Leave your paranoia behind/ Don´t feed it even if it chases you/ Stop looking back for what´s the story/ Feel free to look forward for pride and glory.
segunda-feira, janeiro 04, 2010
Chains
segunda-feira, dezembro 14, 2009
Raridade
Não estou triste. Nada neste sentimento que me assola como um vento contra-alísio e me seca de toda e qualquer razoabilidade, me consegue entristecer. Estupefacto. Não tanto. Perplexo. Possivelmente. Poderiam ser coisas que se explicam recorrendo à lógica ou a qualquer outro ensinamento da vida, e que perdurasse, depois, como lição para a posteridade. Nada disso. São coisas que exigem uma grande reflexão e que, mesmo assim, não é certo que consigamos explicar. De tão complexas, quase que roçam a imbecilidade, a estupidez gritante que tantas vezes usamos para a atribuír a quem detestamos ou, simplesmente, a quem não entendemos. E eis que dou agora por mim no mesmo papel estupidificante, a moer e a remoer em justificações possíveis para estas coisas que, afinal, existem, estão bem vivas e grassam por aí como erva daninha em casa de campo. Falo-vos destas coisas inexplicáveis dos sentimentos. Não dos sentimentos puros, crus e inquestionáveis que sentimos por uma mão cheia de amigos ou familiares (daqueles que não vemos apenas no Natal). Não dos sentimentos que nos enriquecem enquanto indivíduos e nos revelam a nossa importância perante nós próprios e perante aqueles que amamos incondicionalmente e que nos retribuem de igual forma, sem que para isso seja exigível qualquer tipo de cobrança, explicação ou arbítrio. Sim dos sentimentos que surjem como uma aurora ao nascer do sol e nos aquecem em locais íntimos ( e ínfimos) que só raramente reconhecemos dentro de nós. Sim dos sentimentos que nos elucidam quanto à possibilidade de ser legítima e até agradável, a coexistência com um outro ser humano; um ser humano que não seja um complemento de nós, mas sim um prolongamento de ambos; um ser humano que nos devolva em quantidade maior aquilo que demos de forma despreocupada, isenta e sem qualquer tipo de sentimento carente face a uma eventual e necessária retribuição. Sim dos sentimentos que, por uma qualquer razão fisiológica e hormonal, nos propensa a devaneios pouco razoáveis e quase incoerentes, quando não tremendamente imbecis. Roçam, neste caso, a designação de amor ou paixão, independentemente de qual dos substantivos é mais adequado ou a qual deve ser reconhecida maior importância. Nomes, são apenas isso, palavras que teimamos assumir como definição para algo inexplicavelmente vago em termos físicos e que se traduz, invariavelmente, numa ansiedade inócua e para a qual não existirá ainda fármaco eficiente. Em suma, tudo o que reflecte uma reacção a um estímulo. Em suma, tudo o que consiste num estímulo dado por uma reacção. Eis como qualquer palavra ou expressão é insuficiente. Palavras à-parte, poderia ser uma história minha, mas não seria verdade. É uma história de alguém a quem presto vassalagem nesta riqueza que é a amizade:
“Há uns dias atrás (mais do que aqueles que me custa a admitir e menos do que me obrigo a acreditar), beijei alguém. De uma forma minimalista e, quiçá, até mesmo ofensiva, diria que foi apenas o culminar de algo inpensado, progressivo e bom que se foi construindo em alicerces de palavras, muitas, oferecidas de forma gratuita e desinibida, entre duas pessoas que não se conheciam fisicamente. Esta seria uma outra história ditada num sem número de palavras em forma de prosa ou rima. Pouco interessa agora. Relevante será que, esse beijo, foi como uma brisa calma e serena. Daquelas brisas que só sentimos ao fim de uma tarde de Verão, e que só nos lembramos de sentir quando nos desculpamos das nossas vidas e damos espaço a quem somos realmente, longe daqueles que temos de ser. Dificilmente conseguirei distinguir entre uma definição absurdamente adjectivada e uma que me pareça mais lamechas mas real. Por isso, não o tento fazer. Digo-o apenas como senti aquele beijo e no quão esse sabor de mulher se perpetua na minha boca sempre que fecho os olhos e me lembro da profundidade dos seus olhos e escassos