Abusei de ti
Porque sempre quis mandar
Controlar a minha vida
E a de quem me quis amar
Pensava que era assim
Que se geria o amor
Com vontade e egoísmo
Se contornava a dor
Há sempre um pólo mais fraco
Assim ditam os sinais
São contrários porque atraem
Um a menos outro a mais
Decidiste ser silêncio
No barulho infernal
Que trouxe à nossa história
Curta e frágil, afinal
Não me obrigues a falar
Nunca fui de vis lamentos
Muito menos de chorar
Por ferir-te os sentimentos
Não sei
não sei porquê
não sei o quê
Não sei
E não quero saber
Afastei de ti
A ameaça do mal
Mas sei que não percebi
Que me expunha por igual
Às referências que tinha
Das mulheres que conquistei
Juntei preconceitos fúteis
E fiz jus ao que mudei
Compilei todas as negas
Sob a forma de uma espada
Fiz do meu corpo um castelo
Que defendi sem temer nada
Protegi-te nas muralhas
Da minha imaginação
Mas cobrei-te pelo esforço
E larguei-te na solidão
Parti rumo ao conhecido
Sem recordar a magia
Que me enfeitiçou na noite
Que nasceu depois daquele dia
Não me obrigues a falar
Nunca fui de vis lamentos
Muito menos de chorar
Por ferir-te os sentimentos
Não sei
não sei porquê
não sei o quê
Não sei
E não quero saber
Written by Mário Batista
17/07/08
quinta-feira, julho 17, 2008
quarta-feira, julho 16, 2008
Jukuka Mesu
Contam-te milhares de histórias
Na esperança que acredites
Em certezas infundadas
Em regras sem directrizes
Vendem esforços incessantes
De mentira e de verdade
Expondo a vida a desígneos
De gratuita crueldade
E fazem-te crer na imagem
Que deles está em questão
Com telhados que se quebram
Na teoria ... da conspiração.
Abre os olhos
Quem tem de ver és tu
Abre os olhos
Jukuka Mesu
Entre guerras de duendes
Nascem fãs do terrorismo
Sem espada ou punho firmes
Apregoam heroísmo
Em terra sem rei nem roque
Dão um nome ao pecador
Mas a culpa é da história
Do passado colonizador
Apostam no galo forte
Sem saber que o vencedor
Não é o preto ou o vermelho
A vitória é incolor
Quem usou é abusado
Quem criou é ladrão
Quem fugiu é vitimado
Na teoria ... da conspiração.
Abre os olhos
Quem tem de saber és tu
Abre os olhos
Jukuka Mesu
written by Mário Batista
16/07/08
Na esperança que acredites
Em certezas infundadas
Em regras sem directrizes
Vendem esforços incessantes
De mentira e de verdade
Expondo a vida a desígneos
De gratuita crueldade
E fazem-te crer na imagem
Que deles está em questão
Com telhados que se quebram
Na teoria ... da conspiração.
Abre os olhos
Quem tem de ver és tu
Abre os olhos
Jukuka Mesu
Entre guerras de duendes
Nascem fãs do terrorismo
Sem espada ou punho firmes
Apregoam heroísmo
Em terra sem rei nem roque
Dão um nome ao pecador
Mas a culpa é da história
Do passado colonizador
Apostam no galo forte
Sem saber que o vencedor
Não é o preto ou o vermelho
A vitória é incolor
Quem usou é abusado
Quem criou é ladrão
Quem fugiu é vitimado
Na teoria ... da conspiração.
