Vou ser pai, pensei com tranquilidade, meio anestesiado pelo surpresa causada por algo que se não espera e se não interiorizou devidamente. Vou ser pai! saiu-me de seguida, segundos após essa assimilação da boa nova.Estarrecido fiquei. As minhas pernas tremiam e o coração ditava-me algumas lágrimas a que só a abstração evidente conteve da queda pela minha cara. Em vez de lhes sentir o sal, sentía-as fervilhar dentro de mim, enebriando-me e ardendo a ferida agora aberta.Era agora dois lados de uma mesma carne. Aquele que arrisca a vida, imaturo e infantil - porque a isso se permite e lhe é tolerado - nas análises e contemplações das similares realidades alheias. E aquele que contempla o seu próprio futuro, desembarcado em terra desconhecida e agora destinada, receoso de tudo, assentando os pés em terra pouco firme ao mesmo tempo que ouve o apito de debandada do comboio que o trouxe até aqui.Sei que nada será diferente, porque tudo será diferente. Cada nova surpresa, cada ciclo de vida, cada decisão importante nos vai guiando mais além. Tem sido assim desde sempre. É por isso que a diferença só o é quando dessa forma etiquetada, e não o seria se compreendida enquanto etapa, novo desígnio ou desafio.Guardo agora em mim a provação da luxúria e imaturidade. Tudo deixa de ser sério, porque séria é esta estrela que agora nasce de um brilho ainda ténue. Será fácil deixar de me dar ao escrutínio daqueles com quem vivo a maior parte do meu tempo. Passarei a sê-lo por aqueles que mais amo e a eles responderei à-altura. Mas mais do que por eles, pela minha estrela de brilho ainda ténue, pela força e alma que agora ressurge do meu ser, pelo pedaço de vida que de mim saiu e agora em mim volta a entrar sob a forma de milagre.À mulher que amo, à minha aia nesta aventura da vida, o meu obrigado e amor por me permitir este sonho a que outrora nos negámos.Vou ser pai! sinto agora, exorcisados que estão os meus medos e prurídos.
2005/04/18
para a minha "missanga", a minha filha Mafalda.
segunda-feira, agosto 20, 2007
"Sou eu mãe. Sou eu."
Lembro-te nesta história, na minha história também, no relato dos pensamentos que assolam o meu íntimo. Não o faço por receio de algum dia poder esquecer-te e, quando esquecesse, querer recapitular o quão importante e fantástica eras para mim. Faço-o porque acredito no que penso, e o que penso é que a tua perda e o momento em que te vi partir, a serem compensados de alguma forma, que o sejam pela criação de algo, mesmo que um testemunho ténue e insuficiente do teu ser, da tua vida enquanto foi tua. Porque foi tua essa vida difícil feita de privação e de esforço na conquista de coisas poucas. Dessa vida de ilusões e esmorecimento, de sorrisos e de fado, de tudo, e depois de nada. Lembro o pânico nos teus olhos raiados a sangue, como se corressem neles os últimos caudais da vida que teimosamente agarravas apesar da dor. Do sofrimento que te confundia as ideias, de tal forma que os teus olhos não me reconheciam. De me dizeres “Ai Sr. Doutor, a morte é tão triste”, de eu te dizer em lágrimas que já não tinha “Sou eu mãe. Sou eu.”, e num momento raro de lucidez, sentir a tua mão apertar a minha em sinal de agradecimento por estar ali, suspenso por cordéis frágeis de coragem, a teu lado. Lembro-me do teu ventre inchado abrigando a doença. Do teu corpo sobre a cama, prostrado e desiludido, quase inerte. De estar atento ao teu respirar mais ofegante que subitamente cedia aos gemidos mudos da dor, e de rezar para que não desistisses. Mas mesmo assim, sem desistir, tu partiste. Partiste porque o que crescia em ti tornava-se progressivamente mais forte. Mais forte do que tu. Mais parte de ti. Agora que me lembro, mais uma e outra vez e depois mais outra, sei que quererias que o não fizesse. Porque sofro em cada vez que te recordo com saudade. Talvez não o devesse ter vivido, não nesta idade, não quando não estava preparado. Mas porque acredito que onde quer que estejas me vês e me sentes, vou lutar para que o tormento se esvaneça em mil pedaços de memória. Depois, colá-los-ei um a um e guardá-los-ei no meu maior cofre: o coração. Para que fiques sempre em mim, para que continues a respirar comigo, até que eu próprio parta. Para ser recordado depois, por alguém.
