sábado, novembro 27, 2010

Adeus

Abri a porta do quarto e logo o gato assomou ao meu encontro, serpenteando por entre as minhas pernas. Vou sentir saudades que me aqueças os pés à noite Cat, disse-lhe, e pressenti que me entendeu por entre aquele olhar fixo com os bigodes brancos a penderem das bochechas. Esgueirou-se pela porta rumo à cozinha, agradecendo a liberdade. Pousei o envelope sobre a almofada que repousava na cabeceira da cama, do lado onde a minha mãe dormia. Vi a minha caligrafia. “Mãe”. Aos pés da cama, repousava a saia que lhe dera no Natal anterior, passada a ferro de forma imaculada, tal como ela gostava.

A porta do quarto do meu irmão estava aberta; uma janela com vista para aquele sítio lúgubre que ele teimava em chamar “toca”. Costumava dizer aos meus pais, naquele tom irónico de adolescente que sabe tudo, que eles nunca entrariam numa toca que encontrassem algures, que “nas tocas há bichos e quase todos os bichos mordem!”, largando aquela sua gargalhada estridente, enquanto o meu pai entreolhava a minha mãe com aquele semblante desconsolado pela juventude idiota que lhe levara o filho. Da mesma forma deveriam fazer com o seu quarto; não entrassem sem ter a certeza que nenhum bicho os morderia, e ria-se de novo. Em dias em que lhe apetecia falar, a maioria das vezes à hora do jantar, ainda se demorava a explicar que a desarrumação de que o acusavam não era mais do que a sua própria interpretação de um espaço de culto às bandas e músicos que idolatrava e que pendiam nos posters, de olhar sisudo e intemporal. Porque “a mãe também usava a marquise para ter a estátua da Nossa Senhora!”, aquele meio metro de gesso pintado a guache de prata e ouro, água, goma-arábica e mel, nada mais, e que ninguém dizia nada. A minha mãe ainda se deixava magoar por aqueles modos e repreendia-o sempre da mesma forma: “que Deus Nosso Senhor não te castigue!”, e baixava os olhos para o prato, pigarreando algo mais que já nenhum de nós conseguia ouvir.

Pousei a carta sobre a almofada amachucada, amarelada pela baba, achei má ideia e voltei a pousá-la sobre a mesa de cabeceira, junto da caixa do aparelho para os dentes. Ali certamente a veria. Senti o cheiro pesado do quarto, dos cigarros que fumava à janela sem os meus pais verem e que depois lançava, já beatas, para as traseiras do prédio. Pensei em abrir a janela para a luz entrar, deixar correr uma ponta solta de ar que arrastasse aquele bafio húmido que parecia alojar-se nas nossas narinas durante dias. Para quê? Certamente me acusaria da mesma forma que o fazia aos meus pais. Vive aqui como um porco, miúdo idiota, pensei. E saí.

A água ultrapassava já a banheira pela metade, e o vapor apagara todos os reflexos do espelho. Abri o armário e tirei o frasco. A minha mãe escondia-o por trás das caixas dos tampões, dos meus e dos dela. Tenho a certeza que o fazia mais pela vergonha que sentia de si própria, por saber-se dependente para toda a vida daquela bengala para adormecer e conseguir repousar aquelas quatro horas por noite. Certinhas. Os olhos abriam-se-lhe por volta das seis da manhã, nem que os tivesse cosido com agulha e linha. Aproveitava aquela hora antes de o meu pai despertar ao som daquele zumbido irritante com ponteiros, para lhe preparar a roupa que este levaria para o escritório. Todos os dias. E todos os dias sentia que cumpria com o seu papel de mulher que já não ama mas cuida. Que já deixou de sonhar para que os outros vivam.

