terça-feira, julho 27, 2010
sexta-feira, junho 11, 2010
Límbico
São estados de espírito perigosos. Haverá explicação para querermos deitar tudo a perder quando tudo teríamos a ganhar se a estes não nos vergassemos? A minha intermitente - mas sempre teimosa - racionalidade dir-me-ia que não. A minha emoção que sim. Estúpida e inútil emoção que, sem qualquer justificação, pertinência ou mesmo permissão, se aloja e acomoda como se viesse para ficar de vez. Estou muito farto de ti, mas sem ti não posso viver. És aquilo que me faz amar, mas que perigas o amor daquela que amo. És aquilo que me faz chorar quando me lembro dessa mulher, mas que depois consegue esculpir na minha cara aquele ar sisudo, taciturno e infantil, digno de um adolescente mimado e embirrante e não de um homem convicto e irremediavelmente maduro, que a afasta sem justificação. És aquilo que me move, mas és igualmente o torpor que me consome e me remete à imobilidade. És tudo, e és nada.
Por tudo isto e por muito mais que poderia dizer-te, odeio-te. Mas também te amo. E dessa dicotomia, desse paradigma disfuncional e psicótico que me assola neste preciso momento, pelo menos retiro algo: um agradecimento. Um agradecimento por me permitires voltar à minha racionalidade sempre que decido esquecer que és a maior parte de mim. Nesses momentos, depois de me sujeitar à tua tortura que me derruba e me deixa prostrado, decido odiar-te, e é então que algo de magnífico acontece: decido procurar ajuda. Levanto-me, sacudo a terra que imunda as minhas roupas como que a querer marcar-me na lembrança tudo o que devo guardar no meu buraco consciente, e saio pela porta fora. Não tens de saber que não vou mais além que ao fundo da minha rua e que depois volto, cabisbaixo, rendido ao facto de que até a minha racionalidade me prende no meu feudo do tamanho de um quintal. E é nesse momento que percebo que é esse ódio que por ti nutro e tento fazer crescer a cada segundo que passa, que me faz ainda pior a mim e dá mais força às tuas maquiavélicas estratégias para me aniquilar. Percebo também que jamais conseguirei encontrar ajuda longe, pois é bem perto de mim (ok, é mesmo em mim…) que a encontrarei. Qual ajuda qual quê?! É pois um agradecimento que, alguns minutos volvidos, deriva num tipo de amaldiçoamento que te faço. Pena não estar a conseguir fazê-lo com clara eficiência, pois continuas a cirandar por aqui, dando-me a mão para me levantares e derrubando-me logo de seguida. Talvez seja uma questão de eficácia e é a coisa certa que não estou a vislumbrar. O que quer que seja, ainda não o consegui. Mas não zombes de mim. Não penses que escaparás sem que te dê luta séria e vigorosa. Claro que a razão que me ilumina em tudo o resto que sou na vida, é mais fraca que tu. Aliás, o seu corpo cada vez mais forte e tonificado, ainda não disfarça os traços da criança que é, uma criança que não excede em tamanho a largura de uma das tuas garras. Mas esta criança está a crescer e goza de esperança de vida considerável. Em breve estará do teu tamanho, porque não apenas ela crescerá naturalmente, como tu definharás progressivamente, vítima da indiferença a que te remeterei e à ajuda das crianças mais adultas que grassam nas mentes daqueles que amo e respeito. Estás condenada, escreve-o. De ti roubarei o teu melhor, e o teu pior nada mais será que uma raíz sub-nutrida à qual não ofertarei sequer uma singela gota de água. Secará e morrerá e apenas o melhor de ti ficará. Em mim. Para que possa amar aquela mulher, para que possa chorar quando dela me lembro, para que me possa mover como outrora fiz. E então, nesse preciso momento, terás mesmo de viver, lado a lado e sem quaisquer preferências tendenciosas, com a minha razão. Terás que com ela partilhar cama e roupa lavada, comer à mesma mesa, passear de mãos dadas pelos quintais que decidirmos invadir em busca de aventuras. Seremos uma família. Equilibrada e feliz. Invejados por outros, mas nunca por nós próprios.