2004/09/21
dedicado à minha mãe, Alice, falecida a 19 de Junho de 2003. Faria hoje, 20 de Agosto de 2007, a bonita idade de 78 anos.
2004/09/21
dedicado à minha mãe, Alice, falecida a 19 de Junho de 2003. Faria hoje, 20 de Agosto de 2007, a bonita idade de 78 anos.
Anjo
Deixou que o pincel esborratasse a tela ainda branca. Aos poucos, em traço fino, foi dando contorno à silhueta daquela mulher que navegava nos seus sonhos, noite após noite. Fê-lo devagar, para que de nada se esquecesse. Dando dois passos atrás, escabichou o desenho para confirmar que nada ficava em falta. Desenhou-lhe os olhos cor de amêndoa, os cabelos longos e revoltos como uma queda de água que alimenta um charco seco. As nádegas firmes, como a ele lhe pareceram, quando esta descia do dorso daquele cavalo alado, branco. Os pés delicados que calcavam subtilmente a fina erva daquela clareira perdida no meio da floresta. Agora, sem paisagem de fundo ou adorno artificial, poderia contemplá-la sem que ela lhe fugisse por entre os pinheiros largos, dando lugar ao sobressalto e ao regresso a este mundo. Esbugalhou os olhos perante a tela. A tinta escorria, como se da tela não gostasse. Sulcava os seus próprios trilhos na textura do tecido, e largava-se, bem do cimo do cavalete, no vazio. Formava no chão de pedra uma poça multicolor, atípica e disforme, mas com uma palpitação própria que inflava o castanho, o negro e o branco da tinta caída. À sua frente erguia-se agora aquela mulher, com as formas moldando-se à perfeição. Lentamente, duma posição fetal para uma postura hirta e bela. Levantou o rosto deixando a descoberto aqueles olhos cor de amêndoa, aquela tez branca e angelical. E sorriu. Sorriu para ele como se de nada fosse. Do cimo daquela deidade que era o seu corpo e a sua figura. "Cheguei. Sei que me esperavas." - disse docemente. - "Pintaste-me, para que nos teus sonhos eu deixasse de fugir. Por isso estou aqui. Porque me quiseste aqui. Os anjos aparecem a quem os ama, tornam-se reais perante o amor de alguém. Procuraste-me e sempre escapei, sem estar certa do teu amor. Mas agora que me pintaste, do jeito que quiseste, deste-me a forma e a força da vida." - E basta que se ame, para dar forma a alguém ? - questionou ele, com o coração a sufocar-lhe a garganta. - Não. - respondeu com um sorriso. - Há que sonhar, sentir que se quer alguém de uma forma tão intensa que até o mundo tremerá perante essa vontade. Há que se cuidar, dar contorno e atenção ao ínfimo pormenor do corpo e da alma de quem se ama. Tu fizeste-o. - Sinto-me feliz. Encontrei-te, finalmente...
2004/09/20
dedicado à minha mulher Raquel.
2004/09/20
dedicado à minha mulher Raquel.
É preciso ter colhões!
