domingo, março 01, 2009

Perfume

Escrevi um dia o "Só sei que nada sei mas tudo cheiro". Nesses dias, debatia-me com a procura de uma resolução para uma história que mal percebia. Alguém que ousava invadir a minha fidelidade perante a minha relação conjugal, usava de todos os seus atributos para me persuadir a tornar-me frágil e a deitar por terra os meus compromissos emocionais. Uma dessas armas de um arsenal bélico estrategicamente pensado, era o seu perfume. Um perfume que conheço de nome - o que, neste caso, é irrelevante - e cujo odor jamais esquecerei. Um odor que me assalta de novo e me faz tremer sempre que recordo vaga e parcialmente aquela situação. E tudo isto porque sou sensível a cheiros. Aos aromas que inundam a atmosfera onde cirandamos. Aos bons. Não sou tão sensível aos maus cheiros, apesar de estes me afectarem significativamente mais, mas pelas razões exactamente opostas. E se encontramos nas flores os odores naturais que lhes enfatizam as cores e enobrecem a existência, não menos impactantes (para mim) são os odores laboratorialmente engendrados, testados e que depois invadem o nosso espaço ostentados num pescoço ou pulso de mulher. É destes perfumes que falo e pelos quais me sinto violentamente afectado sempre que inspiro brevemente as moléculas que se soltam à passagem dos corpos de quem os usa. Note-se que não me refiro a quaisquer pessoas que usem um bom perfume. Apenas a algumas, claro está, e do sexo feminino. A algumas mulheres que aliam a sua beleza natural a um cheiro perfeitamente adaptado à sua imagem e carisma. Cheiros adocicados em mulheres meigas e altruístas. Cheiros florais e silvestres em mulheres independentes. Cheiros de especiarias e madeira em mulheres de personalidade forte e inequívoca. Cheiros mesclados em mulheres indecisas e de baixa estima. São estes cheiros que exercem sobre mim um poder maquiavélico que me desfoca na lucidez exigida para o desenvolvimento de saudáveis relações humanas. Pessoais ou profissionais, quaisquer que sejam. São estes cheiros que adormecem o tom da minha voz e que a enbargam em vocábulos desafinados. São estes cheiros que me inquietam a postura e me fazem mexer na cadeira do meu gabinete. São estes cheiros que me toldam e contagiam a mente em fantasias desenfreadas e cujo reflexo condicionado tem repercursões ao nível do meu sexo. São estes cheiros que me levam a arriscar uma postura ofensiva e de quase assédio quando me lanço sobre o teu pescoço. São estes cheiros que acabarão por me guiar em decisões infundadas e pouco esclarecedoras. E são estes cheiros que, por tudo isso, inalarei até ser feliz.

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