centímetros dos meus. Ridícula essa constatação enraízada de que o sabor de uma boca é exponenciado pelo cerrar dos olhos durante o beijo. Deixei os meus bem abertos, como se quisesse ficar alerta perante tudo aquilo que me estava a acontecer; fiquei-me assim, a olhar para todas as emoções e sabores como se estes pudessem ser enxergados a olho nú; a minha boca agia quase como que mecanicamente perante a minha estupefação e o sabor doce dos seus lábios quentes, tremorosos, que adormeciam os meus ao mesmo tempo que me acordavam a alma e o sexo; perdi-me naquela textura rugosa, perdi-me. O beijo ficou ali, suspenso, em cordas frágeis de tesão e incredulidade. Olhámo-nos e percebemos que existem gestos que não conhecíamos em igual número de expressões faciais que nunca víramos. Percebemos também que, ali, naquele momento, era dado o mote, o tiro de partida para algo que não poderia ser relativizado e assumido sob a forma de uma tentação à qual se deu espaço físico para se materializar. Ela sorriu, questionou-me porquê e percebi, também ali, que jamais me haviam feito pergunta tão difícil. Sorri de volta em retribuição sem saber se era um sorriso a resposta certa. Mas sorri na mesma, porque sorria por dentro, num turbilhão de incertezas às quais não estava sequer disposto a ouvir. Entrou no carro, sentou-se, suspirou. Podia ter ficado a olhar, a vê-la afastar-se, mantendo-me em pose máscula de conquista. Precisei de a sentir de novo. O vidro abriu-se e o seu olhar traduziu a palavra que eu ouvira tantas vezes a sair da sua boca: mimo. Encostei a minha face à sua, senti o seu cheiro delicioso e quis ser sempre seu. Quis que aquele momento não acabasse e quis que aquele fim de tarde desse lugar a todas as manhãs de uma vida. As nossas bocas procuraram-se de novo e foi de novo que senti tudo outra vez. A textura, o doce, o tremor. A paixão. O amor. Talvez.
Quisemos tudo aquilo de novo e foi-nos dada a oportunidade. O acaso, a disponibilidade proporcionada pela outra vida, a séria, impermeável aos sentimentos mais humanos e raros. Qualquer coisa foi diferente. Não sei se aquela situação constrangedora de chegar a correr, ofegante, perante a ansiedade do reencontro, e vê-la a cumprimentar um amigo. Delicado, educado, sem qualquer tipo de razão ou sequer feitio para dar espaço a sentimentos fúteis como o ciúme, esperei, dando lugar e espaço àquele momento. Um cigarro fez-me companhia por breves minutos até que chegasse a minha vez, novamente, de poder olhar os seus olhos de perto e sentir a sua boca. Teria mantido os meus olhos abertos, mais uma vez. Desta vez e outra vez. Mas tudo foi mais frio, como a brisa de Outono que, agora, servia de cenário a este segundo encontro. Entre frases feitas, palavras inóspitas de mordacidade e sarcasmo, humor forçado e desinteressante, tudo aquilo foi diferente. Uma defesa perante a intensidade do primeiro encontro? Uma defesa de quê, afinal? Frio, senti frio e levei as mãos até bem fundo nos bolsos das minhas calças. Os meus ombros subiram e a minha cara refugiou-se nas golas do casaco. Muito, pouco ou nada. Muito, pouco ou nada de mais um ou outro assunto sem nexo ou relevância. Uma despedida fugaz perante aquilo que me pareceu a última vez.
Estava certo. Passou todo este tempo (mais do que aqueles que me custa a admitir e menos do que me obrigo a acreditar) desde que beijei alguém. Desde que aquele sentimento avassalador abanou toda a minha estrutura incólume a qualquer terramoto que a vida usa, de quando em vez, para me surpreender. E tem-se dado mal, esta vida. Mantenho-me hirto quando outros vergam ou partem. Mantenho-me lógico quando outros estão indecisos ou erram. Mas não desta vez. Golpe baixo diria, uma lição, se nada disto tivesse acontecido no passado. Acontecera, de facto, mas protegera-me todo este tempo o carácter perecível da memória de muitos anos. Era algo que conhecia, mas do qual me esquecera. E agora vivia tudo de novo. E agora viverei tudo de novo, consciente de que o mesmo carácter perecível da minha memória me ajudará a ansiar por uma nova textura, um novo sabor doce e um novo e breve tremor.”
Conheço-o bem, este meu amigo. Um amigo. Um amigo que deixa que a vida o surpreenda sempre que quiser e haja tempo. E ele dá a si próprio o tempo que permite que a vida vá entrando, sem pedir licença, com toda a sua voracidade e armada de surpresa. É o homem mais lógico que conheço, e conheço-o bem, este meu amigo. Conheço-a pouco. Tão pouco que quase nada, não fossem as parcas palavras que ouvi da boca deste meu amigo, num misto de êxtase e perplexidade, em forma de relato. Ela tivera também a sua dose de surpresas da vida. Mais displicente, sem recorrer a racionalidades que a impossibilitassem de sentir estes esgares de paixão, era uma mulher disponível para o apetite voraz da vida. Sofrera e jurou nada mais sofrer. Mas dizia-se livre, sabendo que o dia chegaria. Aquele dia em que, mais uma vez, se acredita que é aquela a pessoa com a qual conseguiremos atingir o prolongamento da nossa própria existência. Ela acrediatava nisso. Pelo menos, assim o dizia. A sintonia era essa. O mesmo humor, gostos semelhantes, ambições compatíveis e mutuamente respeitadas. Como o disse, não era o sexo. Era o conforto, a sinergia de duas existências fundidas apenas em uma, sem desrespeito pela individualidade de cada uma delas. Perfeito. Não era o sexo, era o “mimo”. Ele tremia sempre que ela o dizia. Ela dizia-o muitas vezes.
Para quem tiver a sorte de encontrar pela frente a vida, essa vida armada da surpresa que só ela maneja tão bem, ardente e mordaz, mas sempre muito bem disposta, uma vénia. Não reconhecimento por essa sorte, mas uma vénia pela oportunidade que tem de viver. Raramente a vida se alinha com o nosso próprio caminho e escolhas. E porque uma raridade, uma qualquer raridade, deve ser sempre vista como uma espécie de monumento que urge preservar (pois o próprio tempo se encarrega de o tentar destruir com todas as suas forças naturais), preserve-a. Proteja-a com o seu próprio corpo se necessário for, mas trate de a interiorizar primeiro na sua alma para que não mais dela venha, um dia, a ter de abdicar. A maioria de nós morre sem interiorizar estes sentimentos. Aliás, a maioria de nós morre sem mesmo se aperceber da existência de tal raridade.
Para quem não tiver essa sorte, uma outra vénia. Uma vénia pelo respeito que me merece a força e o rumo e a coragem de continuar a viver. Ou por não saber da sua existência e continuar a deambular insistentemente no mesmo tipo de registo medíocre que serve de normativo aos pobres de alma e espírito, a usar como bitola o trote frágil das emoções artificiais da carne, ou por, pelo contrário, saber da sua existência, mas assumir a triste realidade da sua não descoberta em qualquer humano com o qual até agora tenha privado. Para ambos, a confiança de que só o conhecimento desta força, a experiência do cataclismo que nos permeabiliza a alma, a dor que nos rasga e dilacera em duas metades e o amor que volta a uni-las, só isso permite assumir que se viveu. Só isso permitirá descansar-nos e sossegar-nos quando desta vida nos despedirmos entre memórias vivas e coloridas, longe das lúgubres candeias das grutas escuras por onde calcorreamos toda uma vida. Só isso valerá a pena quando morrermos, mesmo que nenhuma mão ampare a nossa no momento em que vociferamos o adeus num último suspiro. Só isso valerá a pena. Só com isso poderão contar.
Quem definiu as palavras paixão e amor como o sopro que nos mantém vivos, estava certo. O meu amigo sabe-o. A sua amiga não.
quinta-feira, outubro 29, 2009
Ser vivo
Não senti nada no embate
O estrondo serviu de anestesia
Fez-se luz num clarão de agonia
E o tempo parou
A dor subiu-me à face
E em gemidos me desfiz
Como se me arrancassem a raíz
Que sempre me alimentou
Caí por terra sem respirar
Em espasmos me quis reanimar
Mas morri
Morri por dentro mas morri
Senti-me sangue espesso e quente
Escorri por todo um corpo inerte
Ardeu-me a água que dos olhos verte
E mesmo assim nada se curou
Tentei chamar-me à razão
Lutei contra a dor e o desmaio
No céu vi o tremor de um raio
E senti-me perto do fim
Lembrei a vida que vivi
Celebrei tudo o que senti
Mas morri
Morri por dentro mas morri
E quando olhei em meu redor
Aquele anjo que sempre me protegeu
A mulher que a esperança e o amor me deu
Não me quis ver
Virou a cara e caminhou para longe
Como se já nada ali houvesse
Como se o meu grito não a quisesse
Este era o seu adeus
Ainda a tentei puxar
E quase a consegui beijar
Mas morri
