Havia quem acreditasse. Ele não. Por mil e uma razões e mais uma ou outra, mas ele não. Nem tão pouco teria paciência para referir mais do que uma dúzia dessas razões, daí que apenas me referiu duas.
- A primeira razão tem a ver com o facto de a inevitabilidade ser um conceito reversível em função da sua casualidade. – disparou à queima-roupa, como se toda a sua vida tivesse sido passada a decorar esta frase.
- É inevitável que, se flirtarmos com alguém que retribui as nossas palavras bajuladoras tão reais e credíveis e que nos acha também algum tipo de piada, acabemos a foder e a dormir com essa pessoa. – continuou. - Alguma voz off dirá: inevitável, foste tu que o forçaste, estavas a pedi-las, é o destino. – terminou, fazendo passagem mental para o parágrafo seguinte.
- Mas imagina o cenário. – vociferou baixinho enquanto expelia o fumo e apagava o cigarro. - Combinamos o motel com a gaja, suficientemente longe de todas e quaisquer vistas incriminadoras, entramos pela garagem enquanto um porteiro de bigode surumbático nos dá uma chave e um seco “bom-dia” a troco do nosso olhar medroso e inseguro. – disse ele rebaixando um pouco o pescoço para acompanhar uma tentativa de entoação ameaçadora. - Subimos ao quarto e deparamos com os espelhos e a cama redonda. A excitação é agora crescente à medida que vai sendo consumida a adrenalina do teu medo de seres descoberto com a boca na botija. – Fez um olhar bonacheirão e sacou de um novo cigarro que acendeu num ápice. – Continuou, rebaixando agora apenas os olhos. - Ela despe-se, entre amassos e beijos lambuzados, entre apalpões e neurónio e meio gasto a tentares desapertar-lhe o soutien. A excitação cede passagem à tesão e dás por ela já em cima da cama, tentando encontrar-lhe o meio (à cama, é claro! – aferiu, sorrindo -), rebolando-te ao mesmo tempo que pontapeias o ar na tentativa de desprender as calças que teimosamente se agarram aos teus tornozelos. – soltou uma gargalhada de meio segundo.
- Onde queres chegar? – perguntei-lhe meio impaciente por imaginar que iria dissecar e explicar-me minunciosamente cada vinco dos lençóis do motel ou o quão estavam já amarelados pelo tempo.
- Estás a fodê-la não tarda, não fosse o matagal! – disse quase gritando “o matagal”!
- Como assim? – questionei curioso e meio perdido.
- A gaja tem mais cabelos nas pernas, pintelheira, rabo e curvaturas limítrofes que um poodle panasca de uma dama de Beverly Hills! – disse, gritando novamente as duas últimas palavras.
- E que vontade tens agora de a comer, meu querido?! – disparou, inclinando o canto esquerdo da boca na minha direcção.
- Pois...não sei... – disse a medo, pensando que haveria ainda mais. E havia.
- Pois é, meu querido. É mesmo assim: seria inevitável que a fodesses! Mas quis a casualidade, neste caso a sua predisposição genética (do paizinho da querida – murmurou -), dotar a tua amiga de uma epidemia capilar que jamais conseguirias desbravar, mesmo que fosses lá à catanada ou lhe despejasses um balde cheio de cera depilátoria pelos cornos abaixo!
Continuou.
– Em suma, como pode falar-se em destino?! Como pode falar-se que alguém escreveu em linhas direitas e numa caligrafia exemplar, aquilo que viveremos “já a seguir”, se nem a cegueira da tesão me é suficiente para me convencer a desviar um ou dois tufos de cabelo antes de lhe espetar o nabo?!
- E a segunda razão? – perguntei, ainda mal me conseguira recompôr da gargalhada que acabara de dar segundos atrás e que conseguira fazer recair sobre mim todos os olhos consternados dispersos pelas mesas do café.
- A segunda razão, meu querido, é que tudo seria mais fácil se houvesse destino! – largou acompanhando as palavras de um suspiro bem profundo.
- O que dizes? – questionei sem grandes pausas poéticas que enaltecessem o momento.
- Digo isso mesmo! Digo que se tudo estivesse escrito pela mão d`Ele, que se fosse plausível acreditar que nos é dado à nascença um papel específico neste teatro de ilusões, as histórias teriam os fins esperados. Não haveriam surpresas, não existiriam quaisquer tipos de questões inexplicáveis, porquanto Ele saberia de cor - e naturalmente -todos os fins! Não nos sujeitariam a deambulações inusitadas, a perdas de tempo nas indecisões que nos atormentam a vida em cada um dos seus episódios. – disse, quase sem respirar nos intervalos das frases.
