Ele era o homem que sabia cantar
Um trovador das mais belas histórias de amor
Às mulheres que amava as dedicava
Tocava-as baixinho e deixava-se chorar
Ela era a mulher que sabia ouvir
O seu mundo era feito de nada
Da dor dos outros estava farta confessava
Sonhou o seu futuro e teve de partir
Ele sentou-se ao piano e rogou a Deus mais uma vez
Porque mal o condenava nesta sua sina
Mais uma noite entre bêbados e putas
Ter nascido só e só poder morrer é pecado talvez
Ela entrou em busca de abrigo e sopa quente
O frio e a chuva lá fora fustigaram-lhe a razão
Largou a mala e foi como se ao Inferno descesse
Olhos cansados ao que lhe destinava o presente
Encostou-se ao balcão, pediu um quarto e água
Tinha moedas que chegassem, quis fazer valer
Riram-se na sua cara e troçaram do seu traje
Seria puta se o valesse e sem vintém ou mágoa
Chorou, ajoelhou-se e quis regressar
O mundo dos homens era cruel bem lho disseram
Ferida de orgulho, ninguém lhe daria conforto
E nenhum homem iria mais lhe querer pegar
Sentiu-o acima do seu ombro, quente e forte
Olhou-o, prostrada, e acedeu a dar-lhe a mão
Ergueu-a como se de um trapo se tratasse
Não a deixaria por nada, quanto mais à sua sorte
Envolveu-a com o seu casaco e abraçou-a
Encostou-a a si amparando-lhe a fracas forças
Os olhos dela brilharam tristes pela sua piedade
E nesse momento único, ele amou-a
Gritaram-lhe insultos por ser pago para tocar
Olhou-os com ódio e desdém que a todos calou
Abriu a porta da espelunca e a rua esperava escura
Não mais ali, sabia-o, ia voltar
Percorreram as vielas imundas, de cheiro a mijo e lama
Só as luzes da cidade davam vida às sombras de ambos
Ela tremeu e quis chorar e chorou
Ele prometeu-lhe tudo ir correr bem, o seu quarto, a sua cama
Como um pai que ama o seu filho, deitou-a e despiu-a
Limpou-lhe a sujidade que a viagem lhe dera ao rosto
Num pano quente moldou a mão que a acalmou
Em posição fetal a deixou e pelo sono profundo seguiu-a
Deitou-se a seu lado e agradeceu a Deus a ironia
Pelo que rogara pediu perdão e jurou eterna fé
Só dele poderia vir tamanha bênção em forma de mulher
Amava-a, por ela tocaria baixinho e choraria
Dela nada sabia e soube que sempre a esperara
Por tudo o que viveu, nas noites de solidão e quase morte
Um anjo que cruzara agora o seu caminho ermo
Deu-se a salvar em vida e a sua vida salvara.
domingo, maio 31, 2009
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