Morri por dentro mas morri
Vi-a perder-se na escuridão
Soube ser o fim, não mais voltaria
Rumou ao destino que outrora não queria
Espero que seja feliz
Chorei e olhei o meu corpo inerte
Sem saber como, algo aconteceu
A dor, o grito, a angústia, tudo desapareceu
E devolvi-me à vida
Lambi as feridas abertas por dentro
Num suspiro vi que me salvara
Senti que tudo em mim se renovara
E chorei mais e vivi
O céu sinistro abriu-se a um luar diferente
Talvez só para mim, talvez para toda a gente
Mas não morri
Senti-me vivo e sorri
Mas não morri
Fiz da tristeza o sangue que bebi
E não morri
Anjo que amo, pensarei em ti
quarta-feira, agosto 19, 2009
Carta de (quase) Amor
É em ti que penso durante grande parte dos meus dias. Penso em tudo o que já te disse em mil palavras genuínas, muitas delas faladas em esforço para conter a emoção, outras faladas em surdina para esconder a tesão. Penso em todas as vezes que te olhei com aquele olhar apaixonado e cirúrgico, numa perfeita assimilação da tua imagem física dentro de mim. Conheço muitos dos teus detalhes e mais não conheço porque vivemos um amor platónico. Tivesse eu sido bafejado pelo Criador com a sorte de poder dominar a arte do desenho, e desenhar-te-ia durante toda a minha vida, nas inúmeras perspectivas em que te vejo nos meus pensamentos e sonhos. Conheço todas as tuas perfeições e imperfeições na perfeição. És perfeita aos meus olhos, na forma arguta e emocionada como te vejo. És perfeita em todos os outros aspectos que aos outros desagradam ou passam despercebidos. Riem-se de ti ou da forma estranha e inusitada que dão contorno aos teus pensamentos e ideias. Porque os não percebem, ou porque os desculpam sabendo da tua meninice e ingenuidade eternas. Soubessem eles que essa és mesmo, e definitivamente, tu. Que deveria ser essa a criança que têm de amar todos os dias, para que todos os dias se sinta amada como qualquer criança merece. Eu conheço-te dessa forma e arrisco acreditar que apenas eu te conheço dessa forma. E faltar-me-ão conhecer apenas mais um ou outro contorno da imensidão do teu ser, porque vivemos um amor platónico. Não choro por isso. De alguma forma, alimenta-me uma esperança incondicional de que um dia nos poderemos amar de outra forma. Talvez. Um dia em que tenhas a coragem de te libertar das amarras da tua existência quotidiana e escolhas o conhecimento de ti mesma. Um dia em que percebas que talvez a nossa existência não passe apenas pelo papel que desempenhamos neste argumento cinematográfico que é a vida, e onde desde há um tempo e agora e hoje, preferes representar no teu melhor vestido, tendo como pano de fundo um cenário idílico que deixaste que construíssem para ti. É onde vives e onde tentas desenfreada e desesperadamente sentir-te bem. Mas sabes que recolhes apenas as recompensas pontuais e fugazes que não te alimentam em pleno. Que não te ajudam a encontrares-te ou sequer a indicarem-te um caminho para essa tua descoberta. Mas vais vivendo, sabendo que aguentas. Sabendo que é só um pouco mais do mesmo e que a tua resistência ainda não se esgotará desta vez. Apesar de, agora e neste preciso momento, te assolarem quase diariamente aqueles pensamentos e a tua necessidade de seres alguém, sentindo-te como tal. Não para os outros, mas para ti e para a mulher que queres ser. Corrijo. Não a mulher que queres ser, mas sim a pessoa que queres ser. E essa não é pessoa que se limita a sobreviver aos dias e que constrói um reino de imagens talhadas a ouro e diamantes. Essa não é a pessoa que se sente frustrada perante a incompreensão dos seus pares quanto às suas ideias beneméritas e solidárias de querer mudar o mundo e ser feliz. Essa não é a pessoa que outros olham de soslaio enquanto lê seis livros, de uma assentada, num curto período de férias. A mulher que queres (e escolhes) ser hoje não é a pessoa que desejas ser amanhã. E só não o digo com mais certezas, porque vivemos um amor platónico. Sabes muito do que não queres, mas ainda sabes pouco do que queres. Sabes que o caminho que conheces te levará algures, mas temes que o seu destino seja vazio, insípido, inodoro e incolor, como o é a água. E não será essa a água que satisfará a tua imensa sede de descoberta de um caminho que te transforme e que te dê a imensidão, os sabores doces, os cheiros e as magníficas cores que queres para a tua vida. Deveria ser tudo tão mais simples que isto. O que existe de