Abre os olhos
Quem tem de saber és tu
Abre os olhos
Jukuka Mesu
written by Mário Batista
16/07/08
sábado, maio 17, 2008
Recortes
Tirei-nos da gaveta e sacudi o pó
Do álbum de imagens que retalha a nossa vida
Sabia ao que ia sem esperança nem dó
Não pensei em pernoitar sem guarida
É mistério esta coisa da memória
De ousarmos querer respostas sem questão
De querer ser um parágrafo de história
Um ensejo dum ponto de exclamação
E pego nestes recortes
Em histórias dessa vida
Que falam mal de nós
E nos deixam sem abrigo
Eu só quero estar contigo
Estavas linda como sempre e feliz
Entre amigos e sorrisos que fizemos
Em poses que contadas eu não quis
Relembrar porque nem sempre nos quisemos
E agora nem o teu cheiro eu recordo
Fiz que não vi o caminho que seguiste
Vivo as horas e de noite não acordo
Tudo fiz da forma exacta que pediste
E pego nestes recortes
Em histórias dessa vida
Em momentos sem remorso
Que me esqueço ser amigo
Eu só quero estar contigo
Gabo-te a força e a vontade de não querer
Muito mais do pouco que tinha p´ra dar
Podias fazer algo para merecer
Mas escolheste o pedir em vez do dar
E seguiste o teu caminho sem olhar p´ra trás
É mais fácil não ficar p´ra velar a morte
Se o esqueceres facilmente quererás
Voltar a tentar a tua vida, a tua sorte
E peguei nestes recortes
Em histórias dessa vida
Que falaram mal de nós
E nos deixaram sem abrigo
Quando eu quis estar contigo
Written by: Mário Batista
18/05/08
Do álbum de imagens que retalha a nossa vida
Sabia ao que ia sem esperança nem dó
Não pensei em pernoitar sem guarida
É mistério esta coisa da memória
De ousarmos querer respostas sem questão
De querer ser um parágrafo de história
Um ensejo dum ponto de exclamação
E pego nestes recortes
Em histórias dessa vida
Que falam mal de nós
E nos deixam sem abrigo
Eu só quero estar contigo
Estavas linda como sempre e feliz
Entre amigos e sorrisos que fizemos
Em poses que contadas eu não quis
Relembrar porque nem sempre nos quisemos
E agora nem o teu cheiro eu recordo
Fiz que não vi o caminho que seguiste
Vivo as horas e de noite não acordo
Tudo fiz da forma exacta que pediste
E pego nestes recortes
Em histórias dessa vida
Em momentos sem remorso
Que me esqueço ser amigo
Eu só quero estar contigo
Gabo-te a força e a vontade de não querer
Muito mais do pouco que tinha p´ra dar
Podias fazer algo para merecer
Mas escolheste o pedir em vez do dar
E seguiste o teu caminho sem olhar p´ra trás
É mais fácil não ficar p´ra velar a morte
Se o esqueceres facilmente quererás
Voltar a tentar a tua vida, a tua sorte
E peguei nestes recortes
Em histórias dessa vida
Que falaram mal de nós
E nos deixaram sem abrigo
Quando eu quis estar contigo
Written by: Mário Batista
18/05/08
domingo, maio 04, 2008
Grito
Primeira página do jornal
Dá-me a volta à barriga
Entre putas, assassinos
Brigas laranjas, desatinos
Incestuosas prestações
De pedófilos e cabrões
Roubando impunemente
Empresários de gente
Campanhas contra a desgraça
Beijinhos e abraços na praça
Que país de merda este
Que de entre mil e um valores
Tivemos que dar destaque e fama
Aos filhos da puta e doutores
Alinhamos embaixadores
No pastel de nata e no turismo
Pomos o ónus da pátria lusa
Vendendo-a limpa, qual obtusa?
País de brandos costumes
Da agricultura e dos estrumes
Da terra fértil e brisa quente
De quem não mente ou cai um dente
Do mar azul e areal branco
Da libra rica em porto franco
Que país de merda este
Que só na história se escusa
Duma língua que ninguém fala ou lembra
Quem é Camões, o que é a musa?
Digo tudo ao mesmo tempo
E não consigo separar
Não há cá trigo nem joio
Está tudo por misturar
O grito de revolta que já demos
Mas que deixámos calar
Ainda nos vai foder a todos
E na primeira página publicar
Written by: Mário Batista
4 de Maio 2008
Dá-me a volta à barriga
Entre putas, assassinos
Brigas laranjas, desatinos
Incestuosas prestações
De pedófilos e cabrões
Roubando impunemente
Empresários de gente
Campanhas contra a desgraça
Beijinhos e abraços na praça
Que país de merda este
Que de entre mil e um valores
Tivemos que dar destaque e fama
Aos filhos da puta e doutores
Alinhamos embaixadores
No pastel de nata e no turismo
Pomos o ónus da pátria lusa
Vendendo-a limpa, qual obtusa?
País de brandos costumes
Da agricultura e dos estrumes
Da terra fértil e brisa quente
De quem não mente ou cai um dente
Do mar azul e areal branco
Da libra rica em porto franco
Que país de merda este
Que só na história se escusa
Duma língua que ninguém fala ou lembra
Quem é Camões, o que é a musa?
