domingo, fevereiro 22, 2009

O monstro que pariu o rato...

É estranho. Sem grande explicação ou sequer lógica que sustente o que quer que seja, o silêncio instala-se. A frequência repetitiva e crescente do tom e do teor das nossas palavras e testemunhos, nos milhares de minutos partilhados de uma forma viciosa e viciante, dão, súbita e inexplicavelmente, lugar a uma ausência de qualquer tipo de relato, mesmo que ignóbil ou parcamente premeditado. Do escrutínio do sentimento breve e vago, inexplicável mas incontornável, ao sincero reconhecimento de impulsos sexuais descontrolados reflectidos numa dislexia temporária ("Fechava-te num quarto durante 3 dias...", disse-lhe sem conseguir deixar de entorpecer a voz), tudo valia para alimentar este grande e emergente monstro. No que este assusta e no que este possui de força genuína. E eis que, como se fosse possível ignorá-lo ou envenená-lo de morte à refeição, lhe desferem um rude golpe. Uma pancada seca e silenciosa, bem no meio do seu dorso musculado. E este cai por terra, com estrondo, inerte e derrotado, atordoado pela surpresa do ataque com o qual não contaria. Desiludido, magoado pela traição que por uma ou outra vez idealizou mas na qual jamais acreditou, fechou lentamente os olhos num suspiro sofrido, num gemido ténue que afinou com o último sopro de vida. Até que um novo sopro o reanime e o permita erguer-se, se tal sopro existir ou for sua vontade senti-lo.

Sem comentários: