Não sei porque penso demais no que não quero
Não explico o inverso porque o não sei
Não sei donde vêm os ecos que me ensurdecem
Não vejo quem grita em primeiro lugar
Não sei se há culpa ou a quem a delegar
Não concebo deixá-la sozinha e orfã de pai
Não sei porque insisto sem ser teimoso
Não ouso dizer amiúde a mesma coisa
Não sei dar ponto sem laço que sucede o nó
Não vejo o trabalho inacabado vencer
Não sei ser oportuno quando frustrado
Não escondo palavras de quem as merece
Não sei chamar nomes a quem não vejo
Não parto para a violência sem apupo
Não sei dormir sem pre-lavar os sonhos
Não pernoito em cama larga e alheia
Não sei se o sol ainda nasce da mesma forma
Não conto os dias pelas manhãs
Não sei de destinos se os não acredito
Não sonho envelhecer sem poder cá estar
Não sei de ti se te estranho o silêncio
Não posso ajudar por telepatia
Não sei de nada pois é do nada que venho
Não me lembro de tudo, nem mesmo do pouco que tenho.
terça-feira, novembro 27, 2007
Lívido Rosto
É desses olhos cinzentos que escorrem as lágrimas frias
Tão puras, que regam os campos férteis onde tudo cresce
Que te sulcam as margens da face como um lápis branco
Por onde os anos passam devagar, sem pressa,
E se extinguem sem nunca terem existido
É nos contornos desse lívido rosto que reconheço
As palavras que te disse, entre a dor dos gritos e o riso infantil
Languidamente, sem pressa de dizer tudo que se ouve como nada
Saboreando, como em mil doces mergulhado, excitado
Tanto o mal que te podia ter feito e não quis
Vejo agora que a sala escura poucas sombras já reflecte
A vela acesa vai na dança, ténue, bruxuleante,
Empurrada pelo vento que corre da porta à janela onde tu estás
Sentada, olhos no Mundo que não escolheste
Mas ousaste conhecer, porque dessa matéria te fizeste
És-me coração, alma e todo e cada poro por onde me sais
Deixo no ar o teu cheiro à passagem do meu vulto
Corro para lá, no sentido poente, sem bússula ou astro que me guie
Pois é imenso o caminho, pouco certo o destino e incerto
Mas quem sabe prazenteiro, do meu sonho de criança, de mim
Tão puras, que regam os campos férteis onde tudo cresce
Que te sulcam as margens da face como um lápis branco
Por onde os anos passam devagar, sem pressa,
E se extinguem sem nunca terem existido
É nos contornos desse lívido rosto que reconheço
As palavras que te disse, entre a dor dos gritos e o riso infantil
Languidamente, sem pressa de dizer tudo que se ouve como nada
Saboreando, como em mil doces mergulhado, excitado
Tanto o mal que te podia ter feito e não quis
Vejo agora que a sala escura poucas sombras já reflecte
A vela acesa vai na dança, ténue, bruxuleante,
Empurrada pelo vento que corre da porta à janela onde tu estás
Sentada, olhos no Mundo que não escolheste
Mas ousaste conhecer, porque dessa matéria te fizeste
És-me coração, alma e todo e cada poro por onde me sais
Deixo no ar o teu cheiro à passagem do meu vulto
Corro para lá, no sentido poente, sem bússula ou astro que me guie
Pois é imenso o caminho, pouco certo o destino e incerto
Mas quem sabe prazenteiro, do meu sonho de criança, de mim
segunda-feira, novembro 26, 2007
Perto
Vieste porque te apeteceu, nada mais declaraste
Querias porque sim, de rompante, logo ali
Sem ter nada para dizer, mais valia
Que tivesses ficado onde estavas
É que de bom pouco ou nada me trouxeste
Surdo, inerte, fiquei
Aprendi a calar p´ra não ter que te dizer
“Melhor, quero que te fodas”
E é aqui tão perto que te sinto
Cheiro-te a cada passo que dás
Pressinto-te a apanhar-me por trás
E matas-me, e eu morro
Dá-me agora um minuto do teu tempo
Pois o tempo cobra-nos pelo estrago
E tu deves-me horas, dias em barda
Paga-me e fá-lo rapidamente
É que não vou hipotecar a minha vida
Nada, ninguém mais virá
Preferias que te dissesse “já chega”
Nem esse prazer te vou dar
E é aqui tão perto que te sinto
Montas o cerco e convidas-me a entrar
Mas nem sequer me deixas espreitar
E matas-me, e eu morro
Querias porque sim, de rompante, logo ali
Sem ter nada para dizer, mais valia
Que tivesses ficado onde estavas
É que de bom pouco ou nada me trouxeste
Surdo, inerte, fiquei
Aprendi a calar p´ra não ter que te dizer
“Melhor, quero que te fodas”
E é aqui tão perto que te sinto
Cheiro-te a cada passo que dás
Pressinto-te a apanhar-me por trás
E matas-me, e eu morro
Dá-me agora um minuto do teu tempo
Pois o tempo cobra-nos pelo estrago
E tu deves-me horas, dias em barda
Paga-me e fá-lo rapidamente
É que não vou hipotecar a minha vida
Nada, ninguém mais virá
Preferias que te dissesse “já chega”
Nem esse prazer te vou dar
E é aqui tão perto que te sinto
Montas o cerco e convidas-me a entrar
Mas nem sequer me deixas espreitar
E matas-me, e eu morro
Longe
É de outro o espelho no qual me revejo após todos estes anos
Não reconheço a cor dourada na moldura deste vidro
Nem o seu brilho é igual, e embaciado me reflecte agora
É de outro a cadeira onde me sento e reflicto após a busca
Encosto-me e rebusco o conforto nos seus braços
Mas não são estas as formas talhadas onde outrora repousei
É de outro o chão que piso e onde se amontoam despojos
Do que fui, do que serei e do que nem sequer equacionei
Haja vento que os leve ou maré que os arraste p´ra longe
Longe, do sítio
Longe, algures
Longe, por certo
Perto de nenhures
Não reconheço a cor dourada na moldura deste vidro
Nem o seu brilho é igual, e embaciado me reflecte agora
É de outro a cadeira onde me sento e reflicto após a busca
Encosto-me e rebusco o conforto nos seus braços
Mas não são estas as formas talhadas onde outrora repousei
É de outro o chão que piso e onde se amontoam despojos
Do que fui, do que serei e do que nem sequer equacionei
Haja vento que os leve ou maré que os arraste p´ra longe
Longe, do sítio
Longe, algures
Longe, por certo
Perto de nenhures
"Num imenso céu voar"
(a outra letra, também esta escrita há alguns anos e que também dá voz a outra música dos Flirt, incluída no seu 1º álbum - em gravação a partir de hoje! - chamado "Arquétipos da Alma")
Hoje vou sair à rua, investir na minha sorte
Cruzar-me com os destinos que teimam em existir
Pisar as pedras do caminho emanando um cheiro forte
Entre brigas, desatinos de poemas a fingir
Vou largar-me numa tasca, agarrar-me ao balcão
Embriagar-me em palavras escrever uma canção
Conceder-me o desejo de ser minha fada-madrinha
Reaver-me na idade, na vida que então tinha
Anjo que o tempo me destinou
Suas asas vou usar
Para poder sair daqui
Num imenso céu voar
Hoje vou sair à rua misturar-me com os sítios
Saciar minha vontade de ver o dia nascer
Comentar o mal alheio (um cinismo dos meus vícios)
A mania da idade que eu quero sempre ter
Vou largar-me numa tasca, agarrar-me ao balcão
Embriagar-me em palavras escrever uma canção
Na linha do horizonte vou pedir para ficar
Reason Why:
Quando sós, interpretamos mal a segurança deste estado. Depois, quando não sós, ansiamos a liberdade de um conceito que voltamos a desejar. É a confirmação da negação enquanto arquétipo das almas humanas. Tentamos a sorte na busca do prazer esguio e fugaz, mas mesmo assim delicioso ao ponto de nos arrastar para uma vivência de busca sem grande sentido. E é essa busca que acreditamos ser a última, a derradeira, a necessária agonia com vista à obtenção do parceiro desde sempre desejado. Aquele que imaginámos em sonhos e que a vida nos ensina a esfumar entre desilusões, sofrimento e acomodação. Talvez por isso, a essa mulher chamei Anjo, pois dela esperaria elevação, brancura, languidez no movimento e trato. Nas suas asas me deixaria levar para longe, fosse esse o meu destino, fossem essas as rotas dos anjos.
