No outro dia dei por mim a pensar em coisas da existência humana. Já não me acontece com tanta frequência como há uns anos atrás, talvez porque estou resignado perante o facto de já ter alguma idade e de já não esperar grandes surpresas. As coisas acontecem, invariavelmente, da mesma forma. Já não pensamos e repensamos sobre factos etéreos, sobre atitudes irreflectidas e reflexos condicionados. As coisas acontecem e pronto. Been there, seen that. Porém, há talvez coisas que ainda me causam alguma surpresa e sobre as quais me ponho a pensar. As das relacções entre as pessoas. Relacções amorosas, entenda-se. Namoramos, chateamo-nos, acabamos o namoro, reatamos, apaixonamo-nos, chateamo-nos mais uma vez e, agora já junto de outra pessoa, reiniciamos o ciclo. Andamos nisto anos e anos. Um dia não nos chateamos, casamos, atinamos, afinamos, sentamo-nos no sofá a ver a novela e depois? Claro, chateamo-nos. Mas agora estamos numa situação diferente: a casa, o carro, as jóias, os miúdos. E então a solução passa por deixarmos de nos chatear. Parece-vos bem? A mim não. Sempre fui um chato neste tipo de discussões, insurgindo-me vivamente com as atitudes consevadoras, consternadas e inertes daqueles que decidiram deixar de viver assim que se juntaram a alguém. Lá surgem aqueles comentário possidónios: "Eh pá, um gajo agora tem que andar calminho que a patroa não dá folga."; "Não vai dar para ir jantar com a malta, a miúda tá meio chateada de eu já ter ido beber um copo a semana passada.". Pior: "A coisa não anda bem, já não pinamos há mais de um mês, mas estas cenas acontecem em todos os casamentos, um gajo tem que ter paciência...são fases...". Pois bem, deixem-se estar. Estou perfeitamente convicto do que digo e muito dificilmente me farão pensar o contrário: o desafio passa por conseguir ver uma qualquer relacção sentimental de namoro ou casamento(exclua-se aqui a amizade, que é regida por princípios diferentes e específicos), como um negócio, um contrato. Ambas as partes conhecem-se, sentem que a fusão dos seus interesses pode ser benéfica para cada uma das partes e que ganharão muito com isso, verificam rácios de endividamento, autonomia, return on investment e cash flow, sentam-se a uma mesa a assinar um papel para que não hajam quaisquer dúvidas sobre aquilo que a palavra e a honra, per si, não garantiam, e depois cada uma das partes trabalha para a outra. Os dividendos são distribuídos e as partes consolidam a sustentabilidade do negócio. O stress (estresse, em português) chega quando há problemas de tesouraria ou sintomas de resistência à mudança. Se não existe disponibilidade de caixa para fazer face a investimentos imprevistos, ou não se compra e surgem frustrações associadas à actividade, ou compra-se e começam a surgir dívidas que certamente alguém virá cobrar. Se as alterações aos processos habituais de funcionamento ou aos procedimentos standards instituídos durante longos anos são radicais, então surge a retracção face àquilo que é desconhecido ou que, pensa-se, será difícil de executar. A resistência à mudança de hábitos põe a nú uma de duas coisas ou mesmo ambas: a falta de capacidade para assimilar novos desafios ou a falta de vontade para os enfrentar. E neste caso, só existem dois caminhos: ou se decide que é mesmo necessário ficar com o "emprego", se cria capacidade de encaixe face à mudança e se aprende aquilo que não se sabe, ou então salta-se fora. Qualquer que seja o caminho a desbravar, é bom que se assuma que são ambos muito espinhosos. O primeiro obriga a andar por aí frustrado, sem eira nem beira, a não ir beber copos com os amigos ainda solteiros ou aqueles casados com ordem de soltura, a não pinar quando se tem vontade ou a ter que pinar quando não se tem. A levar com os filmes da família, dos jantarinhos de casais, do enxoval da criança, da telenovela no sofá. Tem que se trabalhar, e pronto. O segundo, o "salta-se fora", tem repercussões que, como o próprio nome indica, implicam um salto para o lado de lá, no escuro, no vazio. E os saltos, independentemente da sua amplitude, são sempre saltos. Implicam que tem que se ter, nem que seja por breves segundos, os pés longe do chão, daquilo que é firme. Implicam coragem. A coragem que nem todos têm para andar, durante uns tempos, meio perdido e alheado daquilo que era certo, palpável e seguro, de ter que se preocupar em encontrar um novo rumo, um novo "emprego", uma nova vida. É provável que estejam a questionar-se sobre qual dos caminhos escolhi. Pois bem, ainda não escolhi nenhum! Não me conformo com uma má relacção pois não a tenho. Retiro prazer da telenovela no sofá. Pino segundo mútuo acordo. O salto não me dá medo, nunca deu, mas não preciso de saltar por agora. Não sou resistente à mudança e, qual camaleão, adapto-me à cor de fundo. Gosto de aprender sempre mais, pois ainda tenho vontade. Moldo-me ao que de mim esperam e que eu próprio espero de mim. Para sempre? Logo se vê.
2004/09/17
dedicado ao meu amigo Ricardo.
segunda-feira, agosto 20, 2007
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