sábado, novembro 27, 2010

Adeus

Abri a porta do quarto e logo o gato assomou ao meu encontro, serpenteando por entre as minhas pernas. Vou sentir saudades que me aqueças os pés à noite Cat, disse-lhe, e pressenti que me entendeu por entre aquele olhar fixo com os bigodes brancos a penderem das bochechas. Esgueirou-se pela porta rumo à cozinha, agradecendo a liberdade. Pousei o envelope sobre a almofada que repousava na cabeceira da cama, do lado onde a minha mãe dormia. Vi a minha caligrafia. “Mãe”. Aos pés da cama, repousava a saia que lhe dera no Natal anterior, passada a ferro de forma imaculada, tal como ela gostava.

A porta do quarto do meu irmão estava aberta; uma janela com vista para aquele sítio lúgubre que ele teimava em chamar “toca”. Costumava dizer aos meus pais, naquele tom irónico de adolescente que sabe tudo, que eles nunca entrariam numa toca que encontrassem algures, que “nas tocas há bichos e quase todos os bichos mordem!”, largando aquela sua gargalhada estridente, enquanto o meu pai entreolhava a minha mãe com aquele semblante desconsolado pela juventude idiota que lhe levara o filho. Da mesma forma deveriam fazer com o seu quarto; não entrassem sem ter a certeza que nenhum bicho os morderia, e ria-se de novo. Em dias em que lhe apetecia falar, a maioria das vezes à hora do jantar, ainda se demorava a explicar que a desarrumação de que o acusavam não era mais do que a sua própria interpretação de um espaço de culto às bandas e músicos que idolatrava e que pendiam nos posters, de olhar sisudo e intemporal. Porque “a mãe também usava a marquise para ter a estátua da Nossa Senhora!”, aquele meio metro de gesso pintado a guache de prata e ouro, água, goma-arábica e mel, nada mais, e que ninguém dizia nada. A minha mãe ainda se deixava magoar por aqueles modos e repreendia-o sempre da mesma forma: “que Deus Nosso Senhor não te castigue!”, e baixava os olhos para o prato, pigarreando algo mais que já nenhum de nós conseguia ouvir.

Pousei a carta sobre a almofada amachucada, amarelada pela baba, achei má ideia e voltei a pousá-la sobre a mesa de cabeceira, junto da caixa do aparelho para os dentes. Ali certamente a veria. Senti o cheiro pesado do quarto, dos cigarros que fumava à janela sem os meus pais verem e que depois lançava, já beatas, para as traseiras do prédio. Pensei em abrir a janela para a luz entrar, deixar correr uma ponta solta de ar que arrastasse aquele bafio húmido que parecia alojar-se nas nossas narinas durante dias. Para quê? Certamente me acusaria da mesma forma que o fazia aos meus pais. Vive aqui como um porco, miúdo idiota, pensei. E saí.

A água ultrapassava já a banheira pela metade, e o vapor apagara todos os reflexos do espelho. Abri o armário e tirei o frasco. A minha mãe escondia-o por trás das caixas dos tampões, dos meus e dos dela. Tenho a certeza que o fazia mais pela vergonha que sentia de si própria, por saber-se dependente para toda a vida daquela bengala para adormecer e conseguir repousar aquelas quatro horas por noite. Certinhas. Os olhos abriam-se-lhe por volta das seis da manhã, nem que os tivesse cosido com agulha e linha. Aproveitava aquela hora antes de o meu pai despertar ao som daquele zumbido irritante com ponteiros, para lhe preparar a roupa que este levaria para o escritório. Todos os dias. E todos os dias sentia que cumpria com o seu papel de mulher que já não ama mas cuida. Que já deixou de sonhar para que os outros vivam.

Despi o pijama e senti o coração bater-me na boca. Quase não tive tempo para levantar a tampa da sanita e vomitar o pequeno-almoço. Pelo menos assim estaria com o estômago vazio e nada atenuaria o efeito. Levantei a cabeça, corri a mão no espelho e sacudi a humidade onde me olhei e me vi, pela última vez. Os meus olhos disseram-me as horas que não dormi na noite anterior; o meu cabelo desgrenhado contou-me a história de uma jovem que não gostava do corpo onde vivia. Vi o meu queixo tremer mas jurei, de novo, que nada mudaria. A decisão estava tomada e não era agora que ia chorar, pois secara todas as dúvidas e remetera ao silêncio toda a dor.

A água morna lambeu-me do pé ao joelho e quando me sentei e recostei na banheira fria, lambeu-me o resto do corpo, até ao pescoço. Na mão direita pendia o meu fim. Tão fácil. Tão simples. Tirei a tampa branca e ouvi aquele telintar, como se fossem moedas em forma de smarties. Branquinhos e pequeninos, parecidos com a pílula que tomei durante um ano e que deixara o mês passado porque me faziam explodir as mamas. Fechei a torneira e voltei a procurar a posição que parecesse menos dramática quando me encontrassem. A minha mãe deixaria cair os sacos das compras. Agarrar-me-ia, num choro convulsivo, num pranto agonizante e gritaria. Talvez os vizinhos acudissem. Quando conseguisse, refeita do que quer que fosse a sua angústia, ligaria para o escritório do meu pai. O meu irmão saberia depois. Talvez o meu pai o fosse buscar à escola.

Coloquei-os sobre a língua, deixei que as minhas costas deslizassem um pouco e que a água me chegasse à boca. Engoli-os devagar, porque não tinha pressa. A minha mão deslizou e perdeu-se por entre as minhas coxas. Toquei-me pela última vez mas não me vim. Ouvi a minha respiração perder a força ofegante que, segundos antes, acompanhavam o ritmo dos meus dedos a entrar em mim. Estava tão calma e senti a paz. Era isto a paz, concerteza. Encostei a cabeça à borda e ouvi o chapinhar suave do meu corpo na água enquanto me punha confortável. Uma gota atirou-se do alto da torneira e fez ploc. Fechei os olhos. Se calhar, adormeci.

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