Hoje vou sair à rua, investir na minha sorte
Cruzar-me com os destinos que teimam em existir
Pisar as pedras do caminho emanando um cheiro forte
Entre brigas, desatinos de poemas a fingir
Vou largar-me numa tasca, agarrar-me ao balcão
Embriagar-me em palavras escrever uma canção
Conceder-me o desejo de ser minha fada-madrinha
Reaver-me na idade, na vida que então tinha
Anjo que o tempo me destinou
Suas asas vou usar
Para poder sair daqui
Num imenso céu voar
Hoje vou sair à rua misturar-me com os sítios
Saciar minha vontade de ver o dia nascer
Comentar o mal alheio (um cinismo dos meus vícios)
A mania da idade que eu quero sempre ter
Vou largar-me numa tasca, agarrar-me ao balcão
Embriagar-me em palavras escrever uma canção
Na linha do horizonte vou pedir para ficar
Reason Why:
Quando sós, interpretamos mal a segurança deste estado. Depois, quando não sós, ansiamos a liberdade de um conceito que voltamos a desejar. É a confirmação da negação enquanto arquétipo das almas humanas. Tentamos a sorte na busca do prazer esguio e fugaz, mas mesmo assim delicioso ao ponto de nos arrastar para uma vivência de busca sem grande sentido. E é essa busca que acreditamos ser a última, a derradeira, a necessária agonia com vista à obtenção do parceiro desde sempre desejado. Aquele que imaginámos em sonhos e que a vida nos ensina a esfumar entre desilusões, sofrimento e acomodação. Talvez por isso, a essa mulher chamei Anjo, pois dela esperaria elevação, brancura, languidez no movimento e trato. Nas suas asas me deixaria levar para longe, fosse esse o meu destino, fossem essas as rotas dos anjos.
"Culpado"
(letra escrita há alguns anos e que dá voz a uma música dos Flirt, incluída no seu 1º álbum - em gravação a partir de hoje! - chamado "Arquétipos da Alma")
Sabes, não preciso repetir
Estou feliz por ter mudado, não me quero redimir
Mas não quero perder o direito de beijar-te ao amanhecer
Já que todo o mal está feito
Fui cruzar-me no teu caminho
Obrigar-te a estar aqui
Fazer parte do teu destino
Desta vida que escolhi
Queres algo que não posso dar
O passado está presente num futuro por traçar
Então, vou adiar esta história que nem a mim quis contar
Prisioneiro da memória
Culpado sou porque…
Fui cruzar-me no teu caminho
Obrigar-te a estar aqui
Fazer parte do teu destino
Desta vida que escolhi
E agora o tempo cobra-me e eu não tenho com que pagar
Por tudo o que me tens dado
Se ao menos te pudesse amar
Reason Why:
Tristes as vidas que se esquivam de cruzer-se com outras ou mesmo esbarrarem nas experiências mútuas. Adoro estes encontros de onde, residualmente, tiramos grandes lições e vemos emergir grandes amizades. Foi o caso. Conheci uma das mulheres mais fabulosas que é possível existir. A sua integridade, inteligência, beleza e “sofisticação emocional”, colocam-na numa época que ainda há-de vir. Quiçá, nem esses tempos futuros serão adequados a si. Ela merecia que todo um Mundo suspendesse a translação da sua marcha em torno de uma estrela que não ela, pois muito mais ela o mereceria. Mas não amamos quem queremos. Amamos quem, tendencialmente, mais características problemáticas tem. Quem, provavelmente, nos magoará mais. É uma condição humana, inflexível, irremedíavel e violenta. E por isso, escolhemos a volatilidade no sentimento. E preferimos esquecer, mesmo que por breves momentos, que podemos ser felizes junto de alguém que se nos assemelha. E tocamos-lhe ao de leve, apenas, afastando-nos languidamente de seguida.
Sabes, não preciso repetir
Estou feliz por ter mudado, não me quero redimir
Mas não quero perder o direito de beijar-te ao amanhecer
Já que todo o mal está feito
Fui cruzar-me no teu caminho
Obrigar-te a estar aqui
Fazer parte do teu destino
Desta vida que escolhi
Queres algo que não posso dar
O passado está presente num futuro por traçar
Então, vou adiar esta história que nem a mim quis contar
Prisioneiro da memória
Culpado sou porque…
Fui cruzar-me no teu caminho
Obrigar-te a estar aqui
Fazer parte do teu destino
Desta vida que escolhi
E agora o tempo cobra-me e eu não tenho com que pagar
Por tudo o que me tens dado
Se ao menos te pudesse amar
Reason Why:
Tristes as vidas que se esquivam de cruzer-se com outras ou mesmo esbarrarem nas experiências mútuas. Adoro estes encontros de onde, residualmente, tiramos grandes lições e vemos emergir grandes amizades. Foi o caso. Conheci uma das mulheres mais fabulosas que é possível existir. A sua integridade, inteligência, beleza e “sofisticação emocional”, colocam-na numa época que ainda há-de vir. Quiçá, nem esses tempos futuros serão adequados a si. Ela merecia que todo um Mundo suspendesse a translação da sua marcha em torno de uma estrela que não ela, pois muito mais ela o mereceria. Mas não amamos quem queremos. Amamos quem, tendencialmente, mais características problemáticas tem. Quem, provavelmente, nos magoará mais. É uma condição humana, inflexível, irremedíavel e violenta. E por isso, escolhemos a volatilidade no sentimento. E preferimos esquecer, mesmo que por breves momentos, que podemos ser felizes junto de alguém que se nos assemelha. E tocamos-lhe ao de leve, apenas, afastando-nos languidamente de seguida.
