quarta-feira, junho 03, 2009

Mea Culpa

Reinventei uma história antiga com vestidos a rigor
Onde não faltava a princesa chorando por amor
O príncipe a cavalo, o vilão de capa e espada, o drama
Fiz-me ouvinte e deitei-me, atento, na minha cama
Saiu-me tudo de uma vez sem parar para pensar
Parecia que a tinha ouvido mil vezes sem as contar
Na acção pus todos os adjectivos que encontrei
Até no detalhe dos verdes campos me demorei
A meio caminho percebi que a história não era minha
Dei-me ao plágio nas palavras e em tudo o que tinha
Pela primeira vez na minha vida falei de alguém que não de mim
Por inveja não quis que houvesse felicidade no seu fim
Apimentei a trama com requintes de malvadez
Sem dar beleza aos beijos e ao destino que Deus fez
Matei os dois amantes no final com tragédia e dor
Fiz do vilão culpado e herói na sabedoria do seu rancor
E como se o não bastasse, tinha de haver pecado no enredo
Uma criança órfã e sem tecto mas portadora de um segredo
Que era a face da miséria e a quem Deus não dera voz
Mas que carregava na sua sina uma verdade atroz
Criada com educação e roupa lavada nos aposentos do castelo
Depois de um príncipe a cavalo lhe ter prometido também sê-lo
Eis que herda a coroa e para o povo passa a ser salvação
Até ao dia em que a peste o toma e lhe tira o juízo e a razão
No delírio febril escrevinha no papel palavras que nunca pronunciou
Chama de irmã à princesa e de irmão ao homem que a esta a vida tirou
Abre bem os olhos num esgar de dor, moribundo, vai render-se à morte aliviado
Entre um suspiro de agonia, da sua mão, da sua pena, sai uma última palavra…
“Culpado”.

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