Despi o pijama e senti o coração bater-me na boca. Quase não tive tempo para levantar a tampa da sanita e vomitar o pequeno-almoço. Pelo menos assim estaria com o estômago vazio e nada atenuaria o efeito. Levantei a cabeça, corri a mão no espelho e sacudi a humidade onde me olhei e me vi, pela última vez. Os meus olhos disseram-me as horas que não dormi na noite anterior; o meu cabelo desgrenhado contou-me a história de uma jovem que não gostava do corpo onde vivia. Vi o meu queixo tremer mas jurei, de novo, que nada mudaria. A decisão estava tomada e não era agora que ia chorar, pois secara todas as dúvidas e remetera ao silêncio toda a dor.

A água morna lambeu-me do pé ao joelho e quando me sentei e recostei na banheira fria, lambeu-me o resto do corpo, até ao pescoço. Na mão direita pendia o meu fim. Tão fácil. Tão simples. Tirei a tampa branca e ouvi aquele telintar, como se fossem moedas em forma de smarties. Branquinhos e pequeninos, parecidos com a pílula que tomei durante um ano e que deixara o mês passado porque me faziam explodir as mamas. Fechei a torneira e voltei a procurar a posição que parecesse menos dramática quando me encontrassem. A minha mãe deixaria cair os sacos das compras. Agarrar-me-ia, num choro convulsivo, num pranto agonizante e gritaria. Talvez os vizinhos acudissem. Quando conseguisse, refeita do que quer que fosse a sua angústia, ligaria para o escritório do meu pai. O meu irmão saberia depois. Talvez o meu pai o fosse buscar à escola.

Coloquei-os sobre a língua, deixei que as minhas costas deslizassem um pouco e que a água me chegasse à boca. Engoli-os devagar, porque não tinha pressa. A minha mão deslizou e perdeu-se por entre as minhas coxas. Toquei-me pela última vez mas não me vim. Ouvi a minha respiração perder a força ofegante que, segundos antes, acompanhavam o ritmo dos meus dedos a entrar em mim. Estava tão calma e senti a paz. Era isto a paz, concerteza. Encostei a cabeça à borda e ouvi o chapinhar suave do meu corpo na água enquanto me punha confortável. Uma gota atirou-se do alto da torneira e fez ploc. Fechei os olhos. Se calhar, adormeci.

sexta-feira, novembro 26, 2010

Sede

Pousei o copo ao meu lado e fiz dele companhia. Mais uma vez, e como tantas outras vezes, admiti que tivesse sido este o único amigo que tive durante muitos anos. Olhei-o de soslaio e amaldiçoei este amor doentio que grassou durante anos na minha existência ausente, ambulante e procrastinada. Um amor que me tolhera a vida por mais tempo do que aquele que preferia admitir, a vida que quis ter e que há muito havia adiado a troco de quase nada. Ou de quase tudo, porque é de abundância que são feitos os amigos. E era este o meu amigo, o único amigo que tive durante muitos anos.

Levantei-me e estiquei as pernas entorpecidas pelo frio ou pelas horas. Fiz frente ao rio e cheirei-o sem autorização. Olhei-o de novo e ainda ali estava. Meio vazio e nunca meio cheio, porque só existia a minha razão deprimida e pessimista. A emoção morrera sem merecer sequer a extrema-unção. Do outro lado da margem pareceu-me ver gente, mas eram apenas as sombras que lambiam a paisagem à passagem de uma nuvem teimosa. Inspirei de novo como que disparando a ignição do meu caminhar. Como se soubesse para onde ia quando saísse dali. Não sabia. Mas andei. Chorei a cada passo, em penitência, incrivelmente feliz pela brisa vil que me rasgava a cara, como unhas afiadas de gelo. Acreditei que daria os passos que quisesse e que o deixaria ali, entregue à sua fortuna de ser derrubado pelo vento ou recolhido por um funcionário municipal. Os pés doiam-me como se pisassem a minha alma penada. Uns miúdos brincavam com uma bola pontapeando-a contra o muro mal caiado. O som abafava os meus passos por entre as linhas disformes da calçada. Sem me lembrar, olhei para trás e vi-o de novo. Maldito vento que não sopra forte. Maldito sejas, filho da puta.