sexta-feira, novembro 23, 2007
Novos rumos e o lado B das coisas
Olá a todos. Olá. Como prometido, aqui estou para falar sobre como a vida não está para ilusões. Donde vem isto?! Vem de uma decisão minha, definitiva e irreversível: vou ter mesmo que arredar de vez a pretensão (já antiga) de ser escritor. Por alguma razão, teimo em mantê-la viva, suspensa por frágeis cordéis de paixão rapidamente imolados pela inevitabilidade de um sonho desvanecido. (Vêem?! Continuo a achar que levava jeito.). Aliás, já agora e para que conste, foi por estas andanças de “sopa das letras” que conheci o Mário: trocámos interpretações diferentes sobre o verdadeiro motivo que levava o Sándor Márai a ir tão fundo na prosa em monólogo, num corredor de “Autores Traduzidos” da Fnac do Chiado.
Voltando ao novelo. As palavras que escrevo são demasiadamente baratas para que, agrupadas e coladas com cuspo, valham mais que um mísero centavo. Não há ribalta, não há nobreza sequer na ausência da fama, na ignorância de um nome que soe a algo mais que um José Silva. Um qualquer José Silva perdido atrás de um balcão de uma tasca em Estremoz, ou um seu homónimo a pisar uva verde em Melgaço. Este é o empregado de escritório, com a secretária antiga e a cadeira da Moviflor sem uma das rodas, que manca e já está a perder o forro outrora vermelho-sangue-de-boi. Este não é o Miguel Sousa Tavares que se deleita languidamente na sua licença sem vencimento de dois anos, emergindo apenas ao Sábado na página 2 do Expresso e intervalando o encafuanço no Alentejo profundo a fumar cigarros e a escrever mais um calhamaço de 400 páginas que terá, depois, uma promoção comercial à altura de um novo livro de contos do Paul Auster, mas numa dimensão proporcional à nossa chafarica chamada Portugal.
E por falar em Alentejo?! Ora nem mais! Era mesmo aí! Pois quis também, influenciado talvez pela perspectiva razoável e plausível deste adormecimento me conduzir e poder permitir o outro sonho da escrita, investir num negócio de turismo rural. Perdido e emparedado na natureza inóspita de um Alentejo profundo igual ao do MST, tornar-me-ia o gajo calmo e pacífico que nunca conheci ou sequer imagino vivo e a respirar.
Aí, intervalando uma existência meramente casual, alternaria uma viagem poeirenta no meu Jeep à Carrapateira, para uma corridinha matinal à beira mar. Retornaria por volta da hora de almoço à minha casa rústica, decorada com uma família idílica de mamã e criancinhas. Respiraríamos o ar puro enquanto nos sentávamos no alpendre para almoçar, fustigados pela aragem quente soprada pelos quarenta graus vindos do interior, lá para os lados da seca. Recostar-me-ia na minha chaise longue de verga para uma sesta de uma hora, e sentar-me-ia em frente ao computador a escrever o meu último bestseller até quase à hora de jantar. No lusco-fusco, brincaria com as criancinhas junto à cerca dos cavalos e dos potros: à apanhada, às escondidas ou à sardinha, afundando-me em pensamentos de felicidade inquestionável. Poria a mesa com pratos de barro, beberia vinho oferecido pelo vizinho que também faz agricultura ecológica e de estufa e comeria carne de porco. Enquanto a mamã deitava as criancinhas e lhes lia uma história, regressava ao alpendre e à minha chaise longue para um cigarro de inspiração. (Ah pois, porque voltava a fumar! Não há como sair da cidade e descongestionar os brônquios, para perceber que teria de arranjar forma de me sujar por dentro!). Depois, esperava que a dança ascendente do fumo azulado me desenhasse alguma forma geométrica ou contorno de corpo de mulher, e me atestasse com motivação para mais algumas horas e, pelo menos, vinte mil caracteres ou dez páginas de bestseller. Que sonho, hein?
Mas a uva transformou-se em passa. Não só, mas também. A inércia é um adversário de respeito que não atira a toalha para o chão ensanguentado do ringue. Depois, depois há sempre a constatação fria de que não sou mais que um José Silva que tem que dar o litro diariamente lá na repartição do décimo oitavo bairro para que, a cada final do mês, a sua conta bancária inspire um pouco, de forma quase dolorosa, do fundo dos seus pulmões cancerosos. E basicamente, nada sobra depois de paga a prestação da casa e o colégio dos miúdos. Nem para mandar cantar um cego, quanto mais para comprar um monte!
Ou seja, é como que estivesse continuamente preso a um elástico gigante e fortíssimo que, sadicamente, alguém me permite e ajuda a esticar uns bons metros quando estou animadito, deixando-me ver para o “outro lado”, o lado A das coisas, mas que depois, o solta bruscamente, fazendo-me recuar num esticão súbito e a estatelar-me com estrondo contra a parede da minha triste realidade mundana num 3º andar esquerdo nos arrebaldes de um qualquer dormitório na margem sul do Tejo. O lado B das coisas. B de Baixa da Banheira. Onde só há passas, não há uvas.
E por falar em uvas, sim, é verdade, tenho mais um cacho de pretensões! Oh! Quantas mais pretensões, senhoras e senhores! Mas isso fica para depois, desculpem. O miúdo acordou a gritar pela chucha e vai acordar os vizinhos.
Até lá amigos. Um abraço e inté. Zé.
Voltando ao novelo. As palavras que escrevo são demasiadamente baratas para que, agrupadas e coladas com cuspo, valham mais que um mísero centavo. Não há ribalta, não há nobreza sequer na ausência da fama, na ignorância de um nome que soe a algo mais que um José Silva. Um qualquer José Silva perdido atrás de um balcão de uma tasca em Estremoz, ou um seu homónimo a pisar uva verde em Melgaço. Este é o empregado de escritório, com a secretária antiga e a cadeira da Moviflor sem uma das rodas, que manca e já está a perder o forro outrora vermelho-sangue-de-boi. Este não é o Miguel Sousa Tavares que se deleita languidamente na sua licença sem vencimento de dois anos, emergindo apenas ao Sábado na página 2 do Expresso e intervalando o encafuanço no Alentejo profundo a fumar cigarros e a escrever mais um calhamaço de 400 páginas que terá, depois, uma promoção comercial à altura de um novo livro de contos do Paul Auster, mas numa dimensão proporcional à nossa chafarica chamada Portugal.
