganhar e eu entro a perder

Lá, Goa

Sempre neguei certezas
Quem as tem não sabe o que diz
Ser dono do seu nariz
É um acto de coragem
Mas que não fica,
parte em viagem.

O Mundo era o nosso
Enorme, cheio mas insuficiente
Quisemos o passado no presente
Esquecemos o que e a quem ver
Habituados a amar e tocar,
e a deitar tudo a perder.

Tudo arderia em mil fogos
Se só de palavras munidos
Nas paredes e muros construídos
Acreditassemos no fim
História de embalar,
sabor a fel e cheiro de jasmim.

Fugimos a Oriente
Onde outros como nós deixaram
Credos e palavras que não acabaram
Está nestas mãos maduras
O futuro que a nós pertence,
se não me matas, porque me curas?

Prefiro que tudo acabe
A nessas certezas acreditar
Ver-nos a definhar
Ter-te sem ter de nada vale
Longe de ti,
já nada me faz mal.

Não voltes
Não voltes.

Amor Suplementar

Atravessas já o rio
A estação é lá à frente
Para trás fiquei sozinho
Nada é diferente
Não o queria ter sonhado
Disseste-o em palavras
Mas acalentei a esperança
E tu já não estavas
Ter o teu cheiro nos meus dedos
Fez-me respirar
O teu sabor na minha boca
Fez-me acreditar
E não mais parar

Vou correr até que me canse
Até que me sinta cair
Para ver se é isso que eu quero
O que me disseste existir

No fim ficam sempre
Muitas coisas por dizer
As palavras não preenchem
Se inventadas sem saber
O que será desta história
Que ambos queremos guardar
Uma agonia em silêncio
Ou um amor suplementar
Ter o teu cheiro nos meus dedos
Fez-me respirar
O teu sabor na minha boca
Fez-me acreditar
E não mais parar

Vou correr até que me canse
Até que me sinta cair
Para ver se é isso que eu quero
O que me disseste existir

Palavras

Sei lá o que quero
Mas receio ser sincero
Há palavras que ditas
Não soam como quero
Por mais que as pense sóbrias
Que as cante ou declame
Não perdem o sentido
Por mais sangue que as derrame

Tenho dúvidas
Será que vou ter de me calar
Ou dizê-las em surdina
Pior seria, prefiro ter de as apagar

De sentidos contrários
Únicos ou proibidos
São difíceis de comandar
Por caminhos desconhecidos
Caem mal e ainda magoam
São engolidas com desdém
Todos fazem das palavras
O que querem, mas não o dizem a ninguém

Tenho dúvidas
Não quero ter de me calar
Se as gitar serei feliz
Vou libertá-las para celebrar
E nunca terei de as apagar

Haja Deus (se existir)

Haja Deus (se existir)
Para me ditar em sorte
A fortuna duma ideia
O realizar de um sonho
Lembro o tempo e a sentença
Uma pena a cumprir
Por ter seguido um rumo
Que não queria perseguir

Haja Deus (se existir)
Para me proteger do acaso
De inimigos e afrontas
Da inveja e do turpor
Que atrase o calendário
E me permita prosseguir
Sabendo que não é tarde
E nunca o será para decidir

Dou o sinal, lanço a partida, saio primeiro
E corro veloz, e corro veloz

Haja Deus (se existir)
Que me desvie dos ventos
Que acalme as marés
E encubra o sol que queima
Falo da mão protectora
Porque também esta é missão
O evangelho dos audazes
Que têm a vida na mão

Haja Deus (se existir)
Que me prove tal grandeza
De estar junto de quem crê
E de quem reza por si
Que não vingue os seus espinhos
E prometa salvação
A quem preferiu e ousou viver
Crendo na própria razão

Dou o sinal, lanço a partida, saio primeiro
Corro atrás da vida, uso a minha força, porque sei onde parar
E corro veloz, e corro veloz

Mau-da-Fita

Sonhador, romântico
Utópico, lunático
Fanfarrão, comodista
Nariz no ar e grande crista
Pensador, desnaturado
Plátonico, formatado
Elitista, passado
Peneiroso e desmotivado

Sou o mau-da-fita
Aos olhos de quem me vê
Amante eremita
Que não pergunta porquê
Sei porque pergunto
A quem sabe responder
Não aos donos da verdade
Mas ao mau-da-fita
Que gosto de ser