Levei as mãos à cara de repente, como que tentando apanhar as lágrimas que os meus olhos entornavam antes que se perdessem por entre as pedras e fossem esquecidas como tantas outras. Os movimentos pesavam-me o corpo, ou talvez fosse o contrário. Deixei-me estar por um segundo, resistindo à tontura que ameaçava derrubar-me. Abri os olhos por instinto, e equilibrei-me. Cerrei os dentes, fechei o punho e esmurrei-me por três vezes, com força, no lado direito. Senti o regresso da tontura e o afluxo de sangue ao queixo. Trinquei algo que me pareceu ume pequena pedra. Engoli-a sem querer saber, sentindo-a mentalmente a passar na garganta. Ofeguei rapidamente, de dentes e lábios cerrados, punhos tensos. Saltou-me o ranho pelas narinas, ou talvez fosse apenas a água que os olhos entornavam. Fixei o chão e segui as linhas disformes, desta vez para trás, em sentido contrário. Não ouvia o som da bola. Um zumbido no ouvido não mo deixava. Doía-me a cara. O meu olho direito parecia-me mais fechado.

Sentei-me ao seu lado e todo o medo se desvaneceu como que por magia, sugado pela calma que me invadia como uma mão de mãe que nos afaga o cabelo antes de dormir. A firmeza do banco. A amarra no cais. As algemas que unem em matrimónio duas mãos que se espelham e anuem perante as suas diferenças, até que a chave as separe. O meu dedo toco-lhe o rebordo e surpreendi-me pela delicadeza do gesto. Já não tremia, talvez por isso. O plástico fresco. A humidade gotejante. O ouro líquido, inerte, até meio. Abracei-o com a minha mão e levei-o à boca. Sôfrego, bebi-o de um trago. Um gole que libertou o sangue que as minhas veias haviam barrado. Inspirei e senti a minha vida de novo. Sabendo, muito bem, que nada mais era que a epifania da minha morte.

sexta-feira, julho 30, 2010

Sombra

De onde estou não se vê céu

Está tudo escuro como breu

Sei que me perdi

Tenho vontade de viver

Mas não me consigo mexer

Sei que não vou sair daqui

A parede fria traz-me à razão

Quero dizer sim mas sai-me um não

E à sombra ofereço a escuridão

Fui mal-amado mas feliz

Tive tudo o que sempre quis

E deitei tudo a perder

É estranha a forma como pomos

A vida em causa porque somos

Cegos e duros de roer

E um dia o sol não nos visita

Vai sem aviso e ninguém grita

Que o Mundo vai desaparecer

Escolhe-se então viver à pressa

Mesmo que ninguém reconheça

Que nada se quis aprender

O tempo pára à minha volta

Cai-me da mão a ponta solta

E à sombra ergo a solidão

terça-feira, julho 27, 2010

Perfection

There´s no such thing as perfection. Perfect.

Escrever

Escrever é decidir errar sem dar erros.

sexta-feira, junho 11, 2010

Límbico

São estados de espírito perigosos. Haverá explicação para querermos deitar tudo a perder quando tudo teríamos a ganhar se a estes não nos vergassemos? A minha intermitente - mas sempre teimosa - racionalidade dir-me-ia que não. A minha emoção que sim. Estúpida e inútil emoção que, sem qualquer justificação, pertinência ou mesmo permissão, se aloja e acomoda como se viesse para ficar de vez. Estou muito farto de ti, mas sem ti não posso viver. És aquilo que me faz amar, mas que perigas o amor daquela que amo. És aquilo que me faz chorar quando me lembro dessa mulher, mas que depois consegue esculpir na minha cara aquele ar sisudo, taciturno e infantil, digno de um adolescente mimado e embirrante e não de um homem convicto e irremediavelmente maduro, que a afasta sem justificação. És aquilo que me move, mas és igualmente o torpor que me consome e me remete à imobilidade. És tudo, e és nada.

