domingo, fevereiro 15, 2009

Vislumbre

O dia amanheceu diferente. Tão diferente como se durante mil anos tivesse vivido na noite. Numa noite fria, escura, de sons ténues e solitários pontualmente interrompidos por um choro vago, de criança. Despertou para as primeiras horas duma nova existência de outros tantos mil anos, completamente desconhecida e assutadora. Um misto de oportunidade de recomeço e de retiro espiritual auto-induzido. O vislumbre do reencontro com os seus próprios pensamentos, com a sua humanidade e confiança. Ter-se-ão mantido incólumes? Existirão danos irreparáveis? Irrompeu pelos primeiros minutos da madrugada com uma energia quase ofensiva que deixou que fluisse por toda e qualquer palavra que escreveu. Não escrevia depressa, pois eram reflectidas e medidas quaisquer repercussões dessas palavras. Mas escrevia com dor e amor, pois de verdade se inundavam essas palavras, num sopro de devaneio e alegria e excitação e prostração perante o futuro. "A Deus pertence", teria ouvido no passado, num passado agora menos presente. E nesse presente celebrou, erguendo pela primeira vez desde há muito os olhos ao céu, estrelado, imenso e incógnito, como queria que fosse o seu futuro.

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