Digo tudo ao mesmo tempo
E não consigo separar
Não há cá trigo nem joio
Está tudo por misturar
O grito de revolta que já demos
Mas que deixámos calar
Ainda nos vai foder a todos
E na primeira página publicar
Written by: Mário Batista
4 de Maio 2008
Recado
É de ti que falo com a minha alma
Sempre que dela me lembro querer vingar
Pelos pensamentos ociosos e sofridos
De quem não tem mais nada que pensar
Relembro-te nua e fria sobre a cama
Enrolada em ti mesma, fingindo dormir
Controlando a respiração falsamente calma
Para que não tivesses que te despedir
Olhava-te uma última vez
Dizia-te o que querias ouvir
Para que percebesses uma vez mais
Que esta era a minha vez de ir
Deixei-te o recado que nunca irias ler
Porque da minha boca, horas antes
Conseguiste perceber
Que não deu para forçar
Que não me quiseste amar
Dei o benefício a mim mesmo
Porque o quis e merecia-o uma vez mais
Fui apanhado numa confusão de palavras
Mais do que poucas, irracionais
Desci a escada com o sentimento
De que não queria mais voltar
A ter que deixar de viver
Não queria ter de ver tudo acabar
E saí para a rua sentindo a chuva cair
Não me abriguei, não tive medo
Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida
Não é tarde, é bem cedo
Deixei-te o recado que nunca irias ler
Porque da minha boca, horas antes
Conseguiste perceber
Que não deu para forçar
Que não me quiseste amar
Written by: Mário Batista
4 de Maio 2008
Sempre que dela me lembro querer vingar
Pelos pensamentos ociosos e sofridos
De quem não tem mais nada que pensar
Relembro-te nua e fria sobre a cama
Enrolada em ti mesma, fingindo dormir
Controlando a respiração falsamente calma
Para que não tivesses que te despedir
Olhava-te uma última vez
Dizia-te o que querias ouvir
Para que percebesses uma vez mais
Que esta era a minha vez de ir
Deixei-te o recado que nunca irias ler
Porque da minha boca, horas antes
Conseguiste perceber
Que não deu para forçar
Que não me quiseste amar
Dei o benefício a mim mesmo
Porque o quis e merecia-o uma vez mais
Fui apanhado numa confusão de palavras
Mais do que poucas, irracionais
Desci a escada com o sentimento
De que não queria mais voltar
A ter que deixar de viver
Não queria ter de ver tudo acabar
E saí para a rua sentindo a chuva cair
Não me abriguei, não tive medo
Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida
Não é tarde, é bem cedo
Deixei-te o recado que nunca irias ler
Porque da minha boca, horas antes
Conseguiste perceber
Que não deu para forçar
Que não me quiseste amar
Written by: Mário Batista
4 de Maio 2008
Caixote Lilás
É difícil descrever-te
Andas vestido a rigor
No macio veludo encontras traje
No metal prata o vigor
És ao longe parte da guitarra
Aos olhos leigos um objecto
Que por mais cor de contraste
Não conquista o afecto
Caixote lilás
Caixinha de sonhos
Cospes os gritos da guitarra
Iluminas as palavras do poeta em nós
Entras com um feedback agudo
Que magoa o ouvido e rouba a voz
Às tuas costas um pato amarelo
Bico vermelho e perfil importante
Não é de ícones que precisas
Para uma pose marcante
Caixote lilás
Caixinha de sonhos
Caixote lilás
Cofre dos meus sonhos
De ensaio em concerto
Pegado e largado com bravura
Do calor do Aquário ao frio do salão de baile
A tudo resiste a tua casca dura
Fazes parte da viagem
Trilhas a estrada que merecemos
Afinas com o suor dos nossos rostos
Dás-nos mais do que a ti já devemos
Caixote lilás
Caixinha de sonhos
Caixote lilás
Cofre dos meus sonhos
Written by: Mário Batista
4 de Maio 2008
Andas vestido a rigor
No macio veludo encontras traje
No metal prata o vigor
És ao longe parte da guitarra
Aos olhos leigos um objecto
Que por mais cor de contraste
Não conquista o afecto
Caixote lilás
Caixinha de sonhos
Cospes os gritos da guitarra
Iluminas as palavras do poeta em nós
Entras com um feedback agudo
Que magoa o ouvido e rouba a voz
Às tuas costas um pato amarelo