Por tudo isto e por muito mais que poderia dizer-te, odeio-te. Mas também te amo. E dessa dicotomia, desse paradigma disfuncional e psicótico que me assola neste preciso momento, pelo menos retiro algo: um agradecimento. Um agradecimento por me permitires voltar à minha racionalidade sempre que decido esquecer que és a maior parte de mim. Nesses momentos, depois de me sujeitar à tua tortura que me derruba e me deixa prostrado, decido odiar-te, e é então que algo de magnífico acontece: decido procurar ajuda. Levanto-me, sacudo a terra que imunda as minhas roupas como que a querer marcar-me na lembrança tudo o que devo guardar no meu buraco consciente, e saio pela porta fora. Não tens de saber que não vou mais além que ao fundo da minha rua e que depois volto, cabisbaixo, rendido ao facto de que até a minha racionalidade me prende no meu feudo do tamanho de um quintal. E é nesse momento que percebo que é esse ódio que por ti nutro e tento fazer crescer a cada segundo que passa, que me faz ainda pior a mim e dá mais força às tuas maquiavélicas estratégias para me aniquilar. Percebo também que jamais conseguirei encontrar ajuda longe, pois é bem perto de mim (ok, é mesmo em mim…) que a encontrarei. Qual ajuda qual quê?! É pois um agradecimento que, alguns minutos volvidos, deriva num tipo de amaldiçoamento que te faço. Pena não estar a conseguir fazê-lo com clara eficiência, pois continuas a cirandar por aqui, dando-me a mão para me levantares e derrubando-me logo de seguida. Talvez seja uma questão de eficácia e é a coisa certa que não estou a vislumbrar. O que quer que seja, ainda não o consegui. Mas não zombes de mim. Não penses que escaparás sem que te dê luta séria e vigorosa. Claro que a razão que me ilumina em tudo o resto que sou na vida, é mais fraca que tu. Aliás, o seu corpo cada vez mais forte e tonificado, ainda não disfarça os traços da criança que é, uma criança que não excede em tamanho a largura de uma das tuas garras. Mas esta criança está a crescer e goza de esperança de vida considerável. Em breve estará do teu tamanho, porque não apenas ela crescerá naturalmente, como tu definharás progressivamente, vítima da indiferença a que te remeterei e à ajuda das crianças mais adultas que grassam nas mentes daqueles que amo e respeito. Estás condenada, escreve-o. De ti roubarei o teu melhor, e o teu pior nada mais será que uma raíz sub-nutrida à qual não ofertarei sequer uma singela gota de água. Secará e morrerá e apenas o melhor de ti ficará. Em mim. Para que possa amar aquela mulher, para que possa chorar quando dela me lembro, para que me possa mover como outrora fiz. E então, nesse preciso momento, terás mesmo de viver, lado a lado e sem quaisquer preferências tendenciosas, com a minha razão. Terás que com ela partilhar cama e roupa lavada, comer à mesma mesa, passear de mãos dadas pelos quintais que decidirmos invadir em busca de aventuras. Seremos uma família. Equilibrada e feliz. Invejados por outros, mas nunca por nós próprios.

