segunda-feira, agosto 20, 2007

"Sou eu mãe. Sou eu."

Lembro-te nesta história, na minha história também, no relato dos pensamentos que assolam o meu íntimo. Não o faço por receio de algum dia poder esquecer-te e, quando esquecesse, querer recapitular o quão importante e fantástica eras para mim. Faço-o porque acredito no que penso, e o que penso é que a tua perda e o momento em que te vi partir, a serem compensados de alguma forma, que o sejam pela criação de algo, mesmo que um testemunho ténue e insuficiente do teu ser, da tua vida enquanto foi tua. Porque foi tua essa vida difícil feita de privação e de esforço na conquista de coisas poucas. Dessa vida de ilusões e esmorecimento, de sorrisos e de fado, de tudo, e depois de nada. Lembro o pânico nos teus olhos raiados a sangue, como se corressem neles os últimos caudais da vida que teimosamente agarravas apesar da dor. Do sofrimento que te confundia as ideias, de tal forma que os teus olhos não me reconheciam. De me dizeres “Ai Sr. Doutor, a morte é tão triste”, de eu te dizer em lágrimas que já não tinha “Sou eu mãe. Sou eu.”, e num momento raro de lucidez, sentir a tua mão apertar a minha em sinal de agradecimento por estar ali, suspenso por cordéis frágeis de coragem, a teu lado. Lembro-me do teu ventre inchado abrigando a doença. Do teu corpo sobre a cama, prostrado e desiludido, quase inerte. De estar atento ao teu respirar mais ofegante que subitamente cedia aos gemidos mudos da dor, e de rezar para que não desistisses. Mas mesmo assim, sem desistir, tu partiste. Partiste porque o que crescia em ti tornava-se progressivamente mais forte. Mais forte do que tu. Mais parte de ti. Agora que me lembro, mais uma e outra vez e depois mais outra, sei que quererias que o não fizesse. Porque sofro em cada vez que te recordo com saudade. Talvez não o devesse ter vivido, não nesta idade, não quando não estava preparado. Mas porque acredito que onde quer que estejas me vês e me sentes, vou lutar para que o tormento se esvaneça em mil pedaços de memória. Depois, colá-los-ei um a um e guardá-los-ei no meu maior cofre: o coração. Para que fiques sempre em mim, para que continues a respirar comigo, até que eu próprio parta. Para ser recordado depois, por alguém.

2004/09/21

dedicado à minha mãe, Alice, falecida a 19 de Junho de 2003. Faria hoje, 20 de Agosto de 2007, a bonita idade de 78 anos.

1 comentário:

cuca disse...

sabes bem que eu adorva a tua Mãe, a minha amiga Alice, e tudo o que fiz por ela foi de coração. Nunca vivi tão de perto a ida de alguem, uito menos da forma como tudo aconteceu. ainda hoje penso nela, ainda hoje choro por ela, e ainda hoje rezo por ela. adorava que ela tivesse tido mais tempo aqui, para poer conhecer a Mafalda... por causa dela acredito casa vez mais que nada, mas mesmo NADA ACONTECE POR ACASO.
Foste um bom filho... ela sabe isso.