sexta-feira, novembro 26, 2010

Sede

Pousei o copo ao meu lado e fiz dele companhia. Mais uma vez, e como tantas outras vezes, admiti que tivesse sido este o único amigo que tive durante muitos anos. Olhei-o de soslaio e amaldiçoei este amor doentio que grassou durante anos na minha existência ausente, ambulante e procrastinada. Um amor que me tolhera a vida por mais tempo do que aquele que preferia admitir, a vida que quis ter e que há muito havia adiado a troco de quase nada. Ou de quase tudo, porque é de abundância que são feitos os amigos. E era este o meu amigo, o único amigo que tive durante muitos anos.

Levantei-me e estiquei as pernas entorpecidas pelo frio ou pelas horas. Fiz frente ao rio e cheirei-o sem autorização. Olhei-o de novo e ainda ali estava. Meio vazio e nunca meio cheio, porque só existia a minha razão deprimida e pessimista. A emoção morrera sem merecer sequer a extrema-unção. Do outro lado da margem pareceu-me ver gente, mas eram apenas as sombras que lambiam a paisagem à passagem de uma nuvem teimosa. Inspirei de novo como que disparando a ignição do meu caminhar. Como se soubesse para onde ia quando saísse dali. Não sabia. Mas andei. Chorei a cada passo, em penitência, incrivelmente feliz pela brisa vil que me rasgava a cara, como unhas afiadas de gelo. Acreditei que daria os passos que quisesse e que o deixaria ali, entregue à sua fortuna de ser derrubado pelo vento ou recolhido por um funcionário municipal. Os pés doiam-me como se pisassem a minha alma penada. Uns miúdos brincavam com uma bola pontapeando-a contra o muro mal caiado. O som abafava os meus passos por entre as linhas disformes da calçada. Sem me lembrar, olhei para trás e vi-o de novo. Maldito vento que não sopra forte. Maldito sejas, filho da puta.

Levei as mãos à cara de repente, como que tentando apanhar as lágrimas que os meus olhos entornavam antes que se perdessem por entre as pedras e fossem esquecidas como tantas outras. Os movimentos pesavam-me o corpo, ou talvez fosse o contrário. Deixei-me estar por um segundo, resistindo à tontura que ameaçava derrubar-me. Abri os olhos por instinto, e equilibrei-me. Cerrei os dentes, fechei o punho e esmurrei-me por três vezes, com força, no lado direito. Senti o regresso da tontura e o afluxo de sangue ao queixo. Trinquei algo que me pareceu ume pequena pedra. Engoli-a sem querer saber, sentindo-a mentalmente a passar na garganta. Ofeguei rapidamente, de dentes e lábios cerrados, punhos tensos. Saltou-me o ranho pelas narinas, ou talvez fosse apenas a água que os olhos entornavam. Fixei o chão e segui as linhas disformes, desta vez para trás, em sentido contrário. Não ouvia o som da bola. Um zumbido no ouvido não mo deixava. Doía-me a cara. O meu olho direito parecia-me mais fechado.

Sentei-me ao seu lado e todo o medo se desvaneceu como que por magia, sugado pela calma que me invadia como uma mão de mãe que nos afaga o cabelo antes de dormir. A firmeza do banco. A amarra no cais. As algemas que unem em matrimónio duas mãos que se espelham e anuem perante as suas diferenças, até que a chave as separe. O meu dedo toco-lhe o rebordo e surpreendi-me pela delicadeza do gesto. Já não tremia, talvez por isso. O plástico fresco. A humidade gotejante. O ouro líquido, inerte, até meio. Abracei-o com a minha mão e levei-o à boca. Sôfrego, bebi-o de um trago. Um gole que libertou o sangue que as minhas veias haviam barrado. Inspirei e senti a minha vida de novo. Sabendo, muito bem, que nada mais era que a epifania da minha morte.

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