terça-feira, fevereiro 24, 2009

Jamais

Tive que lhe contar. Pensei e repensei nas razões subjacentes àquele impulso de fazê-lo. Nada concluí. Apenas sei que peguei no iPhone e digitei sem me enganar aquelas poucas palavras que revelaram o (ainda) segredo. "Já sabes da novidade?", escrevi. Parcos minutos passaram até que surgiu no visor a resposta. "Não sei de nada. Estou fora. A que te referes?". Um "Posso ligar?" fez soar novamente o toque de chegada de mensagem. Depois da resposta o toque estridente ecoou por toda a sala, naquela toada que soa sempre a alarme. Atendi e falámos. Contei-lhe tudo, desde as razões para a decisão ao medo do desconhecido. Percebeu-me na íntegra e falou apenas nos momentos em que fazia sentido, remetendo-se àquele "hum" compassado durante o meu relato, num convite ao exorcismo de toda a verdade da minha boca. Naquela que era uma cumplicidade há muito descoberta sem esforço de cultivo que a justificasse, esperou que eu terminasse, suspirou e falou. Disse o que me havia dito no passado e enfatizou o quanto acreditava neste desfecho. Uma redundância, como referiu. Já o havíamos discutido vezes sem conta há uns meses atrás. Terá, concerteza, que ver com a situação que lhe relatei. Mas, inesperadamente, voltei a sentir na sua voz aquele tom suave, onde as palavras saíam quase como que apertadas por uma emotividade reinante num mundo de razão. Voltei a sentir a aspereza da sua respiração que, há não muito tempo, me haviam viciado os ouvidos e tornado diariamente dependente da sua dose mínima de pelo menos 10 minutos. Fez-me jurar que não era outra mulher a razão. Se o fosse, jamais me perdoaria não ter sido ela. Referi-lhe que não, jamais, e pareceu-me ter sido relativamente egoísta ao explicá-lo. "Jamais tu ou outra qualquer mulher influenciariam tal decisão...". Decididamente, fui bruto. Percebeu-me naquela teimosa versatilidade para se adaptar à minha forma de pensar, pois também essa era a sua. Despediu-se com um beijo. Soube naquele instante que a história mal tinha começado. "Jamais", repeti em voz alta.

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