histórico ou uma passagem bibliográfica que o pai queira deixar para o futuro.
O teu ou o nosso futuro. É apenas uma tentativa de repor um erro que cometi ao
não ter-te escrito antes. Desde que nasceste que to tenho prometido: agora
cumpro-o. É possível que demore alguns anos até que entendas completamente o
que aqui te escrevo. Basta pensar que ainda irás aprender a ler e a escrever e só
depois de tudo isso poderás consegui-lo. De qualquer forma, ficam aqui estas
palavras, desde já. Lê-as quando puderes que nunca será tarde, e tira as tuas
próprias conclusões quanto ao número de coisas certas e erradas que arrisco dizer-te.
Não és apenas a minha filha. És um ser perfeito na tua
natureza e no teu corpo de 5 anos. És aquilo que acredito ser a perfeição e a
justificação do Mundo, daquilo que me trouxe aqui. Por mais objetivos que possa
idealizar para a minha vida, és aquele que justifica que todos os outros sejam um
punhado de intenções para uma vida mais materialista, egoísta. (A razão porque
sou obrigado a ter esses outros objetivos: o teu bem estar. Mas vale muito a
pena.) És uma espécie de bússola que orienta os meus pensamentos e me leva a
direccionar os passos que dou, a toda a hora. És o sorriso sincero que nasce na
minha expressão, quando te aventuras em raciocínios próprios para a tua idade.
És o aperto quente do amor, quando te contemplo no teu sono sincero e merecido.
És todo o meu medo que não sejas perfeita à imagem que criei para ti, mas que
está errada. Essa imagem é a ilusão de um crescido que pensa ser capaz de
defini-la como correta. Que sei eu da vida, filha?
Quero dizer-te que tenho medo que cresças. Que os anos te
tragam a capacidade de me julgar como um pai menos perfeito, mau até. Um pai
ausente por vontade própria, pois é minha, só minha, a culpa do que não deu
certo e de não poder estar ao teu lado todos os dias. De levar-te à escola
durante a semana, de abraçar-te e dar-te miminhos ao final do dia quando chego do
trabalho, de colar cromos de princesas nas tuas cadernetas, de pentear as tuas
Barbies, de dar-te banho antes do jantar ou um beijo doce quando te deitas para
dormir. Mas já falámos sobre isso. O pai tem muitas saudades de fazer todas essas
coisas contigo e gostaria de poder fazê-las sempre, mas às vezes os crescidos
não se dão bem e deixam de querer ser casados e de viver uns com os outros. E
foi isso que aconteceu com o pai e com a mãe. Sabes que o pai e a mãe ficaram
muito amigos um do outro e continuam a estar contigo quando é possível estarmos
todos juntos, os três. Mas porque isso não é possível sempre, decidimos fazer
aquilo que achámos ser melhor para ti: tu vives na casa da mãe – essa é a tua
casa – e estás com o pai aos fins-de-semana e sempre que o pai vai jantar
contigo às quartas-feiras. E vendo bem as coisas, até tem sido divertido assim!
E tu também adoras Lisboa ao fim-de-semana, tal como o pai!
Quero dizer-te, primeiro que tudo, que acho que deves amar a
tua mãe com a mesma cumplicidade com que deixas que ela te ame e te ajude a
crescer, todos os dias. Tornaste-te uma vaidosa, uma “gozona”, brincalhona e
até fútil, por vezes, mas essas não são obrigatoriamente coisas más. São
características humanas inatas que se apuram ou extinguem com o tempo e as
lições da vida. Tens tempo para decidir como queres ser e que ninguém ouse
privar-te desse direito. És ainda criança, com idade para que nada justifique
julgar-te, apenas sorrir com essa ingenuidade e pureza tão ricas. Eu, teu pai,
é que sou um crítico “por natureza”, e nem sempre me lembro que a minha própria
natureza já se moldou a um conjunto de defeitos que trago comigo no dia-a-dia, desde
que acordo. São defeitos, filha, tão difíceis de mudar, que reconheço, apesar
de me atormentarem a toda a hora, a todo o momento, principalmente naqueles
fins-de-semana em que estou contigo e me ouço a gritar-te para que te “portes
bem” ou te puxo pelo braço para te dar uma reprimenda desnecessária e, quase
sempre, inoportuna. Do que vale pedir-te desculpa, se eu próprio, adulto, ainda
estou a crescer?!
Não te sintas triste quando a vida te pregar algumas
partidas. Vai acontecer bastante, até que um dia, muito longe, fiques velhinha
e pregues tu uma partida à vida, abandonando-a. Vais conhecer amigos que te vão
deixar triste porque também eles vão errar quando te magoarem e te apresentarem
aquilo que sentirás como desilusão. Mas serão esses mesmos amigos, e outros,
que te proporcionarão os momentos mais felizes da tua vida.
Vais ter namorados de quem vais gostar muito mas que,
perceberás então, não são os namorados que queres ter. Mas serão alguns desses
namorados, talvez um apenas, que vai querer estar ao teu lado por toda a tua vida
e pedir-te para que o deixes fazer-te feliz. Deixa que isso aconteça. O amor é
o sentimento mais difícil de encontrar. Não te consigo dizer como é o amor,
pois essa é também parte da sua beleza: é diferente e aparece de forma
diferente, a cada um de nós. Mas posso garantir-te que vais reconhecê-lo quando
aparecer. Não o procures desesperadamente, deixa que seja ele a encontrar-te.