Libidinoso, bonacheirão
Mentecapto, parvalhão
Oportunista, embirrante
Agnóstico e diletante
Egoísta, enervante
Stressado, mutante
Anormal, enganado
Traidor e debochado

Sou o mau-da-fita
Aos olhos de quem me vê
Amante eremita
Que não pergunta porquê
Sei porque pergunto
A quem sabe responder
Não aos donos da verdade
Mas ao mau-da-fita
Que gosto de ser

quinta-feira, julho 31, 2008

Latitude

Quis voltar atrás na decisão
Recuar perante o inevitável
Deitar mão ao que lhe escapou
Que por entre os dedos, lhe caiu e se evaporou
Procurou por todo o lado
Do longe fez o perto e desperto
Abriu os olhos para ver
Mas não havia nada a fazer
Viu-se ridículo aos olhos do Mundo
Um agiota de sentimentos
Que descobre que as apostas são erradas
Quando as cores das cartas estão tapadas
Olhou para o lado mas não viu
Dissecou o horizonte e nada aconteceu
Nem um amanhecer espreitou do mar
Nem um simples pássaro quis voar
Pensou então na solução
Como quem vê num rumo um sentido
Abriu o olhar e deitado lhe ocorreu
Que nunca a direcção ela lhe deu
E pôs-se a olhar para o céu
Onde nada acontecia há muito tempo
De onde já não brilhava qualquer estrela
De onde retirou as tintas para a tela
E viu-a desenhada
Em pose que o seduziu
Na silhueta que a sua boca provou
Na cor de pele que a sua mão tacteou
Chamou-o para junto de si
Ele largou o chão que pisava
Lançou-se ao ar qual acrobata
“O que me dói já não me mata”
“Venho para ficar
Não faz sentido procurar-te
Fi-lo por mil anos que vivi
Nunca por mulher alguma sofri
Mas o sentido errado às coisas deve
A razão é inimiga dos amantes
É melhor a solidão que a atitude
Procurar iguais não é virtude
A paixão encontra-se em latitude”.

quarta-feira, julho 30, 2008

Terra Prometida

Porque te falta a coragem para mudar
Largares amarras e partires para onde queres
Onde possas gritar o que disseres
Sem teres medo que censurem a tua vontade.
Serias mais feliz do que pensas
Pois nada daquilo de que foges hoje existirá
É local dos sedentos de viver mas onde fome não há
Pois o que alimenta é abundante e com sabor.
Vai e segue tudo o que intentas
Mesmo que o medo te afronte com questões
Mesmo que o mar esteja infestado de tubarões
Lembra-te que é pelo ar que vais chegar.
Terra prometida
Terra com vida
Terra de encantar.
Vais saber ao que vieste
Tudo o que te pesa dentro se revelará
O sentimento de vazio se extinguirá
E mais ar poderás respirar.
Por tudo isso e medo a menos
Irás rir de tudo o mais que te atormenta
Tudo olharás em câmara lenta
E a tua vida comandarás.
Terra prometida
Terra com vida
Terra de encantar.
Terra prometida
Terra com vida
Terra lar
Terra de encantar.

sexta-feira, julho 25, 2008

Vista

Desejei que existisse uma varanda
Com vista para o refúgio
Onde te sentes feliz
E onde morar não quis.
Podia espiar-te a intimidade
Despir-te com o olhar
Saber com quem estás agora
Porque já chegou a hora.
Pelo menos
Saberia de ti
Viveria mais calmo…
Tenho uma certeza
Com a qual anseio
Que me diz o que já sei
Um dia te encontrarei.
E até sei o que dirás
No teu jeito ansioso
O que tens feito, afinal
Estás bem, etc. e tal
Acho que vou responder
Que a vida me corre bem
Que continuo a correr
Em busca daquilo que quero viver.
Tu consegues dir-me-ás
És forte e vais vencer
Foi pena não termos lutado
Juntos para o ver acontecer.
Pelo menos
Saberia de ti
Viveria mais calmo
No destino que escolhi.