terça-feira, junho 08, 2010

Arquétipos da alma

Já fui várias imagens de mim. Fui pessoas que amei e outras que nem reconheci. Fui amigo que acarinhei, abracei e ouvi, mas também fui inimigo que, cobardemente, quase aniquilei. Cruzei-me com arquétipos de uma alma que outros me disseram ser eu. Apontaram-me e chamaram o meu nome, acenando, esbracejando, com sorrisos estampados nas suas caras esfuziantes. Assisti a tudo, do cimo de um muro que me dividiu e me obrigou a protagonizar histórias diferentes. Estou certo que em ambas representei o melhor que pude. Fui guionista em ambas, só poderia tê-lo feito bem. Depois, sentado numa cadeira qualquer, numa coxia desconfortável onde o vento me geleva as costas, assisti ao meu desempenho. Magnífico. Aplaudi de pé, sentei-me e chorei. Chorei. Perdido numa angústia que há muito me assolava e agora me revisitava sem licença, senti a mão no meu ombro. Não quis abrir os olhos para ter de lidar com mais um desconhecido. Larguei-me por alguns segundos ao exercício do livre-arbítrio e fui causa e efeito. Primeiro efeito, depois causa. Percebi que do nada nasci e no nada morria agora. A mão apertou-me o ombro, como que tentando acordar-me do pranto, a fim de mostra-me algo mais que não apenas as palmas das minhas mãos. Talvez fosse isso. Ateimei e não olhei. Só quando aquela mão quente, forte, opressiva, me apertou ainda mais e me lancinou com uma dor insuportável, eu ergui a face e olhei. Vi pouco e de nada mais me lembro. Acordei e os mesmos objectos de sempre brindaram-me com uma luz diferente. Senti-me mais pequeno pois estes eram, agora, maiores. Um paradigma perante o quão enorme me sentia na minha nova vitalidade, na energia que emanava de mim e que me cuspiu da cama num ápice. Dei os mesmos passos, mas de forma mais arguta. Fiz os mesmos gestos, agora com mais perícia. Olhei para o resto do meu tempo e vi mais passos e mais gestos. Sorri e percebi porque chorei. Fechei os olhos e agradeci-lhe por ter-me acordado daquele estado letárgico, amorfo e ausente. Olhei para a minha mão e senti-a novamente quente, forte, opressiva. Peguei na mala e certifiquei-me que guardara a caneta, a pedra, a bola e todas as memórias do que fora. Abri a porta e saí para o que preferia ser.

terça-feira, maio 11, 2010

Whisper

One day, an angel whispered in my ear. I ignored it. Then it kept coming, again and again and again, saying I should listen. I heard it once. And I fell. It kneeled near me and asked me to stand up. My legs didin´t respond. Then it raised those wings to the sky and it lightened all my path. That´s when I saw her. She called me. My legs weren´t heavy any more. As I walked through her, I realized all images are alike. Meaningless. Pointless. A new whisper began. I didn´t ignore it this time. I looked back and the angel was gone. Felt something on my back. I spread those white wings and the skies pulled me up to that star. I closed my eyes and rested, knowing the next day wouldn´t be the day.