Bico vermelho e perfil importante
Não é de ícones que precisas
Para uma pose marcante
Caixote lilás
Caixinha de sonhos
Caixote lilás
Cofre dos meus sonhos
De ensaio em concerto
Pegado e largado com bravura
Do calor do Aquário ao frio do salão de baile
A tudo resiste a tua casca dura
Fazes parte da viagem
Trilhas a estrada que merecemos
Afinas com o suor dos nossos rostos
Dás-nos mais do que a ti já devemos
Caixote lilás
Caixinha de sonhos
Caixote lilás
Cofre dos meus sonhos
Written by: Mário Batista
4 de Maio 2008
terça-feira, janeiro 29, 2008
Não devo nada a ninguém
Procurei musas faladoras
Palavras que nunca havia escrito
Entoações promissoras
Dar o dito por não dito
Tudo para alguém sempre escrevi
Dei sentimento a quem o quis
Chorei por corpos que não provei
Mas nunca para mim o fiz
Tive ousadia em quem amei
Dei-me sem pranto porque o prefiro
Não sou tão brusco quanto o devo
O que dou, jamais retiro
Fico só e em mim me embranho
Sofro na antecipação e no leito
Fujo nas asas de uma borboleta
Num ciclo de causa-efeito
Estas palavras são para mim
Um egoísmo que me assenta bem
Não devo nada a ninguém
Procurei musas faladoras
Estridentes e vil feitio
Cruzei mares em sua busca
Encontrei-me no leito de um rio
Por mais que quisesse dizê-lo de outra forma
Por mais que andasse na minha mão
Deparei-me sempre com dois sentidos
Um que o faz, o outro não
Estas palavras são para mim
Um egoísmo que me assenta bem
Estas palavras são para mim
Não devo nada a ninguém
Palavras que nunca havia escrito
Entoações promissoras
Dar o dito por não dito
Tudo para alguém sempre escrevi
Dei sentimento a quem o quis
Chorei por corpos que não provei
Mas nunca para mim o fiz
Tive ousadia em quem amei
Dei-me sem pranto porque o prefiro
Não sou tão brusco quanto o devo
O que dou, jamais retiro
Fico só e em mim me embranho
Sofro na antecipação e no leito
Fujo nas asas de uma borboleta
Num ciclo de causa-efeito
Estas palavras são para mim
Um egoísmo que me assenta bem
Não devo nada a ninguém
Procurei musas faladoras
Estridentes e vil feitio
Cruzei mares em sua busca
Encontrei-me no leito de um rio
Por mais que quisesse dizê-lo de outra forma
Por mais que andasse na minha mão
Deparei-me sempre com dois sentidos
Um que o faz, o outro não
Estas palavras são para mim
Um egoísmo que me assenta bem
Estas palavras são para mim
Não devo nada a ninguém
quinta-feira, janeiro 10, 2008
segunda-feira, janeiro 07, 2008
Ano Novo, M`ema Merda
Nem comi as 12 passas (com excepção de tâmaras, pinhões e pistachios, detesto frutos secos!), nem subi a qualquer banco, cadeira ou outra elevação (ressalva feita às escadas que ligam a garagem ao piso térreo da moradia dos meus amigos que arriscaram ser anfitriões da festa este ano), nem usei as tão populares cuecas azuis no primeiro dia do ano. Porque não.
Basicamente, fi-lo em todos os outros anos de que tenho memória. (Retire-se aqui a infantilidade dos meus 19 anos, em que um charro de “3 pintores” – fumado sofrega e exclusivamente por mim! – me atirou para o chão de um WC num anexo ao quintal de uns amigos, em estado quase comatoso e perfeitamente alucinado.). E de nada serviu.
Gritei pelo Novo Ano, enxovalhei o Antigo, pigarreei aos ventos por Melhor Sorte (leia-se Fortuna), pela Mulher da Minha Vida, pelo Vil Metal sob a forma de notas, pelo meu Benfica e até pelo Bloco de Esquerda (eu, que teimo em acreditar que sou de Direita...). Fi-lo sempre de acordo com a excitação do momento (estando ébrio ou não), com a esperança num Futuro que se começa a construir nestas últimas horas de um ano que (agora) queremos esquecer, ou mesmo pelo facto de ter sido infectado à última da hora pelo síndroma das massas e querer acompanhar os pulos frenéticos e quase irresponsáveis dos outros, ao som de berros que se tornariam audíveis a qualquer surdo ou caretas que fariam corar qualquer amblíope.
