Procurei musas faladoras
Palavras que nunca havia escrito
Entoações promissoras
Dar o dito por não dito
Tudo para alguém sempre escrevi
Dei sentimento a quem o quis
Chorei por corpos que não provei
Mas nunca para mim o fiz
Tive ousadia em quem amei
Dei-me sem pranto porque o prefiro
Não sou tão brusco quanto o devo
O que dou, jamais retiro
Fico só e em mim me embranho
Sofro na antecipação e no leito
Fujo nas asas de uma borboleta
Num ciclo de causa-efeito
Estas palavras são para mim
Um egoísmo que me assenta bem
Não devo nada a ninguém
Procurei musas faladoras
Estridentes e vil feitio
Cruzei mares em sua busca
Encontrei-me no leito de um rio
Por mais que quisesse dizê-lo de outra forma
Por mais que andasse na minha mão
Deparei-me sempre com dois sentidos
Um que o faz, o outro não
Estas palavras são para mim
Um egoísmo que me assenta bem
Estas palavras são para mim
Não devo nada a ninguém
terça-feira, janeiro 29, 2008
quinta-feira, janeiro 10, 2008
segunda-feira, janeiro 07, 2008
Ano Novo, M`ema Merda
Nem comi as 12 passas (com excepção de tâmaras, pinhões e pistachios, detesto frutos secos!), nem subi a qualquer banco, cadeira ou outra elevação (ressalva feita às escadas que ligam a garagem ao piso térreo da moradia dos meus amigos que arriscaram ser anfitriões da festa este ano), nem usei as tão populares cuecas azuis no primeiro dia do ano. Porque não.
Basicamente, fi-lo em todos os outros anos de que tenho memória. (Retire-se aqui a infantilidade dos meus 19 anos, em que um charro de “3 pintores” – fumado sofrega e exclusivamente por mim! – me atirou para o chão de um WC num anexo ao quintal de uns amigos, em estado quase comatoso e perfeitamente alucinado.). E de nada serviu.
Gritei pelo Novo Ano, enxovalhei o Antigo, pigarreei aos ventos por Melhor Sorte (leia-se Fortuna), pela Mulher da Minha Vida, pelo Vil Metal sob a forma de notas, pelo meu Benfica e até pelo Bloco de Esquerda (eu, que teimo em acreditar que sou de Direita...). Fi-lo sempre de acordo com a excitação do momento (estando ébrio ou não), com a esperança num Futuro que se começa a construir nestas últimas horas de um ano que (agora) queremos esquecer, ou mesmo pelo facto de ter sido infectado à última da hora pelo síndroma das massas e querer acompanhar os pulos frenéticos e quase irresponsáveis dos outros, ao som de berros que se tornariam audíveis a qualquer surdo ou caretas que fariam corar qualquer amblíope.
E fi-lo porque sentia que se o fizesse (e estava devidamente informado pelo senso comum da cultura portuguesa vigente), arrecadaria para mim um novo ano cheio "do bom e do melhor". Tudo o que de melhor esperaría que me acontecesse, merecido ou não, como pagamento justo de um desejo labutado ou pura e simplesmente porque me caiu no colo sem qualquer esgar de esforço, seria certamente conquistado. Sentia-o de forma veemente, e se acaso houvesse quem ousasse desconsiderar-me nesta minha pretensão, nesta minha jactância de "quem tudo quer tudo tem", certamente estaria a despedir-se da vida ou, pelo menos, do belo teclado do piano simétrico materializado pelos dentes da frente.
Ironia da vida – só mais uma! -, é que nada disto resultou de qualquer uma dessas vezes. Segui criteriosamente todos essas mezinhas dos antepassados, li exaustivamente todas as instruções do jogo impressas na contracapa do tabuleiro da Glória (e também li, de ponta a ponta “O Segredo”, aquele manual de felicidade de páginas escorregadias que levou a Oprah a enriquecer e mais de meio Mundo a desfalecer), fiz de outros os meus passos numa compra relâmpago de uns belos boxers azul celeste numa loja lá do bairro (aberta de manhã no último dia do ano), mas nada, nada mesmo mudou ou foi suficiente, per si ou em conjunto com outros factores, para me abrir as portas do novo ano, de par em par, ou mesmo uma de cada vez.