sábado, abril 17, 2010

Intervalo do tempo

Sento-me em frente a ti

Temos tudo para falar

Como se as palavras

Não tivessem ainda

Sido inventadas

O teu olhar grave

Faz-me pensar

Será que nos perdemos

Algures no silêncio

Onde sempre estivemos

E tudo se resume

A este momento

A breves minutos

Um intervalo do tempo

Do tempo que se esgota

Numa cor que desbota

Em coisa nenhuma

É o princípio e o fim

O princípio e o fim

Um começo terminado

Um confronto inacabado

Porque é sempre assim

Nem importa discutir

Mais saliva que gastamos

Sem beijo ou ternura

Fomos apenas desejo

De pura loucura

O teu corpo ruiu

Como avalanche de gelo

Dei-me como prisioneiro

Vendo-te só a ti

E cegando ao mundo inteiro

E nada me consome

Nem ouvir-te mentir

Nestes breves minutos

Um intervalo do tempo

Vai cair no esquecimento

Tempestade sem tormento

É nada de nada

É o princípio e o fim

O princípio e o fim

Um começo terminado

Um confronto inacabado

Porque é sempre assim

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Mudança

"Nunca saberás o que é gostar. Não da forma como gosto de ti. Não é uma crítica, é apenas uma constatação e, quem sabe, uma revelação para mim próprio pelo facto de que, possivelmente, és tu que estás verdadeiramente correcta. Eu gosto porque gosto, sem precisar de qualquer adjectivo para o quantificar ou qualificar. Gosto porque olho o contorno do teu rosto e os meus olhos como que se semi-cerram, acompanhando um ritmo apaziguante na minha respiração. Tu gostas porque gostas de um qualquer momento em que sentes ou pensas "gosto". São coisas diferentes, porém iguais pois partilham as letras de uma mesma palavra. Mas só por isso.
Mas algo está a mudar. Talvez pela simples razão de que percebo o quanto gosto a cada vez que gosto, que é sempre. E sinto que isso não me faz apenas bem. Começo a sentir um tipo de ansiedade que roça o ciúme de quem tem parte do que gosto, mas que possivelmente não gosta tanto como eu. Começo a sentir que existe alguma indisponibilidade da tua parte para quem sou, para o que te digo ou contigo partilho ou desejo partilhar ou no que em ti adoro. Não é uma cobrança de disponibilidade, como sabes. Cobrar o que quer que seja não é o meu registo, como sabes, mas sinto que existes para um Mundo novo que exploras - por vezes, promiscuamente, sei-o -, arredando-te de um Mundo que usávamos partilhar em uníssono. E mesmo não o antecipando, mesmo não o sabendo, sei agora que isso me magoa um pouco. Não, claro que não me dilacera como antes me dilaceravam algumas confissões que me fazias sobre a tua vida, os teus sonhos (molhados ou não), os teus desejos inqualificáveis na dose de tesão que me transmitiam a cada imagem que se revelava na minha mente luxuriante. Mas magoa-me um pouco. E, confesso-te, em toda a minha sinceridade que conheces e que jamais poderás questionar, isso não me apetece. Não me apetece mesmo.
Sim. Algo está a mudar. Quiçá compreendo agora alguma da importância que relativizei no passado e que tem a ver com o gostar de alguém e ser adorado de igual forma. É mesmo importante. Foda-se! Quase que me apetece gritá-lo! Não o farei porque tudo isto que sinto me suaviza a mente, quase como se fosse um exorcismo banal de algum sentimento de culpa por gostar de ti como gosto, da forma que não gosto. Talvez ajude também o sentimento que nutro por alguém. Talvez ajude também. Talvez. Mas é certo que algo está a mudar.
Sei que já me perdi muitas vezes em devaneios e palavras usadas que soaram bem mais corajosas quando proferidas por outrém. E depois voltei atrás, não na minha palavra mas nas minhas palavras insípidas e cobardes. Mas estas soam-me agora bem melhor. Parecem dotadas de uma energia superior que, em celebração, quase que são gemidas, primeiro, para serem vociferadas depois num grito libertador e incauto. Não interessa quem as ouve, interessa-me tê-las gritado!
Algo está a mudar. E diz quem sabe, a mudança é boa. Quisesse eu sabê-lo, e teria gritado há mais tempo.
Com amor.
P.S. - Amigo, espero tê-lo conseguido. Nunca escrevi amor para ninguém, porque amor não é igual para todos. Mas porque te amo, amigo, decidi amar como acho que amas quem também te ama mas dá ao amor um significado diferente. Exactamente porque o amor não é igual para todos. Sente o amor como o quiseres, mas não deixes de o sentir. Essa mudança não é boa.