terça-feira, junho 08, 2010
Arquétipos da alma
Já fui várias imagens de mim. Fui pessoas que amei e outras que nem reconheci. Fui amigo que acarinhei, abracei e ouvi, mas também fui inimigo que, cobardemente, quase aniquilei. Cruzei-me com arquétipos de uma alma que outros me disseram ser eu. Apontaram-me e chamaram o meu nome, acenando, esbracejando, com sorrisos estampados nas suas caras esfuziantes. Assisti a tudo, do cimo de um muro que me dividiu e me obrigou a protagonizar histórias diferentes. Estou certo que em ambas representei o melhor que pude. Fui guionista em ambas, só poderia tê-lo feito bem. Depois, sentado numa cadeira qualquer, numa coxia desconfortável onde o vento me geleva as costas, assisti ao meu desempenho. Magnífico. Aplaudi de pé, sentei-me e chorei. Chorei. Perdido numa angústia que há muito me assolava e agora me revisitava sem licença, senti a mão no meu ombro. Não quis abrir os olhos para ter de lidar com mais um desconhecido. Larguei-me por alguns segundos ao exercício do livre-arbítrio e fui causa e efeito. Primeiro efeito, depois causa. Percebi que do nada nasci e no nada morria agora. A mão apertou-me o ombro, como que tentando acordar-me do pranto, a fim de mostra-me algo mais que não apenas as palmas das minhas mãos. Talvez fosse isso. Ateimei e não olhei. Só quando aquela mão quente, forte, opressiva, me apertou ainda mais e me lancinou com uma dor insuportável, eu ergui a face e olhei. Vi pouco e de nada mais me lembro. Acordei e os mesmos objectos de sempre brindaram-me com uma luz diferente. Senti-me mais pequeno pois estes eram, agora, maiores. Um paradigma perante o quão enorme me sentia na minha nova vitalidade, na energia que emanava de mim e que me cuspiu da cama num ápice. Dei os mesmos passos, mas de forma mais arguta. Fiz os mesmos gestos, agora com mais perícia. Olhei para o resto do meu tempo e vi mais passos e mais gestos. Sorri e percebi porque chorei. Fechei os olhos e agradeci-lhe por ter-me acordado daquele estado letárgico, amorfo e ausente. Olhei para a minha mão e senti-a novamente quente, forte, opressiva. Peguei na mala e certifiquei-me que guardara a caneta, a pedra, a bola e todas as memórias do que fora. Abri a porta e saí para o que preferia ser.
terça-feira, maio 11, 2010
Whisper
One day, an angel whispered in my ear. I ignored it. Then it kept coming, again and again and again, saying I should listen. I heard it once. And I fell. It kneeled near me and asked me to stand up. My legs didin´t respond. Then it raised those wings to the sky and it lightened all my path. That´s when I saw her. She called me. My legs weren´t heavy any more. As I walked through her, I realized all images are alike. Meaningless. Pointless. A new whisper began. I didn´t ignore it this time. I looked back and the angel was gone. Felt something on my back. I spread those white wings and the skies pulled me up to that star. I closed my eyes and rested, knowing the next day wouldn´t be the day.