E por falar em Alentejo?! Ora nem mais! Era mesmo aí! Pois quis também, influenciado talvez pela perspectiva razoável e plausível deste adormecimento me conduzir e poder permitir o outro sonho da escrita, investir num negócio de turismo rural. Perdido e emparedado na natureza inóspita de um Alentejo profundo igual ao do MST, tornar-me-ia o gajo calmo e pacífico que nunca conheci ou sequer imagino vivo e a respirar.
Aí, intervalando uma existência meramente casual, alternaria uma viagem poeirenta no meu Jeep à Carrapateira, para uma corridinha matinal à beira mar. Retornaria por volta da hora de almoço à minha casa rústica, decorada com uma família idílica de mamã e criancinhas. Respiraríamos o ar puro enquanto nos sentávamos no alpendre para almoçar, fustigados pela aragem quente soprada pelos quarenta graus vindos do interior, lá para os lados da seca. Recostar-me-ia na minha chaise longue de verga para uma sesta de uma hora, e sentar-me-ia em frente ao computador a escrever o meu último bestseller até quase à hora de jantar. No lusco-fusco, brincaria com as criancinhas junto à cerca dos cavalos e dos potros: à apanhada, às escondidas ou à sardinha, afundando-me em pensamentos de felicidade inquestionável. Poria a mesa com pratos de barro, beberia vinho oferecido pelo vizinho que também faz agricultura ecológica e de estufa e comeria carne de porco. Enquanto a mamã deitava as criancinhas e lhes lia uma história, regressava ao alpendre e à minha chaise longue para um cigarro de inspiração. (Ah pois, porque voltava a fumar! Não há como sair da cidade e descongestionar os brônquios, para perceber que teria de arranjar forma de me sujar por dentro!). Depois, esperava que a dança ascendente do fumo azulado me desenhasse alguma forma geométrica ou contorno de corpo de mulher, e me atestasse com motivação para mais algumas horas e, pelo menos, vinte mil caracteres ou dez páginas de bestseller. Que sonho, hein?
Mas a uva transformou-se em passa. Não só, mas também. A inércia é um adversário de respeito que não atira a toalha para o chão ensanguentado do ringue. Depois, depois há sempre a constatação fria de que não sou mais que um José Silva que tem que dar o litro diariamente lá na repartição do décimo oitavo bairro para que, a cada final do mês, a sua conta bancária inspire um pouco, de forma quase dolorosa, do fundo dos seus pulmões cancerosos. E basicamente, nada sobra depois de paga a prestação da casa e o colégio dos miúdos. Nem para mandar cantar um cego, quanto mais para comprar um monte!
Ou seja, é como que estivesse continuamente preso a um elástico gigante e fortíssimo que, sadicamente, alguém me permite e ajuda a esticar uns bons metros quando estou animadito, deixando-me ver para o “outro lado”, o lado A das coisas, mas que depois, o solta bruscamente, fazendo-me recuar num esticão súbito e a estatelar-me com estrondo contra a parede da minha triste realidade mundana num 3º andar esquerdo nos arrebaldes de um qualquer dormitório na margem sul do Tejo. O lado B das coisas. B de Baixa da Banheira. Onde só há passas, não há uvas.
E por falar em uvas, sim, é verdade, tenho mais um cacho de pretensões! Oh! Quantas mais pretensões, senhoras e senhores! Mas isso fica para depois, desculpem. O miúdo acordou a gritar pela chucha e vai acordar os vizinhos.
Até lá amigos. Um abraço e inté. Zé.
sexta-feira, novembro 16, 2007
Chamo-me Zé...
De certeza que alguém me está a gozar. Sei que só é possível que tudo isto me esteja a acontecer, porque alguém me está a gozar. Ele, Aquele lá em cima, ou qualquer alma penada cá em baixo. Mas se apanho o filho da puta...
Basicamente, sou um gajo normal, casado e com filhos, que trabalha para viver. Mas as coisas não me correm bem. E por “não me correm bem”, leia-se mesmo isso, não é um “mais ou menos”. Não, as coisas não me correm bem! Correm-me mal!
Chateio-me diariamente com a mulher, irrito-me frequentemente com a criançada, estou farto do que faço no trabalho, estou gordo e não consegui pagar a última mensalidade do ginásio, tenho que fazer mensalmente depilação com cera nas costas e nem sempre o meu Benfica ganha. Tenho para a troca em pelo menos cinco destas coisas!
O que quero? Utilizar estas novas tecnologias da internet para desabafar com todos aqueles que me queiram ouvir e mesmo comentar. Pedi ao meu amigo Mário para usar o seu espaço, blog como lhe chamam. Inicialmente ele escusou-se (e esquivou-se) em mil desculpas de que isto era um blog sério, onde ele gostava de escrever coisas igualmente sérias e adequadas. Insisti por isso mesmo, porque não me sinto capaz de criar uma coisa destas apenas com o objectivo que tenho, pois tornar-se-ia uma fonte de testemunhos tristes e uma estridente carpideira. Para além disso, não tenho muitos amigos. Só o Carlos, que é escriturário lá no trabalho, e esse só usa a internet para ir aos sites pornográficos.
Precisava das palavras inpiradas do meu amigo Mário para ir intervalando o tom. (Ele escreve bem, não brinca em serviço. Adorava ter a sua inspiração e genuidade!). Mas não me interpretem mal, também não acho que o que escrevo seja assim tão chato! Apenas preciso de um “amortecedor qualitativo” onde possa depositar os meus queixumes.
O Mário lá acedeu, com algumas restrições: primeiro, só posso colocar um post por semana (acho que é assim que chamam aos textos aqui no blog); segundo, não posso escrever asneiras (com uma excepção apenas para a que está no início deste texto!, porque já estava escrita...); e terceiro, se ele sentir que “a coisa” (como o Mário lhe chamou, fiquei f.... lixado com ele por causa isso...!) está a ficar muito lamechas ou deprimente, corta-me o acesso!
Em resumo, a partir de agora, amigos do Mário ou curiosos que o lêem, ter-me-ão aqui por perto. Espero ser digno da vossa atenção e, quiçá, poder contar com a vossa amizade num futuro próximo.
Não obedecerei a um planeamento para aquilo que escrevo. Apenas escreverei o que me for chegando à boca, esperando que não se trate de um vómito. Dir-mo-ão vocês. Mas sempre que souber o que quero escrever da próxima vez que “postar” (hum, estou a começar a entrar na onda e na linguagem...), di-lo-ei. Não é por nada, mas já sei o que lá vem... na próxima semana, decidi-me por escrever sobre a minha procura de um novo rumo profissional.
Até lá amigos. Um abraço e inté. Zé.
Basicamente, sou um gajo normal, casado e com filhos, que trabalha para viver. Mas as coisas não me correm bem. E por “não me correm bem”, leia-se mesmo isso, não é um “mais ou menos”. Não, as coisas não me correm bem! Correm-me mal!
