terça-feira, novembro 27, 2007

Lívido Rosto

É desses olhos cinzentos que escorrem as lágrimas frias
Tão puras, que regam os campos férteis onde tudo cresce
Que te sulcam as margens da face como um lápis branco
Por onde os anos passam devagar, sem pressa,
E se extinguem sem nunca terem existido

É nos contornos desse lívido rosto que reconheço
As palavras que te disse, entre a dor dos gritos e o riso infantil
Languidamente, sem pressa de dizer tudo que se ouve como nada
Saboreando, como em mil doces mergulhado, excitado
Tanto o mal que te podia ter feito e não quis

Vejo agora que a sala escura poucas sombras já reflecte
A vela acesa vai na dança, ténue, bruxuleante,
Empurrada pelo vento que corre da porta à janela onde tu estás
Sentada, olhos no Mundo que não escolheste
Mas ousaste conhecer, porque dessa matéria te fizeste

És-me coração, alma e todo e cada poro por onde me sais
Deixo no ar o teu cheiro à passagem do meu vulto
Corro para lá, no sentido poente, sem bússula ou astro que me guie
Pois é imenso o caminho, pouco certo o destino e incerto
Mas quem sabe prazenteiro, do meu sonho de criança, de mim

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