incompreensível numa vontade humana de fazer a diferença, para si próprio e para os outros? Porque será de tão difícil compreensão para alguns, que algumas das outras pessoas do mundo não se sintam realizadas e reveladas na sua existência, quando integradas numa sociedade regrada, metódica, organizada e assustadoramente afinada? Tal como numa orquestra, a beleza da melodia audível e arrepiante que invade todo o espaço onde se propaga, ecoando e ressoando nas suas paredes, resulta apenas da interiorização, imaculada e profissional, que cada um dos seus elementos faz da leitura da sua pauta. É um facto, real e intransponível. Mas será tão difícil entender que existirão pessoas para quem nada disso interessa, e para as quais a verdadeira melodia arrepiante se conquista na exploração ou mesmo invenção de outros instrumentos? Os instrumentos da alma, por exemplo, os instrumentos da nossa própria espiritualidade que levam a que essa melodia arrepiante se revele sob a forma de nós mesmos? É essa que tu és. São estas as perguntas que sei que equacionas diariamente e agora mais que nunca. Agora que aquelas amarras e grilhetas invisíveis te prendem a um destino que não pretendes mas para o qual contribuis diariamente com a tua complacência e inércia. Desculpa a frontalidade, mas muito mais te diria se não vivêssemos um amor platónico. Estranho não te parece?! Pensarmos que qualquer forma de amor fomenta a sinceridade plena e integral, mas sentirmos que, de alguma forma, apenas o amor “assumido”, formalizado perante os outros e carnal, nos dá o direito à total transparência na amizade que deverá estar implícita nesse amor. Liguei-te hoje e, mais uma vez, não atendeste. Natural. Deveria ter pensado que tal aconteceria, pois vivemos um amor platónico. Queria partilhar contigo uma loucura da minha própria existência, uma libertação das minhas próprias amarras e grilhetas perante uma vida que vivi, que condeno mas que sinto agora esfumar-se em rasgos da minha clarividência. Poderá ser apenas bom senso por ter optado por aquilo que quero e em que acredito. Ou não. Poderá ser mesmo o meu momento de revelação e daquelas escolhas inadiáveis que prometo a mim mesmo e que mantenho latentes ad eternum. Tal como tu, também eu deambulo no vazio dos meus dias, tentando, aqui e ali, encontrar uma atmosfera respirável que permita manter-me vivo. Mas esse torpor, esse ar rarefeito e nauseabundo é-me cada vez mais insuficiente. Sinto que esta estrada é um caminho de ida, apenas, sem volta. E não há volta a dar. Aquilo que antes me fazia olhar para trás enquanto caminhava nessa estrada e que, invariavelmente, me levava a regressar ao ponto de partida, já não existe. Minto. Ainda existe, mas interpreto-o de outra forma. De uma forma que, e não desrespeitando as convenções familiares que prezo, que estão em sintonia com os meus próprios desígnios e personalidade e às quais estarei ligado durante toda a minha vida, consegue anular por completo as interpretações mais absurdas e utópicas que outrora considerei normais e até mesmo realistas. Estou noutra e é noutra que quero estar daqui a bem pouco tempo. Ao dia de hoje, desafio a minha existência como outrora nem ousara pensar. Ao dia de hoje, vivo toda e qualquer emoção que se me depare, quando outrora nem pensara reagir perante um estímulo. Ao dia de hoje, faço uma escolha por mim, sabendo que será dentro de mim que encontrarei o companheiro fiel da viagem. E só não serás esse companheiro, porque vivemos um amor platónico. Minto. Só não serás esse companheiro porque escolheste este amor platónico em tua própria defesa e dos restantes amores que vives. Esquecendo-te, porém, que é de ti mesma que te defendes quando deverias ousar confrontares-te. Que é na defesa do que, afinal, nem te liberta, que dás força às amarras e grilhetas que te prendem no meio de ti. Também ouso dizer-te que te conheço bem ou talvez melhor que ninguém, mesmo que não o saibas, e mais conheceria se não vivêssemos um amor platónico. Dar-te-ia o silêncio quando dele precisasses nos teus momentos de leitura e introspecção. Dar-te-ia a atenção quando dela precisasses para exteriorizar a tua consternação perante as imensas injustiças e atrocidades do mundo. Dar-te-ia o tempo quando dele precisasses para tudo e para nada. Dar-te-ia o abraço quando dele precisasses ao viver o medo e o terror de uma possível complicação da tua saúde. Dar-te-ia o