quinta-feira, setembro 18, 2008

Curta Epopeia

Cercados por Lisboa
As colinas, o céu e o mar
Só no azul à nossa frente há esperança
Queremos largar velas
E navegar

Saímos ao largar as amarras
Depois da despedida
As pegadas na areia connosco seguirão
Deixando para trás
A nossa vida

Desencontro

Dá que pensar
Não saber o que fazer
Ambos queremos aguentar
Mas não dá mais para esconder
Nos olhares acreditamos
A pele reage ao toque
Em cadeia surgem medos
Sinto-me sem rei nem roque
Nos teus olhos vi desejo
Desespero, medo e nada
Deixei-me ir, perdido no seu brilho
Mostrei-me na ida, escondi-me à chegada

Almas que se encontram
Após anos de incerteza
Quando o Mundo encandeia
Na luz de uma vela acesa
Em espinhos tocamos agora
A dor do alerta expele a emoção
Por mais que sangre a alma
Não há tempo para o coração
De tempos a tempos será pior
Quando tudo nos fizer chorar
Vamos querer perder-nos num beijo
Que hoje tememos dar

Dou-te de mim e não cobro
Pago com a vida para te ter
Neste jogo sem regras
Sais a ganhar e eu entro a perder

Lá, Goa

Sempre neguei certezas
Quem as tem não sabe o que diz
Ser dono do seu nariz
É um acto de coragem
Mas que não fica,
parte em viagem.

O Mundo era o nosso
Enorme, cheio mas insuficiente
Quisemos o passado no presente
Esquecemos o que e a quem ver
Habituados a amar e tocar,
e a deitar tudo a perder.

Tudo arderia em mil fogos
Se só de palavras munidos
Nas paredes e muros construídos
Acreditassemos no fim
História de embalar,
sabor a fel e cheiro de jasmim.

Fugimos a Oriente
Onde outros como nós deixaram
Credos e palavras que não acabaram
Está nestas mãos maduras
O futuro que a nós pertence,
se não me matas, porque me curas?

Prefiro que tudo acabe
A nessas certezas acreditar
Ver-nos a definhar
Ter-te sem ter de nada vale
Longe de ti,
já nada me faz mal.

Não voltes
Não voltes.

Amor Suplementar

Atravessas já o rio
A estação é lá à frente
Para trás fiquei sozinho
Nada é diferente
Não o queria ter sonhado
Disseste-o em palavras
Mas acalentei a esperança
E tu já não estavas
Ter o teu cheiro nos meus dedos
Fez-me respirar
O teu sabor na minha boca
Fez-me acreditar
E não mais parar

Vou correr até que me canse
Até que me sinta cair
Para ver se é isso que eu quero
O que me disseste existir

No fim ficam sempre
Muitas coisas por dizer
As palavras não preenchem
Se inventadas sem saber
O que será desta história
Que ambos queremos guardar
Uma agonia em silêncio
Ou um amor suplementar
Ter o teu cheiro nos meus dedos
Fez-me respirar
O teu sabor na minha boca
Fez-me acreditar
E não mais parar

Vou correr até que me canse
Até que me sinta cair
Para ver se é isso que eu quero
O que me disseste existir

Palavras

Sei lá o que quero
Mas receio ser sincero
Há palavras que ditas
Não soam como quero
Por mais que as pense sóbrias
Que as cante ou declame
Não perdem o sentido
Por mais sangue que as derrame

Tenho dúvidas
Será que vou ter de me calar
Ou dizê-las em surdina
Pior seria, prefiro ter de as apagar

De sentidos contrários
Únicos ou proibidos
São difíceis de comandar
Por caminhos desconhecidos
Caem mal e ainda magoam
São engolidas com desdém
Todos fazem das palavras
O que querem, mas não o dizem a ninguém

Tenho dúvidas
Não quero ter de me calar
Se as gitar serei feliz
Vou libertá-las para celebrar
E nunca terei de as apagar

Haja Deus (se existir)

Haja Deus (se existir)
Para me ditar em sorte
A fortuna duma ideia
O realizar de um sonho
Lembro o tempo e a sentença
Uma pena a cumprir
Por ter seguido um rumo
Que não queria perseguir

Haja Deus (se existir)
Para me proteger do acaso
De inimigos e afrontas
Da inveja e do turpor
Que atrase o calendário
E me permita prosseguir
Sabendo que não é tarde
E nunca o será para decidir

Dou o sinal, lanço a partida, saio primeiro
E corro veloz, e corro veloz

Haja Deus (se existir)
Que me desvie dos ventos
Que acalme as marés
E encubra o sol que queima
Falo da mão protectora
Porque também esta é missão
O evangelho dos audazes
Que têm a vida na mão

Haja Deus (se existir)
Que me prove tal grandeza
De estar junto de quem crê
E de quem reza por si
Que não vingue os seus espinhos
E prometa salvação
A quem preferiu e ousou viver
Crendo na própria razão

Dou o sinal, lanço a partida, saio primeiro
Corro atrás da vida, uso a minha força, porque sei onde parar
E corro veloz, e corro veloz

Mau-da-Fita

Sonhador, romântico
Utópico, lunático
Fanfarrão, comodista
Nariz no ar e grande crista
Pensador, desnaturado
Plátonico, formatado
Elitista, passado
Peneiroso e desmotivado

Sou o mau-da-fita
Aos olhos de quem me vê
Amante eremita
Que não pergunta porquê
Sei porque pergunto
A quem sabe responder
Não aos donos da verdade
Mas ao mau-da-fita
Que gosto de ser

Libidinoso, bonacheirão
Mentecapto, parvalhão
Oportunista, embirrante
Agnóstico e diletante
Egoísta, enervante
Stressado, mutante
Anormal, enganado
Traidor e debochado

Sou o mau-da-fita
Aos olhos de quem me vê
Amante eremita
Que não pergunta porquê
Sei porque pergunto
A quem sabe responder
Não aos donos da verdade
Mas ao mau-da-fita
Que gosto de ser