terça-feira, junho 08, 2010

Arquétipos da alma

Já fui várias imagens de mim. Fui pessoas que amei e outras que nem reconheci. Fui amigo que acarinhei, abracei e ouvi, mas também fui inimigo que, cobardemente, quase aniquilei. Cruzei-me com arquétipos de uma alma que outros me disseram ser eu. Apontaram-me e chamaram o meu nome, acenando, esbracejando, com sorrisos estampados nas suas caras esfuziantes. Assisti a tudo, do cimo de um muro que me dividiu e me obrigou a protagonizar histórias diferentes. Estou certo que em ambas representei o melhor que pude. Fui guionista em ambas, só poderia tê-lo feito bem. Depois, sentado numa cadeira qualquer, numa coxia desconfortável onde o vento me geleva as costas, assisti ao meu desempenho. Magnífico. Aplaudi de pé, sentei-me e chorei. Chorei. Perdido numa angústia que há muito me assolava e agora me revisitava sem licença, senti a mão no meu ombro. Não quis abrir os olhos para ter de lidar com mais um desconhecido. Larguei-me por alguns segundos ao exercício do livre-arbítrio e fui causa e efeito. Primeiro efeito, depois causa. Percebi que do nada nasci e no nada morria agora. A mão apertou-me o ombro, como que tentando acordar-me do pranto, a fim de mostra-me algo mais que não apenas as palmas das minhas mãos. Talvez fosse isso. Ateimei e não olhei. Só quando aquela mão quente, forte, opressiva, me apertou ainda mais e me lancinou com uma dor insuportável, eu ergui a face e olhei. Vi pouco e de nada mais me lembro. Acordei e os mesmos objectos de sempre brindaram-me com uma luz diferente. Senti-me mais pequeno pois estes eram, agora, maiores. Um paradigma perante o quão enorme me sentia na minha nova vitalidade, na energia que emanava de mim e que me cuspiu da cama num ápice. Dei os mesmos passos, mas de forma mais arguta. Fiz os mesmos gestos, agora com mais perícia. Olhei para o resto do meu tempo e vi mais passos e mais gestos. Sorri e percebi porque chorei. Fechei os olhos e agradeci-lhe por ter-me acordado daquele estado letárgico, amorfo e ausente. Olhei para a minha mão e senti-a novamente quente, forte, opressiva. Peguei na mala e certifiquei-me que guardara a caneta, a pedra, a bola e todas as memórias do que fora. Abri a porta e saí para o que preferia ser.

3 comentários:

raco disse...

Bora lá nessa viagem!
Bem-vindo de volta!

Anónimo disse...

"Começar de novo
E contar comigo
Vai valer a pena
Ter amanhecido
Ter me rebelado
Ter me debatido
Ter me machucado
Ter sobrevivido
Ter virado a mesa
Ter me conhecido
Ter virado o barco
Ter me socorrido
Começar de novo
E contar comigo
Vai valer a pena
Ter amanhecido
Sem as tuas garras
Sempre tão seguras
Sem o teu fantasma
Sem tua moldura
Sem tuas escoras
Sem o teu domínio
Sem tuas esporas
Sem o teu fascínio
Começar de novo
E contar comigo
Vai valer a pena
Ter amanhecido
Sem as tuas garras
Sempre tão seguras
Sem o teu fantasma
Sem tua moldura
Sem tuas escoras
Sem o teu domínio
Sem tuas esporas
Sem o teu fascínio
Começar de novo
E contar comigo
Vai valer a pena
Já ter te esquecido" ...vai valer a pena...

Anónimo disse...

" Our PASSION and LOVE,is our strenght "......






J.D.