quarta-feira, maio 13, 2009

"She´s a good girl..."

Saiu decidido, como se mais nada importasse. Atrás de si, a porta soou rude ao bater e quase que conseguiu imaginar os olhos esbugalhados da gentalha que ficou para trás quando ele abandonou aquele antro de laxismo. Pobres inúteis, deixados à sua mercê e dos devaneios da sua inércia. O sol mantinha-se escondido naquele fim de tarde sombrio, como que reflectindo a sua vergonha daquele Mundo e espreitando pontualmente por entre nuvens sem formas definidas. Enfrentou-o com um olhar cerrado e fechou as pálpebras, vendo-o apenas na escuridão. Precisava sair dali. Precisava agarrar-se a ideias boas, positivas, que lhe permitissem manter-se de cabeça erguida, armado com as suas convicções e fiel ao desafio que aceitou. Esforçou-se por sorrir, mas recebeu em troca a sua própria imagem agarrado àquela caneta, a escrever a verdade, como sempre o fez. Mas não devia ter feito. Pelo menos desta vez. Sabia-o com a certeza da impossibilidade do seu sonho se materializar em realidade; com a resposta que se materializou naquele papel após a sua, como sempre soube que aconteceria, mas que mais uma vez o desapontou; com o aperto súbito que sentiu no peito e que há muito não sentia, que catapultaram um par de lágrimas dos seus olhos que imediatamente secou com as costas da mão. A mesma mão que, horas atrás, havia sentido o toque quente daqueles lábios. "São várias coisas ao mesmo tempo..." pensou em voz alta enquanto rumava à sua vida presente. Não havia forma de priorizar o pensamento para a resolução de cada um dos problemas. Apenas um o atormentava agora, deixando que o outro se acomodasse à espera, como que dando cenário a toda a peça naquele palco de madeira velha e gretada pelo tempo. Enquanto aquele esperava - porque nunca desapareceria sem que lhe exigisse a devida atenção e tempo -, iria viver o outro, concedendo-lhe, mesmo que o não quisesse, as próximas horas, dias ou mesmo anos. E as suas palavras. As palavras que, sabia-o, iria escrever sob a forma de uma melodia mascarada ou de uma prosa angustiosa. "Porque me escolhem a mim os sentimentos intensos que ombreiam e medem forças com a minha luxúria?", questionou-se, sem grande esperança de encontrar dentro de si a voz da racionalidade que sempre apregoou junto dos outros. O refrão daquela música que ouvira vezes demais naquele dia, quebrou-lhe o raciocínio. A voz suja cantava uma experiência amorosa de queda livre que entendia, agora, na perfeição. Era assim que se sentia, à deriva na imensidão de um céu incolor, com o vento a fustigar-lhe a face deformada. Em plena queda livre, vertiginosa e rápida, rumo ao embate violento no solo. O verso daquela música tornava agora audível palavras ténues que relatavam os corações despedaçados de raparigas, sofrendo no silêncio das suas casas enquanto os responsáveis pelo seu sofrimento ostentavam, nas ruas, do alto da sua postura recta, uma total indiferença pelos sintomas do amor. Sentiu-se como aquelas raparigas mas desejou ser um daqueles rapazes. Tremeram-lhe as pálpebras mas segurou as lágrimas, sem pestanejar, até que estas se dissipassem numa humidade menos ameaçadora. De uma forma quase que masoquista, quis ouvir tudo outra vez. Esta seria mais uma vez e uma vez a mais, mas não a última. Quis que o aperto se intensificasse até que não coubesse mais dentro de si. Que explodisse para fora de si em mil fragmentos e o exorcisasse de uma vez por todas, ou que implodisse noutros tantos que escoariam para fora de si em algum sangue que tivesse que derramar. Uma dor menor para um mal maior. E ouviu mais vezes, sentindo que, tal como esperava, crescia dentro de si uma dor intensa e quente, aguda na forma como quase o esventrava. Sentia que o seu fim se aproximava e decidiu despedir-se dessa dor, antes que ela própria percebesse que estava perto de extinguir-se num último sopro de vida. Sorriu com sarcasmo e falsidade e quase se sentiu um padre em pleno acto da extrema-unção de um enfermo. A olhar a morte nos olhos, a conceder-lhe a vitória sobre a vida, naquele jogo injusto de forças desiquilibradas. Mas não aconteceu. Olhou para baixo e do seu peito nada saiu que se assemelhasse aos mil fragmentos de pó. E no seu peito nada implodiu pois não sentiu o seu sangue mais espesso com qualquer matéria que precisasse coar ou escoar. Apenas sentiu um inesperado esgar de serenidade e acalmia. Uma sensação de bem estar e bonança após o chorrilho de farpas. Precisou de sorrir e, de dentro de si, apenas se exalaram pensamentos bons, de celebração. Aquela espécie de imunidade surpreendia-o numa fase da sua vida em que achava que já nada o poderia fazer. Um sentimento que, em tenra idade da adolescência, era banal e constante, pelos motivos exactamente contrários. O sofrimento era, então, um precalço numa viagem longa da qual se conhecia apenas o início. Uma pedra nos carris que a roda esmagava impavidamente sem que se sentisse sequer o mínimo sobressalto. Mas agora, neste momento, do cimo da sua maturidade que a idade registava teimosamente, era surpreendentemente único e original. O sentimento era, nada mais nada menos que uma constatação de um privilégio. Um privilégio que provava a sua vitalidade emocional para voltar a sentir tudo o que sempre ambicionara sentir, uma vez mais. A paixão. Aquele sopro invisível e fresco e de força colossal que nos impele a dizer o que queremos, a quem queremos, as vezes que queremos e pelo tempo que queremos. Aquela chama inextinguível alimentada pela cadência acelerada da nossa respiração, que nos orienta por caminhos sombrios dentro de nós, iluminando-os para os não mais remeter ao silêncio do negrume. Era isso. Só poderia ser isso. O privilégio em vez da dor. A lágrima fresca em vez da existência miserável de não ser correspondido. A luz da verdade humana em vez do negativismo da não fortuna. Era isso. Sentira-o horas atrás no toque suave da pele e na dança dos dedos que se entrelaçavam em movimentos de amor, como corpos o fariam se dessem conta ao privilégio. Tanto, era tanto, ("Quero tanto...", também ouviu naquele dia) que o tão pouco da recusa do beijo nada fez para merecer importância. A importância que lhe deu mas que não dará mais. Porque isso é pouco mais que nada perante o privilégio de estar vivo, de sentir. De sentir-se forte para enfrentar tudo o que resta da viagem, sem precalços ou pedras nos carris. E sentiu-se forte, porque forte se torna quem falha e volta a tentar. Porque tinha os seus braços para desviar quaisquer precalços que o afrontassem e as suas pernas para pontapear quaisquer pedras dos carris. E a sua cabeça para o ajudar a pensar e a levantar-se após a queda.

E ouviu tudo outra vez. Do sofrimento das raparigas à indiferença dos rapazes. Da queda livre ao deixar este Mundo por um momento. Um Mundo do qual conhecia o caminho de volta e um momento que, sabia-o, poderia repetir outra vez.

Sem comentários: