sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Silêncio

Abri a alma ao que me saísse. Não saiu nada. Do mesmo sítio de onde outrora jorraram palavras que relataram memórias, castrações, desígnios e altercações, saiu agora nada. Um silêncio que me converteu à tristeza e à passividade perante uma dor aguda que me dilacerou a alma. À dor que me conseguiste infligir quando disseste aquelas palavras. Fizeste-o de propósito, de uma forma que me leva a pensar que equacionaste premeditadamente mil expressões que sabias poderem ferir-me e que, depois, escolheste aquela que ao fazê-lo libertasse o maior número de estilhaços. Estilhaços que pudessem amputar-me nos meus direitos, dignidade e serenidade. E conseguiste-o. É tua a vitória se é esta que procuras. Não ta reconheço porque a mereças. Faço-o porque quero que, mais tarde, quando a tua dor se evadir em busca de uma nova alma magoada que possa atormentar, as mesmas palavras te causem asco. Na razoabilidade que terás então e agora não. Na clarividência que agora to esconde, mas que te permitirá ver um novo Mundo onde quererás e saberás poder ser feliz. Na nobreza que possuis mas que agora deixas que se esconda no fundo de ti. E quando o perceberes, espero que não seja piedade o primeiro sentimento que te ocorrerá. Apenas uma breve insegurança perante a possibilidade de, também tu, um dia, poderes viver algo semelhante. E que isso te alerte para o facto de que jamais deverás repeti-lo. A nossa história tornou-te perita na arte de magoar. Refina-la a todo o momento, experimentando e testando novas práticas que roçam o sadismo. Acredito nos valores que sempre te reconheci e sei que neste momento, estes são mais fracos que a imensa dor e raiva que sentes por mim. É por tudo isso que sofro e nada sai da minha alma. Nada que te fizesse pagar na mesma moeda. Nada que te magoasse da mesma forma. Porque o amor, descobri-o, não se mede nas exteriorizações de afecto, na frequência com que se diz a palavra que consola mas engana, no dia de aniversário que se recorda antecipadamente. Mede-se, tão apenas, na capacidade de não ferir quando achamos justo fazê-lo e de não deixar de amar quando achamos justo apenas gostar. É por isso que nada digo. Porque te amo. E porque quero que, um dia, voltes a amar.

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