amor quando dele precisasses de forma egoísta, para ti e só para ti. Dar-te-ia todo o meu ser, se não vivêssemos um amor platónico. Sei que um dia decidirás conscientemente porque não mais poderás fugir do que não tens mas queres. Sei que esse dia chegará e que estarás feliz ao fazê-lo. Triste por tudo o que deixas e por algum saudosismo que sentirás ao olhar as amarras e grilhetas quebradas em pedaços. Mas feliz por tudo o que conquistarás, junto dos outros mas principalmente dentro de ti. É possível que isso aconteça dentro de pouco tempo, mesmo que o tempo necessário para que o decidas seja muito tempo da tua vida. Sentirás que o tempo só contará a partir daí e que muito tempo perdeste. Mas isso não importa, não o faças. Assume que tudo o que decidiste até hoje foi lógico e consonante com a tua existência, e desta forma não te preocuparás com o passado. Assume que o que decides nesse momento condicionará o teu futuro, e essa decisão só pode ser tua, porque o teu futuro também o é. Eu já fiz as minhas escolhas e já quebrei as minhas amarras e grilhetas. Fi-lo em consciência mas de forma natural, não premeditando algum tipo de benefício material, apenas espiritual. Sei que só dessa forma conseguiria viver a minha vida e ser o meu companheiro de viagem, deixando para trás um ser amorfo, inerte e cabisbaixo que, por ironia, se me assemelhava em forma e tamanho. Fi-lo porque vou cultivando algumas certezas, quer nas experiências que vivo quer nos ensinamentos sábios que me vão transmitindo. Decidi acreditar quando nunca o soube fazer antes, apenas porque o antes nada me trouxe de novo. Mas o presente, as minhas escolhas e prioridades poderão trazê-lo. E nesta fase vou sozinho, sem ti, porque vivemos um amor platónico. Aliás, perceberás sem esforço que foste a mais forte amarra ou grilheta que me prendeu a uma série de indefinições e incertezas. E que, a manter-me prisioneiro, me manteria também na mesma inércia que agora recuso e nego. Vou andando, sem certezas que lá mais à frente te poderei encontrar, pois acredito que, logo que te consigas soltar do que te mata, o teu ritmo de descoberta e esclarecimento será muito mais rápido que o meu. Porque eu vou questionando e atrasando o passo a cada momento que vivo. Porque tu o fazes muito menos e és muito mais decidida que eu. Irónico é apenas o facto de que, neste preciso momento, não o estás a ser. Não percebes e temo que jamais perceberás o que te amo, pois vivemos um amor platónico. Não percebo e temo que jamais perceberei, porque o vivemos.
sexta-feira, agosto 14, 2009
O inimigo público
Por mais que exercite o meu cérebro em busca de uma justificação para o que me parece injustificável, não encontro qualquer réstia de clarividência. É difícil tentar perceber tudo. O Mundo como o conhecemos, as pessoas como as vemos e as atitudes como as lemos. São demasiadas incógnitas numa equação complexa e da qual não se conhece resultado certo. Baralhamo-las na expectativa de que façam mais sentido dessa forma, mas estas retribuem-nos com uma ainda maior complexidade na equação. Muitos resistem à frustração desta procura incessante e quase sempre inglória. São os que se importam e que se alimentam de novas perguntas que vão formulando apesar de não terem ainda encontrado qualquer resposta para as questões anteriores. Outros não resistem, deixam de se importar e rendem-se a um adversário maior no qual se apoiam e esperam ajuda na definição do rumo das suas vidas. Deixam de questionar e passam a responder a uma entidade que vêem como maior, um sistema perfeitamente enraizado e aculturante. Não fosse o meu gosto pelo desafio (ou será mais adequado chamar-lhe teimosia?) e percebia-os na perfeição. É legítimo poupar energias e fugir quando o adversário nos dobra em força e tamanho. Mas já a minha mãe enquanto viva me acarinhava dizendo-me “teimoso como uma mula”. Pensava ela tratar-se de uma educação pela negação que me levaria a tornar-me um adolescente mais tolerante e respeitador das ideias dos outros. Mal sabia ela, coitada, que a ofensa me fortalecia na definição de uma personalidade questionadora e embrutecida nos alicerces da própria razão, ou daquela que pensava ter em doses desmesuradas, não fosse eu isso mesmo, um adolescente que á semelhança de qualquer outro, cria um Mundo à sua imagem para onde se muda de malas e bagagens para nunca mais voltar. De uma forma peculiar (quiçá irracional