E fi-lo porque sentia que se o fizesse (e estava devidamente informado pelo senso comum da cultura portuguesa vigente), arrecadaria para mim um novo ano cheio "do bom e do melhor". Tudo o que de melhor esperaría que me acontecesse, merecido ou não, como pagamento justo de um desejo labutado ou pura e simplesmente porque me caiu no colo sem qualquer esgar de esforço, seria certamente conquistado. Sentia-o de forma veemente, e se acaso houvesse quem ousasse desconsiderar-me nesta minha pretensão, nesta minha jactância de "quem tudo quer tudo tem", certamente estaria a despedir-se da vida ou, pelo menos, do belo teclado do piano simétrico materializado pelos dentes da frente.
Ironia da vida – só mais uma! -, é que nada disto resultou de qualquer uma dessas vezes. Segui criteriosamente todos essas mezinhas dos antepassados, li exaustivamente todas as instruções do jogo impressas na contracapa do tabuleiro da Glória (e também li, de ponta a ponta “O Segredo”, aquele manual de felicidade de páginas escorregadias que levou a Oprah a enriquecer e mais de meio Mundo a desfalecer), fiz de outros os meus passos numa compra relâmpago de uns belos boxers azul celeste numa loja lá do bairro (aberta de manhã no último dia do ano), mas nada, nada mesmo mudou ou foi suficiente, per si ou em conjunto com outros factores, para me abrir as portas do novo ano, de par em par, ou mesmo uma de cada vez.
Sendo assim, claudiquei, e ao nada que consegui roguei mil pragas. E depois, rouco, como se não bastasse os sons estridentes saídos da minha garganta de tenor, ainda encenei, insolentemente, gestos ofensivos com os dedos das mãos.
Mas aprendi. Aprendi que nada se consegue sem sorte, e que mesmo a sorte exige sorte para ser encontrada, agarrada e usada em doses q.b.. Esqueçam lá as enrugadas e já bem sugadas passas, os bancos de cozinha de plástico, baixinhos, e as cuecas ainda sem mancha de nicotina. Nada que saiba a fruta podre pode conter pó mágico da lua; nenhum banquinho ou mesmo escadote é suficientemente alto para ilustrar o quão alto quero subir; e cuecas azuis... são cuecas: caguei para elas.
A sorte encontrá-la-ei um destes dias, perdida por aí em qualquer esquina, depois de ter acabado de bafejar outra qualquer alma até então errónea e trivial. Não se preocupem comigo, amigos e amigas, que se houver lugar no Mundo onde esta se queira esconder de mim, tirarei, se necessário for, uma licença vitalícia para a encontrar. Não haverá nuvem, oceano, crosta terrestre ou campo electromagnético que me façam ficar perdido*, ou incapaz de seguir as suas pistas de fuga, pedestres ou aéreas.
Até lá, celebrarei toda e qualquer entrada num Novo Ano de uma forma comedida, expectante e perspicaz, sabendo que esta postura poderá, de um momento para o outro, numa fracção de segundos, passar a convicta, crente e apaixonada, quando à sua primeira hora ou mesmo mês já bem avançado desse Novo Ano, a sorte der de caras comigo e me transformar o sorriso forçado e áspero em luminoso e diletante.
Assim, é esta sorte que esperarei ou procurarei se a mesma teimar em preguiçar longe de mim. Mas fá-lo-ei pelo meu próprio pé, de pé, com os pés bem assentes na terra e não em qualquer pedestal de Ikea improvisado, sem porra de passas para engolir (que nisso a vida já me ensinou a mastigar primeiro) ou cueca azul celeste ainda com goma e etiqueta de saldos.
* Em inglês “Lost”, numa alusão ao nome da série televisiva em que os sobreviventes de um acidente aéreo percebem, ao fim de bastante tempo, que a ilha onde se encontram é “fantasma”, pois encontra-se indetectável para o exterior em função dum forte campo electromagnético natural que sobre ela é exercido (Nota Autor).
Basicamente, fi-lo em todos os outros anos de que tenho memória. (Retire-se aqui a infantilidade dos meus 19 anos, em que um charro de “3 pintores” – fumado sofrega e exclusivamente por mim! – me atirou para o chão de um WC num anexo ao quintal de uns amigos, em estado quase comatoso e perfeitamente alucinado.). E de nada serviu.
Gritei pelo Novo Ano, enxovalhei o Antigo, pigarreei aos ventos por Melhor Sorte (leia-se Fortuna), pela Mulher da Minha Vida, pelo Vil Metal sob a forma de notas, pelo meu Benfica e até pelo Bloco de Esquerda (eu, que teimo em acreditar que sou de Direita...). Fi-lo sempre de acordo com a excitação do momento (estando ébrio ou não), com a esperança num Futuro que se começa a construir nestas últimas horas de um ano que (agora) queremos esquecer, ou mesmo pelo facto de ter sido infectado à última da hora pelo síndroma das massas e querer acompanhar os pulos frenéticos e quase irresponsáveis dos outros, ao som de berros que se tornariam audíveis a qualquer surdo ou caretas que fariam corar qualquer amblíope.
E fi-lo porque sentia que se o fizesse (e estava devidamente informado pelo senso comum da cultura portuguesa vigente), arrecadaria para mim um novo ano cheio "do bom e do melhor". Tudo o que de melhor esperaría que me acontecesse, merecido ou não, como pagamento justo de um desejo labutado ou pura e simplesmente porque me caiu no colo sem qualquer esgar de esforço, seria certamente conquistado. Sentia-o de forma veemente, e se acaso houvesse quem ousasse desconsiderar-me nesta minha pretensão, nesta minha jactância de "quem tudo quer tudo tem", certamente estaria a despedir-se da vida ou, pelo menos, do belo teclado do piano simétrico materializado pelos dentes da frente.
Ironia da vida – só mais uma! -, é que nada disto resultou de qualquer uma dessas vezes. Segui criteriosamente todos essas mezinhas dos antepassados, li exaustivamente todas as instruções do jogo impressas na contracapa do tabuleiro da Glória (e também li, de ponta a ponta “O Segredo”, aquele manual de felicidade de páginas escorregadias que levou a Oprah a enriquecer e mais de meio Mundo a desfalecer), fiz de outros os meus passos numa compra relâmpago de uns belos boxers azul celeste numa loja lá do bairro (aberta de manhã no último dia do ano), mas nada, nada mesmo mudou ou foi suficiente, per si ou em conjunto com outros factores, para me abrir as portas do novo ano, de par em par, ou mesmo uma de cada vez.
Sendo assim, claudiquei, e ao nada que consegui roguei mil pragas. E depois, rouco, como se não bastasse os sons estridentes saídos da minha garganta de tenor, ainda encenei, insolentemente, gestos ofensivos com os dedos das mãos.
Mas aprendi. Aprendi que nada se consegue sem sorte, e que mesmo a sorte exige sorte para ser encontrada, agarrada e usada em doses q.b.. Esqueçam lá as enrugadas e já bem sugadas passas, os bancos de cozinha de plástico, baixinhos, e as cuecas ainda sem mancha de nicotina. Nada que saiba a fruta podre pode conter pó mágico da lua; nenhum banquinho ou mesmo escadote é suficientemente alto para ilustrar o quão alto quero subir; e cuecas azuis... são cuecas: caguei para elas.
A sorte encontrá-la-ei um destes dias, perdida por aí em qualquer esquina, depois de ter acabado de bafejar outra qualquer alma até então errónea e trivial. Não se preocupem comigo, amigos e amigas, que se houver lugar no Mundo onde esta se queira esconder de mim, tirarei, se necessário for, uma licença vitalícia para a encontrar. Não haverá nuvem, oceano, crosta terrestre ou campo electromagnético que me façam ficar perdido*, ou incapaz de seguir as suas pistas de fuga, pedestres ou aéreas.
Até lá, celebrarei toda e qualquer entrada num Novo Ano de uma forma comedida, expectante e perspicaz, sabendo que esta postura poderá, de um momento para o outro, numa fracção de segundos, passar a convicta, crente e apaixonada, quando à sua primeira hora ou mesmo mês já bem avançado desse Novo Ano, a sorte der de caras comigo e me transformar o sorriso forçado e áspero em luminoso e diletante.
Assim, é esta sorte que esperarei ou procurarei se a mesma teimar em preguiçar longe de mim. Mas fá-lo-ei pelo meu próprio pé, de pé, com os pés bem assentes na terra e não em qualquer pedestal de Ikea improvisado, sem porra de passas para engolir (que nisso a vida já me ensinou a mastigar primeiro) ou cueca azul celeste ainda com goma e etiqueta de saldos.
* Em inglês “Lost”, numa alusão ao nome da série televisiva em que os sobreviventes de um acidente aéreo percebem, ao fim de bastante tempo, que a ilha onde se encontram é “fantasma”, pois encontra-se indetectável para o exterior em função dum forte campo electromagnético natural que sobre ela é exercido (Nota Autor).
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