Chateio-me diariamente com a mulher, irrito-me frequentemente com a criançada, estou farto do que faço no trabalho, estou gordo e não consegui pagar a última mensalidade do ginásio, tenho que fazer mensalmente depilação com cera nas costas e nem sempre o meu Benfica ganha. Tenho para a troca em pelo menos cinco destas coisas!
O que quero? Utilizar estas novas tecnologias da internet para desabafar com todos aqueles que me queiram ouvir e mesmo comentar. Pedi ao meu amigo Mário para usar o seu espaço, blog como lhe chamam. Inicialmente ele escusou-se (e esquivou-se) em mil desculpas de que isto era um blog sério, onde ele gostava de escrever coisas igualmente sérias e adequadas. Insisti por isso mesmo, porque não me sinto capaz de criar uma coisa destas apenas com o objectivo que tenho, pois tornar-se-ia uma fonte de testemunhos tristes e uma estridente carpideira. Para além disso, não tenho muitos amigos. Só o Carlos, que é escriturário lá no trabalho, e esse só usa a internet para ir aos sites pornográficos.
Precisava das palavras inpiradas do meu amigo Mário para ir intervalando o tom. (Ele escreve bem, não brinca em serviço. Adorava ter a sua inspiração e genuidade!). Mas não me interpretem mal, também não acho que o que escrevo seja assim tão chato! Apenas preciso de um “amortecedor qualitativo” onde possa depositar os meus queixumes.
O Mário lá acedeu, com algumas restrições: primeiro, só posso colocar um post por semana (acho que é assim que chamam aos textos aqui no blog); segundo, não posso escrever asneiras (com uma excepção apenas para a que está no início deste texto!, porque já estava escrita...); e terceiro, se ele sentir que “a coisa” (como o Mário lhe chamou, fiquei f.... lixado com ele por causa isso...!) está a ficar muito lamechas ou deprimente, corta-me o acesso!
Em resumo, a partir de agora, amigos do Mário ou curiosos que o lêem, ter-me-ão aqui por perto. Espero ser digno da vossa atenção e, quiçá, poder contar com a vossa amizade num futuro próximo.
Não obedecerei a um planeamento para aquilo que escrevo. Apenas escreverei o que me for chegando à boca, esperando que não se trate de um vómito. Dir-mo-ão vocês. Mas sempre que souber o que quero escrever da próxima vez que “postar” (hum, estou a começar a entrar na onda e na linguagem...), di-lo-ei. Não é por nada, mas já sei o que lá vem... na próxima semana, decidi-me por escrever sobre a minha procura de um novo rumo profissional.
Até lá amigos. Um abraço e inté. Zé.
segunda-feira, novembro 12, 2007
Não me interessa nada
Não sou dado a respostas
Àquilo que não entendo
Às perguntas de algibeira
Que o Mundo vive fazendo
Bem as tento perceber
Dar-lhes razão, um sentido
Soletro-as p´ra não me enganar
E acabo sempre confundido (cantar “sempre fodido”)
Azucrina-me a memória
A lembrança da sentença
“O que devias ter feito?,
Pára lá um pouco, e pensa!”
“És um touro numa arena,
Com mil olhos a assitir
Vais ficar aí, cansado...
Ou decides investir?”
Esqueçam lá essas retóricas
Eu não sou de decorar
Não vou lá por mnemónicas
E o meu tempo está a contar
Isso não me interessa nada
Isso não me interessa nada...
Não me legaram riqueza
Um amor p´ra vida inteira
Nem tão pouco educação
P´ra me inibir da asneira
Sempre soube que p´ra ter
É de mim que tem de sair
Portanto guardem essas merdas
P´ra quem as quiser ouvir
Esqueçam lá essas retóricas
Eu não sou de decorar
Não vou lá por mnemónicas
E o meu tempo está a contar
Isso não me interessa nada
Isso não me interessa nada...
Àquilo que não entendo
Às perguntas de algibeira
Que o Mundo vive fazendo
Bem as tento perceber
Dar-lhes razão, um sentido
Soletro-as p´ra não me enganar
E acabo sempre confundido (cantar “sempre fodido”)
Azucrina-me a memória
A lembrança da sentença
“O que devias ter feito?,
Pára lá um pouco, e pensa!”
“És um touro numa arena,
Com mil olhos a assitir
Vais ficar aí, cansado...
Ou decides investir?”
Esqueçam lá essas retóricas
Eu não sou de decorar
Não vou lá por mnemónicas
E o meu tempo está a contar
Isso não me interessa nada
Isso não me interessa nada...
Não me legaram riqueza
Um amor p´ra vida inteira
Nem tão pouco educação
P´ra me inibir da asneira
Sempre soube que p´ra ter
É de mim que tem de sair
Portanto guardem essas merdas
P´ra quem as quiser ouvir
Esqueçam lá essas retóricas
Eu não sou de decorar
Não vou lá por mnemónicas
E o meu tempo está a contar
Isso não me interessa nada
Isso não me interessa nada...
sexta-feira, novembro 09, 2007
"Out to lunch"
- Cansei-me de tentar explicar tudo... - escreveu-me ela, quase me fazendo adivinhar o seu olhar cabisbaixo, interrompido por uma troca de olhares breve logo seguida do abandono da conversa, deixando-me a falar sozinho.
Percebi a sua dor e sofri também. Não porque a fizesse sentir melhor por isso, mas porque me fez sentir melhor a mim. De alguma forma, sentimos que ao sofrermos com alguém, estamos a encontrar algum tipo de compensação para a sua angústia solitária e penitente. Quase que sentimos que estamos lá se o outro nos pedir o lenço; que damos face à bofetada no fim da discussão; que damos corpo à necessidade de materialização de um interlocutor para a sua raiva. Se é que se trata de raiva... ela diz-me que não.
Não me encolho num canto ou sequer chuto para a frente como outrora ousei, por mais que o desejasse fazer. Estou demasiadamente visível para ambicionar sequer que a sombra me cubra; estou mais que permeável à onda – enxurrada, melhor – que me arrastaria para longe se pudesse escolher; estou exposto à luz, e por isso mesmo alcança-me facilmente a vista.
Isso faria de mim cobarde? Talvez. Talvez. Cobarde como um urso baribal de cento e cinquenta quilos que hesita atacar o homem que lhe aponta uma arma, sabendo de antemão que o decapitaria com um breve safanão de uma das suas patas de garras não-retráteis. Cobarde como o cão que não morde a criança que lhe rouba a taça da ração, fundindo o impulso animal expontâneo que o empurra para a agressão. Cobarde como um parceiro eminentemente adúltero que acaba por não sê-lo ao recuar um passo à porta de casa da sua amante. Cobarde? Talvez.
- Deixa rolar, esquece isso. – escreveu depois, sem gralhas.