- Não sei se te compreendo bem...estás a dizer-me o quê?! – questionei sem dó. – Estás a dizer-me que é impossível haver um final estabelecido para as coisas, para a nossa vida, porque durante a nossa vida vivemos situações difíceis?
- Estou a dizer-te que o “nasce, vive e morre” é demasiadamente simples enquanto princípio lógico da verdade universal! – afirmou numa entoação crescente. – Se O gajo lá de cima soubesse como as nossa vidas acabariam – pois teria sido ele a redigi-las, recordas-te?! -, e acreditando sempre que esse Senhor é um gajo porreiro que ousou querer doutrinar todos os homens de acordo com uns dez rabiscos que talhou na pedra e chamou Mandamentos, porque raio não nos poupou a uma série de infortúnios, tristeza e desilusão?! – disse, no que me pareceu um tom comovido pela rouqidão na sua voz.
- Porque razão poética e nada nobre nos sujeita a uma existência continuamente miserável, que nos consome em fenómenos macabros diversos como o cancro, os acidentes rodoviários, o infortúnio duma deficiência motora num bebé acabado de nascer? Queres mais exemplos ou poupar-me-ás inteligentemente a saliva?!
- És louco! – disse prontamente, sem deixar de começar a sentir alguma admiração por este homem que só eu vejo.
- Talvez seja! Sê-lo-ei com todo o gosto se me provares que O gajo lá de cima não nos fode a cada esquina em que nos apanha! Pára de maçaricar e pensa por um minuto que seja: não seríamos mais felizes se por aqui passassemos, vivêssemos uma ou outra experiência – sexo incluído, por favor – e depois, como uma candeia que se funde no momento em que tanto precisamos dela para nos alumiar, se apagassem os olhos e nos invadisse o silêncio?
- Por certo seria. – anui sem grande luta.
- E então meu querido, a minha pergunta é: porque raio de porra toda ou porra nenhuma temos de sofrer enquanto enfermos, se bastava que alguém soprasse a chama da candeia e terminasse com isto tudo duma vez?! Porque desígneos somos arrastados pelo sofrimento pessoal e arrastamos pelo mesmo sofrimento todos aqueles que amamos e nos amam recíprocamente? Porque pecados nos condena Ele com tão vorazes dentes que nos rasgam o corpo em postas, se esses pecados só existem porque na nossa história Ele os inscreveu?
- Percebo-te na essência do que dizes, não ainda na conclusão que queres tirar... – disse-lhe calmamente.
- Já tirei todas as conclusões meu querido amigo! Não quero tirar mais nenhuma que não seja ver-te a assimilar as minhas palavras e a celebrares comigo o facto de que somos nós, nos nossos dias arrastados, que escrevemos a nossa própria vida e destino! De que nos compete a nós desenhar o mapa das nossas vidas, conferindo-lhe mais azul de mar ou mais verde de flores e povoá-lo com as pessoas que mais amamos e queremos amar! – rejubilou num sorriso rasgado e temperado a emoção.
- Tens a minha compreensão, mas deixa-me ser eu próprio a reflectir nas verdades do Mundo, à luz dos meus olhos. Permites-me? – questionei-o em tom jocoso. – Isto de passar a acreditar que não existe um Ele lá em cima a zelar por nós e com jeito para escrever histórias bonitas, não é desafio que se lance como numa aposta de poker, como se bastasse um “vou a jogo”. – disse, arrependendo-me imediatamente da analogia que acabara de esgrimir.
- Por certo, meu querido! Cabe-te a ti....mas, pensa lá, para quê fazê-lo se não vais mudar nada...tudo está escrito, lembras-te?! – inquiriu-me, imitando-me no jocoso que havia sido anteriormente.
- Não sei, pode ser difícil, mas também pode ser mais fácil do que isso... – disse, sem querer baixar as defesas e dar ainda mais luta.
– Pois, mas Ele, o “Cabraozão lá de cima”, é demasiadamente sarcástico para nos permitir a facilidade das coisas! – disse.
Mirei-o enquanto se afastava rua abaixo em direcção ao rio. Mendigava por lá, junto à estação fluvial, onde brincava com os pombos durante a tarde. Como é irónica uma vida que se veste agora de trapos e que ostentou, outrora, todos os tecidos nobres dos melhores alfaiates de Lisboa. Mais um louco de Lisboa, como diria a canção. Por certo, se alguém lhe pedisse que descrevesse a sua vida, o próprio referiria "casualidade". Não se refugiaria no destino, porque não se habituou a coisas fáceis.
07/11/07
quarta-feira, novembro 07, 2007
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