quinta-feira, julho 24, 2008

Ode às palavras

Salto de uma canção para outra
Entoando-as como as sinto
Frívolas na personalidade
Vingativas na crueldade
Tão verdadeiras, que lhes minto.
Esventram-me como adagas
Punhais luzidios que ferem de morte
E não são mais que palavras
Lamentos vis em rimas parvas
Duma alma que me coube em sorte.
De mim
Para alguém
Ou para mim.
É uma missão que sei ingrata
Um masoquismo do ser
Exorcismos não me libertam
Dos demónios que me cercam
E com quem sei conviver.
E sei que alguém entende
Sei que toco em alguém
Não foi por encomenda ou pedido
Por conversa que tenha tido
Ou em que tenha estado também.
De mim
Para alguém
Ou para mim.
Disse um dia ao Amigo
Que isso me faz feliz
Mas não é mais importante
Que a certeza gratificante
De conhecer quem o diz
É a mim que reconheço
Em cada dia que passa
Nas palavras que não digo
Virado para o meu umbigo
Sem esperar que alguém o faça.
De mim
Para alguém
Ou para mim.

terça-feira, julho 22, 2008

Ode aos sentidos

Vejo-me a pisar a relva descalço e a sentir a humidade
Da lua cheia numa noite de Verão
A mergulhar na água quente que a maré vai abanando.
Ouço-me em voz na canção que então prefiro
Sentado no meu palco vazio
A saltar para o mar de gente que me quer mais que ninguém.
Cheiro-me no odor do suor depois do sexo
Enquanto fumo na varanda sobre a cidade
A lembrar o meu passado com desdém.
Provo-me no sal da tua pele e no que esta brilha ao sol
Lembro que a disseste doce como mel
A certeza que tenho de que ambos somos um só.
Sinto-me bem com as coisas e com o meu Mundo
Pouco noto do escárnio a que o remetem
A minha vida está no ar fresco que respiro.
E ando por onde quero
E canto para me ouvir
Faço amor com quem tenho
Sou um viajante sem guarida
Que faz da chegada a partida.

segunda-feira, julho 21, 2008

Lisboa

Diz-se que tens um rio que te lava as formas
E que serve de cenário aos teus dramas e paixões
Que corre rumo ao mar frio que vês ao longe
E que nele se funde em vagas e mil turbilhões
Marcas o teu passo se um dia de Verão te aquece
Corres com a chuva que entope sarjetas e vielas
Deixas que o teu humor oriente as nossas vidas
E partilhas os segredos que escondemos nelas
És parte de mim sendo parte de todos
Os que te pisam sem te querer magoar
Que se perdem nas entranhas da tua idade
Mas que juram nunca te querer deixar
Cidade encanto, és tu Lisboa
Ninho do incerto, dum pássaro que voa.

True or False

I´ve been your favourite for an unbearable long time
Maybe too much time, too much hope, too much trust
We both felt this was not convenient or even supposed to happen
So we barely gave our minds and bodies in lust
Even that cordless guitar in a forgotten corner of your living room
Sang our song at the limit of our words and tears
Asked the piano to join it in a sad and reckless lullaby
For so much time as possible in those forgotten years
Those walls reflected the shadows of or silhouettes
Either making love in the carpet or just passing by
And even the portraits left their marks on the paint
Something we couldn´t do before our love whispered goodbye
True or false
Ask yourself the question
You wouldn´t dare
True or false

I´ve passed the limits of my great and known capacity
To enjoy this playful game with no rules or password
Used to play with the smallest pawn but now I´m hiding the king
Feel like I´m loosing any logic and becoming a nerd
Safety is no longer a threat and danger is definitely a wish
For any urgent matter I´ve got no answer or question at all
Any message I´m confronted with gives me the creeps
And I´m used to turn my face against the wall
I will no longer take you as you are
When you tie me in with apologise bonds
So for anything you need you´ll have to buy it
Cause I finally understand life do´s and don’t´s
True or false
Ask yourself the question
I won´t care
True or false

