Não sei bem o que sinto, mas não é bom. Algo em mim flui em
sentido contrário do habitual. Absorvo amor de qualquer humano que me não
despreze ou ostracize. Abro-me porque acredito que me farei mais rico e
apaixonado por uma vida que me tem sido madrasta. Mas agora não. Sinto algo que
flui para longe, que me vai deixando, pouco a pouco. Perceberei-o pelo nome,
concerteza.
Sempre acreditei que a humanidade é uma dádiva que não
devemos cobrar. A reciprocidade implica transação, o pagamento em sentido
inverso ao que damos ou recebemos. A humanidade não. Contribuiríamos,
descomprometidamente, para um Mundo melhor se não esperássemos que o Mundo nos
devolvesse em fortuna ou vitalidade aquilo que pudemos dar aos outros e que os
tenha mudado, de alguma forma.
Porque penso então que, no amor, tudo é diferente? Porque é
que em mim se justificará a reciprocidade? De sentimento, de expectativa, de
presença? Não o sei, mas sinto-o. Sinto que amo mais do que sou amado. Sinto
que vou mais do que sou visitado. Sinto que me incomodo mais com a dor alheia,
que a minha dor é entendida ou notada. Sinto que ouço e penso, quando alguém
apenas me ouve. Sinto que dou e pouco recebeo. Sinto que verto lágrimas de
preocupação, que nos outros secam pela sua escassez. Sinto que me dou, quando
ninguém mo merece.
Talvez o fluxo que me abandona seja a esperança de que o
Mundo possa, algum dia ser justo, aos olhos da minha justiça. Talvez seja o
amor que quero dar e que sempre me questiona, quando o ofereço. Talvez seja a
minha última existência que, de tão insípida e inócua se mostrou ser, por ter
ganho na batalha desleal com tudo o que eu era, me liberta agora, jocosa e
triunfante, em busca de outro ser vivo, enérgico e estimulante.
Que a libertação me conduza a um melhor homem que posso ser
e que um dia fui.