No outro dia dei por mim a pensar em coisas da existência humana. Já não me acontece com tanta frequência como há uns anos atrás, talvez porque estou resignado perante o facto de já ter alguma idade e de já não esperar grandes surpresas. As coisas acontecem, invariavelmente, da mesma forma. Já não pensamos e repensamos sobre factos etéreos, sobre atitudes irreflectidas e reflexos condicionados. As coisas acontecem e pronto. Been there, seen that. Porém, há talvez coisas que ainda me causam alguma surpresa e sobre as quais me ponho a pensar. As das relacções entre as pessoas. Relacções amorosas, entenda-se. Namoramos, chateamo-nos, acabamos o namoro, reatamos, apaixonamo-nos, chateamo-nos mais uma vez e, agora já junto de outra pessoa, reiniciamos o ciclo. Andamos nisto anos e anos. Um dia não nos chateamos, casamos, atinamos, afinamos, sentamo-nos no sofá a ver a novela e depois? Claro, chateamo-nos. Mas agora estamos numa situação diferente: a casa, o carro, as jóias, os miúdos. E então a solução passa por deixarmos de nos chatear. Parece-vos bem? A mim não. Sempre fui um chato neste tipo de discussões, insurgindo-me vivamente com as atitudes consevadoras, consternadas e inertes daqueles que decidiram deixar de viver assim que se juntaram a alguém. Lá surgem aqueles comentário possidónios: "Eh pá, um gajo agora tem que andar calminho que a patroa não dá folga."; "Não vai dar para ir jantar com a malta, a miúda tá meio chateada de eu já ter ido beber um copo a semana passada.". Pior: "A coisa não anda bem, já não pinamos há mais de um mês, mas estas cenas acontecem em todos os casamentos, um gajo tem que ter paciência...são fases...". Pois bem, deixem-se estar. Estou perfeitamente convicto do que digo e muito dificilmente me farão pensar o contrário: o desafio passa por conseguir ver uma qualquer relacção sentimental de namoro ou casamento(exclua-se aqui a amizade, que é regida por princípios diferentes e específicos), como um negócio, um contrato. Ambas as partes conhecem-se, sentem que a fusão dos seus interesses pode ser benéfica para cada uma das partes e que ganharão muito com isso, verificam rácios de endividamento, autonomia, return on investment e cash flow, sentam-se a uma mesa a assinar um papel para que não hajam quaisquer dúvidas sobre aquilo que a palavra e a honra, per si, não garantiam, e depois cada uma das partes trabalha para a outra. Os dividendos são distribuídos e as partes consolidam a sustentabilidade do negócio. O stress (estresse, em português) chega quando há problemas de tesouraria ou sintomas de resistência à mudança. Se não existe disponibilidade de caixa para fazer face a investimentos imprevistos, ou não se compra e surgem frustrações associadas à actividade, ou compra-se e começam a surgir dívidas que certamente alguém virá cobrar. Se as alterações aos processos habituais de funcionamento ou aos procedimentos standards instituídos durante longos anos são radicais, então surge a retracção face àquilo que é desconhecido ou que, pensa-se, será difícil de executar. A resistência à mudança de hábitos põe a nú uma de duas coisas ou mesmo ambas: a falta de capacidade para assimilar novos desafios ou a falta de vontade para os enfrentar. E neste caso, só existem dois caminhos: ou se decide que é mesmo necessário ficar com o "emprego", se cria capacidade de encaixe face à mudança e se aprende aquilo que não se sabe, ou então salta-se fora. Qualquer que seja o caminho a desbravar, é bom que se assuma que são ambos muito espinhosos. O primeiro obriga a andar por aí frustrado, sem eira nem beira, a não ir beber copos com os amigos ainda solteiros ou aqueles casados com ordem de soltura, a não pinar quando se tem vontade ou a ter que pinar quando não se tem. A levar com os filmes da família, dos jantarinhos de casais, do enxoval da criança, da telenovela no sofá. Tem que se trabalhar, e pronto. O segundo, o "salta-se fora", tem repercussões que, como o próprio nome indica, implicam um salto para o lado de lá, no escuro, no vazio. E os saltos, independentemente da sua amplitude, são sempre saltos. Implicam que tem que se ter, nem que seja por breves segundos, os pés longe do chão, daquilo que é firme. Implicam coragem. A coragem que nem todos têm para andar, durante uns tempos, meio perdido e alheado daquilo que era certo, palpável e seguro, de ter que se preocupar em encontrar um novo rumo, um novo "emprego", uma nova vida. É provável que estejam a questionar-se sobre qual dos caminhos escolhi. Pois bem, ainda não escolhi nenhum! Não me conformo com uma má relacção pois não a tenho. Retiro prazer da telenovela no sofá. Pino segundo mútuo acordo. O salto não me dá medo, nunca deu, mas não preciso de saltar por agora. Não sou resistente à mudança e, qual camaleão, adapto-me à cor de fundo. Gosto de aprender sempre mais, pois ainda tenho vontade. Moldo-me ao que de mim esperam e que eu próprio espero de mim. Para sempre? Logo se vê.