sexta-feira, julho 18, 2008

Diapasão e relatos de amizade

"My friend, Só para te dizer que sou teu fã!!!
Quando leio estes (e outros) poemas teus, fico realmente com a vontade que já te expressei várias vezes (apesar de teres sempre cagado no assunto!!!) de seres o 5º elemento dos FLIRT!!! Escrever "poesia" é um exercício muito violento para mim. Tenho imensa vontade de me exprimir, como sabes, e a concretização desta "veia" artística tem trazido à superfície este desejo, se calhar algo narcísico, de exposição, mesmo do meu interior… mas as vias que encontro para o fazer soam-me sempre melhor quando não são através da poesia…
E depois acho que tens realmente um dom nesta matéria!!! E se um dia quando for mais velho conseguir olhar para trás e dizer "eh! Pá, ouve uma altura em que tive uns discos meus à venda na FNAC e até dei uns concertos e até toquei no coração de algumas pessoas", gostava muito que pudesses dizer o mesmo! Isso deve ser realmente o que importa, mais do que o dinheiro ou a carreira ou essas merdas.
Por isso meu caro, mantenho o repto. De seres o letrista oficial dos FLIRT!!! Vai dar trabalho, vai exigir dedicação, mas cada vez mais acredito que mesmo sem conseguirmos (ambos) mudar o mundo com aquilo que estamos a fazer (do ponto de vista artístico) somos bem capazes de mudar o tempo de algumas almas que anseiam desesperadamente que cheguemos até elas. Podem até ser meia dúzia, mas estão lá de certeza!"

(e-mail do meu amigo Ricardo para mim, em 18/07/08)

" My friend,
Muito obrigado pelas tuas palavras. Sabes bem como estas são importantes para mim, não só pelo respeito pessoal mútuo implícito na nossa amizade, mas também – se bem que menos importante -, pelo incentivo que me dão para continuar a escrever. Eu, poeta comummente frustrado com o tempo que a vida pessoal e profissional me roubam à paixão da escrita, sou sensível ao facto de os meus poemas estarem a tocar alguém, no seu âmago, naquela que é também, para esses, a sua interpretação da vida e dos momentos.

Mas vou um pouco mais longe. É nesse reconhecimento, nesse elogio e incentivo que reconhecemos ter o dom e essa capacidade de comunicar. É verdade. Mas o mais curioso nesta coisa do “escrever”, é quando sentimos que aquilo que estamos a materializar em palavras e textos ordenados ou perfeitamente assimétricos, é, de facto, fruto de nós, daquilo que é estranho e fascinante e que temos cá dentro, e que poucos (ou nenhuns) para além de nós próprios, entende. E essa é a verdadeira celebração. O facto de que, mais do que sermos entendidos e de tocarmos e de chegarmos a alguém, conseguimos, primeiro que tudo, chegar a nós próprios e ao entendimento que fazemos da nossa existência. É, certamente, não só um sentimento narcísico, mas um sentimento tremendamente egoísta, pois são as nossas próprias dúvidas que esclarecemos primeiro, e só depois, então, “ajudamos” alguém que reconhece nas nossas palavras, as suas próprias palavras.

Mais duas coisas.
Em primeiro lugar, sempre me senti o 5º! Omnipresente, pouco presente e muitas vezes ausente face às incumbências “sociais e familiares” que me cabem, mas sempre grato por poder dizer as minhas coisas a quem quer que ouça o som dos Flirt. E essa oportunidade já me foi dada por vocês, influenciada pela tua própria liderança neste grande projecto. Um mesmo sonho que os Flirt partilham, que está prestes a tornar-se revelação, mas que será sempre um projecto no sentido em que é moldável às vossas próprias vidas e àquilo que decidam fazer delas. E o simples facto de permitirem que tenha algo a “dizer” nesses momentos só vossos, tornam esses momentos também meus, e me fazem reconhecer que estou lá, junto de vós, a sentir o mesmo arrepio.
E não faz sentido ser “oficial” de nada, pois essa palavra tende a ser interpretada como “exclusivo”. E nada mais ilógico poderia ser o facto de as minhas mensagens, em menor ou maior proporção, fazerem qualquer tipo de sombra às tuas próprias mensagens. E sabes porquê? Porque também tu tens este dom, pois pautas a tua escrita e orientas os caminhos que esta desbrava, com o mesmo tipo de leme que eu seguro nas mãos quando embarco em tamanhas aventuras. Quando começas a escrever, tens o mesmo “briefing” que eu. Um briefing que é passado pela nossa alma, pela nossa existência, pelo nosso inconformismo, pelas imagens que só os nossos olhos vêem.
Quanto muito, aceitarei o teu repto no compromisso tácito de ambas as mensagens se complementarem, coexistirem e em conjunto, conseguirem chegar perto de muitas mais pessoas, para além de, como referi, conseguirem chegar ainda mais perto de nós próprios. Tal como já aconteceu neste álbum, onde através da tua voz, consegui reencontrar-me. Desta forma, aceito o teu repto.

