O paradigma da paixão: sentirmo-nos felizes por estarmos simultaneamente mais fortes e mais fracos.
28/09/07
sexta-feira, setembro 28, 2007
quarta-feira, setembro 26, 2007
Velho avô
Recostou-se no velho sofá forrado em padrões florais, já bem coçado e côncavo pela preferência de todos os membros mais novos da família. Pousou ambos os cotovelos nos braços de madeira, mantendo o copo de vinho a pouco mais de um palmo da cara e contemplando o brilho blaugrana e quente do néctar contra as brazas incandescentes da lareira. Podia sentir o aroma frutado daquele cabernet sauvignon e esta ideia adormeceu-o numa contemplação circular a toda a biblioteca. Olhou-o pormenorizadamente e sorriu, prostrado ali na sua cadeira favorita em frente à lareira, a cabeça pendendo sobre o ombro e trauteando um ligeiro ressonar. As rugas grossas pendiam-lhe agora em sucalcos, numa pele lisa e branca, imaculadamente barbeada todos os dias pela manhã. O cabelo forte, escorria-lhe para trás num jeito ganho pelos anos, mas rareava à frente, onde duas entradas pronunciadas faziam lembrar a forma aguda de um boomerangue. Este velho à sua frente contava agora 80 primaveras de experiências únicas que poucos ousariam sequer imaginar. Guardava toda uma vida na sua memória fresca como o orvalho da manhã: episódios de guerra homéricos em cenários reais do falecido império austro-húngaro; romances furtuitos e furtados a damas de corte inglesa nos anos do pós-guerra; montanhas ibéricas desbravadas com contrabando de cigarros e aguardente às costas num registo de saltimbanco por feiras de aldeolas decrépitas de fronteira. Era daquelas personagens que dava gosto ouvir nos seus devaneios de "dantes é que era bom!". Acreditava piamente que a democracia e a "era da televisão" como lhe chamava, eram os principais culpados da "imundice do esgoto da Europa e dos valores familiares dos Europeus". Quem o ouvisse vociferando alto e em bom som, crispado, gesticulando freneticamente com o corpo inclinado para a frente sobre os seus interlocutores, não imaginaria aquele íntimo crivado de sementes de amor, quais nozes de manteiga em pão quente. Era aquele homem que todos gostaríam de ter como avô: a figura paternal que não exigia obediência; que nos daria, à socapa, uma nota de 50 escudos para cigarros e jogos de bilhar no clube lá do bairro; que nos ofereceria gratuitamente e sem qualquer preparação aquele conselho de vida que quaisquer pais tentaram por inúmeras vezes mas jamais conseguiram. A sua paixão era extensível e atingia o seu expoente máximo na figura da sua avó, aquela mulher grisalha que bordava melhor que ninguém, pia e fervorosa crente cristã, a quem vivalma seria incapaz de reconhecer qualquer defeito ou restício de malvadez. Em termos de bondade altruísta por outras almas que não as apelidadas Baptista, recordava a forma como anos antes, durante os seus passeios matinais que antecederam aquele atropelamento quase fatal, se dirigia às crianças de rua que mendigavam, descalças e ranhosas, junto ao público e feirantes do Rossio, e as convidava a acompanhá-lo até à pastelaria Suíça para uma sandes de fiambre e um garoto clarinho. Mais tarde, quando o confrontavam com isso (após um qualquer vizinho relatar tê-lo visto em tamanha atitude digna de nobreza), negava tudo e virava-lhes costas, sisudo e rogando sons imperceptíveis. Poucas outras coisas poderão descrever um ser humano tão grande, e nenhuma autópsia distinguiria o peso deste coração.
Perguntara-lhe ontem, numa daquelas conversas que o mantinham vivo e lhe relembravam o orgulho de ser seu neto, o que mais quereria ainda fazer na vida, esclarecidas que estariam praticamente todas as suas dúvidas sobre a existência humana. Como esperava, o avô disse-lhe apenas que pouco havia já a ver. Os seus prazeres diários resumiam-se hoje a pouco mais do que celebrar os últimos sopros de vida junto da sua família, às palavras dos seus romances épicos já muito antigos, ao cheiro impregnado na pele das suas lombadas e ao escovar do cabelo da sua avó, à noite, antes de ambos se deitarem. Sentiu-se desfalecer na pureza deste sentimento e na simplicidade da sua descrição. Ripostou com aquelas perguntas que o velho gostava de responder: "Mas avô, com que idade acha poder dizer ter tido a vida em dose suficiente?". Ouviu, suave e calmamente, a sua voz funilada dizer-lhe: "Assim que um Homem nasce, já tem idade suficiente para morrer."