sábado, abril 17, 2010
Intervalo do tempo
Sento-me em frente a ti
Temos tudo para falar
Como se as palavras
Não tivessem ainda
Sido inventadas
O teu olhar grave
Faz-me pensar
Será que nos perdemos
Algures no silêncio
Onde sempre estivemos
E tudo se resume
A este momento
A breves minutos
Um intervalo do tempo
Do tempo que se esgota
Numa cor que desbota
Em coisa nenhuma
É o princípio e o fim
O princípio e o fim
Um começo terminado
Um confronto inacabado
Porque é sempre assim
Nem importa discutir
Mais saliva que gastamos
Sem beijo ou ternura
Fomos apenas desejo
De pura loucura
O teu corpo ruiu
Como avalanche de gelo
Dei-me como prisioneiro
Vendo-te só a ti
E cegando ao mundo inteiro
E nada me consome
Nem ouvir-te mentir
Nestes breves minutos
Um intervalo do tempo
Vai cair no esquecimento
Tempestade sem tormento
É nada de nada
É o princípio e o fim
O princípio e o fim
Um começo terminado
Um confronto inacabado
Porque é sempre assim
segunda-feira, janeiro 11, 2010
Mudança
Mas algo está a mudar. Talvez pela simples razão de que percebo o quanto gosto a cada vez que gosto, que é sempre. E sinto que isso não me faz apenas bem. Começo a sentir um tipo de ansiedade que roça o ciúme de quem tem parte do que gosto, mas que possivelmente não gosta tanto como eu. Começo a sentir que existe alguma indisponibilidade da tua parte para quem sou, para o que te digo ou contigo partilho ou desejo partilhar ou no que em ti adoro. Não é uma cobrança de disponibilidade, como sabes. Cobrar o que quer que seja não é o meu registo, como sabes, mas sinto que existes para um Mundo novo que exploras - por vezes, promiscuamente, sei-o -, arredando-te de um Mundo que usávamos partilhar em uníssono. E mesmo não o antecipando, mesmo não o sabendo, sei agora que isso me magoa um pouco. Não, claro que não me dilacera como antes me dilaceravam algumas confissões que me fazias sobre a tua vida, os teus sonhos (molhados ou não), os teus desejos inqualificáveis na dose de tesão que me transmitiam a cada imagem que se revelava na minha mente luxuriante. Mas magoa-me um pouco. E, confesso-te, em toda a minha sinceridade que conheces e que jamais poderás questionar, isso não me apetece. Não me apetece mesmo.
Sim. Algo está a mudar. Quiçá compreendo agora alguma da importância que relativizei no passado e que tem a ver com o gostar de alguém e ser adorado de igual forma. É mesmo importante. Foda-se! Quase que me apetece gritá-lo! Não o farei porque tudo isto que sinto me suaviza a mente, quase como se fosse um exorcismo banal de algum sentimento de culpa por gostar de ti como gosto, da forma que não gosto. Talvez ajude também o sentimento que nutro por alguém. Talvez ajude também. Talvez. Mas é certo que algo está a mudar.
Sei que já me perdi muitas vezes em devaneios e palavras usadas que soaram bem mais corajosas quando proferidas por outrém. E depois voltei atrás, não na minha palavra mas nas minhas palavras insípidas e cobardes. Mas estas soam-me agora bem melhor. Parecem dotadas de uma energia superior que, em celebração, quase que são gemidas, primeiro, para serem vociferadas depois num grito libertador e incauto. Não interessa quem as ouve, interessa-me tê-las gritado!
Algo está a mudar. E diz quem sabe, a mudança é boa. Quisesse eu sabê-lo, e teria gritado há mais tempo.
Com amor.
P.S. - Amigo, espero tê-lo conseguido. Nunca escrevi amor para ninguém, porque amor não é igual para todos. Mas porque te amo, amigo, decidi amar como acho que amas quem também te ama mas dá ao amor um significado diferente. Exactamente porque o amor não é igual para todos. Sente o amor como o quiseres, mas não deixes de o sentir. Essa mudança não é boa.
terça-feira, janeiro 05, 2010
Li-te
segunda-feira, janeiro 04, 2010
Fome
Se um dia conseguir perceber-te, vou certamente ficar diferente. Conheço-te não pela metade mas pelo dobro, mas fico frustrado pelo muito mais que ainda me falta conhecer. És alma cheia. És pessoas a mais. És um filme que não acaba, sem intervalos. És tudo e dás-me nada. Quando um dia conseguir perceber-te, vou certamente ficar diferente. Vais ser mais do que aquilo que imaginei e menos do que quero ver. É difuso o que sinto. É claro o que percebo. Se uma história terminar, alimentar-me-ei sem ti mas morrerei de fome.
Chains
Leave your paranoia behind/ Don´t feed it even if it chases you/ Stop looking back for what´s the story/ Feel free to look forward for pride and glory.
segunda-feira, dezembro 14, 2009
Raridade
Não estou triste. Nada neste sentimento que me assola como um vento contra-alísio e me seca de toda e qualquer razoabilidade, me consegue entristecer. Estupefacto. Não tanto. Perplexo. Possivelmente. Poderiam ser coisas que se explicam recorrendo à lógica ou a qualquer outro ensinamento da vida, e que perdurasse, depois, como lição para a posteridade. Nada disso. São coisas que exigem uma grande reflexão e que, mesmo assim, não é certo que consigamos explicar. De tão complexas, quase que roçam a imbecilidade, a estupidez gritante que tantas vezes usamos para a atribuír a quem detestamos ou, simplesmente, a quem não entendemos. E eis que dou agora por mim no mesmo papel estupidificante, a moer e a remoer em justificações possíveis para estas coisas que, afinal, existem, estão bem vivas e grassam por aí como erva daninha em casa de campo. Falo-vos destas coisas inexplicáveis dos sentimentos. Não dos sentimentos puros, crus e inquestionáveis que sentimos por uma mão cheia de amigos ou familiares (daqueles que não vemos apenas no Natal). Não dos sentimentos que nos enriquecem enquanto indivíduos e nos revelam a nossa importância perante nós próprios e perante aqueles que amamos incondicionalmente e que nos retribuem de igual forma, sem que para isso seja exigível qualquer tipo de cobrança, explicação ou arbítrio. Sim dos sentimentos que surjem como uma aurora ao nascer do sol e nos aquecem em locais íntimos ( e ínfimos) que só raramente reconhecemos dentro de nós. Sim dos sentimentos que nos elucidam quanto à possibilidade de ser legítima e até agradável, a coexistência com um outro ser humano; um ser humano que não seja um complemento de nós, mas sim um prolongamento de ambos; um ser humano que nos devolva em quantidade maior aquilo que demos de forma despreocupada, isenta e sem qualquer tipo de sentimento carente face a uma eventual e necessária retribuição. Sim dos sentimentos que, por uma qualquer razão fisiológica e hormonal, nos propensa a devaneios pouco razoáveis e quase incoerentes, quando não tremendamente imbecis. Roçam, neste caso, a designação de amor ou paixão, independentemente de qual dos substantivos é mais adequado ou a qual deve ser reconhecida maior importância. Nomes, são apenas isso, palavras que teimamos assumir como definição para algo inexplicavelmente vago em termos físicos e que se traduz, invariavelmente, numa ansiedade inócua e para a qual não existirá ainda fármaco eficiente. Em suma, tudo o que reflecte uma reacção a um estímulo. Em suma, tudo o que consiste num estímulo dado por uma reacção. Eis como qualquer palavra ou expressão é insuficiente. Palavras à-parte, poderia ser uma história minha, mas não seria verdade. É uma história de alguém a quem presto vassalagem nesta riqueza que é a amizade:
“Há uns dias atrás (mais do que aqueles que me custa a admitir e menos do que me obrigo a acreditar), beijei alguém. De uma forma minimalista e, quiçá, até mesmo ofensiva, diria que foi apenas o culminar de algo inpensado, progressivo e bom que se foi construindo em alicerces de palavras, muitas, oferecidas de forma gratuita e desinibida, entre duas pessoas que não se conheciam fisicamente. Esta seria uma outra história ditada num sem número de palavras em forma de prosa ou rima. Pouco interessa agora. Relevante será que, esse beijo, foi como uma brisa calma e serena. Daquelas brisas que só sentimos ao fim de uma tarde de Verão, e que só nos lembramos de sentir quando nos desculpamos das nossas vidas e damos espaço a quem somos realmente, longe daqueles que temos de ser. Dificilmente conseguirei distinguir entre uma definição absurdamente adjectivada e uma que me pareça mais lamechas mas real. Por isso, não o tento fazer. Digo-o apenas como senti aquele beijo e no quão esse sabor de mulher se perpetua na minha boca sempre que fecho os olhos e me lembro da profundidade dos seus olhos e escassos centímetros dos