Depois, meu caro, grande e já “velho” amigo, nós já mudámos o tempo dessas almas e das nossas. Pois tempo demora este nosso exorcismo perpétuo através da escrita, apesar do paradigma irónico de que, quando escrevemos, o tempo corre, suspenso, para trás, rejuvenescendo-nos através da viagem que nos permite fazer rumo ao destino dos nossos valores e da nossa inocência. E esses estão “lá atrás”, onde os deixámos antes de nos consumirmos pela nossa própria existência actual. Mas é nesses que nos apoiamos quando escrevemos. Porque escrevemos melhor assim. De forma intemporal.
Um abraço.
MF"

(a minha resposta ao e-mail do Ricardo, nesse mesmo dia)

quinta-feira, julho 17, 2008

In passion veritas

Tentei disfarçar
Para que ninguém notasse
Olhei o teu corpo à pressa
antes de ter que voltar.
Não resisti a tentar
Tocar-te de passagem
Mas alguém te levou
e não te quis partilhar.
É vontade que tenho
É com arte e engenho
Que tenho de ter-te assim
Isolada, só para mim.

Tive o choque e a visão
Desta vez em noite fria
Quiseste respirar fundo
Dar a alma em confissão.
Fumavas e falavas
Inconsolável e triste
Perguntavas porquê
E a resposta davas.
Senti vontade de te ter
Naquele momento
Tive-te só para mim
E não tive de o esconder
É vontade que tenho
É com arte e engenho
Que tenho de ter-te assim
Isolada, só para mim.

Dá-te a mim
Vê-me primeiro
Concede-me um segundo
Eu dou-te um mundo inteiro

É vontade que tenho
É com arte e engenho
Que tenho de ter-te assim
Isolada, só para mim.
Como sabes que te quero
Sem princípio, meio ou fim
Isolada, só para mim.

Written by Mário Batista
17/07/08
(dedicada ao meu amigo Ricardo e à celebração das paixões)

Não sei

Abusei de ti
Porque sempre quis mandar
Controlar a minha vida
E a de quem me quis amar
Pensava que era assim
Que se geria o amor
Com vontade e egoísmo
Se contornava a dor
Há sempre um pólo mais fraco
Assim ditam os sinais
São contrários porque atraem
Um a menos outro a mais
Decidiste ser silêncio
No barulho infernal
Que trouxe à nossa história
Curta e frágil, afinal
Não me obrigues a falar
Nunca fui de vis lamentos
Muito menos de chorar
Por ferir-te os sentimentos
Não sei
não sei porquê
não sei o quê
Não sei
E não quero saber

Afastei de ti
A ameaça do mal
Mas sei que não percebi
Que me expunha por igual
Às referências que tinha
Das mulheres que conquistei
Juntei preconceitos fúteis
E fiz jus ao que mudei
Compilei todas as negas
Sob a forma de uma espada
Fiz do meu corpo um castelo
Que defendi sem temer nada
Protegi-te nas muralhas
Da minha imaginação
Mas cobrei-te pelo esforço
E larguei-te na solidão
Parti rumo ao conhecido
Sem recordar a magia
Que me enfeitiçou na noite
Que nasceu depois daquele dia
Não me obrigues a falar
Nunca fui de vis lamentos
Muito menos de chorar
Por ferir-te os sentimentos
Não sei
não sei porquê
não sei o quê
Não sei
E não quero saber

Written by Mário Batista
17/07/08

quarta-feira, julho 16, 2008

Jukuka Mesu

Contam-te milhares de histórias
Na esperança que acredites
Em certezas infundadas
Em regras sem directrizes
Vendem esforços incessantes
De mentira e de verdade
Expondo a vida a desígneos
De gratuita crueldade
E fazem-te crer na imagem
Que deles está em questão
Com telhados que se quebram
Na teoria ... da conspiração.
Abre os olhos
Quem tem de ver és tu
Abre os olhos
Jukuka Mesu