26/09/07
Perguntara-lhe ontem, numa daquelas conversas que o mantinham vivo e lhe relembravam o orgulho de ser seu neto, o que mais quereria ainda fazer na vida, esclarecidas que estariam praticamente todas as suas dúvidas sobre a existência humana. Como esperava, o avô disse-lhe apenas que pouco havia já a ver. Os seus prazeres diários resumiam-se hoje a pouco mais do que celebrar os últimos sopros de vida junto da sua família, às palavras dos seus romances épicos já muito antigos, ao cheiro impregnado na pele das suas lombadas e ao escovar do cabelo da sua avó, à noite, antes de ambos se deitarem. Sentiu-se desfalecer na pureza deste sentimento e na simplicidade da sua descrição. Ripostou com aquelas perguntas que o velho gostava de responder: "Mas avô, com que idade acha poder dizer ter tido a vida em dose suficiente?". Ouviu, suave e calmamente, a sua voz funilada dizer-lhe: "Assim que um Homem nasce, já tem idade suficiente para morrer."
26/09/07
terça-feira, setembro 25, 2007
Histórias Reais
Chamas-me e soa-me um alarme
Inicias-me no dia que já sei
Sem pompa ou charme
Olho e demoro-me sem querer
O que amámos dorme ainda
Ausente de tudo sem saber
No vai-e-vem soas-me estranha
Ausente de mim mas perto de alguém
Talvez de ninguém
Mas longe de mais
Histórias reais
Na paragem largamos carga
No aceno um sorriso
Despedida mais amarga
Menos peso nestes ombros
Arrepiamos caminho
Evitando os escombros
E agora somos nós
Destruídos e mudos
Lado a lado mas sós
O silêncio já não corta
A imagem do rio
É natureza morta
No vai-e-vem soas-me estranha
Ausente de mim mas perto de alguém
Talvez de ninguém
Mas longe de mais
Histórias reais
Histórias reais
Relatos de gente
Simples e banais
25/09/07
(Written by Mário Batista
07/03/22)
Inicias-me no dia que já sei
Sem pompa ou charme
Olho e demoro-me sem querer
O que amámos dorme ainda
Ausente de tudo sem saber
No vai-e-vem soas-me estranha
Ausente de mim mas perto de alguém
Talvez de ninguém
Mas longe de mais
Histórias reais
Na paragem largamos carga
No aceno um sorriso
Despedida mais amarga
Menos peso nestes ombros
Arrepiamos caminho
Evitando os escombros
E agora somos nós
Destruídos e mudos
Lado a lado mas sós
O silêncio já não corta
A imagem do rio
É natureza morta
No vai-e-vem soas-me estranha
Ausente de mim mas perto de alguém
Talvez de ninguém
Mas longe de mais
Histórias reais
Histórias reais
Relatos de gente
Simples e banais
25/09/07
(Written by Mário Batista
07/03/22)
Só mais uma vez
Não preciso gastar mais palavras para te dizer
Para o que quer que não saibas dou-te as dicas
E empresto-te a alma nos olhos
A prova no fundo do ser
No cliché dos sentidos percebes algo mais
Já não ouço ou vejo o que queres mostrar
Nem sinto ou cheiro o perfume da pele
De vivo a momentos artificiais
E sabes o quanto preciso
O quanto me fazes respirar
Sentir-me vivo de novo
Dá-me o que tens para dar
Só mais uma vez
Só existe um caminho de ida e nenhum de volta
A proposta é andar em conjunto e devagar
Dou-te a força para que te movas
Empresto-te a estrada que deves pisar
E sabes o quanto preciso
O quanto me fazes respirar
Sentir-me vivo de novo
Dá-me o que tens para dar
Quero-te de volta ao espaço a que pertenço
O suor da breve agonia do nosso momento
Largar-me dentro de ti até que o frio me consuma
Hibernar no teu peito até que o sol nasça outra vez
Só mais uma vez
25/09/07
(Written by Mário Batista
07/03/22)
Para o que quer que não saibas dou-te as dicas
E empresto-te a alma nos olhos
A prova no fundo do ser
No cliché dos sentidos percebes algo mais
Já não ouço ou vejo o que queres mostrar
Nem sinto ou cheiro o perfume da pele