Sendo assim, claudiquei, e ao nada que consegui roguei mil pragas. E depois, rouco, como se não bastasse os sons estridentes saídos da minha garganta de tenor, ainda encenei, insolentemente, gestos ofensivos com os dedos das mãos.
Mas aprendi. Aprendi que nada se consegue sem sorte, e que mesmo a sorte exige sorte para ser encontrada, agarrada e usada em doses q.b.. Esqueçam lá as enrugadas e já bem sugadas passas, os bancos de cozinha de plástico, baixinhos, e as cuecas ainda sem mancha de nicotina. Nada que saiba a fruta podre pode conter pó mágico da lua; nenhum banquinho ou mesmo escadote é suficientemente alto para ilustrar o quão alto quero subir; e cuecas azuis... são cuecas: caguei para elas.
A sorte encontrá-la-ei um destes dias, perdida por aí em qualquer esquina, depois de ter acabado de bafejar outra qualquer alma até então errónea e trivial. Não se preocupem comigo, amigos e amigas, que se houver lugar no Mundo onde esta se queira esconder de mim, tirarei, se necessário for, uma licença vitalícia para a encontrar. Não haverá nuvem, oceano, crosta terrestre ou campo electromagnético que me façam ficar perdido*, ou incapaz de seguir as suas pistas de fuga, pedestres ou aéreas.
Até lá, celebrarei toda e qualquer entrada num Novo Ano de uma forma comedida, expectante e perspicaz, sabendo que esta postura poderá, de um momento para o outro, numa fracção de segundos, passar a convicta, crente e apaixonada, quando à sua primeira hora ou mesmo mês já bem avançado desse Novo Ano, a sorte der de caras comigo e me transformar o sorriso forçado e áspero em luminoso e diletante.
Assim, é esta sorte que esperarei ou procurarei se a mesma teimar em preguiçar longe de mim. Mas fá-lo-ei pelo meu próprio pé, de pé, com os pés bem assentes na terra e não em qualquer pedestal de Ikea improvisado, sem porra de passas para engolir (que nisso a vida já me ensinou a mastigar primeiro) ou cueca azul celeste ainda com goma e etiqueta de saldos.
* Em inglês “Lost”, numa alusão ao nome da série televisiva em que os sobreviventes de um acidente aéreo percebem, ao fim de bastante tempo, que a ilha onde se encontram é “fantasma”, pois encontra-se indetectável para o exterior em função dum forte campo electromagnético natural que sobre ela é exercido (Nota Autor).
Basicamente, fi-lo em todos os outros anos de que tenho memória. (Retire-se aqui a infantilidade dos meus 19 anos, em que um charro de “3 pintores” – fumado sofrega e exclusivamente por mim! – me atirou para o chão de um WC num anexo ao quintal de uns amigos, em estado quase comatoso e perfeitamente alucinado.). E de nada serviu.
Gritei pelo Novo Ano, enxovalhei o Antigo, pigarreei aos ventos por Melhor Sorte (leia-se Fortuna), pela Mulher da Minha Vida, pelo Vil Metal sob a forma de notas, pelo meu Benfica e até pelo Bloco de Esquerda (eu, que teimo em acreditar que sou de Direita...). Fi-lo sempre de acordo com a excitação do momento (estando ébrio ou não), com a esperança num Futuro que se começa a construir nestas últimas horas de um ano que (agora) queremos esquecer, ou mesmo pelo facto de ter sido infectado à última da hora pelo síndroma das massas e querer acompanhar os pulos frenéticos e quase irresponsáveis dos outros, ao som de berros que se tornariam audíveis a qualquer surdo ou caretas que fariam corar qualquer amblíope.
E fi-lo porque sentia que se o fizesse (e estava devidamente informado pelo senso comum da cultura portuguesa vigente), arrecadaria para mim um novo ano cheio "do bom e do melhor". Tudo o que de melhor esperaría que me acontecesse, merecido ou não, como pagamento justo de um desejo labutado ou pura e simplesmente porque me caiu no colo sem qualquer esgar de esforço, seria certamente conquistado. Sentia-o de forma veemente, e se acaso houvesse quem ousasse desconsiderar-me nesta minha pretensão, nesta minha jactância de "quem tudo quer tudo tem", certamente estaria a despedir-se da vida ou, pelo menos, do belo teclado do piano simétrico materializado pelos dentes da frente.
Ironia da vida – só mais uma! -, é que nada disto resultou de qualquer uma dessas vezes. Segui criteriosamente todos essas mezinhas dos antepassados, li exaustivamente todas as instruções do jogo impressas na contracapa do tabuleiro da Glória (e também li, de ponta a ponta “O Segredo”, aquele manual de felicidade de páginas escorregadias que levou a Oprah a enriquecer e mais de meio Mundo a desfalecer), fiz de outros os meus passos numa compra relâmpago de uns belos boxers azul celeste numa loja lá do bairro (aberta de manhã no último dia do ano), mas nada, nada mesmo mudou ou foi suficiente, per si ou em conjunto com outros factores, para me abrir as portas do novo ano, de par em par, ou mesmo uma de cada vez.
Sendo assim, claudiquei, e ao nada que consegui roguei mil pragas. E depois, rouco, como se não bastasse os sons estridentes saídos da minha garganta de tenor, ainda encenei, insolentemente, gestos ofensivos com os dedos das mãos.
Mas aprendi. Aprendi que nada se consegue sem sorte, e que mesmo a sorte exige sorte para ser encontrada, agarrada e usada em doses q.b.. Esqueçam lá as enrugadas e já bem sugadas passas, os bancos de cozinha de plástico, baixinhos, e as cuecas ainda sem mancha de nicotina. Nada que saiba a fruta podre pode conter pó mágico da lua; nenhum banquinho ou mesmo escadote é suficientemente alto para ilustrar o quão alto quero subir; e cuecas azuis... são cuecas: caguei para elas.
A sorte encontrá-la-ei um destes dias, perdida por aí em qualquer esquina, depois de ter acabado de bafejar outra qualquer alma até então errónea e trivial. Não se preocupem comigo, amigos e amigas, que se houver lugar no Mundo onde esta se queira esconder de mim, tirarei, se necessário for, uma licença vitalícia para a encontrar. Não haverá nuvem, oceano, crosta terrestre ou campo electromagnético que me façam ficar perdido*, ou incapaz de seguir as suas pistas de fuga, pedestres ou aéreas.
Até lá, celebrarei toda e qualquer entrada num Novo Ano de uma forma comedida, expectante e perspicaz, sabendo que esta postura poderá, de um momento para o outro, numa fracção de segundos, passar a convicta, crente e apaixonada, quando à sua primeira hora ou mesmo mês já bem avançado desse Novo Ano, a sorte der de caras comigo e me transformar o sorriso forçado e áspero em luminoso e diletante.
Assim, é esta sorte que esperarei ou procurarei se a mesma teimar em preguiçar longe de mim. Mas fá-lo-ei pelo meu próprio pé, de pé, com os pés bem assentes na terra e não em qualquer pedestal de Ikea improvisado, sem porra de passas para engolir (que nisso a vida já me ensinou a mastigar primeiro) ou cueca azul celeste ainda com goma e etiqueta de saldos.
* Em inglês “Lost”, numa alusão ao nome da série televisiva em que os sobreviventes de um acidente aéreo percebem, ao fim de bastante tempo, que a ilha onde se encontram é “fantasma”, pois encontra-se indetectável para o exterior em função dum forte campo electromagnético natural que sobre ela é exercido (Nota Autor).
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