Entre guerras de duendes
Nascem fãs do terrorismo
Sem espada ou punho firmes
Apregoam heroísmo
Em terra sem rei nem roque
Dão um nome ao pecador
Mas a culpa é da história
Do passado colonizador
Apostam no galo forte
Sem saber que o vencedor
Não é o preto ou o vermelho
A vitória é incolor

Quem usou é abusado
Quem criou é ladrão
Quem fugiu é vitimado
Na teoria ... da conspiração.
Abre os olhos
Quem tem de saber és tu
Abre os olhos
Jukuka Mesu

written by Mário Batista
16/07/08

sábado, maio 17, 2008

Recortes

Tirei-nos da gaveta e sacudi o pó
Do álbum de imagens que retalha a nossa vida
Sabia ao que ia sem esperança nem dó
Não pensei em pernoitar sem guarida
É mistério esta coisa da memória
De ousarmos querer respostas sem questão
De querer ser um parágrafo de história
Um ensejo dum ponto de exclamação
E pego nestes recortes
Em histórias dessa vida
Que falam mal de nós
E nos deixam sem abrigo
Eu só quero estar contigo

Estavas linda como sempre e feliz
Entre amigos e sorrisos que fizemos
Em poses que contadas eu não quis
Relembrar porque nem sempre nos quisemos
E agora nem o teu cheiro eu recordo
Fiz que não vi o caminho que seguiste
Vivo as horas e de noite não acordo
Tudo fiz da forma exacta que pediste
E pego nestes recortes
Em histórias dessa vida
Em momentos sem remorso
Que me esqueço ser amigo
Eu só quero estar contigo

Gabo-te a força e a vontade de não querer
Muito mais do pouco que tinha p´ra dar
Podias fazer algo para merecer
Mas escolheste o pedir em vez do dar
E seguiste o teu caminho sem olhar p´ra trás
É mais fácil não ficar p´ra velar a morte
Se o esqueceres facilmente quererás
Voltar a tentar a tua vida, a tua sorte
E peguei nestes recortes
Em histórias dessa vida
Que falaram mal de nós
E nos deixaram sem abrigo
Quando eu quis estar contigo

Written by: Mário Batista
18/05/08

domingo, maio 04, 2008

Grito

Primeira página do jornal
Dá-me a volta à barriga
Entre putas, assassinos
Brigas laranjas, desatinos
Incestuosas prestações
De pedófilos e cabrões
Roubando impunemente
Empresários de gente
Campanhas contra a desgraça
Beijinhos e abraços na praça

Que país de merda este
Que de entre mil e um valores
Tivemos que dar destaque e fama
Aos filhos da puta e doutores

Alinhamos embaixadores
No pastel de nata e no turismo
Pomos o ónus da pátria lusa
Vendendo-a limpa, qual obtusa?
País de brandos costumes
Da agricultura e dos estrumes
Da terra fértil e brisa quente
De quem não mente ou cai um dente
Do mar azul e areal branco
Da libra rica em porto franco

Que país de merda este
Que só na história se escusa
Duma língua que ninguém fala ou lembra
Quem é Camões, o que é a musa?

Digo tudo ao mesmo tempo
E não consigo separar
Não há cá trigo nem joio
Está tudo por misturar
O grito de revolta que já demos
Mas que deixámos calar
Ainda nos vai foder a todos
E na primeira página publicar

Written by: Mário Batista
4 de Maio 2008

Recado

É de ti que falo com a minha alma
Sempre que dela me lembro querer vingar
Pelos pensamentos ociosos e sofridos
De quem não tem mais nada que pensar
Relembro-te nua e fria sobre a cama
Enrolada em ti mesma, fingindo dormir
Controlando a respiração falsamente calma
Para que não tivesses que te despedir
Olhava-te uma última vez
Dizia-te o que querias ouvir
Para que percebesses uma vez mais
Que esta era a minha vez de ir

Deixei-te o recado que nunca irias ler
Porque da minha boca, horas antes
Conseguiste perceber
Que não deu para forçar
Que não me quiseste amar

Dei o benefício a mim mesmo
Porque o quis e merecia-o uma vez mais
Fui apanhado numa confusão de palavras
Mais do que poucas, irracionais
Desci a escada com o sentimento
De que não queria mais voltar
A ter que deixar de viver
Não queria ter de ver tudo acabar
E saí para a rua sentindo a chuva cair
Não me abriguei, não tive medo
Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida
Não é tarde, é bem cedo