De vivo a momentos artificiais
E sabes o quanto preciso
O quanto me fazes respirar
Sentir-me vivo de novo
Dá-me o que tens para dar
Só mais uma vez
Só existe um caminho de ida e nenhum de volta
A proposta é andar em conjunto e devagar
Dou-te a força para que te movas
Empresto-te a estrada que deves pisar
E sabes o quanto preciso
O quanto me fazes respirar
Sentir-me vivo de novo
Dá-me o que tens para dar
Quero-te de volta ao espaço a que pertenço
O suor da breve agonia do nosso momento
Largar-me dentro de ti até que o frio me consuma
Hibernar no teu peito até que o sol nasça outra vez
Só mais uma vez
25/09/07
(Written by Mário Batista
07/03/22)
segunda-feira, setembro 24, 2007
"O amor é fodido" sem MEC, ou Spicy Sushi, ou Tributo a Margarida Rebelo Pinto
Saltaste da esquina num pulo como se o teu vestido preto e curto não fosse, só por si, suficiente para me surpreender. Sorriste ao avistar-me junto à porta do restaurante, e eu retribui-te com um breve aceno de cabeça, meio afundado na gola do meu casaco, como que abrigado de uma chuva inexistente. Caminhaste ao meu encontro do único jeito possível em ti: decidida, como se eu só a ti pertencesse, numa linguagem corporal de predador felino que ataca a sua presa e vence a concorrência de semelhantes menos velozes. O teu andar excitou-me e alegrei-me pelo leve vislumbre do teu quadril púbico evidenciado pelo tecido transparente do vestido, no contraste feito com os candeeiros da avenida por trás de ti. Ocorreu-me poder beijar a tua intimidade ainda nessa noite.
Sentámo-nos quase no chão, meio atarrecados pela altura daqueles "bancos de brincar", largando a piada em forma de comentário desinibidor ao empregado. Este anuiu sorrindo e escusou-se a prolongar a nossa gargalhada. Hierarquizámos a comida em categorias de "não sabemos o que é" e "isto é bom que já provei". Chamámos novamente o empregado que nos olhava de soslaio e cuchichava baixinho com uma colega que mais parecia um dos bancos. Aproximou-se e agachou-se junto de nós evitando-nos uma comprometedora subserviência de estatura. Esclarecemos os "não sabemos o que é" e encomendámos mais dois ou três "isto é bom que já provei". Acomodámo-nos como que preparando uma posição de combate ao extermínio de todas as dúvidas, questões e suspeitas causadas por todos estes anos de ausência. Era este o momento para o ressurgir das mil-e-uma questões que minaram as nossa mentes durante anos de privação induzida. Acabariam agora as ansiedades pontuais que nos assaltaram a mente quando emergiram em golfadas os pequenos restícios da vida de outrora.
O "comer com pauzinhos" deu o mote para uma conversa parva e promiscuamente desconfortável para ambos. Fazia anos que a partilha deste "vocabulário de favela" (como uma vez o apelidámos) se havia extinguido, e tentávamos agora reacender o fogo após o rescaldo. O à-vontade talvez estivesse lá, mas há muito que a displicência própria das vivências partilhadas e segredos desvendados partira além-mar. Se voltaria um dia a ser avistada daquele cais lúgubre onde agora nos encontrávamos, essa era outra conversa que certamente não teríamos nesse momento.
Entre devaneios simplistas do que poderíamos ter sido, lidavas com os travões que eu ia acometendo à conversa. Não mais me interessavam justificações para o passado, para as tuas traições encapuçadas de lealdade egoísta. Provei o sashimi de salmão e olhei-te a saborear o de atum. Fizeste como sempre aquela covinha no queixo quando degustavas algo que amavas. Como o fazias também após um beijo "dos nossos". Adoravas prolongar o meu sabor na tua boca.