2004/09/17
dedicado ao meu amigo Ricardo.
2004/09/17
dedicado ao meu amigo Ricardo.
Neurónios
Desiludam-se aqueles que, ao olhar para o título desta rubrica, pensaram que iria dissertar sobre as células cerebrais geralmente associadas à capacidade intelectual deste ou daquele humano. Neurónios é o nome de um evento que se realiza anualmente em Portugal, e cujo objectivo é premiar o que de melhor se faz nesta nova ciência de comunicação chamada marketing relacional. Como sabem, é isto que eu faço na vida e é sobre isto que gostaria de dizer duas ou três coisas, mais concretamente sobre a festa dos Neurónios que se realizou ontem à noite, ali para os lados da Rua do Alvielado, no Museu da Água. Saltarei os pormenores da chegada dos "famosos" ao local do evento, aglomerando-se em grupos que, embora isolados, permitiriam captar, numa vista aérea, uma imagem de multidão; dos olhares curiosos e sugestivos trocados entre a nata de criativos e responsáveis de agências; do catering de salgadinhos e patés; dos vestidos de cerimónia desenquadrados do tecido de ganga em maioria; das "enfermeiras/promotoras" inberbes mas de grande tranca; do magnífico espaço-museu. São pormenores interessantes, mas nem por isso merecedores de grande prosa. Falo apenas daquilo que, na minha opinião, salta realmente à vista e importa: os premiados. Ocorre-me agora que poderão sorver das minhas palavras algum tipo de fanfarronice ou pretenciosismo. Que se lixe, pois não é essa a intenção. A intenção é apenas elogiar, no tempo devido, aqueles que merecem ser considerados os melhores, porque o são, de facto, nesta área de comunicação. Para que não aconteça mais uma vez, como é apanágio do povo português, vir fazer este tipo de homenagens a título póstumo. Para que não aconteça mais uma vez, que os "senhores dos azeites" das agências de publicidade/advertising se posicionem como os únicos que cospem para o mercado algum trabalho de qualidade. Para que não ocorra mais uma vez a infrutífera discussão sobre o que é "above" e o que é "below", e que o "above" está (e é) a mó de cima. É neste momento que se tem que dizer que subiram ao palco os melhores directores de arte, os melhores copys, os melhores directores e supervisores criativos, os melhores accounts, os melhores webdesigners, os melhores new media, os melhores directores gerais, os melhores clientes - aqui designados anunciantes. É neste momento que se tem que dizer que andava por ali o que de melhor existe no marketing relacional. Os melhores trabalhos e as melhores campanhas. Os melhores profissionais e os melhores aprendizes. Com menos visibilidade mas também de parabéns, os organizadores deste evento, que mostraram que a dedicação e a inteligência se sobrepõem invariavelmente à experiência. Está na altura de assumir, de uma vez por todas, que damos cartas e ganhamos as vazas. Que temos uma mão de full house e não fazemos bluff. Que trabalhamos num tipo de comunicação que ditará o futuro das marcas pelo foco destas nos seus próprios clientes. Que os anunciantes devem perceber que este é, de facto, o caminho. Que percebam que uma boa marca brilha, mas o bom serviço ao cliente não só sustenta, como potencia as vendas. Que todos, sem excepção, usem os neurónios. De uma vez por todas.
2004/09/17
2004/09/17
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