"My friend, Só para te dizer que sou teu fã!!!
Quando leio estes (e outros) poemas teus, fico realmente com a vontade que já te expressei várias vezes (apesar de teres sempre cagado no assunto!!!) de seres o 5º elemento dos FLIRT!!! Escrever "poesia" é um exercício muito violento para mim. Tenho imensa vontade de me exprimir, como sabes, e a concretização desta "veia" artística tem trazido à superfície este desejo, se calhar algo narcísico, de exposição, mesmo do meu interior… mas as vias que encontro para o fazer soam-me sempre melhor quando não são através da poesia…
E depois acho que tens realmente um dom nesta matéria!!! E se um dia quando for mais velho conseguir olhar para trás e dizer "eh! Pá, ouve uma altura em que tive uns discos meus à venda na FNAC e até dei uns concertos e até toquei no coração de algumas pessoas", gostava muito que pudesses dizer o mesmo! Isso deve ser realmente o que importa, mais do que o dinheiro ou a carreira ou essas merdas.
Por isso meu caro, mantenho o repto. De seres o letrista oficial dos FLIRT!!! Vai dar trabalho, vai exigir dedicação, mas cada vez mais acredito que mesmo sem conseguirmos (ambos) mudar o mundo com aquilo que estamos a fazer (do ponto de vista artístico) somos bem capazes de mudar o tempo de algumas almas que anseiam desesperadamente que cheguemos até elas. Podem até ser meia dúzia, mas estão lá de certeza!"
(e-mail do meu amigo Ricardo para mim, em 18/07/08)
" My friend,
Muito obrigado pelas tuas palavras. Sabes bem como estas são importantes para mim, não só pelo respeito pessoal mútuo implícito na nossa amizade, mas também – se bem que menos importante -, pelo incentivo que me dão para continuar a escrever. Eu, poeta comummente frustrado com o tempo que a vida pessoal e profissional me roubam à paixão da escrita, sou sensível ao facto de os meus poemas estarem a tocar alguém, no seu âmago, naquela que é também, para esses, a sua interpretação da vida e dos momentos.
Mas vou um pouco mais longe. É nesse reconhecimento, nesse elogio e incentivo que reconhecemos ter o dom e essa capacidade de comunicar. É verdade. Mas o mais curioso nesta coisa do “escrever”, é quando sentimos que aquilo que estamos a materializar em palavras e textos ordenados ou perfeitamente assimétricos, é, de facto, fruto de nós, daquilo que é estranho e fascinante e que temos cá dentro, e que poucos (ou nenhuns) para além de nós próprios, entende. E essa é a verdadeira celebração. O facto de que, mais do que sermos entendidos e de tocarmos e de chegarmos a alguém, conseguimos, primeiro que tudo, chegar a nós próprios e ao entendimento que fazemos da nossa existência. É, certamente, não só um sentimento narcísico, mas um sentimento tremendamente egoísta, pois são as nossas próprias dúvidas que esclarecemos primeiro, e só depois, então, “ajudamos” alguém que reconhece nas nossas palavras, as suas próprias palavras.
Mais duas coisas.
Em primeiro lugar, sempre me senti o 5º! Omnipresente, pouco presente e muitas vezes ausente face às incumbências “sociais e familiares” que me cabem, mas sempre grato por poder dizer as minhas coisas a quem quer que ouça o som dos Flirt. E essa oportunidade já me foi dada por vocês, influenciada pela tua própria liderança neste grande projecto. Um mesmo sonho que os Flirt partilham, que está prestes a tornar-se revelação, mas que será sempre um projecto no sentido em que é moldável às vossas próprias vidas e àquilo que decidam fazer delas. E o simples facto de permitirem que tenha algo a “dizer” nesses momentos só vossos, tornam esses momentos também meus, e me fazem reconhecer que estou lá, junto de vós, a sentir o mesmo arrepio.
E não faz sentido ser “oficial” de nada, pois essa palavra tende a ser interpretada como “exclusivo”. E nada mais ilógico poderia ser o facto de as minhas mensagens, em menor ou maior proporção, fazerem qualquer tipo de sombra às tuas próprias mensagens. E sabes porquê? Porque também tu tens este dom, pois pautas a tua escrita e orientas os caminhos que esta desbrava, com o mesmo tipo de leme que eu seguro nas mãos quando embarco em tamanhas aventuras. Quando começas a escrever, tens o mesmo “briefing” que eu. Um briefing que é passado pela nossa alma, pela nossa existência, pelo nosso inconformismo, pelas imagens que só os nossos olhos vêem.
Quanto muito, aceitarei o teu repto no compromisso tácito de ambas as mensagens se complementarem, coexistirem e em conjunto, conseguirem chegar perto de muitas mais pessoas, para além de, como referi, conseguirem chegar ainda mais perto de nós próprios. Tal como já aconteceu neste álbum, onde através da tua voz, consegui reencontrar-me. Desta forma, aceito o teu repto.
Depois, meu caro, grande e já “velho” amigo, nós já mudámos o tempo dessas almas e das nossas. Pois tempo demora este nosso exorcismo perpétuo através da escrita, apesar do paradigma irónico de que, quando escrevemos, o tempo corre, suspenso, para trás, rejuvenescendo-nos através da viagem que nos permite fazer rumo ao destino dos nossos valores e da nossa inocência. E esses estão “lá atrás”, onde os deixámos antes de nos consumirmos pela nossa própria existência actual. Mas é nesses que nos apoiamos quando escrevemos. Porque escrevemos melhor assim. De forma intemporal.
Um abraço.
MF"
(a minha resposta ao e-mail do Ricardo, nesse mesmo dia)