segunda-feira, setembro 24, 2007

"O amor é fodido" sem MEC, ou Spicy Sushi, ou Tributo a Margarida Rebelo Pinto

Saltaste da esquina num pulo como se o teu vestido preto e curto não fosse, só por si, suficiente para me surpreender. Sorriste ao avistar-me junto à porta do restaurante, e eu retribui-te com um breve aceno de cabeça, meio afundado na gola do meu casaco, como que abrigado de uma chuva inexistente. Caminhaste ao meu encontro do único jeito possível em ti: decidida, como se eu só a ti pertencesse, numa linguagem corporal de predador felino que ataca a sua presa e vence a concorrência de semelhantes menos velozes. O teu andar excitou-me e alegrei-me pelo leve vislumbre do teu quadril púbico evidenciado pelo tecido transparente do vestido, no contraste feito com os candeeiros da avenida por trás de ti. Ocorreu-me poder beijar a tua intimidade ainda nessa noite.
Sentámo-nos quase no chão, meio atarrecados pela altura daqueles "bancos de brincar", largando a piada em forma de comentário desinibidor ao empregado. Este anuiu sorrindo e escusou-se a prolongar a nossa gargalhada. Hierarquizámos a comida em categorias de "não sabemos o que é" e "isto é bom que já provei". Chamámos novamente o empregado que nos olhava de soslaio e cuchichava baixinho com uma colega que mais parecia um dos bancos. Aproximou-se e agachou-se junto de nós evitando-nos uma comprometedora subserviência de estatura. Esclarecemos os "não sabemos o que é" e encomendámos mais dois ou três "isto é bom que já provei". Acomodámo-nos como que preparando uma posição de combate ao extermínio de todas as dúvidas, questões e suspeitas causadas por todos estes anos de ausência. Era este o momento para o ressurgir das mil-e-uma questões que minaram as nossa mentes durante anos de privação induzida. Acabariam agora as ansiedades pontuais que nos assaltaram a mente quando emergiram em golfadas os pequenos restícios da vida de outrora.
O "comer com pauzinhos" deu o mote para uma conversa parva e promiscuamente desconfortável para ambos. Fazia anos que a partilha deste "vocabulário de favela" (como uma vez o apelidámos) se havia extinguido, e tentávamos agora reacender o fogo após o rescaldo. O à-vontade talvez estivesse lá, mas há muito que a displicência própria das vivências partilhadas e segredos desvendados partira além-mar. Se voltaria um dia a ser avistada daquele cais lúgubre onde agora nos encontrávamos, essa era outra conversa que certamente não teríamos nesse momento.
Entre devaneios simplistas do que poderíamos ter sido, lidavas com os travões que eu ia acometendo à conversa. Não mais me interessavam justificações para o passado, para as tuas traições encapuçadas de lealdade egoísta. Provei o sashimi de salmão e olhei-te a saborear o de atum. Fizeste como sempre aquela covinha no queixo quando degustavas algo que amavas. Como o fazias também após um beijo "dos nossos". Adoravas prolongar o meu sabor na tua boca.
A tua mão surgiu-me no sexo sem que a esperasse. Previra tudo isto na minha antecipação deste encontro, mas nunca ponderei qualquer probabilidade de que ocorresse. Nem mesmo a acentuada inclinação do teu corpo para permitir que o teu braço se extendesse por baixo da mesa, me fez adivinhar esta tua atitude - acredito eu - irreflectida. Recuei bruscamente o meu corpo, fazendo guinchar nos azulejos negros os pequenos côtos que serviam de pés ao banco. Caíram rapidamente sobre nós inúmeros olhares inquiridores e curiosos de casais e grupos de amigos que se amontoavam nas mesas limítrofes. Fui incapaz de conter aquela gargalhada estridente, deixando de me preocupar pela forma audível como esta ecoou em toda a extensão daquela sala rectangular. Tu, contendo o riso, saboreavas um largo pedaço de giosa, entortando propositadamente os olhos de cada vez que me miravas. "Só queria saber se não o tinhas perdido aí numa gaja qualquer." disseste, sem qualquer rubor nas faces ou tremor na tua voz. "Como querias que o tivesse perdido?! Deixei-me de fodas por desporto assim que te conheci, e agora bem que me arrependo..." disparei sem te deixar respirar.
Deambulámos por um mar calmo de palavras e histórias de trabalho, amigos comuns, casamentos e divórcios ocorridos nos últimos anos após a nossa separação...aquele teu gesto teve o condão de normalizar o nosso diálogo e trazê-lo de volta à nossa actual realidade de separados. Não te oposeste sequer (como fazias quando estávamos juntos) assim que peguei na conta para pagar. Trauteaste uma melodia que não reconheci e que mal ouvi sobre o música ambiente, enquanto deslizavas o anelar na borda da chávena do café.
Levantámo-nos de um salto em direcção à rua e perguntei-te onde querias ir agora beber um copo. Nem sequer fingiste. Disseste-o directamente: "tenho mais do que fazer do que aturar-te a má disposição. Só já não fodes porque não queres, ninguém te obriga a permanecer fiel a uma imagem que só existe na tua cabeça!", disparaste.
Vi-te caminhar como chegaste, mas desta vez, de costas, apreciei a marca do teu fio dental. Imaginei-o como um daqueles de que gostavas: de algodão, simples e preto. Fizeste a curva, quase atropelando um casal de idosos que te rogaram umas palavras em surdina. Olhei para a avenida e vi o movimento de corpos. Deixei-me arrastar no turbilhão de luzes e cheiros e avancei rua abaixo. Estava uma noite óptima para caminhar. Sozinho, como já há muito gostava de fazer.

24/09/07

1 comentário:

Anónimo disse...

Desculpa lá, mas uma mulher que se apresenta de vestido justo, curto e preto, mete a mão no teu "abono de família" e no fim diz que não está para te aturar .... ainda te desperta algum sentimento? Só se for mesmo uma cambalhota não?