A tua mão surgiu-me no sexo sem que a esperasse. Previra tudo isto na minha antecipação deste encontro, mas nunca ponderei qualquer probabilidade de que ocorresse. Nem mesmo a acentuada inclinação do teu corpo para permitir que o teu braço se extendesse por baixo da mesa, me fez adivinhar esta tua atitude - acredito eu - irreflectida. Recuei bruscamente o meu corpo, fazendo guinchar nos azulejos negros os pequenos côtos que serviam de pés ao banco. Caíram rapidamente sobre nós inúmeros olhares inquiridores e curiosos de casais e grupos de amigos que se amontoavam nas mesas limítrofes. Fui incapaz de conter aquela gargalhada estridente, deixando de me preocupar pela forma audível como esta ecoou em toda a extensão daquela sala rectangular. Tu, contendo o riso, saboreavas um largo pedaço de giosa, entortando propositadamente os olhos de cada vez que me miravas. "Só queria saber se não o tinhas perdido aí numa gaja qualquer." disseste, sem qualquer rubor nas faces ou tremor na tua voz. "Como querias que o tivesse perdido?! Deixei-me de fodas por desporto assim que te conheci, e agora bem que me arrependo..." disparei sem te deixar respirar.
Deambulámos por um mar calmo de palavras e histórias de trabalho, amigos comuns, casamentos e divórcios ocorridos nos últimos anos após a nossa separação...aquele teu gesto teve o condão de normalizar o nosso diálogo e trazê-lo de volta à nossa actual realidade de separados. Não te oposeste sequer (como fazias quando estávamos juntos) assim que peguei na conta para pagar. Trauteaste uma melodia que não reconheci e que mal ouvi sobre o música ambiente, enquanto deslizavas o anelar na borda da chávena do café.
Levantámo-nos de um salto em direcção à rua e perguntei-te onde querias ir agora beber um copo. Nem sequer fingiste. Disseste-o directamente: "tenho mais do que fazer do que aturar-te a má disposição. Só já não fodes porque não queres, ninguém te obriga a permanecer fiel a uma imagem que só existe na tua cabeça!", disparaste.
Vi-te caminhar como chegaste, mas desta vez, de costas, apreciei a marca do teu fio dental. Imaginei-o como um daqueles de que gostavas: de algodão, simples e preto. Fizeste a curva, quase atropelando um casal de idosos que te rogaram umas palavras em surdina. Olhei para a avenida e vi o movimento de corpos. Deixei-me arrastar no turbilhão de luzes e cheiros e avancei rua abaixo. Estava uma noite óptima para caminhar. Sozinho, como já há muito gostava de fazer.
24/09/07
Sentámo-nos quase no chão, meio atarrecados pela altura daqueles "bancos de brincar", largando a piada em forma de comentário desinibidor ao empregado. Este anuiu sorrindo e escusou-se a prolongar a nossa gargalhada. Hierarquizámos a comida em categorias de "não sabemos o que é" e "isto é bom que já provei". Chamámos novamente o empregado que nos olhava de soslaio e cuchichava baixinho com uma colega que mais parecia um dos bancos. Aproximou-se e agachou-se junto de nós evitando-nos uma comprometedora subserviência de estatura. Esclarecemos os "não sabemos o que é" e encomendámos mais dois ou três "isto é bom que já provei". Acomodámo-nos como que preparando uma posição de combate ao extermínio de todas as dúvidas, questões e suspeitas causadas por todos estes anos de ausência. Era este o momento para o ressurgir das mil-e-uma questões que minaram as nossa mentes durante anos de privação induzida. Acabariam agora as ansiedades pontuais que nos assaltaram a mente quando emergiram em golfadas os pequenos restícios da vida de outrora.
O "comer com pauzinhos" deu o mote para uma conversa parva e promiscuamente desconfortável para ambos. Fazia anos que a partilha deste "vocabulário de favela" (como uma vez o apelidámos) se havia extinguido, e tentávamos agora reacender o fogo após o rescaldo. O à-vontade talvez estivesse lá, mas há muito que a displicência própria das vivências partilhadas e segredos desvendados partira além-mar. Se voltaria um dia a ser avistada daquele cais lúgubre onde agora nos encontrávamos, essa era outra conversa que certamente não teríamos nesse momento.
Entre devaneios simplistas do que poderíamos ter sido, lidavas com os travões que eu ia acometendo à conversa. Não mais me interessavam justificações para o passado, para as tuas traições encapuçadas de lealdade egoísta. Provei o sashimi de salmão e olhei-te a saborear o de atum. Fizeste como sempre aquela covinha no queixo quando degustavas algo que amavas. Como o fazias também após um beijo "dos nossos". Adoravas prolongar o meu sabor na tua boca.
A tua mão surgiu-me no sexo sem que a esperasse. Previra tudo isto na minha antecipação deste encontro, mas nunca ponderei qualquer probabilidade de que ocorresse. Nem mesmo a acentuada inclinação do teu corpo para permitir que o teu braço se extendesse por baixo da mesa, me fez adivinhar esta tua atitude - acredito eu - irreflectida. Recuei bruscamente o meu corpo, fazendo guinchar nos azulejos negros os pequenos côtos que serviam de pés ao banco. Caíram rapidamente sobre nós inúmeros olhares inquiridores e curiosos de casais e grupos de amigos que se amontoavam nas mesas limítrofes. Fui incapaz de conter aquela gargalhada estridente, deixando de me preocupar pela forma audível como esta ecoou em toda a extensão daquela sala rectangular. Tu, contendo o riso, saboreavas um largo pedaço de giosa, entortando propositadamente os olhos de cada vez que me miravas. "Só queria saber se não o tinhas perdido aí numa gaja qualquer." disseste, sem qualquer rubor nas faces ou tremor na tua voz. "Como querias que o tivesse perdido?! Deixei-me de fodas por desporto assim que te conheci, e agora bem que me arrependo..." disparei sem te deixar respirar.
Deambulámos por um mar calmo de palavras e histórias de trabalho, amigos comuns, casamentos e divórcios ocorridos nos últimos anos após a nossa separação...aquele teu gesto teve o condão de normalizar o nosso diálogo e trazê-lo de volta à nossa actual realidade de separados. Não te oposeste sequer (como fazias quando estávamos juntos) assim que peguei na conta para pagar. Trauteaste uma melodia que não reconheci e que mal ouvi sobre o música ambiente, enquanto deslizavas o anelar na borda da chávena do café.
Levantámo-nos de um salto em direcção à rua e perguntei-te onde querias ir agora beber um copo. Nem sequer fingiste. Disseste-o directamente: "tenho mais do que fazer do que aturar-te a má disposição. Só já não fodes porque não queres, ninguém te obriga a permanecer fiel a uma imagem que só existe na tua cabeça!", disparaste.
Vi-te caminhar como chegaste, mas desta vez, de costas, apreciei a marca do teu fio dental. Imaginei-o como um daqueles de que gostavas: de algodão, simples e preto. Fizeste a curva, quase atropelando um casal de idosos que te rogaram umas palavras em surdina. Olhei para a avenida e vi o movimento de corpos. Deixei-me arrastar no turbilhão de luzes e cheiros e avancei rua abaixo. Estava uma noite óptima para caminhar. Sozinho, como já há muito gostava de fazer.
24/09/07
terça-feira, setembro 18, 2007
Adorava beber as tuas palavras...
Nunca to disse mas disse-o a mim mesmo por inúmeras vezes. Foram tantas as vezes que me alimentei das tuas estrofes que hoje, quando estas me faltam, procuro migalhas de frases e pequenas palavras nesta sopa de letras que é a minha memória. Era nelas que me refugiava de todos os medos e acreditava que era realmente especial. A forma como me descrevias ia ao fundo do meu ser e detalhava-me em pormenores que nem eu mesmo reconhecia. Enaltecias-me como se as tuas palavras fossem as asas de uma enorme águia que me guiava em direcção ao céu, nele me passeava mostrando-me as várias direcções do Mundo e só então, passados muitos minutos, me devolvia ao silêncio cortante do meu quarto. Era nelas que me consumia em lágrimas doces, que acompanhavam espasmos de cadência incerta do meu coração. Os arrepios faziam-me acreditar na verdade do seu âmago. Que tudo era verdadeiro e que, afinal, o Mundo era aquele lugar bonito onde vivíamos todas as experiências que Deus a nós havia destinado e a outros negado. Nunca o outro lugar inóspito e estéril das lembranças fugazes e preconceitos malditos em que vivi antes de entrares de rompante e sem pedir licença na minha vida.
Quiçá encontrarei um dia uma nova musa de sentimentos, tal qual o foste outrora para mim. A musa-poetisa que arrancará do fundo de mim todas as mensagens subliminares que ouso dizer a todas as mulheres, como se só em mim existisse o descodificador da sedução e nenhuma delas pudesse alguma vez sequer desconfiar das minhas pecaminosas intenções. Que as secará como a uma peça de roupa estendida debaixo do sol abrasador do pior dos Verões e recolherá já sem gota ou sequer molécula de pecado e luxúria. Que depois, as amontoará e carregará às costas até à tua morada, onde tu as esperarás ansiosa, ávida de amor, desejo e enebriante tesão.
