Olá a todos. Olá. Como prometido, aqui estou para falar sobre como a vida não está para ilusões. Donde vem isto?! Vem de uma decisão minha, definitiva e irreversível: vou ter mesmo que arredar de vez a pretensão (já antiga) de ser escritor. Por alguma razão, teimo em mantê-la viva, suspensa por frágeis cordéis de paixão rapidamente imolados pela inevitabilidade de um sonho desvanecido. (Vêem?! Continuo a achar que levava jeito.). Aliás, já agora e para que conste, foi por estas andanças de “sopa das letras” que conheci o Mário: trocámos interpretações diferentes sobre o verdadeiro motivo que levava o Sándor Márai a ir tão fundo na prosa em monólogo, num corredor de “Autores Traduzidos” da Fnac do Chiado.
Voltando ao novelo. As palavras que escrevo são demasiadamente baratas para que, agrupadas e coladas com cuspo, valham mais que um mísero centavo. Não há ribalta, não há nobreza sequer na ausência da fama, na ignorância de um nome que soe a algo mais que um José Silva. Um qualquer José Silva perdido atrás de um balcão de uma tasca em Estremoz, ou um seu homónimo a pisar uva verde em Melgaço. Este é o empregado de escritório, com a secretária antiga e a cadeira da Moviflor sem uma das rodas, que manca e já está a perder o forro outrora vermelho-sangue-de-boi. Este não é o Miguel Sousa Tavares que se deleita languidamente na sua licença sem vencimento de dois anos, emergindo apenas ao Sábado na página 2 do Expresso e intervalando o encafuanço no Alentejo profundo a fumar cigarros e a escrever mais um calhamaço de 400 páginas que terá, depois, uma promoção comercial à altura de um novo livro de contos do Paul Auster, mas numa dimensão proporcional à nossa chafarica chamada Portugal.
E por falar em Alentejo?! Ora nem mais! Era mesmo aí! Pois quis também, influenciado talvez pela perspectiva razoável e plausível deste adormecimento me conduzir e poder permitir o outro sonho da escrita, investir num negócio de turismo rural. Perdido e emparedado na natureza inóspita de um Alentejo profundo igual ao do MST, tornar-me-ia o gajo calmo e pacífico que nunca conheci ou sequer imagino vivo e a respirar.
Aí, intervalando uma existência meramente casual, alternaria uma viagem poeirenta no meu Jeep à Carrapateira, para uma corridinha matinal à beira mar. Retornaria por volta da hora de almoço à minha casa rústica, decorada com uma família idílica de mamã e criancinhas. Respiraríamos o ar puro enquanto nos sentávamos no alpendre para almoçar, fustigados pela aragem quente soprada pelos quarenta graus vindos do interior, lá para os lados da seca. Recostar-me-ia na minha chaise longue de verga para uma sesta de uma hora, e sentar-me-ia em frente ao computador a escrever o meu último bestseller até quase à hora de jantar. No lusco-fusco, brincaria com as criancinhas junto à cerca dos cavalos e dos potros: à apanhada, às escondidas ou à sardinha, afundando-me em pensamentos de felicidade inquestionável. Poria a mesa com pratos de barro, beberia vinho oferecido pelo vizinho que também faz agricultura ecológica e de estufa e comeria carne de porco. Enquanto a mamã deitava as criancinhas e lhes lia uma história, regressava ao alpendre e à minha chaise longue para um cigarro de inspiração. (Ah pois, porque voltava a fumar! Não há como sair da cidade e descongestionar os brônquios, para perceber que teria de arranjar forma de me sujar por dentro!). Depois, esperava que a dança ascendente do fumo azulado me desenhasse alguma forma geométrica ou contorno de corpo de mulher, e me atestasse com motivação para mais algumas horas e, pelo menos, vinte mil caracteres ou dez páginas de bestseller. Que sonho, hein?
Mas a uva transformou-se em passa. Não só, mas também. A inércia é um adversário de respeito que não atira a toalha para o chão ensanguentado do ringue. Depois, depois há sempre a constatação fria de que não sou mais que um José Silva que tem que dar o litro diariamente lá na repartição do décimo oitavo bairro para que, a cada final do mês, a sua conta bancária inspire um pouco, de forma quase dolorosa, do fundo dos seus pulmões cancerosos. E basicamente, nada sobra depois de paga a prestação da casa e o colégio dos miúdos. Nem para mandar cantar um cego, quanto mais para comprar um monte!
Ou seja, é como que estivesse continuamente preso a um elástico gigante e fortíssimo que, sadicamente, alguém me permite e ajuda a esticar uns bons metros quando estou animadito, deixando-me ver para o “outro lado”, o lado A das coisas, mas que depois, o solta bruscamente, fazendo-me recuar num esticão súbito e a estatelar-me com estrondo contra a parede da minha triste realidade mundana num 3º andar esquerdo nos arrebaldes de um qualquer dormitório na margem sul do Tejo. O lado B das coisas. B de Baixa da Banheira. Onde só há passas, não há uvas.
E por falar em uvas, sim, é verdade, tenho mais um cacho de pretensões! Oh! Quantas mais pretensões, senhoras e senhores! Mas isso fica para depois, desculpem. O miúdo acordou a gritar pela chucha e vai acordar os vizinhos.
Até lá amigos. Um abraço e inté. Zé.
sexta-feira, novembro 23, 2007
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1 comentário:
É agradável ler o que escreves.
No meio do lixo literário em que quase todos andamos embrulhados com mais ou menos laçarotes de cores garridas para enfeitar a falta de léxico, o meu amigo recosta-se numa cadeira, bebe um café, fuma um cigarro e fala com o leitor despretensiosamente.
Contar uma história de viva voz não é coisa fácil; escreve-la de modo perceptível mais difícil se torna.
Assim, num à-vontade de circunstância – sem que se desmereça um inequívoco cuidado em ajudar a passar o tempo na cavaqueira – fica o leitor/ouvinte a desfrutar duma conversa animada, curiosa, com o seu quê de interesse pontual.
Que importa registar-se o êxito dos escritores com títulos gravados em relevo?
Saber escrever, escrever bem, é talvez a arte mais difícil do Mundo.
Por isso nós sabemos ser impossível, através da escrita ou de qualquer outra forma de comunicação, levar as nossas ideias aos outros. Pensamos de uma maneira mas exprimimo-nos de outra. Ou melhor ainda; o que escrevemos ou falamos é lido ou ouvido duma forma diferente da nossa intenção.
Escreve como escreves. Não estás a perder o teu tempo.
Nem eu o meu.
Grande abraço.
Luís Pinto
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