meus. Ridícula essa constatação enraízada de que o sabor de uma boca é exponenciado pelo cerrar dos olhos durante o beijo. Deixei os meus bem abertos, como se quisesse ficar alerta perante tudo aquilo que me estava a acontecer; fiquei-me assim, a olhar para todas as emoções e sabores como se estes pudessem ser enxergados a olho nú; a minha boca agia quase como que mecanicamente perante a minha estupefação e o sabor doce dos seus lábios quentes, tremorosos, que adormeciam os meus ao mesmo tempo que me acordavam a alma e o sexo; perdi-me naquela textura rugosa, perdi-me. O beijo ficou ali, suspenso, em cordas frágeis de tesão e incredulidade. Olhámo-nos e percebemos que existem gestos que não conhecíamos em igual número de expressões faciais que nunca víramos. Percebemos também que, ali, naquele momento, era dado o mote, o tiro de partida para algo que não poderia ser relativizado e assumido sob a forma de uma tentação à qual se deu espaço físico para se materializar. Ela sorriu, questionou-me porquê e percebi, também ali, que jamais me haviam feito pergunta tão difícil. Sorri de volta em retribuição sem saber se era um sorriso a resposta certa. Mas sorri na mesma, porque sorria por dentro, num turbilhão de incertezas às quais não estava sequer disposto a ouvir. Entrou no carro, sentou-se, suspirou. Podia ter ficado a olhar, a vê-la afastar-se, mantendo-me em pose máscula de conquista. Precisei de a sentir de novo. O vidro abriu-se e o seu olhar traduziu a palavra que eu ouvira tantas vezes a sair da sua boca: mimo. Encostei a minha face à sua, senti o seu cheiro delicioso e quis ser sempre seu. Quis que aquele momento não acabasse e quis que aquele fim de tarde desse lugar a todas as manhãs de uma vida. As nossas bocas procuraram-se de novo e foi de novo que senti tudo outra vez. A textura, o doce, o tremor. A paixão. O amor. Talvez.
Quisemos tudo aquilo de novo e foi-nos dada a oportunidade. O acaso, a disponibilidade proporcionada pela outra vida, a séria, impermeável aos sentimentos mais humanos e raros. Qualquer coisa foi diferente. Não sei se aquela situação constrangedora de chegar a correr, ofegante, perante a ansiedade do reencontro, e vê-la a cumprimentar um amigo. Delicado, educado, sem qualquer tipo de razão ou sequer feitio para dar espaço a sentimentos fúteis como o ciúme, esperei, dando lugar e espaço àquele momento. Um cigarro fez-me companhia por breves minutos até que chegasse a minha vez, novamente, de poder olhar os seus olhos de perto e sentir a sua boca. Teria mantido os meus olhos abertos, mais uma vez. Desta vez e outra vez. Mas tudo foi mais frio, como a brisa de Outono que, agora, servia de cenário a este segundo encontro. Entre frases feitas, palavras inóspitas de mordacidade e sarcasmo, humor forçado e desinteressante, tudo aquilo foi diferente. Uma defesa perante a intensidade do primeiro encontro? Uma defesa de quê, afinal? Frio, senti frio e levei as mãos até bem fundo nos bolsos das minhas calças. Os meus ombros subiram e a minha cara refugiou-se nas golas do casaco. Muito, pouco ou nada. Muito, pouco ou nada de mais um ou outro assunto sem nexo ou relevância. Uma despedida fugaz perante aquilo que me pareceu a última vez.
Estava certo. Passou todo este tempo (mais do que aqueles que me custa a admitir e menos do que me obrigo a acreditar) desde que beijei alguém. Desde que aquele sentimento avassalador abanou toda a minha estrutura incólume a qualquer terramoto que a vida usa, de quando em vez, para me surpreender. E tem-se dado mal, esta vida. Mantenho-me hirto quando outros vergam ou partem. Mantenho-me lógico quando outros estão indecisos ou erram. Mas não desta vez. Golpe baixo diria, uma lição, se nada disto tivesse acontecido no passado. Acontecera, de facto, mas protegera-me todo este tempo o carácter perecível da memória de muitos anos. Era algo que conhecia, mas do qual me esquecera. E agora vivia tudo de novo. E agora viverei tudo de novo, consciente de que o mesmo carácter perecível da minha memória me ajudará a ansiar por uma nova textura, um novo sabor doce e um novo e breve tremor.”
