segunda-feira, outubro 22, 2007

Escrever

Escrever é um acto compulsivo. Diria mesmo obsessivo-compulsivo. Só o escritor, aquele sonhador de palavras que as arruma em estrofes de um poema ou as estica em linhas infindáveis de prosa, consegue perceber os sintomas e desígneos sofríveis desta agonia. É aproveitar todo o tempo sem que haja tempo para tal. A vida não nos dá tanto tempo quento o tempo que quereríamos usar na nossa obsessão. E então? Como fazemos? Roubamos! Roubamos tempo a tudo e a todos, quer os amemos ou não. Roubamos tempo ao nosso trabalho, adiando indefenidamente aquela tarefa exigente e árdua ou mesmo simples e insípida. Chutamo-la para a frente, nos dias, como se num calendário imortal nos movessemos. Um dia - sabêmo-lo - resolveremos "a coisa". Roubamos tempo àquilo que outrora nos distraía a mente e nos bombardeava com cor através daquela caixa negra de radiações de bregeirice. Enquanto a motivação da outra mente, a que escreve, não nos impelia a matar a inércia e conseguia sentar-nos à secretária, de teclado de computador em punho. A escrever, claro! Roubamos tempo até aos que amamos, pois deles julgamos certo o perdão pela atenção não dedicada, pelas brincadeiras infantis no chão do quarto, pelo olhar enternecido mais uma vez adiado.
Mesmo que a escrever não estejamos. Mesmo que os nossos dedos não se agitem de forma ridiculamente rápida, arrítmica, disforme e insonora no teclado, quais agulhas de impressoras antigas e gastas. Verdade...é que escrever é um acto contínuo e compulsivo, não se esgota na intenção, no movimento e na materialização do gesto de escrever. É também a ideia que nos assola a qualquer momento e jamais nos larga antes que encontre a sua razão. É a chuva que lá fora molha a rua e que nos relaxa naquele ssshhh que só a nossa mente ouve. É o vento que jamais sucumbe no seu assobio pela fresta de uma janela que ninguém fecha. É a música que fica no ouvido e que trauteamos inoportunamente. É a dor de cabeça forte e a "moínha", que nos impede de adormecer numa insónia de inconformismo ou inspiração.
É por isso que há quem diga que o escritor vive só, por maior que seja a sua família. É consigo mesmo que vive, fala, sorri, chora e seia ao serão. É consigo que parte e reparte as decisões mundanas e multiplica e divide as ilusões da mente. É egoísta porque precisa sê-lo sempre, para que possa depois partilhar as palavras que invadirão os corpos de quem o lê. Fecha-se nos vários naipes, no lúgubre silêncio do sotão, para que se iluminem depois os caminhos de outros.
E vive só porque só sabe amar sozinho.

22/10/07

quarta-feira, outubro 17, 2007

Decoro-te

Só decoro o que amo. Decoro a cor da tua pele quando nela contorço a minha própria tez dourada durante o sexo. Decoro o contorno da tua boca, perdido e disforme, no ar rarefeito dos nossos beijos. Decoro o sabor do teu sexo quando nele me afundo em estocadas letais que me levam à agonia. Decoro o som do vai-e-vem do meu sexo em ti, e na pressão que mo asfixia aquando da sua metade para dentro. Decoro o incêncio que nos arde lá bem no teu fundo e aquela parede intransponível que evita que o meu sexo te rasgue em duas de ti. Decoro o cheiro no quarto, antes, durante e depois. Decoro o sono que me lembra o acender dum cigarro, e fumo-o sem inspirar, no sonho que, invariavelmente, há-de vir. Decoro a minha vida nesta fase vitalícia em que amar-te deixou de ser um caso ou um acaso. Decoro que te amo. E decoro-te.

17/10/07