quarta-feira, setembro 26, 2007

Velho avô

Recostou-se no velho sofá forrado em padrões florais, já bem coçado e côncavo pela preferência de todos os membros mais novos da família. Pousou ambos os cotovelos nos braços de madeira, mantendo o copo de vinho a pouco mais de um palmo da cara e contemplando o brilho blaugrana e quente do néctar contra as brazas incandescentes da lareira. Podia sentir o aroma frutado daquele cabernet sauvignon e esta ideia adormeceu-o numa contemplação circular a toda a biblioteca. Olhou-o pormenorizadamente e sorriu, prostrado ali na sua cadeira favorita em frente à lareira, a cabeça pendendo sobre o ombro e trauteando um ligeiro ressonar. As rugas grossas pendiam-lhe agora em sucalcos, numa pele lisa e branca, imaculadamente barbeada todos os dias pela manhã. O cabelo forte, escorria-lhe para trás num jeito ganho pelos anos, mas rareava à frente, onde duas entradas pronunciadas faziam lembrar a forma aguda de um boomerangue. Este velho à sua frente contava agora 80 primaveras de experiências únicas que poucos ousariam sequer imaginar. Guardava toda uma vida na sua memória fresca como o orvalho da manhã: episódios de guerra homéricos em cenários reais do falecido império austro-húngaro; romances furtuitos e furtados a damas de corte inglesa nos anos do pós-guerra; montanhas ibéricas desbravadas com contrabando de cigarros e aguardente às costas num registo de saltimbanco por feiras de aldeolas decrépitas de fronteira. Era daquelas personagens que dava gosto ouvir nos seus devaneios de "dantes é que era bom!". Acreditava piamente que a democracia e a "era da televisão" como lhe chamava, eram os principais culpados da "imundice do esgoto da Europa e dos valores familiares dos Europeus". Quem o ouvisse vociferando alto e em bom som, crispado, gesticulando freneticamente com o corpo inclinado para a frente sobre os seus interlocutores, não imaginaria aquele íntimo crivado de sementes de amor, quais nozes de manteiga em pão quente. Era aquele homem que todos gostaríam de ter como avô: a figura paternal que não exigia obediência; que nos daria, à socapa, uma nota de 50 escudos para cigarros e jogos de bilhar no clube lá do bairro; que nos ofereceria gratuitamente e sem qualquer preparação aquele conselho de vida que quaisquer pais tentaram por inúmeras vezes mas jamais conseguiram. A sua paixão era extensível e atingia o seu expoente máximo na figura da sua avó, aquela mulher grisalha que bordava melhor que ninguém, pia e fervorosa crente cristã, a quem vivalma seria incapaz de reconhecer qualquer defeito ou restício de malvadez. Em termos de bondade altruísta por outras almas que não as apelidadas Baptista, recordava a forma como anos antes, durante os seus passeios matinais que antecederam aquele atropelamento quase fatal, se dirigia às crianças de rua que mendigavam, descalças e ranhosas, junto ao público e feirantes do Rossio, e as convidava a acompanhá-lo até à pastelaria Suíça para uma sandes de fiambre e um garoto clarinho. Mais tarde, quando o confrontavam com isso (após um qualquer vizinho relatar tê-lo visto em tamanha atitude digna de nobreza), negava tudo e virava-lhes costas, sisudo e rogando sons imperceptíveis. Poucas outras coisas poderão descrever um ser humano tão grande, e nenhuma autópsia distinguiria o peso deste coração.
Perguntara-lhe ontem, numa daquelas conversas que o mantinham vivo e lhe relembravam o orgulho de ser seu neto, o que mais quereria ainda fazer na vida, esclarecidas que estariam praticamente todas as suas dúvidas sobre a existência humana. Como esperava, o avô disse-lhe apenas que pouco havia já a ver. Os seus prazeres diários resumiam-se hoje a pouco mais do que celebrar os últimos sopros de vida junto da sua família, às palavras dos seus romances épicos já muito antigos, ao cheiro impregnado na pele das suas lombadas e ao escovar do cabelo da sua avó, à noite, antes de ambos se deitarem. Sentiu-se desfalecer na pureza deste sentimento e na simplicidade da sua descrição. Ripostou com aquelas perguntas que o velho gostava de responder: "Mas avô, com que idade acha poder dizer ter tido a vida em dose suficiente?". Ouviu, suave e calmamente, a sua voz funilada dizer-lhe: "Assim que um Homem nasce, já tem idade suficiente para morrer."

26/09/07

1 comentário:

Anónimo disse...

Maravilhoso!!!