Ali estava ela. Lá de cima, bem do alto daquele mastro onde a fama e a justiça a colocaram, contemplava-me na minha pequenez. Olhou-me superiormente mas sem qualquer tipo de presunção, como se há muito estivessem definidos os nossos papéis e existências diferentes na passagem por esta vida e lhe coubesse a ela o papel mais nobre e altivo. A mim, cabia-me apenas a contemplação das suas cores, forma e languidez de movimentos, num aceno suave e doce ao vento que a refrescava.
Sentei-me e ousei falar-lhe. Em surdina, como se nos olhássemos nos olhos e percebêssemos as mensagens do nosso íntimo, perguntei-lhe como se sentia. Respondeu-me que estava feliz na sua existência. Que era feliz no papel que lhe coube na sua vida. Que o Criador, na sua distribuição aleatória de dons, lhe havia destinado a beleza e a imponência de um nome. E que lhe dera como incumbência a disseminação de uma mensagem aos homens. Uma mensagem celebrante ou sofrida, de cores suaves ou rudes, mas sempre numa interpretação genuinamente valiosa, de exigível reconhecimento.
Perguntei-lhe se gostava do que fazia. Respondeu-me ser feliz. Que apesar de existir numa vivência apaixonada pelo seu destino, partilhava ainda com o mundo dos homens a paixão pelas palavras. Pelas palavras que lia mas principalmente pelas que dizia, nesse registo silencioso de transmissora dos recados do coração. Porque o seu coração é grande e a sua beleza apenas lhe faz jus.
Perguntou-me o que fazia eu na minha existência. Respondi-lhe que era apenas, e tal como ela, um homem com um destino. Um destino que me presenteava com doses adequadas e satisfatórias de felicidade e realização, mas que nem por isso sentia como meu dom. Porque se o dom é a assumpção pessoal da felicidade extrema naquilo que fazemos mais do que a imagem na qual nos reconhecem, então o meu dom também são as palavras. As palavras que leio e que brotam dos recônditos lugares nos corações dos outros, mas principalmente das que fluem de mim em cada instante em que respiro. Das que germinam em cada um dos meus poros, músculos e sangue e que exorcizo em forma de felicidade, consternação ou mesmo dor. E que partilho com o mundo, não numa procura de reconhecimento, mas numa procura de mim mesmo no mundo.
Perguntou-me, então, se era feliz. Respondi-lhe que busco a felicidade em cada momento, nessas mesmas palavras que escrevo e em tudo o que me rodeia. Aliás, frisei, este nosso diálogo era um momento de felicidade inquestionável que, sabia-o, iria querer registar numa folha azul, do papel mais bonito que conseguisse encontrar.
Perguntei-lhe se me quereria ler, no meu relato das minhas viagens pelo mundo e por mim próprio. Respondeu-me que teria todo o gosto em conhecer-me dessa forma. Fá-lo-ia assim que o vento lhe desse o merecido descanso, no final do dia, na mudança da maré. Que me leria na minha genuína e mordaz existência pautada pela graça do meu discurso, que a fazia sorrir. Prometi-lhe que a leria de igual forma e desculpei-me por não lhe reconhecer ainda tal dom, de entre os outros que reconhecia e já havia elogiado. Sorriu e escusou-me nas minhas desculpas. Acenou-me breve e levemente como se não me quisesse ignorar. E despediu-se naquela brisa que abanava os barcos no molhe e que trazia já do horizonte umas nuvens escuras de tempestade.
Nunca esquecerei aquela bandeira, mesmo que o vento deixe de soprar nas minhas palavras.
terça-feira, março 31, 2009
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