Se ela me aparecer à frente, cuidarei ainda de perguntar-te uma última vez pelas tuas intenções. Se estarás disposta a dar-me de mão beijada a uma qualquer aprendiz de metáforas e eufemismos, ou se encherás o peito de coragem e a memória de vidros partidos que já pisaste, e reagirás como mulher corajosa que és. Reclamarás o meu direito puxando-me enérgica e freneticamente para ti, envolvendo-me nos teus braços e cuspindo bem no meio da cara da tua rival. Ela não me conheceu como sou, apenas vislumbrou palmos de pele e cheirou parte da essência do amor. Daí que não tardará e virar costas e partir, ciente da sua derrota fácil, sem grande luta ou angústia de perdedor.
Ficaremos unidos relembrando este episódio que não foi mais que um susto, um sopro de vento que não encontrou a tempestade. Alhear-nos-emos de tudo e de nada, apontaremos a Norte e rumaremos aonde não nos encontrem. E é aí, nesse Mundo de dois que conhecemos e onde regressamos ao fim de algum tempo, que voltarás a descansar, a sentir as baforadas da nossa vida de sempre, a sístole e a diástole do músculo que partilhamos e que nos rege qual maestro enfurecido pela nódoa na pauta e humidade na batuta. Pensarás e facilmente retomarás essas palavras que sempre me aconchegaram nesse ninho quente. E eu voltarei a saborear, recluso das tuas intenções. Voltarei a estar disponível para ser escravo de ti, nada pedindo em troca para além do naco de afecto e malga de respeito. É assim que sou, e é este o sabor das tuas palavras...
18/09/07
Quiçá encontrarei um dia uma nova musa de sentimentos, tal qual o foste outrora para mim. A musa-poetisa que arrancará do fundo de mim todas as mensagens subliminares que ouso dizer a todas as mulheres, como se só em mim existisse o descodificador da sedução e nenhuma delas pudesse alguma vez sequer desconfiar das minhas pecaminosas intenções. Que as secará como a uma peça de roupa estendida debaixo do sol abrasador do pior dos Verões e recolherá já sem gota ou sequer molécula de pecado e luxúria. Que depois, as amontoará e carregará às costas até à tua morada, onde tu as esperarás ansiosa, ávida de amor, desejo e enebriante tesão.
Se ela me aparecer à frente, cuidarei ainda de perguntar-te uma última vez pelas tuas intenções. Se estarás disposta a dar-me de mão beijada a uma qualquer aprendiz de metáforas e eufemismos, ou se encherás o peito de coragem e a memória de vidros partidos que já pisaste, e reagirás como mulher corajosa que és. Reclamarás o meu direito puxando-me enérgica e freneticamente para ti, envolvendo-me nos teus braços e cuspindo bem no meio da cara da tua rival. Ela não me conheceu como sou, apenas vislumbrou palmos de pele e cheirou parte da essência do amor. Daí que não tardará e virar costas e partir, ciente da sua derrota fácil, sem grande luta ou angústia de perdedor.
Ficaremos unidos relembrando este episódio que não foi mais que um susto, um sopro de vento que não encontrou a tempestade. Alhear-nos-emos de tudo e de nada, apontaremos a Norte e rumaremos aonde não nos encontrem. E é aí, nesse Mundo de dois que conhecemos e onde regressamos ao fim de algum tempo, que voltarás a descansar, a sentir as baforadas da nossa vida de sempre, a sístole e a diástole do músculo que partilhamos e que nos rege qual maestro enfurecido pela nódoa na pauta e humidade na batuta. Pensarás e facilmente retomarás essas palavras que sempre me aconchegaram nesse ninho quente. E eu voltarei a saborear, recluso das tuas intenções. Voltarei a estar disponível para ser escravo de ti, nada pedindo em troca para além do naco de afecto e malga de respeito. É assim que sou, e é este o sabor das tuas palavras...
18/09/07
sexta-feira, setembro 07, 2007
Desculpo-me
Nem sempre o digo como o penso. É de amargos de boca que vivo sempre que falo de forma irreflectida e inócua. Deito-me a rogar a quem amo como de almas penadas se tratassem e delas fujo quando me atormentam. Largo palavras que nunca disse cravadas de espinhos e ouso querer cheirar a linda flor assim que a contemplo já sereno. Espeto a espada em quem amo e só deixo de a ferrar quando a mão me queima com o sangue derramado.