Quis dizer e não disse, por mais que soubesse que o meu silêncio poderia ser mal interpretado. Talvez o seu “Out to lunch” me tivesse disuadido em dose igual. Certo, certo, é que estava pouco certo do que diria se os meus dedos tivessem atacado o teclado do portátil naquela altura. Melhor assim. Cobarde? Talvez.
Deixei o meu “Out to lunch” activo antes de sair. Irónico como esta ferramenta que nos afecta a produtividade, acaba por ajudar-nos nos dilemas mais importantes da vida.
Quiçá me cansaria se tentasse explicar tudo.
Percebi a sua dor e sofri também. Não porque a fizesse sentir melhor por isso, mas porque me fez sentir melhor a mim. De alguma forma, sentimos que ao sofrermos com alguém, estamos a encontrar algum tipo de compensação para a sua angústia solitária e penitente. Quase que sentimos que estamos lá se o outro nos pedir o lenço; que damos face à bofetada no fim da discussão; que damos corpo à necessidade de materialização de um interlocutor para a sua raiva. Se é que se trata de raiva... ela diz-me que não.
Não me encolho num canto ou sequer chuto para a frente como outrora ousei, por mais que o desejasse fazer. Estou demasiadamente visível para ambicionar sequer que a sombra me cubra; estou mais que permeável à onda – enxurrada, melhor – que me arrastaria para longe se pudesse escolher; estou exposto à luz, e por isso mesmo alcança-me facilmente a vista.
Isso faria de mim cobarde? Talvez. Talvez. Cobarde como um urso baribal de cento e cinquenta quilos que hesita atacar o homem que lhe aponta uma arma, sabendo de antemão que o decapitaria com um breve safanão de uma das suas patas de garras não-retráteis. Cobarde como o cão que não morde a criança que lhe rouba a taça da ração, fundindo o impulso animal expontâneo que o empurra para a agressão. Cobarde como um parceiro eminentemente adúltero que acaba por não sê-lo ao recuar um passo à porta de casa da sua amante. Cobarde? Talvez.
- Deixa rolar, esquece isso. – escreveu depois, sem gralhas.
Quis dizer e não disse, por mais que soubesse que o meu silêncio poderia ser mal interpretado. Talvez o seu “Out to lunch” me tivesse disuadido em dose igual. Certo, certo, é que estava pouco certo do que diria se os meus dedos tivessem atacado o teclado do portátil naquela altura. Melhor assim. Cobarde? Talvez.
Deixei o meu “Out to lunch” activo antes de sair. Irónico como esta ferramenta que nos afecta a produtividade, acaba por ajudar-nos nos dilemas mais importantes da vida.
Quiçá me cansaria se tentasse explicar tudo.
quarta-feira, novembro 07, 2007
Destino
Havia quem acreditasse. Ele não. Por mil e uma razões e mais uma ou outra, mas ele não. Nem tão pouco teria paciência para referir mais do que uma dúzia dessas razões, daí que apenas me referiu duas.
- A primeira razão tem a ver com o facto de a inevitabilidade ser um conceito reversível em função da sua casualidade. – disparou à queima-roupa, como se toda a sua vida tivesse sido passada a decorar esta frase.
- É inevitável que, se flirtarmos com alguém que retribui as nossas palavras bajuladoras tão reais e credíveis e que nos acha também algum tipo de piada, acabemos a foder e a dormir com essa pessoa. – continuou. - Alguma voz off dirá: inevitável, foste tu que o forçaste, estavas a pedi-las, é o destino. – terminou, fazendo passagem mental para o parágrafo seguinte.
- Mas imagina o cenário. – vociferou baixinho enquanto expelia o fumo e apagava o cigarro. - Combinamos o motel com a gaja, suficientemente longe de todas e quaisquer vistas incriminadoras, entramos pela garagem enquanto um porteiro de bigode surumbático nos dá uma chave e um seco “bom-dia” a troco do nosso olhar medroso e inseguro. – disse ele rebaixando um pouco o pescoço para acompanhar uma tentativa de entoação ameaçadora. - Subimos ao quarto e deparamos com os espelhos e a cama redonda. A excitação é agora crescente à medida que vai sendo consumida a adrenalina do teu medo de seres descoberto com a boca na botija. – Fez um olhar bonacheirão e sacou de um novo cigarro que acendeu num ápice. – Continuou, rebaixando agora apenas os olhos. - Ela despe-se, entre amassos e beijos lambuzados, entre apalpões e neurónio e meio gasto a tentares desapertar-lhe o soutien. A excitação cede passagem à tesão e dás por ela já em cima da cama, tentando encontrar-lhe o meio (à cama, é claro! – aferiu, sorrindo -), rebolando-te ao mesmo tempo que pontapeias o ar na tentativa de desprender as calças que teimosamente se agarram aos teus tornozelos. – soltou uma gargalhada de meio segundo.
- Onde queres chegar? – perguntei-lhe meio impaciente por imaginar que iria dissecar e explicar-me minunciosamente cada vinco dos lençóis do motel ou o quão estavam já amarelados pelo tempo.
- Estás a fodê-la não tarda, não fosse o matagal! – disse quase gritando “o matagal”!
- Como assim? – questionei curioso e meio perdido.
- A gaja tem mais cabelos nas pernas, pintelheira, rabo e curvaturas limítrofes que um poodle panasca de uma dama de Beverly Hills! – disse, gritando novamente as duas últimas palavras.
- E que vontade tens agora de a comer, meu querido?! – disparou, inclinando o canto esquerdo da boca na minha direcção.
- Pois...não sei... – disse a medo, pensando que haveria ainda mais. E havia.
- Pois é, meu querido. É mesmo assim: seria inevitável que a fodesses! Mas quis a casualidade, neste caso a sua predisposição genética (do paizinho da querida – murmurou -), dotar a tua amiga de uma epidemia capilar que jamais conseguirias desbravar, mesmo que fosses lá à catanada ou lhe despejasses um balde cheio de cera depilátoria pelos cornos abaixo!
Continuou.
– Em suma, como pode falar-se em destino?! Como pode falar-se que alguém escreveu em linhas direitas e numa caligrafia exemplar, aquilo que viveremos “já a seguir”, se nem a cegueira da tesão me é suficiente para me convencer a desviar um ou dois tufos de cabelo antes de lhe espetar o nabo?!
- E a segunda razão? – perguntei, ainda mal me conseguira recompôr da gargalhada que acabara de dar segundos atrás e que conseguira fazer recair sobre mim todos os olhos consternados dispersos pelas mesas do café.
- A segunda razão, meu querido, é que tudo seria mais fácil se houvesse destino! – largou acompanhando as palavras de um suspiro bem profundo.
- O que dizes? – questionei sem grandes pausas poéticas que enaltecessem o momento.
