São estados de espírito perigosos. Haverá explicação para querermos deitar tudo a perder quando tudo teríamos a ganhar se a estes não nos vergassemos? A minha intermitente - mas sempre teimosa - racionalidade dir-me-ia que não. A minha emoção que sim. Estúpida e inútil emoção que, sem qualquer justificação, pertinência ou mesmo permissão, se aloja e acomoda como se viesse para ficar de vez. Estou muito farto de ti, mas sem ti não posso viver. És aquilo que me faz amar, mas que perigas o amor daquela que amo. És aquilo que me faz chorar quando me lembro dessa mulher, mas que depois consegue esculpir na minha cara aquele ar sisudo, taciturno e infantil, digno de um adolescente mimado e embirrante e não de um homem convicto e irremediavelmente maduro, que a afasta sem justificação. És aquilo que me move, mas és igualmente o torpor que me consome e me remete à imobilidade. És tudo, e és nada.
Por tudo isto e por muito mais que poderia dizer-te, odeio-te. Mas também te amo. E dessa dicotomia, desse paradigma disfuncional e psicótico que me assola neste preciso momento, pelo menos retiro algo: um agradecimento. Um agradecimento por me permitires voltar à minha racionalidade sempre que decido esquecer que és a maior parte de mim. Nesses momentos, depois de me sujeitar à tua tortura que me derruba e me deixa prostrado, decido odiar-te, e é então que algo de magnífico acontece: decido procurar ajuda. Levanto-me, sacudo a terra que imunda as minhas roupas como que a querer marcar-me na lembrança tudo o que devo guardar no meu buraco consciente, e saio pela porta fora. Não tens de saber que não vou mais além que ao fundo da minha rua e que depois volto, cabisbaixo, rendido ao facto de que até a minha racionalidade me prende no meu feudo do tamanho de um quintal. E é nesse momento que percebo que é esse ódio que por ti nutro e tento fazer crescer a cada segundo que passa, que me faz ainda pior a mim e dá mais força às tuas maquiavélicas estratégias para me aniquilar. Percebo também que jamais conseguirei encontrar ajuda longe, pois é bem perto de mim (ok, é mesmo em mim…) que a encontrarei. Qual ajuda qual quê?! É pois um agradecimento que, alguns minutos volvidos, deriva num tipo de amaldiçoamento que te faço. Pena não estar a conseguir fazê-lo com clara eficiência, pois continuas a cirandar por aqui, dando-me a mão para me levantares e derrubando-me logo de seguida. Talvez seja uma questão de eficácia e é a coisa certa que não estou a vislumbrar. O que quer que seja, ainda não o consegui. Mas não zombes de mim. Não penses que escaparás sem que te dê luta séria e vigorosa. Claro que a razão que me ilumina em tudo o resto que sou na vida, é mais fraca que tu. Aliás, o seu corpo cada vez mais forte e tonificado, ainda não disfarça os traços da criança que é, uma criança que não excede em tamanho a largura de uma das tuas garras. Mas esta criança está a crescer e goza de esperança de vida considerável. Em breve estará do teu tamanho, porque não apenas ela crescerá naturalmente, como tu definharás progressivamente, vítima da indiferença a que te remeterei e à ajuda das crianças mais adultas que grassam nas mentes daqueles que amo e respeito. Estás condenada, escreve-o. De ti roubarei o teu melhor, e o teu pior nada mais será que uma raíz sub-nutrida à qual não ofertarei sequer uma singela gota de água. Secará e morrerá e apenas o melhor de ti ficará. Em mim. Para que possa amar aquela mulher, para que possa chorar quando dela me lembro, para que me possa mover como outrora fiz. E então, nesse preciso momento, terás mesmo de viver, lado a lado e sem quaisquer preferências tendenciosas, com a minha razão. Terás que com ela partilhar cama e roupa lavada, comer à mesma mesa, passear de mãos dadas pelos quintais que decidirmos invadir em busca de aventuras. Seremos uma família. Equilibrada e feliz. Invejados por outros, mas nunca por nós próprios.