Deixou que o pincel esborratasse a tela ainda branca. Aos poucos, em traço fino, foi dando contorno à silhueta daquela mulher que navegava nos seus sonhos, noite após noite. Fê-lo devagar, para que de nada se esquecesse. Dando dois passos atrás, escabichou o desenho para confirmar que nada ficava em falta. Desenhou-lhe os olhos cor de amêndoa, os cabelos longos e revoltos como uma queda de água que alimenta um charco seco. As nádegas firmes, como a ele lhe pareceram, quando esta descia do dorso daquele cavalo alado, branco. Os pés delicados que calcavam subtilmente a fina erva daquela clareira perdida no meio da floresta. Agora, sem paisagem de fundo ou adorno artificial, poderia contemplá-la sem que ela lhe fugisse por entre os pinheiros largos, dando lugar ao sobressalto e ao regresso a este mundo. Esbugalhou os olhos perante a tela. A tinta escorria, como se da tela não gostasse. Sulcava os seus próprios trilhos na textura do tecido, e largava-se, bem do cimo do cavalete, no vazio. Formava no chão de pedra uma poça multicolor, atípica e disforme, mas com uma palpitação própria que inflava o castanho, o negro e o branco da tinta caída. À sua frente erguia-se agora aquela mulher, com as formas moldando-se à perfeição. Lentamente, duma posição fetal para uma postura hirta e bela. Levantou o rosto deixando a descoberto aqueles olhos cor de amêndoa, aquela tez branca e angelical. E sorriu. Sorriu para ele como se de nada fosse. Do cimo daquela deidade que era o seu corpo e a sua figura. "Cheguei. Sei que me esperavas." - disse docemente. - "Pintaste-me, para que nos teus sonhos eu deixasse de fugir. Por isso estou aqui. Porque me quiseste aqui. Os anjos aparecem a quem os ama, tornam-se reais perante o amor de alguém. Procuraste-me e sempre escapei, sem estar certa do teu amor. Mas agora que me pintaste, do jeito que quiseste, deste-me a forma e a força da vida." - E basta que se ame, para dar forma a alguém ? - questionou ele, com o coração a sufocar-lhe a garganta. - Não. - respondeu com um sorriso. - Há que sonhar, sentir que se quer alguém de uma forma tão intensa que até o mundo tremerá perante essa vontade. Há que se cuidar, dar contorno e atenção ao ínfimo pormenor do corpo e da alma de quem se ama. Tu fizeste-o. - Sinto-me feliz. Encontrei-te, finalmente...
2004/09/20
dedicado à minha mulher Raquel.
segunda-feira, agosto 20, 2007
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1 comentário:
se me encontraste, tal como eu a ti, entao segura bem a minha mao pq nao te quero perder, NUNCA.
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