Conheço-o bem, este meu amigo. Um amigo. Um amigo que deixa que a vida o surpreenda sempre que quiser e haja tempo. E ele dá a si próprio o tempo que permite que a vida vá entrando, sem pedir licença, com toda a sua voracidade e armada de surpresa. É o homem mais lógico que conheço, e conheço-o bem, este meu amigo. Conheço-a pouco. Tão pouco que quase nada, não fossem as parcas palavras que ouvi da boca deste meu amigo, num misto de êxtase e perplexidade, em forma de relato. Ela tivera também a sua dose de surpresas da vida. Mais displicente, sem recorrer a racionalidades que a impossibilitassem de sentir estes esgares de paixão, era uma mulher disponível para o apetite voraz da vida. Sofrera e jurou nada mais sofrer. Mas dizia-se livre, sabendo que o dia chegaria. Aquele dia em que, mais uma vez, se acredita que é aquela a pessoa com a qual conseguiremos atingir o prolongamento da nossa própria existência. Ela acrediatava nisso. Pelo menos, assim o dizia. A sintonia era essa. O mesmo humor, gostos semelhantes, ambições compatíveis e mutuamente respeitadas. Como o disse, não era o sexo. Era o conforto, a sinergia de duas existências fundidas apenas em uma, sem desrespeito pela individualidade de cada uma delas. Perfeito. Não era o sexo, era o “mimo”. Ele tremia sempre que ela o dizia. Ela dizia-o muitas vezes.
Para quem tiver a sorte de encontrar pela frente a vida, essa vida armada da surpresa que só ela maneja tão bem, ardente e mordaz, mas sempre muito bem disposta, uma vénia. Não reconhecimento por essa sorte, mas uma vénia pela oportunidade que tem de viver. Raramente a vida se alinha com o nosso próprio caminho e escolhas. E porque uma raridade, uma qualquer raridade, deve ser sempre vista como uma espécie de monumento que urge preservar (pois o próprio tempo se encarrega de o tentar destruir com todas as suas forças naturais), preserve-a. Proteja-a com o seu próprio corpo se necessário for, mas trate de a interiorizar primeiro na sua alma para que não mais dela venha, um dia, a ter de abdicar. A maioria de nós morre sem interiorizar estes sentimentos. Aliás, a maioria de nós morre sem mesmo se aperceber da existência de tal raridade.
Para quem não tiver essa sorte, uma outra vénia. Uma vénia pelo respeito que me merece a força e o rumo e a coragem de continuar a viver. Ou por não saber da sua existência e continuar a deambular insistentemente no mesmo tipo de registo medíocre que serve de normativo aos pobres de alma e espírito, a usar como bitola o trote frágil das emoções artificiais da carne, ou por, pelo contrário, saber da sua existência, mas assumir a triste realidade da sua não descoberta em qualquer humano com o qual até agora tenha privado. Para ambos, a confiança de que só o conhecimento desta força, a experiência do cataclismo que nos permeabiliza a alma, a dor que nos rasga e dilacera em duas metades e o amor que volta a uni-las, só isso permite assumir que se viveu. Só isso permitirá descansar-nos e sossegar-nos quando desta vida nos despedirmos entre memórias vivas e coloridas, longe das lúgubres candeias das grutas escuras por onde calcorreamos toda uma vida. Só isso valerá a pena quando morrermos, mesmo que nenhuma mão ampare a nossa no momento em que vociferamos o adeus num último suspiro. Só isso valerá a pena. Só com isso poderão contar.
Quem definiu as palavras paixão e amor como o sopro que nos mantém vivos, estava certo. O meu amigo sabe-o. A sua amiga não.