- Digo isso mesmo! Digo que se tudo estivesse escrito pela mão d`Ele, que se fosse plausível acreditar que nos é dado à nascença um papel específico neste teatro de ilusões, as histórias teriam os fins esperados. Não haveriam surpresas, não existiriam quaisquer tipos de questões inexplicáveis, porquanto Ele saberia de cor - e naturalmente -todos os fins! Não nos sujeitariam a deambulações inusitadas, a perdas de tempo nas indecisões que nos atormentam a vida em cada um dos seus episódios. – disse, quase sem respirar nos intervalos das frases.
- Não sei se te compreendo bem...estás a dizer-me o quê?! – questionei sem dó. – Estás a dizer-me que é impossível haver um final estabelecido para as coisas, para a nossa vida, porque durante a nossa vida vivemos situações difíceis?
- Estou a dizer-te que o “nasce, vive e morre” é demasiadamente simples enquanto princípio lógico da verdade universal! – afirmou numa entoação crescente. – Se O gajo lá de cima soubesse como as nossa vidas acabariam – pois teria sido ele a redigi-las, recordas-te?! -, e acreditando sempre que esse Senhor é um gajo porreiro que ousou querer doutrinar todos os homens de acordo com uns dez rabiscos que talhou na pedra e chamou Mandamentos, porque raio não nos poupou a uma série de infortúnios, tristeza e desilusão?! – disse, no que me pareceu um tom comovido pela rouqidão na sua voz.
- Porque razão poética e nada nobre nos sujeita a uma existência continuamente miserável, que nos consome em fenómenos macabros diversos como o cancro, os acidentes rodoviários, o infortúnio duma deficiência motora num bebé acabado de nascer? Queres mais exemplos ou poupar-me-ás inteligentemente a saliva?!
- És louco! – disse prontamente, sem deixar de começar a sentir alguma admiração por este homem que só eu vejo.
- Talvez seja! Sê-lo-ei com todo o gosto se me provares que O gajo lá de cima não nos fode a cada esquina em que nos apanha! Pára de maçaricar e pensa por um minuto que seja: não seríamos mais felizes se por aqui passassemos, vivêssemos uma ou outra experiência – sexo incluído, por favor – e depois, como uma candeia que se funde no momento em que tanto precisamos dela para nos alumiar, se apagassem os olhos e nos invadisse o silêncio?
- Por certo seria. – anui sem grande luta.
- E então meu querido, a minha pergunta é: porque raio de porra toda ou porra nenhuma temos de sofrer enquanto enfermos, se bastava que alguém soprasse a chama da candeia e terminasse com isto tudo duma vez?! Porque desígneos somos arrastados pelo sofrimento pessoal e arrastamos pelo mesmo sofrimento todos aqueles que amamos e nos amam recíprocamente? Porque pecados nos condena Ele com tão vorazes dentes que nos rasgam o corpo em postas, se esses pecados só existem porque na nossa história Ele os inscreveu?
- Percebo-te na essência do que dizes, não ainda na conclusão que queres tirar... – disse-lhe calmamente.
- Já tirei todas as conclusões meu querido amigo! Não quero tirar mais nenhuma que não seja ver-te a assimilar as minhas palavras e a celebrares comigo o facto de que somos nós, nos nossos dias arrastados, que escrevemos a nossa própria vida e destino! De que nos compete a nós desenhar o mapa das nossas vidas, conferindo-lhe mais azul de mar ou mais verde de flores e povoá-lo com as pessoas que mais amamos e queremos amar! – rejubilou num sorriso rasgado e temperado a emoção.
- Tens a minha compreensão, mas deixa-me ser eu próprio a reflectir nas verdades do Mundo, à luz dos meus olhos. Permites-me? – questionei-o em tom jocoso. – Isto de passar a acreditar que não existe um Ele lá em cima a zelar por nós e com jeito para escrever histórias bonitas, não é desafio que se lance como numa aposta de poker, como se bastasse um “vou a jogo”. – disse, arrependendo-me imediatamente da analogia que acabara de esgrimir.
- Por certo, meu querido! Cabe-te a ti....mas, pensa lá, para quê fazê-lo se não vais mudar nada...tudo está escrito, lembras-te?! – inquiriu-me, imitando-me no jocoso que havia sido anteriormente.
- Não sei, pode ser difícil, mas também pode ser mais fácil do que isso... – disse, sem querer baixar as defesas e dar ainda mais luta.
– Pois, mas Ele, o “Cabraozão lá de cima”, é demasiadamente sarcástico para nos permitir a facilidade das coisas! – disse.
Mirei-o enquanto se afastava rua abaixo em direcção ao rio. Mendigava por lá, junto à estação fluvial, onde brincava com os pombos durante a tarde. Como é irónica uma vida que se veste agora de trapos e que ostentou, outrora, todos os tecidos nobres dos melhores alfaiates de Lisboa. Mais um louco de Lisboa, como diria a canção. Por certo, se alguém lhe pedisse que descrevesse a sua vida, o próprio referiria "casualidade". Não se refugiaria no destino, porque não se habituou a coisas fáceis.
07/11/07
- A primeira razão tem a ver com o facto de a inevitabilidade ser um conceito reversível em função da sua casualidade. – disparou à queima-roupa, como se toda a sua vida tivesse sido passada a decorar esta frase.
- É inevitável que, se flirtarmos com alguém que retribui as nossas palavras bajuladoras tão reais e credíveis e que nos acha também algum tipo de piada, acabemos a foder e a dormir com essa pessoa. – continuou. - Alguma voz off dirá: inevitável, foste tu que o forçaste, estavas a pedi-las, é o destino. – terminou, fazendo passagem mental para o parágrafo seguinte.
- Mas imagina o cenário. – vociferou baixinho enquanto expelia o fumo e apagava o cigarro. - Combinamos o motel com a gaja, suficientemente longe de todas e quaisquer vistas incriminadoras, entramos pela garagem enquanto um porteiro de bigode surumbático nos dá uma chave e um seco “bom-dia” a troco do nosso olhar medroso e inseguro. – disse ele rebaixando um pouco o pescoço para acompanhar uma tentativa de entoação ameaçadora. - Subimos ao quarto e deparamos com os espelhos e a cama redonda. A excitação é agora crescente à medida que vai sendo consumida a adrenalina do teu medo de seres descoberto com a boca na botija. – Fez um olhar bonacheirão e sacou de um novo cigarro que acendeu num ápice. – Continuou, rebaixando agora apenas os olhos. - Ela despe-se, entre amassos e beijos lambuzados, entre apalpões e neurónio e meio gasto a tentares desapertar-lhe o soutien. A excitação cede passagem à tesão e dás por ela já em cima da cama, tentando encontrar-lhe o meio (à cama, é claro! – aferiu, sorrindo -), rebolando-te ao mesmo tempo que pontapeias o ar na tentativa de desprender as calças que teimosamente se agarram aos teus tornozelos. – soltou uma gargalhada de meio segundo.
- Onde queres chegar? – perguntei-lhe meio impaciente por imaginar que iria dissecar e explicar-me minunciosamente cada vinco dos lençóis do motel ou o quão estavam já amarelados pelo tempo.