e intolerável num homem da minha idade), ainda vivo entre esse Mundo e este. Ora me refugio na minha dimensão da razão perante um qualquer problema ou questão e crio uma resposta a meu bel-prazer, ora enfrento esses adversários que a quase todos dobram em força e tamanho e dou a luta que posso. Alguns são realmente fortes, confesso. Não tanto pela sua dimensão física ou peso hierárquico numa qualquer estrutura piramidal, seja esta social ou profissional, mas pela sua verborreia decrépita e ofensiva para quem pensa de forma inteligente. Arremessam-nos com autênticos petardos lançados das suas catapultas de insensatez e falta de bom senso (para não falar em pura idiotice, que poderia ser também considerada terminologia ofensiva e pouco democrática), e só uma muralha bem firme e alta resiste a este ataque. Assumindo que a edificamos e fortalecemos todos os dias com o nosso conhecimento e maturação, resistiremos sem grande esforço a estes ataques insípidos e quase confrangedores. Anuindo que o não fazemos, poderemos estar fragilizados e quase sentir o cheiro putrefacto do nosso corpo atingido mortalmente por um desses petardos. Porque, confesso, estes adversários podem ser fortes. Diz-me a experiência do confronto regular com tal inimigo, que a moderação é a chave para a estocada mortal que, um dia, lhe desferirei. É nesse mesmo registo que o inimigo se move e é com as mesmas armas que o deveremos combater. Sim, é desgastante desempenhar um papel de faz-de-conta que nos remete para o universo da hipocrisia. “Quem não sente, não é filho de boa gente”, dizia também a minha mãe e estava carregada de razão. Ter que usar as mesmas armas que o adversário, tendo-o visto anteriormente a manipulá-las com mestria na tortura de outros, e assumir que agora temos de ser um pouco como ele, é algo que me comove e me revolta um estômago frágil. Por mais que o sinta e em nada me enobreça tal escolha, sei que as armas da razão, em ambiente hostil e minado, servem de pouco mais que luvas brancas que moem mas não matam. As armas da razão usam-se entre iguais, dando estatuto vitorioso a quem melhor as esgrime. Neste caso, de nada servem. A escolha é única e passa pela moderação. A moderação que usarei enquanto descasco as fraquezas do inimigo. A mesma moderação que usarei para expor e deixar a nu a sua personalidade maquiavélica. Ocorre-me chamar-lhe de coitado, pois não é mais do que fruto de uma insegurança latente que teme que outros percebam. Mas não o chamarei de coitado. É o meu adversário e inimigo. É o homem que tenho de combater com todas as forças que tenho e com as armas que ele próprio me ensinou a manejar. Auxiliar-me-ei da razão ao esgrimir argumentos com adversários nobres e astutos de inteligência. Esta é uma batalha (ou deverei dizer, uma guerra) suja, nauseabunda nos seus argumentos baixos diariamente usados. Mas as batalhas (ou as guerras), na forma como tradicionalmente as conhecemos quando opõem quaisquer gregos e troianos, também o são. Mesmo quando legítimas e necessárias. Vou partir para esta batalha (ou guerra) com a perfeita consciência que estou e ficarei ainda mais sujo. Mas como diria a minha mãe, “se não podes vencê-los, junta-te a eles” e estava carregada de razão. Não o vencerei porque não lhe roubarei o sopro da vida e outros, depois de mim, viverão um sentimento semelhante ao meu. Mas juntar-me-ei a ele, ouvindo a sua insensatez, anuindo com a cabeça perante a idiotice dos seus raciocínios e comentários e, quando bem a seu lado, próximo do tapete que pisa com o mesmo desdém que pisa o restante Mundo onde habita, tirar-lho-ei debaixo dos seus pés. Sei que cairá desamparado e poucos (ou talvez ninguém) quererão amparar-lhe a queda. Ficará com algumas mazelas que sararão com o tempo e com uma eventual e promissora introspecção que logo se desvanecerá no seu egocentrismo utópico e pardacento. Mas recuperará. E eu, recuperarei da mesma forma, não de qualquer queda ou mazela mas da desmotivante senda de privação com ele e que durou alguns meses. E das promessas que fiz a mim próprio e aos que me rodeiam e que tive de suspender. E da minha integridade que gosto de pensar imaculada e que agora verguei enquanto me baixava para escolher as mesmas armas que o meu adversário. E recuperarei. “O que não nos mata, torna-nos mais fortes”, já dizia a minha mãe. E estava carregada de razão.
quarta-feira, agosto 05, 2009
Faith...