Vais ouvir muitas pessoas dizer-te que tens de estudar, ir
para a universidade, para que possas ter uma boa vida. Não acredites numa única
palavra que te disserem. Se o quiseres, se for essa a tua vontade, acredita em
algumas destas e fá-lo. Mas tenta sempre ser – e apenas - muito boa naquilo que
decidires escolher para ti e para a tua vida. Mas se não sentes que é isso que
queres, posso garantir-te que existem muitos caminhos, muitas conquistas e
muitas experiências que serão muito mais importantes para ti que um simples
papel (chamam-lhe “diploma”) que te vai chamar um nome que não é o teu. Deverás
ser sempre tu a escolher o que queres ser ou fazer na tua vida, repito. Aceita
alguns conselhos; são bons e evitar-te-ão alguns dissabores e tempo perdido.
Mas outros, ignora-os. Certamente vais perceber e sentir, dentro de ti, as
diferenças entre estes.
Vais ter momentos em que te sentirás triste. Não vais
conseguir explicá-lo bem, quais as razões para que isso te aconteça, a ti que
até és “feliz”. Não te preocupes. São apenas outras partidas que o nosso
organismo nos prega. Somos feitos de milhões de coisas físicas e químicas e,
por vezes, também estas se desiquilibram e nos fazem cair. É muito parecido
como quando tentamos equilibra-nos em cima de um muro e sentimos um misto de
aventura, de perigo e de vontade de perceber como vai acabar esse desafio. Já
sabes que um joelho com uma mazela e que deita um bocadinho de sangue ou uma
nódoa negra na canela, não são tão maus assim. Doem, mas depois passa. Também são
assim estes momentos tristes. Passam depressa.
Vais ter outros momentos em que te sentirás perdida e
assustada. É parecido com aquelas situações em que, quando andamos a passear em
sítios com muita gente, tu deixas a minha mão porque te apetece correr ou ver
qualquer coisa numa montra de uma loja, e depois quando olhas para trás, não me
vês. Mas o pai está a ver-te e nunca te perde de vista. E eu chamo-te, tu
vez-me e ficas feliz de novo e o susto já passou. Também é assim a vida. Por vezes
não sabemos que escolhas devemos fazer ou que caminhos seguir, porque não
adivinhamos o que é que vai acontecer. E depois perdemo-nos daquilo (e daqueles)
que conhecemos e isso assusta-nos. Mas há sempre alguém que está a olhar para
nós, que não nos perde de vista. Pode ser um amigo ou uma amiga, a mãe, o pai,
o teu namorado ou até mesmo uma pessoa estranha ou que não conheças muito bem.
Essas pessoas ajudam-nos a tomar decisões, fazem-nos ver que, muitas das vezes,
aquilo que achamos que está certo pode não ser correto ou que, pelo menos, tem
uma maneira diferente de ser entendido. E essa é outra das maravilhas da vida.
As coisas têm muitas interpretações diferentes. Algo que te faz ficar triste,
pode também ser uma grande lição para que valorizes mais todas as coisas que te
fazem ficar feliz; algo que te magoa, também te ensina que não deves repetir
para não te magoares de novo. Por outro lado, também pode acontecer, por
exemplo, que estejas muito feliz por possuires algo e, no momento a seguir,
perdeste essa coisa. As coisas funcionam desta forma esquisita. Ora são, ora
não são. Parece complicado, mas é mais simples do que parece. Basicamente, tudo
acontece assim porque não há verdades absolutas. Se bem que isso nos possa
baralhar, é também bastante importante para que queiramos sempre saber mais,
aprender coisas novas, fazer coisas diferentes, querer ir mais longe, para
estarmos mais bem preparados no momento em que as “coisas esquisitas”
acontecem.
Vais também ficar surpreendida com outras coisas que vão
acontecer. No teu corpo, por exemplo. Dentro e fora dele. Nunca tenhas medo nem
vergonha de perguntar nada, o que quer que seja. Se não compreendes, pergunta.
A tua mãe, eu, a tua avó ou a tua tia, uma amiga ou um amigo, têm respostas
para te dar e ajudar a compreender. O teu corpo vai mudar, adquirir novas
formas. Isso quer dizer que estás a crescer, a tornar-te menina, depois jovem (como a Marta, dos Morangos com Açúcar, de quem tu tanto gostas e que emitas a
cantar, por exemplo!) e finalmente mulher. Vais ouvir alguma destas pessoas
falarem no período, na vagina, no pénis, no sexo, no fazer amor, na gravidez,
no aborto e em mil outras coisas mais. São tudo conceitos e coisas muito
simples, que vais entender porque todas estas pessoas estarão ao lado para te
ensinar e apoiar. Como sabes, é bom ser criança, mas crescer permite-nos
aprender coisas novas, brincar a coisas diferentes e igualmente divertidas. E a
vida é maravilhosamente divertida!
Não vale a pena escrever-te muito mais coisas. Porque sei
que vou poder dizer-tas sempre, quando estou contigo ou quando falamos por
telefone. Mas tinha-te prometido que o faria, e fi-lo. Lembro-me que estavas
deitada no teu berço ao lado da cama da mãe, ainda na maternidade, e tinhas
acabado de completar o teu segundo dia de vida. Ouviste-me com os olhos semi-abertos,
não me entendeste, mas sinto que me entendeste. Afinal de contas, és a minha filha, aquela que já entende tantas coisas e aprende a entender um bocadinho mais,
todos os dias. Por isso, sei também que entenderás estas palavras quando as
puderes ler e refletir sobre elas. Julgar-me-ás como quiseres, mas sei que o
farás com amor. Porque me conheces e conhecerás cada vez mais e melhor. Pois
também isso consegue o amor: que entendamos quem amamos e que os julguemos com carinho, compreensão e um pouco mais de amor.
O teu pai.