- Estás a fodê-la não tarda, não fosse o matagal! – disse quase gritando “o matagal”!
- Como assim? – questionei curioso e meio perdido.
- A gaja tem mais cabelos nas pernas, pintelheira, rabo e curvaturas limítrofes que um poodle panasca de uma dama de Beverly Hills! – disse, gritando novamente as duas últimas palavras.
- E que vontade tens agora de a comer, meu querido?! – disparou, inclinando o canto esquerdo da boca na minha direcção.
- Pois...não sei... – disse a medo, pensando que haveria ainda mais. E havia.
- Pois é, meu querido. É mesmo assim: seria inevitável que a fodesses! Mas quis a casualidade, neste caso a sua predisposição genética (do paizinho da querida – murmurou -), dotar a tua amiga de uma epidemia capilar que jamais conseguirias desbravar, mesmo que fosses lá à catanada ou lhe despejasses um balde cheio de cera depilátoria pelos cornos abaixo!
Continuou.
– Em suma, como pode falar-se em destino?! Como pode falar-se que alguém escreveu em linhas direitas e numa caligrafia exemplar, aquilo que viveremos “já a seguir”, se nem a cegueira da tesão me é suficiente para me convencer a desviar um ou dois tufos de cabelo antes de lhe espetar o nabo?!
- E a segunda razão? – perguntei, ainda mal me conseguira recompôr da gargalhada que acabara de dar segundos atrás e que conseguira fazer recair sobre mim todos os olhos consternados dispersos pelas mesas do café.
- A segunda razão, meu querido, é que tudo seria mais fácil se houvesse destino! – largou acompanhando as palavras de um suspiro bem profundo.
- O que dizes? – questionei sem grandes pausas poéticas que enaltecessem o momento.
- Digo isso mesmo! Digo que se tudo estivesse escrito pela mão d`Ele, que se fosse plausível acreditar que nos é dado à nascença um papel específico neste teatro de ilusões, as histórias teriam os fins esperados. Não haveriam surpresas, não existiriam quaisquer tipos de questões inexplicáveis, porquanto Ele saberia de cor - e naturalmente -todos os fins! Não nos sujeitariam a deambulações inusitadas, a perdas de tempo nas indecisões que nos atormentam a vida em cada um dos seus episódios. – disse, quase sem respirar nos intervalos das frases.
- Não sei se te compreendo bem...estás a dizer-me o quê?! – questionei sem dó. – Estás a dizer-me que é impossível haver um final estabelecido para as coisas, para a nossa vida, porque durante a nossa vida vivemos situações difíceis?
- Estou a dizer-te que o “nasce, vive e morre” é demasiadamente simples enquanto princípio lógico da verdade universal! – afirmou numa entoação crescente. – Se O gajo lá de cima soubesse como as nossa vidas acabariam – pois teria sido ele a redigi-las, recordas-te?! -, e acreditando sempre que esse Senhor é um gajo porreiro que ousou querer doutrinar todos os homens de acordo com uns dez rabiscos que talhou na pedra e chamou Mandamentos, porque raio não nos poupou a uma série de infortúnios, tristeza e desilusão?! – disse, no que me pareceu um tom comovido pela rouqidão na sua voz.
- Porque razão poética e nada nobre nos sujeita a uma existência continuamente miserável, que nos consome em fenómenos macabros diversos como o cancro, os acidentes rodoviários, o infortúnio duma deficiência motora num bebé acabado de nascer? Queres mais exemplos ou poupar-me-ás inteligentemente a saliva?!
- És louco! – disse prontamente, sem deixar de começar a sentir alguma admiração por este homem que só eu vejo.
- Talvez seja! Sê-lo-ei com todo o gosto se me provares que O gajo lá de cima não nos fode a cada esquina em que nos apanha! Pára de maçaricar e pensa por um minuto que seja: não seríamos mais felizes se por aqui passassemos, vivêssemos uma ou outra experiência – sexo incluído, por favor – e depois, como uma candeia que se funde no momento em que tanto precisamos dela para nos alumiar, se apagassem os olhos e nos invadisse o silêncio?
- Por certo seria. – anui sem grande luta.
- E então meu querido, a minha pergunta é: porque raio de porra toda ou porra nenhuma temos de sofrer enquanto enfermos, se bastava que alguém soprasse a chama da candeia e terminasse com isto tudo duma vez?! Porque desígneos somos arrastados pelo sofrimento pessoal e arrastamos pelo mesmo sofrimento todos aqueles que amamos e nos amam recíprocamente? Porque pecados nos condena Ele com tão vorazes dentes que nos rasgam o corpo em postas, se esses pecados só existem porque na nossa história Ele os inscreveu?
- Percebo-te na essência do que dizes, não ainda na conclusão que queres tirar... – disse-lhe calmamente.
- Já tirei todas as conclusões meu querido amigo! Não quero tirar mais nenhuma que não seja ver-te a assimilar as minhas palavras e a celebrares comigo o facto de que somos nós, nos nossos dias arrastados, que escrevemos a nossa própria vida e destino! De que nos compete a nós desenhar o mapa das nossas vidas, conferindo-lhe mais azul de mar ou mais verde de flores e povoá-lo com as pessoas que mais amamos e queremos amar! – rejubilou num sorriso rasgado e temperado a emoção.
- Tens a minha compreensão, mas deixa-me ser eu próprio a reflectir nas verdades do Mundo, à luz dos meus olhos. Permites-me? – questionei-o em tom jocoso. – Isto de passar a acreditar que não existe um Ele lá em cima a zelar por nós e com jeito para escrever histórias bonitas, não é desafio que se lance como numa aposta de poker, como se bastasse um “vou a jogo”. – disse, arrependendo-me imediatamente da analogia que acabara de esgrimir.
- Por certo, meu querido! Cabe-te a ti....mas, pensa lá, para quê fazê-lo se não vais mudar nada...tudo está escrito, lembras-te?! – inquiriu-me, imitando-me no jocoso que havia sido anteriormente.
- Não sei, pode ser difícil, mas também pode ser mais fácil do que isso... – disse, sem querer baixar as defesas e dar ainda mais luta.
– Pois, mas Ele, o “Cabraozão lá de cima”, é demasiadamente sarcástico para nos permitir a facilidade das coisas! – disse.
Mirei-o enquanto se afastava rua abaixo em direcção ao rio. Mendigava por lá, junto à estação fluvial, onde brincava com os pombos durante a tarde. Como é irónica uma vida que se veste agora de trapos e que ostentou, outrora, todos os tecidos nobres dos melhores alfaiates de Lisboa. Mais um louco de Lisboa, como diria a canção. Por certo, se alguém lhe pedisse que descrevesse a sua vida, o próprio referiria "casualidade". Não se refugiaria no destino, porque não se habituou a coisas fáceis.
07/11/07
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