quinta-feira, julho 23, 2009
Raiz
Decides cortar o mal pela raiz
Decides ser feliz
Mas não compreendes
Que a felicidade
É um bem com prazo de validade
Fechas-te ao que sentes
E quando não o dizes mentes
Mas não percebes
Que as mentiras
São as verdades que a ti própria tiras
O que decidires por mim está bem
Se um novo começo ou outro alguém
Mas não entendes
Que algo que começa tem sempre um fim
É a história da vida e em tudo é assim
Sei que tudo em ti está reservado
A quem te quer sem pecado
A quem é sombra a teu lado
E mesmo que o não quisesse
Eu quero-te assim e existo
Mas tenho o meu passado
Pergunta-me porque o fiz
Se sei ou se quero plantar a raiz
Porque dar-me de novo a ti
É o mesmo que não querer contar
E saber que sozinho sou número par
Pergunta-me porque insisto
Sou um caso perdido e não desisto
Dar-me ao salto sem rede
Não é de alma inteligente
É de corpo que parte e não sente
Sei que tudo em ti está reservado
A quem te quer sem pecado
A quem é sombra a teu lado
E mesmo que o não quisesse
Eu quero-te assim e existo
Mas tenho o meu passado
segunda-feira, julho 20, 2009
Vestido Branco
Da porta fizeste o pano que sobe na peça
E que dá inicio a mil ilusões
Entraste com o teu corpo por dentro de mim
E o que te disse foi nada
Sabes porque to disse que quando sorris
O mundo pára e fico suspenso
E todas as dúvidas dentro de mim
Desfazem-se em nada
Tudo tem uma razão de ser
E a vontade não tem querer
No teu vestido branco vejo mil cores
Que me fazem querer tudo
E nada ter
Sabes melhor que ninguém como te mostrar
E decides que nada me mostras
Dominas a arte da sedução e seduzes
Todo o meu corpo e o meu ser
E por mais que saiba que tal como eu
Estás longe de não querer amar
É uma luta que ambos travamos
Orgulhosos que não o sabem ser
Tudo tem uma razão de ser
E a vontade não tem querer
No teu vestido branco vejo mil cores
Que me fazem querer tudo
E nada ter
Não queremos mais seguir as mesmas pisadas
Porque no fim de contas a vida continua
Cada um em seu lado inventa novas estradas
Ninguém dá a sua vida a ninguém
E fica cada um com a sua
Amo a minha, não a tua
E fica cada um com a sua
Dedicado à “mulher de vestido branco”
domingo, julho 19, 2009
Pontas Soltas
Desculpa-me por tudo o que fiz
E tudo o que não fiz
Nunca percebi como fazer bem
Estas coisas do coração
Desculpa-me por ter dito tudo o que disse
E tudo o que não disse
As palavras são emoções
Às quais não sei dar razão
Dou-me a ti nesta confissão
Porque não sei viver assim
Não me pesa só a alma e o corpo
Mas o que já não queres de mim
Esquece que algum dia fui teu
Não te ocupo a memória
Hoje somos duas pontas soltas
No resumo desta história
Desculpa-me por tudo o que menti
E tudo o que omiti
A verdade é revelação
E eu não quero saber
Desculpa-me por tudo o que pensei
E tudo o que sonhei
Esqueci-me que para jogar
É preciso saber perder
Tinha mil coisas para te dizer
Que me assolam noite e dia
Não me pesa só a alma e o corpo
Mas perder tudo o que queria
Esquece que algum dia fui teu
Não te ocupo a memória
Hoje somos duas pontas soltas
No resumo desta história
Esquece que algum dia existi
Esquece que um dia fui parte de ti
Esquece tudo o que acabou
E que nem de ti ou de mim algo ficou
Esquece que algum dia fui teu
Não te ocupo a memória
Hoje somos duas pontas soltas
No resumo desta história
sábado, julho 18, 2009
Praia do Sonho
De areia fina e branca
Que jurei ser-te fiel
Foi nesta praia
De ondas de espuma quente
Que a nossa vida começou
Foi nesta praia
Onde o sol nunca se põe
Que beijei o teu mel
Foi nesta praia
Onde o vento sopra a norte
Que menti sobre o que sou
É aqui que me escondo
Quando de tudo quero fugir
Neste berço do que fomos
Onde dorme ainda
O que está para vir
E vou ter de perguntar por ti
Vou ter de te procurar
Foi neste sonho
Que pensei partir para sempre
Antes de ver o dia a nascer
Foi neste sonho
Que vi o nosso futuro
E me esqueci do passado
Foi neste sonho
Realidade ou devaneio
Que não consigo entender
Foi neste sonho
Nas horas em que o sonhei
Mas em que estava acordado
É aqui que me encontro
Quando me perco à procura
Nas imagens do que fomos
Que me atormentam ainda
E me levam à loucura
E vou ter de te esquecer
Vou ter de ser só para mim