terça-feira, janeiro 05, 2010

Li-te

Voltar a ti é sempre uma descoberta. Foi-o no dia seguinte a ter-te conhecido, naquela praceta ladeada por argolas e sob as gotas frias de um Outono chuvoso, enquanto raiavam as primairas luzes do dia. Foi-o no dia seguinte também e por muitos mais dias que se lhes seguiram. Foi-o muitos anos depois, perante o gracejo de um acaso, pois alguém escreveu - e eu acredito - que não há coincidências. Foi disso que se tratou, de um acaso típico daquelas coisas em que agora acredito e perante as quais, nesses tempos idos, gracejava e zombava. Ver-te, por detrás dos olhos verdes que há muito perdera no labirinto da memória mas que recordei imediatamente, foi voltar atrás no tempo, àquele tempo em que acreditamos que a vida vai dar-nos a eternidade de cada toque ou beijo que trocamos com aqueles de quem gostamos. E regressaste nesse momento ao meu mundo, de onde nunca deverias ter saído, mas de onde tiveste de sair, porque a vida é assim. Porque a vida nos suprime e surripia dos outros quando quer, refugiando-se na desculpa de que somos nós próprios que nos movemos. Mas agora estás por cá e sei que posso ter-te de novo na minha vida. Uma vida que construo ao minuto, cada vez mais consciente de que o tempo é um bem mais perecível que uma gema de ovo ou uma camada de chantilly num bolo de chocolate. Que o tempo o é, já o sei, e que uma nova traição da vida é muito mais que expectável, pois quando nos viramos de costas e olhamos o infinito da vida de outros, estamos de costas para o infinito das nossas vidas. Sei que vens por bem, para ficar, e que és uma linda mulher bafejada por outras inúmeras virtudes que soubeste cultivar apenas com a semente que recebeste. Orgulhas-te a cada dia que passa, por sê-lo de uma forma tão genuina perante aqueles que gostas, mas eis que, intricadamente, teimas em não partilhá-lo com o mundo. Não o faças se tal partilha te vincula. Fá-lo se apenas quiseres estar viva, nesse registo despreocupado e sereno. Estou por aqui para partilharmos momentos de uma amizade cuja ignição se tem esforçado por carburar, mas que a vida teima em engripar. Perdoa-me o metaforismo das minhas palavras e a loucura de comparar tal sentimento a um qualquer mecanismo de engrenagem, mas não será a amizade um motor?! Um motor que dá voz aos arranques e recuos de nós próprios? Um motor que gera energia para que prossigamos e enfrentemos as estradas encruzilhadas perante as quais nos deparamos? Não será a amizade... tudo isso? Tenho uma grande amiga que costuma dizer-me "amo-te". Porque para ela o amor mais não é que um conceito associado a tudo o que é bom: a saudade, a euforia, a carinho, a partilha, a entrega, a cumplicidade. Segundo ela, porque deverá ser o amor aquilo que todos temem dizer perante a ameaça de poderem estar a proferir uma sentença sentimental vinculativa? Segundo ela, também, se o amor que outros conhecem e que deriva em sentimentos menos nobres como o ciúme, o sofrimento, a decepção, o trauma, o preconceito e o medo, é bom, então ela não quer esse amor. Confesso-te, nem eu. Prefiro o amor da amizade e de tudo o que é bom e verdadeiro. Prefiro o amor dos momentos inesquecíveis, passados, presentes e futuros. Prefiro o amor que exulta das coisas que dizemos a alguém, e que esse alguém subscreve dizendo-nos que acabámos de retirar tais palavras de dentro delas próprias. No fundo, prefiro o amor que deriva da amizade e não a amizade que deriva do amor. Essa poderá não estar alicerçada por tudo o que é realmente importante na construção de uma amizade. A primeira sim. Gosto muito dessa minha grande amiga e já dei por mim a dizer-lhe "amo-te". Porque a amo em amizade e não sou seu amigo por amor. Gosto muito dela. E gosto muito de ti. Da forma como exististe e existes agora na minha vida. Por isso, também te amo. E consigo dizê-lo por tudo o que consegui dizer-te: amo-te.

segunda-feira, janeiro 04, 2010

Fome

Se um dia conseguir perceber-te, vou certamente ficar diferente. Conheço-te não pela metade mas pelo dobro, mas fico frustrado pelo muito mais que ainda me falta conhecer. És alma cheia. És pessoas a mais. És um filme que não acaba, sem intervalos. És tudo e dás-me nada. Quando um dia conseguir perceber-te, vou certamente ficar diferente. Vais ser mais do que aquilo que imaginei e menos do que quero ver. É difuso o que sinto. É claro o que percebo. Se uma história terminar, alimentar-me-ei sem ti mas morrerei de fome.

Chains

Leave your paranoia behind/ Don´t feed it even if it chases you/ Stop looking back for what´s the story/ Feel free to look forward for pride and glory.