É cruel que a revolta me visite todos os dias de manhã como que para me lembrar do vazio que há-de vir depois da porta de casa, que me acene à tarde, trocista, da janela do Mundo com vista para o rio e antes que adormeça, por debaixo das pálpebras escuras. Melhor fosse que me atormentasse de vez, num tiro único e certeiro ao centro da minha vida, que me apagasse das imagens lânguidas que vão sendo projectadas incessantemente perante os meus olhos.
Mas esta revolta não é piedosa. Não é como outras que conheço e com que passeei por prados extensos e sinuosos, mas que acabei por enterrar, cansada de morte, no cimo de um qualquer monte de vendavais. Como outras que me ignoraram e que depois me convidaram para dormir, arrebatando-me numa jornada de sexo rebelde e insolente. Esta é permissiva enquanto planeia o ataque: deixa-nos respirar perante os outros, mas ataca-nos à traição quando de costas; dá-nos de beber na esperança, e seca-nos o lago quando nadamos. Insinua-se, promíscua e leviana, engancha o indicador para chamar e quando perto, ferra-nos o golpe que nos rasga a jugular.
O que esta revolta não sabe é que com antepassadas suas aprendi. Tornei-me especialista contra vontade quando à-vontade as enfrentei. Se bem que mais forte, tão ou mais poderosa que uma mentira colossal e a soma dos seus reflexos, não é mais do que um pronúncio viral longe da pandemia. Uma grilheta de facas de plástico afiadas. Um terramoto de epicentro em alto-mar.
Mostrar-lhe-ei o antídoto antes de lho injectar. Olhá-la-ei profundamente e regozijar-me-ei com um sorriso cínico no canto dos lábios. Dir-lhe-ei adeus com antecedência, para que se aperceba e sofra e conclua que se extinguirá em mil pedaços inofensivos de pó e cinza aquando da estocada final. Segredar-lhe-ei ao ouvido ofensas às primeiras convulsões, e quando paralisada de corpo e nervo, alinharei o seu ângulo de visão com a estrada por onde partirei, decidido e satisfeito. Pontapearei uma pedra, olharei para trás e sorrirei, retomando o meu caminho perante as lágrimas secas que deixo para trás.
2007/09/07
...de mim para mim.
sexta-feira, setembro 07, 2007
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