Tempos houve em que acreditei na sabedoria popular que defende que os olhos são o espelho da alma. Se bem que mantenha a convicção da veracidade parcial desta afirmação, vejo-a hoje como incompleta. No alcance e na forma. Sei por convicção e experiência que os olhos não são o espelho da alma. São a própria alma. É com eles que registamos os momentos mais importantes das nossas vidas, transformando-os automaticamente em experiências que talham a nossa existência. Como se estes fossem uma máquina fotográfica que não temos à-mão quando necessária e que nos permitem registar para a posteridade uma panóplia de detalhes, dos mais sórdidos aos mais envolventes e delicados. Como se estes fossem um polígrafo que nos chama dolosamente à verdade e que regista todos os momentos na sua integridade natural, verdadeira, sem que nos permita que esse registo seja difuso ou passível de ser interpretado como gostaríamos que este fosse, muitas das vezes de forma tendencialmente enganadora, que nos proteja de uma realidade que teimamos em ignorar. É por isso que sofremos com a visão da dor, no vislumbre das nossas próprias vidas ou nas vidas e histórias desfavorecidas de outros. É por isso que, da mesma forma e do epicentro da experiência oposta de alegria extrema, vertemos lágrimas iguais de energia contrária.
Mas estes são os olhos do Mundo, não os meus que experienciam reflexos adicionais. Reflexos do prazer que me dá olhar-te em celebração da tua vida. Nos momentos em que ridicularizas situações ou pessoas e te divertes de forma infantil simulando aquela voz compassada que te dá uma forma cómica aos lábios. Nos momentos em que os teus próprios olhos entram pelos meus, pela minha alma, sem pedir licença e em manifesta intrusão da minha vida, e me segredam baixinho a tua insegurança, na esperança que jamais a revele a alguém. Nos momentos em que dessa tua alma de castanho mel se soltam outras lágrimas quando te relato as minhas histórias, os meus medos e a minha própria insegurança, que também a tenho. Nos momentos em que vejo esses teus olhos absortos e perdidos quando reveladores da contínua e teimosa falta de cumplicidade por alguém que dizes amar.
Mas estes são os teus olhos, não os meus que te vêem ainda mais fundo no lacrimejar da tua alma. Que te devoram o corpo, te rasgam as roupas e te despem na intimidade, num gesto totalmente egoísta, intrusivo, quase animal. Que vêem e cheiram simultaneamente a tua silhueta assutadoramente bela e a tua pele que espreita em cada esgar do teu movimento, que me excita e me amedronta. É a minha alma que te vê aproximar naquele abraço e na sua justificação vaga. Que te vê por dentro quando os meus olhos se fecham e absorvem todo esse sabor do nosso contacto que, sei-o, será sempre curto e fugaz até ao dia em que permitamos ter-nos por completo, na partilha da luxúria e da visão que já fantasiámos.
Vejo-me em ti e não me confunde a nossa sintonia. Acho que as nossas almas, os nossos olhos, se adaptaram simultaneamente à necessidade que temos um do outro, tal qual as suas íris se contraem e expandem perante a intensidade da luz. É da nossa luz que nos alimentamos e saciamos a alma, conscientes de que muito mais saciaríamos se nos deixássemos controlar pelos olhos. Pela alma que já partilhamos, sem que percebamos bem onde errámos. Porque errámos. Errámos se por alguma vez pensámos que nunca nos poderíamos ter. Espero que sejamos sinceros ao ponto de admitir que nos mentimos diariamente, pois desejamos e queremos tudo aquilo que negamos.
Mas estes são os meus olhos, não os teus que preferem contar a verdade de uma forma muda, numa linguagem apenas decifrável pela intensidade do teu olhar. Olha à tua volta e vê como te olham. Se da forma como preferes ser olhada, ou de acordo com aquela que consideram ser a visão adequada do Mundo e das existências singulares das pessoas. O teu olhar é inteligente e dissecará e interpretará qualquer brilho das suas almas, sejam estas vagas, dependentes, acomodadas ou apenas almas, na sua simplicidade visível. Olha e olha-te. Terás que orientar-te pelo alcance da tua visão e do quão longe esta chega na linha do horizonte. Porque aí distinguirás a tempestade que se aproxima ou o dia radioso que celebrará e abusará da tez da tua pele. Olha e olha-te, em cada uma dessas situações. E a visão que tiveres, porque acreditas em sinais, materializar-se-á sob a forma de lágrimas que te abandonarão e te farão sentir mais livre.
Vejo-te com os meus olhos. Com a minha alma. Mas vejo-te como és.
Mas estes são os meus olhos, não os teus.
segunda-feira, março 02, 2009
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