Deixei-te o recado que nunca irias ler
Porque da minha boca, horas antes
Conseguiste perceber
Que não deu para forçar
Que não me quiseste amar

Written by: Mário Batista
4 de Maio 2008

Caixote Lilás

É difícil descrever-te
Andas vestido a rigor
No macio veludo encontras traje
No metal prata o vigor

És ao longe parte da guitarra
Aos olhos leigos um objecto
Que por mais cor de contraste
Não conquista o afecto

Caixote lilás
Caixinha de sonhos

Cospes os gritos da guitarra
Iluminas as palavras do poeta em nós
Entras com um feedback agudo
Que magoa o ouvido e rouba a voz

Às tuas costas um pato amarelo
Bico vermelho e perfil importante
Não é de ícones que precisas
Para uma pose marcante

Caixote lilás
Caixinha de sonhos
Caixote lilás
Cofre dos meus sonhos

De ensaio em concerto
Pegado e largado com bravura
Do calor do Aquário ao frio do salão de baile
A tudo resiste a tua casca dura

Fazes parte da viagem
Trilhas a estrada que merecemos
Afinas com o suor dos nossos rostos
Dás-nos mais do que a ti já devemos

Caixote lilás
Caixinha de sonhos
Caixote lilás
Cofre dos meus sonhos

Written by: Mário Batista
4 de Maio 2008

terça-feira, janeiro 29, 2008

Não devo nada a ninguém

Procurei musas faladoras
Palavras que nunca havia escrito
Entoações promissoras
Dar o dito por não dito
Tudo para alguém sempre escrevi
Dei sentimento a quem o quis
Chorei por corpos que não provei
Mas nunca para mim o fiz

Tive ousadia em quem amei
Dei-me sem pranto porque o prefiro
Não sou tão brusco quanto o devo
O que dou, jamais retiro
Fico só e em mim me embranho
Sofro na antecipação e no leito
Fujo nas asas de uma borboleta
Num ciclo de causa-efeito

Estas palavras são para mim
Um egoísmo que me assenta bem
Não devo nada a ninguém

Procurei musas faladoras
Estridentes e vil feitio
Cruzei mares em sua busca
Encontrei-me no leito de um rio
Por mais que quisesse dizê-lo de outra forma
Por mais que andasse na minha mão
Deparei-me sempre com dois sentidos
Um que o faz, o outro não

Estas palavras são para mim
Um egoísmo que me assenta bem
Estas palavras são para mim
Não devo nada a ninguém

quinta-feira, janeiro 10, 2008

"A perfeição é um desejo que perseguimos acordados, mas que nos é permitido viver apenas em sonhos."
Mário dixit

segunda-feira, janeiro 07, 2008

"Character is what you have left when you've lost everything you can loose."
Evan Esar

Ano Novo, M`ema Merda

Nem comi as 12 passas (com excepção de tâmaras, pinhões e pistachios, detesto frutos secos!), nem subi a qualquer banco, cadeira ou outra elevação (ressalva feita às escadas que ligam a garagem ao piso térreo da moradia dos meus amigos que arriscaram ser anfitriões da festa este ano), nem usei as tão populares cuecas azuis no primeiro dia do ano. Porque não.
Basicamente, fi-lo em todos os outros anos de que tenho memória. (Retire-se aqui a infantilidade dos meus 19 anos, em que um charro de “3 pintores” – fumado sofrega e exclusivamente por mim! – me atirou para o chão de um WC num anexo ao quintal de uns amigos, em estado quase comatoso e perfeitamente alucinado.). E de nada serviu.
Gritei pelo Novo Ano, enxovalhei o Antigo, pigarreei aos ventos por Melhor Sorte (leia-se Fortuna), pela Mulher da Minha Vida, pelo Vil Metal sob a forma de notas, pelo meu Benfica e até pelo Bloco de Esquerda (eu, que teimo em acreditar que sou de Direita...). Fi-lo sempre de acordo com a excitação do momento (estando ébrio ou não), com a esperança num Futuro que se começa a construir nestas últimas horas de um ano que (agora) queremos esquecer, ou mesmo pelo facto de ter sido infectado à última da hora pelo síndroma das massas e querer acompanhar os pulos frenéticos e quase irresponsáveis dos outros, ao som de berros que se tornariam audíveis a qualquer surdo ou caretas que fariam corar qualquer amblíope.
E fi-lo porque sentia que se o fizesse (e estava devidamente informado pelo senso comum da cultura portuguesa vigente), arrecadaria para mim um novo ano cheio "do bom e do melhor". Tudo o que de melhor esperaría que me acontecesse, merecido ou não, como pagamento justo de um desejo labutado ou pura e simplesmente porque me caiu no colo sem qualquer esgar de esforço, seria certamente conquistado. Sentia-o de forma veemente, e se acaso houvesse quem ousasse desconsiderar-me nesta minha pretensão, nesta minha jactância de "quem tudo quer tudo tem", certamente estaria a despedir-se da vida ou, pelo menos, do belo teclado do piano simétrico materializado pelos dentes da frente.
Ironia da vida – só mais uma! -, é que nada disto resultou de qualquer uma dessas vezes. Segui criteriosamente todos essas mezinhas dos antepassados, li exaustivamente todas as instruções do jogo impressas na contracapa do tabuleiro da Glória (e também li, de ponta a ponta “O Segredo”, aquele manual de felicidade de páginas escorregadias que levou a Oprah a enriquecer e mais de meio Mundo a desfalecer), fiz de outros os meus passos numa compra relâmpago de uns belos boxers azul celeste numa loja lá do bairro (aberta de manhã no último dia do ano), mas nada, nada mesmo mudou ou foi suficiente, per si ou em conjunto com outros factores, para me abrir as portas do novo ano, de par em par, ou mesmo uma de cada vez.
Sendo assim, claudiquei, e ao nada que consegui roguei mil pragas. E depois, rouco, como se não bastasse os sons estridentes saídos da minha garganta de tenor, ainda encenei, insolentemente, gestos ofensivos com os dedos das mãos.
Mas aprendi. Aprendi que nada se consegue sem sorte, e que mesmo a sorte exige sorte para ser encontrada, agarrada e usada em doses q.b.. Esqueçam lá as enrugadas e já bem sugadas passas, os bancos de cozinha de plástico, baixinhos, e as cuecas ainda sem mancha de nicotina. Nada que saiba a fruta podre pode conter pó mágico da lua; nenhum banquinho ou mesmo escadote é suficientemente alto para ilustrar o quão alto quero subir; e cuecas azuis... são cuecas: caguei para elas.
A sorte encontrá-la-ei um destes dias, perdida por aí em qualquer esquina, depois de ter acabado de bafejar outra qualquer alma até então errónea e trivial. Não se preocupem comigo, amigos e amigas, que se houver lugar no Mundo onde esta se queira esconder de mim, tirarei, se necessário for, uma licença vitalícia para a encontrar. Não haverá nuvem, oceano, crosta terrestre ou campo electromagnético que me façam ficar perdido*, ou incapaz de seguir as suas pistas de fuga, pedestres ou aéreas.
Até lá, celebrarei toda e qualquer entrada num Novo Ano de uma forma comedida, expectante e perspicaz, sabendo que esta postura poderá, de um momento para o outro, numa fracção de segundos, passar a convicta, crente e apaixonada, quando à sua primeira hora ou mesmo mês já bem avançado desse Novo Ano, a sorte der de caras comigo e me transformar o sorriso forçado e áspero em luminoso e diletante.
Assim, é esta sorte que esperarei ou procurarei se a mesma teimar em preguiçar longe de mim. Mas fá-lo-ei pelo meu próprio pé, de pé, com os pés bem assentes na terra e não em qualquer pedestal de Ikea improvisado, sem porra de passas para engolir (que nisso a vida já me ensinou a mastigar primeiro) ou cueca azul celeste ainda com goma e etiqueta de saldos.


* Em inglês “Lost”, numa alusão ao nome da série televisiva em que os sobreviventes de um acidente aéreo percebem, ao fim de bastante tempo, que a ilha onde se encontram é “fantasma”, pois encontra-se indetectável para o exterior em função dum forte campo electromagnético natural que sobre ela é exercido (Nota Autor).