Magoar é uma arte que domino. Melhor fosse que me houvessem escapado as lições do ofício.
2007/09/07
para a minha mulher Raquel.
Magoar é uma arte que domino. Melhor fosse que me houvessem escapado as lições do ofício.
2007/09/07
para a minha mulher Raquel.
Cruel revolta...
É cruel que a revolta me visite todos os dias de manhã como que para me lembrar do vazio que há-de vir depois da porta de casa, que me acene à tarde, trocista, da janela do Mundo com vista para o rio e antes que adormeça, por debaixo das pálpebras escuras. Melhor fosse que me atormentasse de vez, num tiro único e certeiro ao centro da minha vida, que me apagasse das imagens lânguidas que vão sendo projectadas incessantemente perante os meus olhos.
Mas esta revolta não é piedosa. Não é como outras que conheço e com que passeei por prados extensos e sinuosos, mas que acabei por enterrar, cansada de morte, no cimo de um qualquer monte de vendavais. Como outras que me ignoraram e que depois me convidaram para dormir, arrebatando-me numa jornada de sexo rebelde e insolente. Esta é permissiva enquanto planeia o ataque: deixa-nos respirar perante os outros, mas ataca-nos à traição quando de costas; dá-nos de beber na esperança, e seca-nos o lago quando nadamos. Insinua-se, promíscua e leviana, engancha o indicador para chamar e quando perto, ferra-nos o golpe que nos rasga a jugular.
O que esta revolta não sabe é que com antepassadas suas aprendi. Tornei-me especialista contra vontade quando à-vontade as enfrentei. Se bem que mais forte, tão ou mais poderosa que uma mentira colossal e a soma dos seus reflexos, não é mais do que um pronúncio viral longe da pandemia. Uma grilheta de facas de plástico afiadas. Um terramoto de epicentro em alto-mar.
Mostrar-lhe-ei o antídoto antes de lho injectar. Olhá-la-ei profundamente e regozijar-me-ei com um sorriso cínico no canto dos lábios. Dir-lhe-ei adeus com antecedência, para que se aperceba e sofra e conclua que se extinguirá em mil pedaços inofensivos de pó e cinza aquando da estocada final. Segredar-lhe-ei ao ouvido ofensas às primeiras convulsões, e quando paralisada de corpo e nervo, alinharei o seu ângulo de visão com a estrada por onde partirei, decidido e satisfeito. Pontapearei uma pedra, olharei para trás e sorrirei, retomando o meu caminho perante as lágrimas secas que deixo para trás.
2007/09/07
...de mim para mim.
Mas esta revolta não é piedosa. Não é como outras que conheço e com que passeei por prados extensos e sinuosos, mas que acabei por enterrar, cansada de morte, no cimo de um qualquer monte de vendavais. Como outras que me ignoraram e que depois me convidaram para dormir, arrebatando-me numa jornada de sexo rebelde e insolente. Esta é permissiva enquanto planeia o ataque: deixa-nos respirar perante os outros, mas ataca-nos à traição quando de costas; dá-nos de beber na esperança, e seca-nos o lago quando nadamos. Insinua-se, promíscua e leviana, engancha o indicador para chamar e quando perto, ferra-nos o golpe que nos rasga a jugular.
O que esta revolta não sabe é que com antepassadas suas aprendi. Tornei-me especialista contra vontade quando à-vontade as enfrentei. Se bem que mais forte, tão ou mais poderosa que uma mentira colossal e a soma dos seus reflexos, não é mais do que um pronúncio viral longe da pandemia. Uma grilheta de facas de plástico afiadas. Um terramoto de epicentro em alto-mar.
Mostrar-lhe-ei o antídoto antes de lho injectar. Olhá-la-ei profundamente e regozijar-me-ei com um sorriso cínico no canto dos lábios. Dir-lhe-ei adeus com antecedência, para que se aperceba e sofra e conclua que se extinguirá em mil pedaços inofensivos de pó e cinza aquando da estocada final. Segredar-lhe-ei ao ouvido ofensas às primeiras convulsões, e quando paralisada de corpo e nervo, alinharei o seu ângulo de visão com a estrada por onde partirei, decidido e satisfeito. Pontapearei uma pedra, olharei para trás e sorrirei, retomando o meu caminho perante as lágrimas secas que deixo para trás.
2007/09/07
...de mim para mim.
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